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Um dia na pele de

A sexta de um hotel com casamento

Você é a gerente de um hotel de 180 quartos em Foz do Iguaçu: turistas das cataratas, grupos de excursão e, hoje à noite, um casamento de 180 convidados no salão. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da gerência: está no lobby, na rouparia, no salão. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Receber bem quem chega sem descuidar de quem já está.

Profissões com um dia assim: Gerente de Hotel · Gerente de Recepção · Gestor de Experiência do Hóspede · Governanta Executiva · +4

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A sexta de um hotel com casamento: o dia por escrito

Você é a gerente de um hotel de 180 quartos em Foz do Iguaçu: turistas das cataratas, grupos de excursão e, hoje à noite, um casamento de 180 convidados no salão. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da gerência: está no lobby, na rouparia, no salão. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da gerência: As noites vendidas além da conta

O hotel tem 180 quartos, mas nem todos estão à venda: o quarto andar entra em reforma no meio do mês, e alguns quartos saem do sistema por manutenção. As agências online continuam vendendo enquanto ninguém fecha a noite.

Uma noite estoura quando as reservas confirmadas passam dos quartos que realmente existem: 180 menos os que estão fora de venda.

Ache as noites com mais reservas do que quartos à venda. São essas três: o sábado 14 (176 reservas para 174 quartos), a quinta 19, véspera do feriado (172 para 168), e a quarta 25 (165 para 160). A sexta do feriado e o sábado 21 parecem os piores, com 179 e 180, mas cabem: nesses dias nada está fora de venda. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. As três noites saem de venda antes do almoço. Os onze hóspedes a mais são realocados com semanas de folga, num hotel parceiro, com traslado pago e um pedido de desculpas que dá para escrever com calma.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. As noites saíram de venda, mas durante a manhã entraram mais quatro reservas na véspera do feriado. Agora são quinze hóspedes para realocar, e o hotel parceiro só tem dez quartos.
  • Depois das 15h: O mapa ficou para depois das 15h. As agências online venderam o dia inteiro. O que quer que tenha sido feito depois, as noites estouradas já tinham mais reservas do que de manhã, e cada uma vai virar um telefonema difícil.

Lobby: O quarto que estava guardado

A família Andrade chegou às 8h30 depois de doze horas de ônibus, com uma menina de quatro anos com febre no colo do pai. O check-in é às 14h. Só há uma suíte pronta no hotel inteiro: a 501, com varanda, reservada para a noiva se arrumar a partir das 11h com a maquiadora e o fotógrafo.

O pai não pede nada. Só pergunta se tem algum lugar onde a filha possa deitar.

  • Dar a 501 à família e arrumar outra suíte para a noiva. A família sobe em dez minutos. A governança corre para liberar outra suíte, sem varanda, até as 11h. A maquiadora reclama da luz. A mãe da noiva percebe na hora e pergunta, no balcão, quem decidiu.
  • Oferecer o salão de descanso até um quarto ficar pronto. A família espera no salão de descanso, com cobertor e chá. O quarto deles fica pronto às 12h40. À noite, o pai escreve uma avaliação educada e curta: "atendimento correto".

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao lobby antes das 9h. A família tinha acabado de descer do táxi. Qualquer decisão chegou antes de a menina adormecer no sofá do lobby.
  • Entre 9h e 10h30: Você foi ao lobby depois das 9h. A menina já tinha adormecido no sofá do lobby, e os hóspedes do café passavam olhando. O pai tinha perguntado duas vezes no balcão.
  • Depois das 10h30: O lobby ficou para depois das 10h30. A recepcionista resolveu sozinha e levou a família para o salão de descanso. O que quer que tenha sido decidido depois, a primeira manhã deles no hotel foi de espera.

Rouparia: Oito camareiras para 120 quartos

Dona Célia, a governanta, está com a lista na mão: quatro camareiras com virose, atestado de três dias. Hoje são 120 quartos de saída e de entrada para arrumar, e sobraram oito pessoas. Cada uma faz, bem feito, uns treze quartos por dia.

Uma agência manda diaristas em duas horas. Elas nunca entraram no hotel.

  • Chamar diaristas da agência para hoje. Quatro diaristas chegam às 11h, R$ 3.200 pelo dia. Os quartos ficam prontos às 15h. À noite, dois hóspedes ligam para a recepção: toalha faltando num quarto, cabelo no ralo do outro.
  • Tirar 20 quartos de venda esta noite. Vinte quartos saem do sistema: são R$ 9 mil a menos esta noite. As oito camareiras terminam às 16h, cansadas, e nenhum hóspede liga para reclamar de quarto.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à rouparia antes das 9h30. As camareiras ainda estavam no vestiário dividindo os andares. Deu para reorganizar antes de qualquer carrinho sair.
  • Entre 9h30 e 11h30: Você foi à rouparia depois das 9h30. Os andares já tinham sido divididos entre as oito, quinze quartos para cada uma. Qualquer mudança agora era refazer a lista com o carrinho no corredor.
  • Depois das 11h30: A rouparia ficou para depois das 11h30. Dona Célia esperou e dividiu tudo sozinha, quinze quartos por pessoa e o resto "se der". O que quer que tenha sido decidido depois, a tarde começou com check-in atrasado.

Salão de eventos: Quarenta convidados a mais

Dona Lúcia, mãe da noiva, chegou ao salão com uma lista nova: mais 40 convidados para o jantar de hoje, família do noivo que confirmou de última hora. O contrato é de 180, e o salão comporta 220.

O chef, Renato, faz a conta em voz alta: o robalo comprado dá para 198 pratos. Ele garante mais vinte sem mexer em nada. Quarenta, só comprando peixe na peixaria e apertando a brigada.

  • Aceitar os 40 e comprar o peixe que faltar. O sous-chef volta da peixaria com 25 robalos a preço de varejo. A brigada faz 220 pratos no tempo de 180. O jantar sai; a margem do evento cai pela metade, e o Renato passa a festa inteira sem sair do fogão.
  • Aceitar 20, o que a cozinha garante. Dona Lúcia escolhe, em voz alta e no meio do salão, quem fica de fora. O jantar sai impecável para 200. Na segunda, chega ao dono do hotel um e-mail dela sobre "falta de flexibilidade".

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao salão antes das 11h. O fornecedor de peixe ainda fazia entrega no fim da manhã. Qualquer decisão ainda cabia numa compra normal.
  • Entre 11h e 14h: Você foi ao salão depois das 11h. O fornecedor já tinha passado. O que viesse a mais teria de vir da peixaria, e o Renato já estava com a brigada em cima do pré-preparo.
  • Depois das 14h: O salão ficou para depois das 14h. Dona Lúcia cansou de esperar e avisou os 40 convidados de que estavam confirmados. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido contra uma mensagem que ela já tinha mandado.

Refeitório da equipe: Café, e o hotel visto do refeitório

Dois mensageiros e uma camareira almoçam cedo no refeitório da equipe.

“…hóspede só lembra do nome da gente quando dá problema. Quando o quarto tá perfeito, parece que se arrumou sozinho.”

A camareira está dobrando o turno por causa das faltas. Quinze minutos depois, você volta para a gerência lembrando que o hotel que o hóspede vê é feito por quem ele não vê.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a reserva online não para de pingar pro feriado. O sistema diz que tem quarto.
  • …tem uma família no lobby desde cedo. A menina tá dormindo no sofá.
  • …a Dona Célia tá com quatro a menos hoje. Ninguém vai dar conta dos andares.
  • …a mãe da noiva tá no salão com uma lista. O Renato ficou branco.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Dar a 501 à família e arrumar outra suíte para a noiva” e “Aceitar 20, o que a cozinha garante”: Na mesma sexta, a família da noiva perdeu a suíte das fotos e vinte convidados. A Dona Lúcia contou as duas coisas a cada pessoa que entrou no salão.
  • Se você escolheu “Dar a 501 à família e arrumar outra suíte para a noiva” e “Aceitar os 40 e comprar o peixe que faltar”: Você tirou a suíte da noiva e deu à mãe dela os 40 convidados. A Dona Lúcia saiu da sexta sem saber se agradecia ou reclamava, e fez as duas coisas.
  • Se você escolheu “Tirar 20 quartos de venda esta noite” e “Oferecer o salão de descanso até um quarto ficar pronto”: Vinte quartos fora de venda e uma família esperando no salão: na mesma manhã, o hotel tinha quarto vazio no sistema e nenhum pronto no balcão. O pai da menina perguntou, com educação, como isso era possível.
  • Se você escolheu “Chamar diaristas da agência para hoje” e “Dar a 501 à família e arrumar outra suíte para a noiva”: Uma das diaristas arrumou às pressas a suíte que substituiu a da noiva. Às 11h10, a maquiadora achou uma toalha usada atrás da porta do banheiro, e mostrou ao fotógrafo antes de mostrar à recepção.

Como o dia termina

Você foi para o mapa primeiro.

Havia uma família no lobby, uma governanta sem equipe e uma mãe de noiva no salão, e você abriu o mapa de reservas do mês. Passou 1h10 subtraindo quartos em reforma de quartos vendidos.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do problema que ainda não tinha rosto. Revenue é isso: decidir hoje quantos quartos vender numa noite que ainda vai demorar a chegar.

Você foi para o lobby primeiro.

Você começou pela família exausta, com uma criança com febre no colo. Passou 35 min entre a regra do check-in, a promessa feita à noiva e o que estava na sua frente.

Recepção é isso: o hóspede chega cansado e com uma história, e o hotel só tem quartos e regras para oferecer. O resto é com quem está no balcão.

Você foi para a rouparia primeiro.

Você começou pela governanta e pelas faltas da equipe. Passou 40 min entre arrumar todos os quartos e arrumar bem os que dava.

Governança é o trabalho que o hóspede só percebe quando falha: um fio de cabelo no ralo pesa mais que cem quartos perfeitos.

Você foi para o salão primeiro.

Você começou pelo casamento, com a mãe da noiva de um lado e o chef do outro. Passou 45 min entre a festa que a família queria e o que a cozinha garantia.

Alimentos e bebidas vive essa conta: cada prato a mais é receita e é risco, e o dia de alguém que nunca mais vai se repetir.

As quatro portas da hotelaria

Hotelaria não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho do hotel.

  • Recepção e experiência do hóspede. Estar no balcão quando o hóspede chega cansado, e transformar regra em acolhida.
  • Governança. Fazer 180 quartos ficarem perfeitos todo dia, com a equipe que veio trabalhar.
  • Alimentos e bebidas. Cozinha, salão e eventos: cada prato a mais é receita, risco e a noite de alguém.
  • Revenue management. Decidir quantos quartos vender e por quanto, antes de a noite chegar.