Um dia na pele de
Os dados de gente da central de atendimento
Você cuida dos dados de gente de uma central de atendimento de uma operadora de internet: 1.200 atendentes em três turnos, quem entra, quem sai, quem falta, quem está cansado. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Os números estão na sua tela, mas as pessoas estão no salão, na sala de planejamento, na sala de treinamento. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Transformar gente em número sem esquecer que o número é gente.
Profissões com um dia assim: Analista de People Analytics · Cientista de Dados de RH · Especialista em Engajamento · Especialista em HRIS · +1
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Os dados de gente da central de atendimento: o dia por escrito
Você cuida dos dados de gente de uma central de atendimento de uma operadora de internet: 1.200 atendentes em três turnos, quem entra, quem sai, quem falta, quem está cansado. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Os números estão na sua tela, mas as pessoas estão no salão, na sala de planejamento, na sala de treinamento. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa: O painel que soma neutro com promotor
A pesquisa de engajamento do trimestre vai para a diretoria às 15h, equipe por equipe. O painel do sistema diz que nenhuma equipe está no negativo.
Você sabe como a conta deveria ser: quem dá 9 ou 10 é promotor, quem dá de 0 a 6 é detrator, e os neutros não entram. Uma equipe está no negativo quando tem mais detratores do que promotores. O painel, você desconfia, está contando os neutros do lado bom.
Ache as equipes com mais detratores do que promotores. São essas três: Carla, Gil e Ivo, as três do turno da noite. O Davi empata, onze contra onze, e não fica negativo. O Fábio tem só cinco promotores, mas três detratores: o problema dele é outro, uma equipe que não se importa nem para o bem nem para o mal. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O painel foi refeito e ainda deu tempo de cruzar as três equipes com as faltas do mês. As três são do turno da noite, e a diretoria recebeu isso junto.
- Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O painel foi corrigido a tempo, mas sem o cruzamento com as faltas. A diretoria vai ver três equipes no vermelho e nenhuma explicação.
- Depois das 15h: O painel ficou para depois das 15h. Às 15h o painel foi para a diretoria dizendo que nenhuma equipe estava no negativo. O que quer que se corrija agora, a primeira leitura da diretoria foi a de que a central está bem.
Salão de atendimento: Os vinte nomes do sistema
A coordenadora do salão mostra a lista que o sistema novo gerou: os vinte atendentes com mais tempo sem atender chamada no mês. O diretor de operações quer que ela vá hoje aos supervisores, para conversas de advertência.
Você olha os nomes. Seis são gestantes ou pessoas com deficiência, com pausas a mais garantidas por lei, que o sistema conta como tempo parado. Corrigir a regra do sistema leva duas semanas.
- Mandar a lista hoje com um aviso sobre os seis. A lista vai aos supervisores com um aviso em vermelho sobre as pausas legais. Dezesseis conversas acontecem na semana. Uma supervisora não lê o aviso e chama uma das gestantes. Ela sai da conversa chorando e procura o sindicato.
- Segurar a lista até corrigir a regra. Você explica ao diretor por que a lista não sai hoje. Ele pergunta, na frente da coordenadora, se o RH está protegendo quem não trabalha. Em duas semanas a regra é corrigida, e a lista nova tem catorze nomes, nenhum deles com pausa legal.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao salão antes das 10h30. A lista ainda estava só na tela da coordenadora. Nenhum supervisor tinha visto os nomes.
- Entre 10h30 e 13h: Você foi ao salão depois das 10h30. Dois supervisores já tinham pedido a lista por mensagem, e um deles já tinha visto os nomes de relance. A conversa começou com gente no salão sabendo que havia uma lista.
- Depois das 13h: O salão ficou para depois das 13h. Às 13h a coordenadora precisou responder ao diretor sem ter falado com você. O que quer que tenha sido decidido depois, os nomes já tinham circulado entre os supervisores.
Sala de planejamento: Os 80 temporários
Na sala de planejamento, o telão mostra a previsão de ligações da Black Friday: o dobro de um dia normal, das 9h às 13h. O seu modelo diz que, sem os 80 temporários previstos, o cliente espera doze minutos na fila no pico. O diretor financeiro quer cortar os 80 para economizar R$ 400 mil.
A alternativa dele: escala de seis dias seguidos para quem já está, na semana inteira da promoção.
- Defender os 80 temporários. Você mostra o modelo e a fila de doze minutos. O diretor aprova 60 dos 80, "para fazer a conta fechar", e anota que a decisão foi sua. Na Black Friday, a fila máxima é de cinco minutos. Ninguém lembra de comentar.
- Aceitar a escala de seis dias. A escala sai na quinta. Na semana da promoção, os atendentes fazem seis dias seguidos, e a fila máxima fica em nove minutos. Na semana seguinte, as faltas sobem o dobro, e o seu modelo passa a ter um número novo para explicar.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi ao planejamento antes das 11h. O diretor financeiro ainda estava na sala, olhando o telão. Deu para mostrar o modelo com ele de pé ao lado.
- Entre 11h e 14h: Você foi ao planejamento depois das 11h. O diretor tinha saído e deixado a decisão por mensagem para o planejamento. Você discutiu com quem não decide.
- Depois das 14h: O planejamento ficou para depois das 14h. Às 14h a agência de temporários precisava da resposta e recebeu a do diretor financeiro. O que quer que se faça agora, começa do número que ele mandou.
Sala de treinamento: Os R$ 150 da central vizinha
A instrutora da turma de novatos te chama na sala de treinamento. Dos 30 que entraram há três semanas, metade está mandando currículo para a central do outro lado da rua, que paga R$ 150 a mais. Ela ouviu na pausa do café.
A última turma perdeu 60% antes de 90 dias. Contratar e treinar cada atendente custa R$ 4 mil.
- Propor um bônus de permanência de 90 dias. A diretoria aprova R$ 450 para quem completar 90 dias. A turma comemora na sala de treinamento. No salão, quem está há dois anos fica sabendo na mesma tarde e pergunta à coordenadora por que quem acabou de chegar vale mais.
- Propor folga em sábados alternados. Você mostra que a central vizinha paga mais e não dá folga no sábado. A diretoria aprova a folga alternada para todos os turnos. A turma ouve com interesse, e cinco ainda mandam currículo. O planejamento passa a semana refazendo a escala de sábado.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você foi ao treinamento antes do meio-dia. A turma ainda estava em sala, e deu para ouvir dois deles na pausa. A proposta foi para a diretoria com as palavras de quem queria sair.
- Entre 12h e 16h: Você foi ao treinamento depois do meio-dia. A turma já estava no salão, na primeira tarde com cliente de verdade. Você conversou só com a instrutora.
- Depois das 16h: O treinamento ficou para depois das 16h. Às 16h a turma terminou o dia e três já tinham entrevista marcada na central vizinha. O que quer que se proponha agora, chega para quem já decidiu.
Sala de descanso: A sala de descanso, e o RH visto do salão
Três atendentes dividem o micro-ondas na pausa de vinte minutos.
“…o RH só aparece pra mandar pesquisa. Responder pra quê, se nada muda?”
Você sabe que a pesquisa delas é a que está no seu painel. Quinze minutos depois, você volta para a mesa sabendo que cada resposta ali custou a alguém um pedaço da pausa.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a diretoria vê a pesquisa de engajamento às três. Dizem que tá tudo verde.
- …a coordenadora tá com uma lista de nomes. Dizem que é pra advertência.
- …a agência de temporários ligou de novo. Quer saber quantos são até as duas.
- …a turma nova tá falando da central do outro lado da rua. Paga mais, dizem.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Aceitar a escala de seis dias” e “Propor folga em sábados alternados”: A folga em sábados alternados começou na mesma semana da escala de seis dias da Black Friday. A turma nova ganhou o sábado livre e perdeu, na primeira semana, os dois. Cinco deles foram para a central vizinha.
- Se você escolheu “Mandar a lista hoje com um aviso sobre os seis” e “Aceitar a escala de seis dias”: A lista dos ociosos chegou aos supervisores na mesma semana em que a escala de seis dias foi anunciada. No salão, as duas coisas viraram uma só: o RH quer mais trabalho de quem já está.
- Se você escolheu “Defender os 80 temporários” e “Propor um bônus de permanência de 90 dias”: No mesmo dia, você pediu os temporários da Black Friday e um bônus para os novatos. O diretor financeiro somou os dois pedidos na reunião de quinta e perguntou se o RH tinha orçamento ou só ideias.
- Se você escolheu “Segurar a lista até corrigir a regra” e “Propor um bônus de permanência de 90 dias”: O diretor de operações ouviu, na mesma terça, que a lista dos ociosos ia esperar duas semanas e que os novatos iam ganhar bônus. Ele resumiu para a coordenadora: "o RH segura quem para e paga quem chega".
Como o dia termina
Você foi para o painel primeiro.
Havia uma lista de nomes no salão, uma Black Friday sem gente e uma turma querendo sair, e você abriu o painel de engajamento. Passou 1h15 separando promotor, neutro e detrator.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi conferir a conta antes de a diretoria ler o resultado. People analytics é isso: o painel diz o que a conta manda, e alguém precisa saber se a conta está certa.
Você foi para a lista primeiro.
Você começou pelo salão, onde um sistema tinha transformado pausa em ociosidade. Passou 50 min entre o prazo do diretor e seis pessoas que a regra não enxergava.
Quem cuida de sistema de RH decide, em cada regra, o que vai contar como trabalho. E cada regra errada vira uma conversa com alguém que não fez nada de errado.
Você foi para o planejamento primeiro.
Você começou pelo telão das filas, onde o dia mais cheio do ano estava sem gente suficiente. Passou 55 min entre o custo dos temporários e o cansaço de quem já está.
Planejar força de trabalho é isso: cada número do modelo vira uma escala, e cada escala vira o fim de semana de alguém.
Você foi para a turma primeiro.
Você começou pela sala de treinamento, onde trinta pessoas estavam decidindo se ficavam. Passou 45 min entre o que a central pode pagar e o que faz alguém ficar.
Engajamento é isso: a pesquisa mede, mas quem fica ou vai embora decide por uma coisa concreta, quase sempre pequena, quase sempre perto.
As quatro portas de People Analytics
People analytics não é uma profissão só, são quatro, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Análise de pessoas. Fazer a conta certa sobre gente, e saber o que ela não mostra.
- Dados e sistemas de RH. Decidir, regra por regra, o que o sistema conta como trabalho.
- Planejamento da força de trabalho. Quantas pessoas, em que horário, a que custo, e quem paga o cansaço.
- Engajamento. Entender por que as pessoas ficam ou vão embora, e mudar o que dá para mudar.