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Um dia na pele de

A nutrição da ala de internação

Você é a nutricionista de uma ala de internação com 28 leitos. Cada paciente tem uma dieta prescrita por você, e cada bandeja que sai da copa precisa bater com ela. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada do seu trabalho se resolve no computador do posto: está no quarto, na quimioterapia, na copa onde as bandejas são montadas. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer cada paciente comer o que precisa, numa cozinha que serve todos ao mesmo tempo.

Profissões com um dia assim: Nutricionista · Nutricionista Clínico · Nutricionista Hospitalar · Nutricionista em Foodservice

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A nutrição da ala de internação: o dia por escrito

Você é a nutricionista de uma ala de internação com 28 leitos. Cada paciente tem uma dieta prescrita por você, e cada bandeja que sai da copa precisa bater com ela. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada do seu trabalho se resolve no computador do posto: está no quarto, na quimioterapia, na copa onde as bandejas são montadas. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Posto de enfermagem: O mapa de dietas do almoço

A copa começa a montar as bandejas do almoço às 10h30, a partir do mapa que sai do posto. Doze pacientes da ala têm restrição de líquidos: o médico prescreve um limite por dia, e tudo o que é líquido na bandeja conta, do leite do café ao chá da tarde.

O mapa foi atualizado ontem à noite por quem estava de plantão. Os volumes estão ali. A soma, ninguém fez.

Ache os leitos em que os líquidos do dia passam do limite prescrito. São esses três. O 203 soma 1.050 ml para um limite de 800, o 205 soma 850 para 700, o 209 soma 900 para 800. Nos três, alguém acrescentou um suco ou trocou o chá sem refazer a conta. O 207 e o 208 batem no limite exato: estão no limite, não acima dele. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você conferiu antes das 9h30. O mapa corrigido chegou à copa antes de qualquer bandeja ser montada. O suco a mais do 203 nem chegou a ser servido.
  • Entre 9h30 e 11h: Você conferiu depois das 9h30. A copa já tinha separado os sucos da manhã pelo mapa antigo. O 205 tomou o dele no lanche das dez, e a conta do dia dele começou estourada.
  • Depois das 11h: O mapa ficou para depois das 11h. O almoço saiu pelo mapa da noite. Três pacientes com o coração ou o rim no limite receberam mais líquido do que o médico prescreveu, e a enfermagem anotou edema em um deles na passagem de plantão.

Quarto 12: Vinte horas de jejum

O Seu Osvaldo, 82 anos, está em jejum desde a meia-noite de ontem para uma endoscopia. O exame foi remarcado de manhã, depois para o começo da tarde, e agora ninguém sabe o horário. Ele já está há 20 horas sem comer, e há três dias come menos da metade da bandeja.

A filha está no quarto e pergunta, já sem paciência, se o pai vai ficar mais um dia sem comida por causa de uma agenda.

  • Liberar a dieta e pedir o exame para amanhã. Você fala com o médico, libera um caldo e uma papa de fruta e a endoscopia vai para amanhã cedo. O Seu Osvaldo come quase tudo. A filha agradece, e pergunta, na saída, por que ninguém fez isso de manhã. O leito dele continua ocupado por mais um dia.
  • Manter o jejum e cobrar um horário do setor de endoscopia. Você liga para a endoscopia e consegue um encaixe no fim da tarde, com hora marcada. O Seu Osvaldo continua só com o soro. A filha aceita, sem sorrir. O exame acontece hoje, e o jantar dele vai ser a primeira refeição em quase dois dias.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi ao quarto antes das 10h30. A filha ainda estava perguntando, não reclamando. A decisão foi tomada com ela, não apesar dela.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi ao quarto depois das 10h30. A filha já tinha ido ao posto duas vezes e falado com a ouvidoria pelo celular. Você entrou num quarto em que a família tinha parado de esperar respostas.
  • Depois das 14h: O quarto 12 ficou para depois das 14h. O Seu Osvaldo passou o dia inteiro sem ninguém da nutrição no quarto. A reclamação da filha chegou à ouvidoria com o nome da ala, e a pergunta dela era sobre comida, não sobre o exame.

Quimioterapia: O vídeo da dieta anticâncer

A Dona Cida faz quimioterapia há dois meses e perdeu seis quilos. Hoje, na poltrona, ela mostra um vídeo no celular: um homem de jaleco dizendo que o açúcar alimenta o tumor e que é preciso cortar arroz, pão, fruta e leite.

Ela já cortou. Diz que se sente fazendo alguma coisa pela primeira vez desde o diagnóstico.

  • Explicar, dado por dado, por que o vídeo está errado. Você explica que o corpo dela precisa de energia para aguentar a quimioterapia e que cortar tudo isso é o que está levando os quilos. Ela escuta, guarda o celular e fica em silêncio. Na saída, diz que vai pensar. Você não sabe se ela vai voltar a comer o pão amanhã.
  • Combinar o que dá: tirar o doce, voltar com o arroz e a proteína. Você não discute o vídeo. Combina que ela pode tirar o doce e o refrigerante, se quiser, mas que arroz, feijão, ovo e leite voltam para o prato porque a quimioterapia precisa deles. Ela topa e anota no celular, embaixo do vídeo. O vídeo continua lá.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à quimioterapia antes das 11h. A sessão estava no começo. Deu para conversar com a Dona Cida acordada, sem pressa, com o soro ainda cheio.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à quimioterapia depois das 11h. A Dona Cida estava enjoada da medicação e falou pouco. A conversa que daria para ter de manhã teve de caber em dez minutos.
  • Depois das 15h: A quimioterapia ficou para depois das 15h. A sessão acabou e a Dona Cida foi para casa sem ver a nutrição. A próxima é daqui a 21 dias, e até lá ela segue o que o vídeo disse.

Copa de distribuição: Duas cozinheiras a menos

Duas das quatro cozinheiras da copa de distribuição faltaram. O almoço da ala, 28 bandejas com 11 dietas diferentes e duas opções de prato, tem de sair às 11h30. Com a metade da equipe, a Rosana diz que não sai.

Seis pacientes tomam insulina antes do almoço. Se a bandeja atrasa, a enfermagem precisa saber.

  • Cortar a opção: um prato só, adaptado por dieta. Você tira a segunda opção e adapta um prato único para cada restrição: frango com purê, sem sal para uns, triturado para outros. As bandejas saem às 11h30. Na volta, a copa conta as bandejas devolvidas cheias: mais que num dia comum.
  • Manter as duas opções e atrasar o almoço. Você ajuda a montar e avisa o posto. As bandejas saem às 12h10, com as duas opções. A enfermagem segura a insulina dos seis diabéticos e refaz o horário da medicação da tarde. Volta menos comida para a copa do que no dia anterior.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à copa antes das 10h. A montagem ainda não tinha começado. A decisão chegou antes da primeira bandeja, e o posto soube com tempo de reorganizar o que precisasse.
  • Entre 10h e 11h30: Você foi à copa depois das 10h. A Rosana já tinha começado a montar do jeito que dava. Parte das bandejas teve de ser desfeita para seguir o que você decidiu.
  • Depois das 11h30: A copa ficou para depois das 11h30. O almoço saiu do jeito que a Rosana conseguiu, sem ninguém da nutrição na copa. Duas bandejas foram para o leito errado, e o posto só soube do atraso quando os pacientes começaram a chamar.

Copa da equipe: Café, e a nutrição vista de fora

Dois técnicos de enfermagem estão na pia, com o copo de café na mão.

“…a nutrição só aparece quando o paciente reclama da comida.”

O paciente do 207, que eles cuidam, saiu da sonda ontem porque a dieta dele foi ajustada três vezes na semana. Eles não sabem disso. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o 203 pediu mais um suco. Disseram que tava no mapa.
  • …a filha do Seu Osvaldo tá ligando pra ouvidoria.
  • …a Rosana tá sozinha com a Lu na copa. Hoje o almoço atrasa.
  • …a Dona Cida não quis o lanche de novo. Disse que é por causa de um vídeo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Combinar o que dá: tirar o doce, voltar com o arroz e a proteína” e “Cortar a opção: um prato só, adaptado por dieta”: O prato único do almoço veio com pudim de sobremesa, para todos. A Dona Cida, que tinha acabado de combinar com você tirar o doce, devolveu o pudim intacto e comeu o resto. Ela anotou no celular que cumpriu.
  • Se você escolheu “Liberar a dieta e pedir o exame para amanhã” e “Cortar a opção: um prato só, adaptado por dieta”: Você liberou o Seu Osvaldo para comer, e o almoço dele foi o prato único do dia, frango com purê. Ele não escolheu nada, e foi a primeira bandeja dele que voltou vazia em quatro dias.
  • Se você escolheu “Manter o jejum e cobrar um horário do setor de endoscopia” e “Manter as duas opções e atrasar o almoço”: Você segurou o jejum do Seu Osvaldo e segurou o almoço da ala em 40 minutos. No mesmo dia, o posto refez duas vezes o horário da medicação, e a passagem de plantão começou com essas duas mudanças.
  • Se você escolheu “Explicar, dado por dado, por que o vídeo está errado” e “Manter as duas opções e atrasar o almoço”: Você desmontou o vídeo com a Dona Cida, e o almoço chegou à quimioterapia 40 minutos atrasado. Ela já estava enjoada da medicação, olhou a bandeja e não comeu nada. Não deu para saber se foi o vídeo, o enjoo ou a hora.

Como o dia termina

Você foi para a conta primeiro.

Havia um paciente em jejum há 20 horas, uma senhora com um vídeo no celular e uma copa sem duas cozinheiras, e você abriu o mapa de dietas. Passou 1h00 somando mililitros de leite, sopa e chá.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que ninguém vê até virar edema. Na nutrição hospitalar, boa parte do trabalho é essa conta, feita leito por leito, todo dia.

Você foi para o quarto primeiro.

Você começou pelo Seu Osvaldo, 20 horas sem comer por causa de uma agenda. Passou 40 min decidindo entre o exame e a comida, com a filha olhando.

No hospital, a dieta disputa espaço com exame, cirurgia e medicação, e a nutricionista é quem lembra que o paciente também precisa comer para sair dali.

Você foi para a conversa primeiro.

Você começou pela Dona Cida e o vídeo no celular. Passou 45 min decidindo quanto da crença dela dava para mexer sem perder a conversa.

Nutrição clínica é muito isso: o plano alimentar certo vale pouco se a pessoa não volta, e o que ela come em casa depende do que ela acredita.

Você foi para a copa primeiro.

Você começou pela copa de distribuição, onde 28 bandejas tinham de sair com metade da equipe. Passou 50 min decidindo entre a hora e a escolha de cada paciente.

Quem trabalha com alimentação coletiva vive esse problema todo dia: dieta individual feita em escala, com gente, tempo e dinheiro contados.

As três portas de Nutrição

Nutrição não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.

  • Nutrição hospitalar. Prescrever e conferir a dieta de quem está internado, leito por leito, junto com a equipe de saúde.
  • Nutrição clínica. Acompanhar uma pessoa e o que ela come, numa conversa que se repete a cada consulta.
  • Foodservice. Fazer comida segura e certa para muita gente ao mesmo tempo, com equipe, prazo e custo.