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Um dia na pele de

A TI da distribuidora

Você é a TI de uma distribuidora de materiais de construção com 40 funcionários: um servidor, um ERP, as câmeras, a internet e todo mundo que tem uma senha esquecida. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Metade dos problemas não está na sua mesa: está no depósito, no pátio, na sala do dono. Andar até eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Resolver o que parou agora sem abrir o problema de amanhã.

Profissões com um dia assim: Administrador de Sistemas · Engenheiro de Redes · Especialista em ERP · Service Desk Manager

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A TI da distribuidora: o dia por escrito

Você é a TI de uma distribuidora de materiais de construção com 40 funcionários: um servidor, um ERP, as câmeras, a internet e todo mundo que tem uma senha esquecida. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Metade dos problemas não está na sua mesa: está no depósito, no pátio, na sala do dono. Andar até eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: O backup que ninguém olhou

O servidor faz backup toda noite e manda um e-mail dizendo "OK". Faz meses que ninguém abre esse e-mail.

Hoje de manhã o financeiro perguntou se dá para recuperar uma planilha apagada na semana passada. Antes de dizer que sim, você resolve olhar o log.

Ache a noite em que o backup falhou sem avisar. É essa. Dia 23: status OK, nenhum byte gravado. O e-mail disse que estava tudo bem. A planilha do financeiro sumiu no dia 23. A cópia de antes dela ainda existe, mas a rotina desta noite apaga as mais antigas. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de recuperar a planilha da cópia do dia 22 e de refazer o backup antes da rotina da noite. O financeiro agradeceu pela planilha. Da falha, ninguém ficou sabendo.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. A planilha voltou, mas o backup refeito só terminou depois do expediente. Você ficou até as oito esperando a barra chegar ao fim.
  • Depois das 15h: O log ficou para depois das 15h. A rotina desta noite apagou a cópia mais antiga, a última boa de antes do dia 23. A planilha do financeiro não voltou mais, e a pergunta "o backup não funcionava?" chegou ao dono.

Depósito: O coletor que não lê

O caminhão de telhas chegou e o recebimento parou: o coletor de código de barras liga, pisca e não lê nada. Seu Anselmo está com três conferentes parados olhando para você.

No armário tem um coletor reserva, sem atualização desde o ano passado.

  • Ligar o coletor reserva. O recebimento volta em dez minutos. O reserva lança os itens com a tabela de códigos antiga: duas telhas novas entram no estoque com o nome de um modelo que a fábrica nem faz mais, e ninguém percebe até a próxima contagem.
  • Anotar à mão até consertar. Os conferentes anotam em papel e o Seu Anselmo digita tudo no fim do dia. Nenhum item entra errado. O caminhão ficou uma hora a mais na doca, e o motorista contou isso para quem quisesse ouvir.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi ao depósito antes das 10h30. O caminhão ainda estava abrindo a porta. Qualquer que fosse a saída, dava para o recebimento começar sem atraso.
  • Entre 10h30 e 13h: Você foi ao depósito depois das 10h30. Os conferentes já tinham começado a anotar por conta própria, cada um de um jeito. Metade do trabalho foi entender o que cada um escreveu.
  • Depois das 13h: O depósito ficou para depois das 13h. O caminhão esperou a manhã inteira e a transportadora cobrou a hora parada. No depósito, a frase do dia foi "a TI sumiu".

Sala do dono: O relatório que o ERP não tem

O dono tem reunião com o banco amanhã cedo e quer um número que o sistema não dá: a margem por cliente, dos últimos seis meses. "Isso é coisa de TI, não é?"

O ERP tem todas as vendas e todos os custos. Só não tem um relatório que junte as duas coisas.

  • Exportar tudo e montar na planilha. Você exporta vendas e custos, cruza na planilha e entrega no fim da tarde. O dono gostou. Na semana seguinte ele pede o mesmo relatório atualizado. E você entende que acabou de ganhar uma tarefa mensal que ninguém vai tirar de você.
  • Pedir a customização ao fornecedor do ERP. O fornecedor manda orçamento para três semanas. O dono vai à reunião sem o número e diz ao banco que "está sendo implementado". Quando o relatório chegar, vai rodar sozinho todo mês, se o dono aprovar o orçamento.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. Deu tempo de perguntar ao dono o que o banco queria ver de verdade. Metade do relatório pedido era desnecessária.
  • Entre 11h e 15h: Você entrou depois das 11h. O dono já tinha ligado para o contador perguntando se ele não conseguia o número. Você começou a conversa explicando por que a TI demorou.
  • Depois das 15h: O dono ficou para depois das 15h. Ele passou a tarde esperando e montou, sozinho, uma versão com os números que tinha. O que quer que tenha sido decidido, a reunião de amanhã já tinha uma planilha: a dele.

Pátio de carga: A câmera do pátio

O gravador das câmeras reiniciou de madrugada e voltou pedindo senha. A senha que alguém anotou num post-it não funciona. Às 14h chega uma carga de vergalhão de R$ 180 mil, e a seguradora só cobre com gravação da descarga.

O manual diz qual é a senha de fábrica. Todo mundo que já leu esse manual também sabe.

  • Religar com a senha de fábrica. Em dez minutos as câmeras voltam a gravar. O gravador segue acessível pela internet com a senha que vem impressa no manual. E isso não aparece em lugar nenhum até o dia em que aparece.
  • Chamar o técnico da empresa das câmeras. O técnico reconfigura tudo com senha nova na sexta. Até lá o pátio fica sem gravação: a carga de hoje é conferida com fotos de celular, e a seguradora aceita. Dessa vez.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao pátio antes do meio-dia. Sobrou tempo para testar a gravação antes de o caminhão chegar e para avisar o conferente do que ia acontecer.
  • Entre 12h e 14h: Você foi ao pátio depois do meio-dia. Você decidiu com o caminhão da carga já na avenida. O conferente ficou sabendo o que fazer pelo rádio, no meio da manobra.
  • Depois das 14h: O pátio ficou para depois das 14h. A carga chegou e foi descarregada antes de alguém cuidar das câmeras. O que veio depois não muda o que já tinha acontecido: a descarga das 14h ficou sem gravação.

Copa: Café, e a TI vista de fora

Duas pessoas do comercial estão na pia.

“…a internet caiu de novo ontem. Fiquei uma hora sem mandar orçamento. Não sei o que a TI faz o dia inteiro.”

A internet caiu por causa da operadora e voltou quando a operadora quis. Você sabe disso. Elas não sabem. Quinze minutos depois, você volta para a mesa sabendo como o seu trabalho é visto de fora.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o depósito tá parado desde cedo. Dizem que o leitor pifou.
  • …o dono perguntou duas vezes se a TI já tinha passado lá.
  • …a câmera do pátio tá desligada desde cedo. A carga grande chega às duas.
  • …o financeiro ainda tá esperando aquela planilha voltar.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Ligar o coletor reserva” e “Exportar tudo e montar na planilha”: O coletor reserva lançou o recebimento com códigos antigos, e a sua planilha puxou esses números. Na reunião com o banco, a margem de um cliente saiu negativa. O dono passou dez minutos explicando uma venda que deu lucro.
  • Se você escolheu “Religar com a senha de fábrica” e “Ligar o coletor reserva”: Duas soluções rápidas na mesma quinta: o coletor desatualizado e a câmera com senha de fábrica. Nenhuma deu problema esta semana. As duas estão na sua lista de "depois eu vejo", que só você lê.
  • Se você escolheu “Chamar o técnico da empresa das câmeras” e “Exportar tudo e montar na planilha”: Você fez à mão o relatório que o dono pediu e esperou o técnico para a câmera. Na sexta, o dono mostrou a planilha ao banco, e a seguradora pediu a gravação da carga. Uma coisa você tinha. A outra, não.
  • Se você escolheu “Anotar à mão até consertar” e “Pedir a customização ao fornecedor do ERP”: Anotação à mão no depósito e customização pedida ao fornecedor: as duas coisas do jeito certo e devagar. O Seu Anselmo digitou o recebimento até as oito da noite, e o dono foi à reunião sem o relatório. Ninguém reclamou de você. Reclamaram do sistema.

Como o dia termina

Você foi para o backup primeiro.

Havia um depósito parado, um dono pedindo relatório e uma câmera desligada, e você abriu um log que ninguém estava cobrando. Passou 1h30 conferindo noite por noite.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do risco que ainda não tinha acontecido. Em infraestrutura, o trabalho bem feito é o desastre que ninguém fica sabendo que quase houve.

Você foi para a câmera primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a que tinha uma carga cara chegando e uma seguradora do outro lado. Passou 40 min no pátio decidindo entre funcionar agora e ficar seguro.

Quem cuida de infraestrutura vive esse atalho todo dia: a senha de fábrica resolve hoje, e ninguém vê a porta que ficou aberta.

Você foi para o sistema primeiro.

Você começou pela sala do dono: um relatório que o ERP não sabe fazer e uma reunião com o banco amanhã. Passou 1h00 entre exportar dado e decidir quem vai manter aquilo.

Quem trabalha com sistemas passa a vida nessa fronteira: o que a empresa precisa e o que o software faz raramente são a mesma coisa.

Você foi para as pessoas primeiro.

Você começou pelo depósito, onde tinha gente parada esperando um aparelho voltar a funcionar. Passou 45 min com o coletor na mão e o Seu Anselmo do lado.

Suporte é trabalhar para quem está travado agora, e ouvir, depois, que "a TI demorou", mesmo quando não demorou.

As três portas de TI

TI não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.

  • Infraestrutura e redes. O que funciona ninguém vê. O que falha, todo mundo vê, sempre na pior hora.
  • Sistemas / ERP. Traduzir o que a empresa quer para o que o sistema faz, e segurar a diferença.
  • Suporte. Gente travada esperando você. Resolver rápido e ouvir que demorou.