Um dia na pele de
O marketing da distribuidora
Você é o marketing de uma distribuidora de materiais de construção com 40 funcionários: as redes, os anúncios, a lista de lojistas e uma verba que o dono acha cara. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada do seu trabalho se resolve na sua mesa: está no depósito, no pátio, na sala do dono, no grupo do bairro. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Mostrar resultado em vendas com o que não aparece em venda nenhuma.
Profissões com um dia assim: Analista de Marketing de Performance · Especialista em Tráfego Pago · Social Media Manager · Analista de CRM · +1
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O marketing da distribuidora: o dia por escrito
Você é o marketing de uma distribuidora de materiais de construção com 40 funcionários: as redes, os anúncios, a lista de lojistas e uma verba que o dono acha cara. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada do seu trabalho se resolve na sua mesa: está no depósito, no pátio, na sala do dono, no grupo do bairro. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa: A campanha que "deu certo"
O dono vai perguntar hoje se os anúncios dão venda. Antes da conversa, você abre o relatório do mês: doze campanhas, o que cada uma custou, quantos cliques trouxe e quantos pedidos de orçamento chegaram por ela.
Uma delas está sendo elogiada pela empresa inteira. Vale olhar o número por trás do elogio.
Ache a campanha que tem muito clique e nenhum orçamento. É essa. O sorteio da furadeira: 3.900 cliques e nenhum orçamento. Gente querendo furadeira de graça, não cimento. É a campanha que o dono mais elogiou, e a que mais custou. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de tirar o sorteio do ar antes de ele gastar o resto da verba do mês, e de levar o número certo para qualquer conversa com o dono.
- Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O sorteio ainda rodou a manhã inteira. Quando saiu do ar, metade da verba do mês já tinha ido para gente que queria furadeira de graça.
- Depois das 15h: O relatório ficou para depois das 15h. O sorteio rodou o dia inteiro e levou o resto da verba do mês. Na segunda, os anúncios que davam orçamento estavam parados por falta de saldo.
Sala do dono: O dono quer cortar a verba
As vendas de setembro caíram, e o dono está com a lista de cortes na mesa. O primeiro item é o anúncio: "Isso aí dá venda mesmo?"
Você sabe quantos orçamentos vieram do anúncio. Não sabe quantos teriam vindo sem ele.
- Defender a verba com os orçamentos. Você mostra os orçamentos que chegaram pelo anúncio. O dono escuta, mantém a verba "por mais um mês" e pergunta, na saída, quantos desses orçamentos viraram venda. Você não tem esse número.
- Aceitar cortar pela metade e propor um teste. Metade da verba sai. Você propõe um cupom só do anúncio para medir, em 30 dias, quanto ele vende de verdade. O dono topa. Agora existe uma data em que o seu trabalho vai virar um número.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. A lista de cortes ainda estava em rascunho. Você conversou antes de o dono decidir, não depois.
- Entre 11h e 15h: Você entrou depois das 11h. O dono já tinha comentado o corte com o financeiro. Você entrou para discutir uma coisa que, para ele, já estava resolvida.
- Depois das 15h: O dono ficou para depois das 15h. Ele montou a lista de cortes sem você na sala. O que quer que tenha sido conversado depois, foi para defender uma coisa que já tinha sido riscada uma vez.
Depósito: A reclamação que viralizou
Uma foto está rodando no grupo de moradores do bairro: um saco de cimento da distribuidora empedrado, com a legenda "vendem produto vencido". São 200 comentários desde cedo.
Seu Anselmo diz que dá para conferir o lote no depósito. Leva uma hora.
- Responder no grupo agora. Você pede desculpas no grupo e oferece a troca. A conversa esfria em uma hora. Depois, o Seu Anselmo confere: o lote estava bom, o saco tomou chuva na obra do cliente. A desculpa pública já tinha sido dada.
- Chamar no privado e conferir o lote primeiro. Você chama o cliente no privado e espera o Seu Anselmo. O lote estava bom: o saco tomou chuva na obra. Você explica com a foto do lote e oferece a troca mesmo assim. O cliente agradece, no privado. No grupo, a foto já tinha 300 comentários.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao depósito antes das 10h30. A foto ainda estava nos primeiros comentários. Qualquer resposta chegava antes de a história virar outra.
- Entre 10h30 e 13h: Você foi ao depósito depois das 10h30. Um vereador do bairro já tinha compartilhado a foto. A reclamação passou a ser sobre a distribuidora, não sobre um saco de cimento.
- Depois das 13h: A reclamação ficou para depois das 13h. A foto rodou a manhã inteira sem nenhuma palavra da distribuidora. O que quer que tenha sido dito depois, o grupo já tinha tirado as próprias conclusões.
Pátio de carga: A promoção com preço errado
A mensagem da promoção saiu ontem à noite para os 600 lojistas da lista, com o cimento a R$ 19,90 em vez de R$ 29,90. Um deles está no pátio, com o celular na mão e o caminhão aberto, querendo levar 100 sacos por aquele preço.
Outros quatro já mandaram mensagem perguntando se ainda vale.
- Honrar o preço para quem pedir. Quem pedir até o fim do dia leva a R$ 19,90. Cinco lojistas pedem. A promoção errada custa R$ 5 mil, ninguém reclama, e todos lembram que, ali, o preço anunciado vale.
- Mandar a correção para a lista inteira. A correção vai para os 600. Três lojistas respondem com o print da primeira mensagem, e um deles para de abrir as promoções seguintes.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você foi ao pátio antes do meio-dia. Só um lojista tinha aparecido. Deu para decidir com um caso na frente, não com dez.
- Entre 12h e 14h: Você foi ao pátio depois do meio-dia. O lojista esperou com o caminhão aberto e já tinha ligado para o vendedor. Quando você chegou, ele já tinha ouvido duas versões diferentes.
- Depois das 14h: O pátio ficou para depois das 14h. O lojista cansou de esperar e contou a história no grupo de lojistas. O que quer que tenha sido decidido depois, a promoção errada já tinha virado assunto.
Copa: Café, e o marketing visto de fora
O vendedor está na pia, rindo com o colega.
“…marketing é post bonito. Venda quem faz sou eu, no telefone.”
Metade dos clientes que ligaram para ele esta semana viu o anúncio antes. Ele não sabe disso, e você não tem como provar. Quinze minutos depois, você volta para a mesa com esse problema na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o dono adorou aquele sorteio da furadeira. Diz que bombou.
- …tá todo mundo falando daquele saco de cimento no grupo do bairro.
- …tem um lojista no pátio querendo o cimento a dezenove e noventa.
- …o dono tá fazendo a lista de cortes. Dizem que o anúncio é o primeiro.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Honrar o preço para quem pedir” e “Aceitar cortar pela metade e propor um teste”: Você honrou o preço errado e aceitou cortar a verba pela metade. O teste dos 30 dias começou num mês com R$ 5 mil a menos, e o dono vai olhar os dois números juntos.
- Se você escolheu “Responder no grupo agora” e “Mandar a correção para a lista inteira”: Na mesma sexta, a distribuidora pediu desculpas em público por um cimento que estava bom e desdisse, para a lista inteira, um preço que tinha anunciado. Quem está nos dois grupos percebeu.
- Se você escolheu “Chamar no privado e conferir o lote primeiro” e “Honrar o preço para quem pedir”: Você conferiu os fatos antes de responder ao bairro e honrou o preço errado com os lojistas. Duas vezes na mesma sexta, a distribuidora fez o que disse. Isso não aparece em relatório nenhum.
- Se você escolheu “Defender a verba com os orçamentos” e “Responder no grupo agora”: Você defendeu a verba com orçamentos e respondeu ao bairro antes de saber o que tinha acontecido. Duas decisões rápidas, nenhuma com o fato inteiro na mão. Na próxima reunião, o dono vai pedir os dois.
Como o dia termina
Você foi para o número primeiro.
Havia um dono com a lista de cortes, um bairro inteiro falando da empresa e um lojista no pátio, e você abriu o relatório das campanhas. Passou 1h30 separando clique de orçamento.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que dá para medir. Em performance, o trabalho é provar o que o anúncio vende, e aceitar quando ele não vende.
Você foi para o dono primeiro.
Você começou pela conversa em que o seu orçamento estava em jogo. Passou 45 min defendendo, com o número que tinha, um trabalho que não tem número fácil.
Quem trabalha com mídia paga vive essa reunião todo mês: a verba sai primeiro quando a venda cai, e o resultado só aparece se alguém se der ao trabalho de medir.
Você foi para a conversa primeiro.
Você começou pelo grupo do bairro, onde a empresa estava sendo julgada em público. Passou 50 min decidindo entre responder rápido e responder certo.
Rede social é isso: o tempo é do público, não seu, e cada resposta fica lá, com print, para sempre.
Você foi para a lista primeiro.
Você começou pelo pátio: um preço errado que saiu para 600 lojistas e um deles cobrando a palavra. Passou 40 min decidindo quanto vale manter o que foi dito.
CRM é cuidar dessa lista como gente, não como número: cada mensagem que sai para a base é uma promessa.
As três portas de Marketing
Marketing não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Performance. Provar com número o que o anúncio vende, inclusive quando o número diz que não vende.
- Conteúdo e redes. Falar em nome da empresa, em público, no tempo do público.
- CRM. Cuidar da lista de clientes: cada mensagem é uma promessa a quem já comprou.