Um dia na pele de
O plantão de domingo de um hospital veterinário
Você é a veterinária de plantão de um hospital veterinário 24 horas em Porto Alegre. Domingo: os especialistas estão em casa, a internação tem doze animais e a emergência não fecha. Hoje, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve num lugar só: está na internação, na sala de emergência, no consultório, na recepção. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Cuidar do animal que está na sua frente sem esquecer de quem paga e de quem decide.
Profissões com um dia assim: Veterinário de Emergência · Oncologista Veterinário · Veterinário de Animais Exóticos
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O plantão de domingo de um hospital veterinário: o dia por escrito
Você é a veterinária de plantão de um hospital veterinário 24 horas em Porto Alegre. Domingo: os especialistas estão em casa, a internação tem doze animais e a emergência não fecha. Hoje, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve num lugar só: está na internação, na sala de emergência, no consultório, na recepção. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Internação: O remédio de cão na ficha do gato
As fichas dos doze internados vieram da noite. Nelas, o estagiário juntou numa coluna só o que o hospital vai dar e o que o tutor contou que deu em casa. A ronda de medicação é às 10h.
Dois princípios comuns em remédio de cachorro são proibidos em gato: o paracetamol e a permetrina, o antipulgas de cão. Em cão, os dois podem aparecer sem problema.
Ache os gatos com paracetamol ou permetrina na ficha. São esses três: o Frajola com paracetamol, a Nina com banho de permetrina e o Simba com coleira de permetrina, de cachorro, que a família pôs em casa. O Bidu e o Rex têm os mesmos nomes na ficha, mas são cães. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você achou antes das 10h. A ronda das 10h passou com as três fichas corrigidas. O Simba ficou sem a coleira e tomou banho para tirar o resto do produto; nenhum dos três recebeu nada que não podia.
- Entre 10h e 12h: Você achou depois das 10h. A ronda já tinha passado: o Frajola recebeu a dose das 10h. Ele foi para o soro com o antídoto, e o hospital ligou para o tutor contando o erro antes que ele descobrisse.
- Depois das 12h: As fichas ficaram para depois do meio-dia. Duas rondas passaram com as fichas da noite. O que quer que tenha sido corrigido depois, um gato já tinha recebido o que não podia, e o hospital vai ter de contar isso ao tutor.
Sala de emergência: A cirurgia que não cabe no bolso
O Bob, vira-lata de seis anos, foi atropelado na frente de casa. Está com a dor controlada, mas o fêmur está quebrado: cirurgia e três dias de internação, R$ 3.800. O Sr. Joel, catador de recicláveis, tem R$ 200 no bolso. A regra do hospital é cirurgia só com metade paga antes.
O hospital veterinário da universidade opera de graça, a 30 km, com fila.
- Operar hoje e negociar a conta depois. O cirurgião de plantão opera às 15h e o Bob vai bem. O Sr. Joel paga os R$ 200 e assina dez promissórias de R$ 360; as duas primeiras chegam em dia. Na segunda, o dono do hospital pergunta quem autorizou.
- Estabilizar e encaminhar ao hospital da universidade. Com a dor controlada e a perna imobilizada, o Bob vai para a universidade, que opera na quarta. O Sr. Joel paga os R$ 200 da emergência e, na semana seguinte, volta para mostrar a cicatriz e agradecer a tala.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi à emergência antes das 9h30. O Bob tinha acabado de chegar, e o Sr. Joel ainda nem tinha sentado. Deu para decidir com o animal estável e o tutor ainda inteiro.
- Entre 9h30 e 11h30: Você foi à emergência depois das 9h30. O Bob esperou com a dor só em parte controlada, e o Sr. Joel tinha perguntado o preço três vezes na recepção. A conversa começou pelo dinheiro.
- Depois das 11h30: A emergência ficou para depois das 11h30. O veterinário da internação cobriu a emergência e fez o básico. O que quer que tenha sido decidido depois, a fratura do Bob passou a manhã inteira só com tala.
Consultório: Ele vai melhorar?
A Dona Marlene, 74 anos, trouxe o Pitoco, labrador de treze anos com linfoma. No mês passado, ela não teve como pagar a quimioterapia. Há três dias ele não come e respira com esforço, deitado no chão do consultório.
Ela pergunta, segurando a guia: "Ele vai melhorar, doutora?"
- Falar de eutanásia hoje, com clareza. Você explica devagar o que o linfoma está fazendo e o que o Pitoco sente. Ela chora, liga para o filho e pede para voltar amanhã com ele. Na segunda de manhã, os três se despedem juntos, na sala do fundo.
- Propor uma semana de cuidado paliativo e conversar de novo. Você receita analgésico e estimulante de apetite e marca retorno para a sexta. Ela sai aliviada. Na quarta à noite, liga para o plantão: o Pitoco piorou, e a despedida acontece às duas da manhã, com outro veterinário.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao consultório antes das 10h. Ninguém tinha entrado ainda com pressa. Deu para sentar no chão, ao lado do Pitoco, sem olhar o relógio.
- Entre 10h e 13h: Você foi ao consultório depois das 10h. Ela esperou mais de uma hora com o Pitoco ofegando no chão. Quando você entrou, ela já sabia, pelo jeito como os outros olhavam para ele.
- Depois das 13h: O consultório ficou para depois das 13h. O colega do turno da tarde atendeu a Dona Marlene primeiro. O que quer que você tenha dito depois, ela já tinha ouvido a primeira versão de outra pessoa.
Recepção: Uma ave que não é da sua área
A Sofia, nove anos, está na recepção com a gaiola no colo. A calopsita dela, a Pipa, está de penas arrepiadas, abrindo o bico para respirar. Aves escondem a doença até o fim: quando aparece, é urgente.
O hospital não tem veterinário de exóticos no domingo. A clínica de aves mais próxima fica a 40 km e atende até as 15h. Você atende cães e gatos.
- Atender você mesma, com o colega de exóticos no telefone. Você examina com o colega orientando por vídeo, e a Pipa vai para uma incubadora com oxigênio. Ela passa a noite. Na segunda, o colega diz que teria feito o mesmo, e que teria visto o ácaro no bico que você não viu.
- Encaminhar para a clínica de aves. A família sai com a gaiola no colo. À tarde, mandam mensagem: a Pipa chegou viva e ficou internada lá. A Sofia pergunta ao pai por que o hospital grande não podia cuidar dela.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à recepção antes das 10h30. A Pipa ainda se segurava no poleiro. Qualquer caminho começava com ela de pé.
- Entre 10h30 e 12h30: Você foi à recepção depois das 10h30. A Pipa já estava no fundo da gaiola, e a Sofia tinha parado de falar. O pai já tinha ligado para a clínica de aves por conta própria.
- Depois das 12h30: A recepção ficou para depois das 12h30. A recepcionista passou o endereço da clínica de aves ao pai da Sofia. O que quer que tenha sido feito depois, a Pipa passou a manhã inteira na sala de espera.
Copa: Café, e a veterinária vista da copa
Duas auxiliares de veterinária tomam café com o jaleco cheio de pelo.
“…o tutor acha que veterinário trabalha por amor, então não devia cobrar. Ninguém pede desconto pro médico dele.”
Uma delas atende o telefone da recepção nos fins de semana e ouve isso toda vez que diz um preço. Quinze minutos depois, você volta para o plantão lembrando que cada conta deste hospital é dita em voz alta para alguém que ama o animal.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a ronda das dez vai sair com as fichas da noite. O estagiário já separou as seringas.
- …o senhor do cachorro atropelado tá perguntando o preço de novo.
- …a senhora do labrador tá no consultório desde as nove. Ele não levanta mais.
- …tem uma menina com um passarinho na recepção. Ninguém aqui atende ave no domingo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Operar hoje e negociar a conta depois” e “Atender você mesma, com o colega de exóticos no telefone”: Você operou o Bob sem a entrada e atendeu a Pipa sem ser da área. Na segunda, o dono do hospital leu as duas fichas seguidas e perguntou se o plantão de domingo tinha regras.
- Se você escolheu “Estabilizar e encaminhar ao hospital da universidade” e “Encaminhar para a clínica de aves”: Dois encaminhamentos no mesmo domingo: o Bob para a universidade, a Pipa para a clínica de aves. O hospital não perdeu nada. Duas famílias passaram o domingo na estrada.
- Se você escolheu “Falar de eutanásia hoje, com clareza” e “Encaminhar para a clínica de aves”: Você falou de morte com a Dona Marlene e mandou a Sofia embora com a gaiola no colo. Na mesma manhã, duas famílias saíram do hospital chorando. Nenhuma das duas reclamou de você.
- Se você escolheu “Operar hoje e negociar a conta depois” e “Propor uma semana de cuidado paliativo e conversar de novo”: O Bob saiu operado e com dez promissórias; o Pitoco saiu com mais uma semana e uma receita. No mesmo domingo, você deu tempo a duas pessoas que não tinham dinheiro. Só uma dessas contas o hospital vai cobrar.
Como o dia termina
Você foi para as fichas primeiro.
Havia um cão atropelado, uma senhora com o labrador no chão e uma ave sem fôlego na recepção, e você sentou para ler doze fichas de internação. Passou 50 min cruzando espécie com remédio.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro silencioso, que ninguém via e que ia acontecer às 10h. Plantão é isso também: a emergência que não chega gritando.
Você foi para a emergência primeiro.
Você começou pelo Bob, com a perna quebrada, e pelo Sr. Joel, com duzentos reais. Passou 50 min entre o que o cão precisava e o que o hospital aceita.
Emergência veterinária é decidir rápido, com o animal na mesa e a conta na cabeça de alguém. Raramente as duas coisas cabem juntas.
Você foi para o consultório primeiro.
Você começou pela Dona Marlene e por uma pergunta que não tinha resposta boa. Passou 45 min decidindo quanto da verdade dizer, e quando.
Nas especialidades de casos longos, como a oncologia, a conversa com o tutor é metade do tratamento: o animal não decide nada, e quem decide está sofrendo junto.
Você foi para a ave primeiro.
Você começou pela recepção, com uma menina e uma calopsita sem fôlego. Passou 40 min decidindo se atendia um animal que não é da sua área.
Quem trabalha com exóticos vive isso ao contrário: cada espécie tem outra anatomia, outro remédio e outra dose, e quase sempre o bicho chega tarde, porque escondeu a doença até não poder mais.
As três portas da clínica veterinária
Clínica veterinária não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo bicho.
- Emergência e plantão. Decidir rápido, com o animal na mesa, a internação cheia e a conta na cabeça de alguém.
- Especialidades clínicas. Casos longos, como câncer e doenças crônicas: tratar o animal e conversar com quem decide por ele.
- Animais exóticos. Aves, répteis e roedores: outra anatomia a cada espécie, e um bicho que esconde a doença até o fim.