Um dia na pele de
A virada de coleção numa loja de moda
Você é o visual merchandising de uma rede de 38 lojas de moda. Amanhã a coleção de verão entra em todas elas, e hoje você está na loja principal, num shopping de Curitiba, para deixar a virada pronta. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve de longe: está na vitrine, no salão, no estoque, na sala da gerente. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia. O shopping abre às 10h.
Fazer a loja vender sem que ela deixe de parecer a marca.
Profissões com um dia assim: Especialista em Visual Merchandising
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A virada de coleção numa loja de moda: o dia por escrito
Você é o visual merchandising de uma rede de 38 lojas de moda. Amanhã a coleção de verão entra em todas elas, e hoje você está na loja principal, num shopping de Curitiba, para deixar a virada pronta. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve de longe: está na vitrine, no salão, no estoque, na sala da gerente. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia. O shopping abre às 10h.
Vitrine: O vestido que só veio em P e M
A caixa da campanha de verão chegou ontem com o look da vitrine: o vestido de linho cru, a sandália e a bolsa de palha, nos três manequins, igual em todas as 38 lojas a partir de amanhã. A foto da campanha está no painel do ônibus em frente ao shopping.
Você abre a grade: o vestido veio só em P e M, duas peças de cada. Na arara do salão não tem nenhum para vender.
- Montar a vitrine como a campanha. Os três manequins ficam iguais à foto do ônibus. A vitrine faz gente parar no corredor do shopping. Lá dentro, as vendedoras explicam que o vestido chega na semana que vem e anotam telefone.
- Trocar por um vestido que tem grade. Você veste os manequins com o vestido de viscose da mesma cor, que tem 60 peças do P ao GG. A vitrine fica parecida com a foto, não igual. Quem pede o da vitrine leva na hora. Na foto de conferência que a matriz pede de cada loja, a sua é a única com outro vestido.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você montou antes das 10h. O shopping ainda estava fechado. Você montou com o corredor vazio, sem tapume, e quando a porta de aço subiu a vitrine já estava pronta.
- Entre 10h e 13h: Você montou depois das 10h. Com o shopping aberto, a regra é tapume na frente da vitrine. A loja passou a montagem escondida atrás de um painel branco, no corredor mais movimentado do piso.
- Depois das 13h: A vitrine ficou para depois das 13h. A vitrine de inverno passou o horário de almoço inteiro na frente da loja, a hora em que o corredor do shopping mais enche. A campanha de verão já estava no ônibus lá fora.
Salão de vendas: A mesa da promoção
A mesa da promoção de verão foi montada ontem à noite pela equipe, com o cartaz que veio da matriz: "Leve 3 por R$ 199". A regra da campanha diz que só entram peças com preço cheio até R$ 99,90. O preço cheio é o da etiqueta original, não o da remarcação.
O cartaz é oferta: o que ele diz vale no caixa, com qualquer peça que estiver embaixo dele.
Ache as peças que não podiam estar na mesa: preço cheio acima de R$ 99,90. São essas três. A camisa de viscose é a óbvia: alguém arrumou a mesa e ela ficou. A bermuda e a pantalona enganam: remarcadas, parecem caber, mas a regra vale pelo preço cheio. A blusa de linho, exatamente R$ 99,90, pode ficar. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O movimento ainda não tinha começado. Nenhum pacote de três passou no caixa com peça fora da regra.
- Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. Até lá, quatro clientes passaram no caixa com a camisa de viscose no pacote. A loja honrou o cartaz, como manda a lei, e o desconto saiu da margem do mês.
- Depois das 15h: A mesa ficou para depois das 15h. A mesa passou quase o dia inteiro como tinha sido montada. No fechamento, o caixa contou onze pacotes com peça fora da regra, todos honrados pelo preço do cartaz.
Sala da gerente: As 400 jaquetas da Cláudia
A Cláudia, gerente da loja, está com o relatório de estoque aberto: 400 jaquetas de couro sintético do inverno, paradas desde julho. A meta do mês fecha em duas semanas, e ela quer a mesa da entrada para as jaquetas, com 40% de desconto.
O planograma da matriz reserva a mesa da entrada para a coleção de verão em todas as lojas. Quem assina o planograma desta loja é você.
- Manter a entrada com o verão. As jaquetas vão para uma arara de liquidação no fundo da loja, perto do provador. A Cláudia aceita sem concordar e avisa que o número do fim do mês vai para a regional com o seu nome no e-mail.
- Ceder a mesa da entrada por duas semanas. A mesa da entrada vira liquidação de inverno, com cartaz vermelho. A Cláudia agradece. Você registra a exceção no planograma e sabe que, na próxima reunião, outras gerentes vão pedir a mesma coisa.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você falou com a Cláudia antes das 11h. Ela ainda estava montando o plano do mês. A decisão saiu antes de qualquer coisa ir para a regional.
- Entre 11h e 15h: Você falou com a Cláudia depois das 11h. Ela já tinha mandado à regional o plano com as jaquetas na entrada. A conversa virou confirmar, ou desfazer, uma coisa que já tinha saído da loja.
- Depois das 15h: A gerência ficou para depois das 15h. A Cláudia passou o dia esperando uma resposta, com a equipe perguntando onde iam as jaquetas. O que quer que tenha sido combinado depois, chegou com a loja já cansada da pergunta.
Estoque: Cinco lojas montam no sábado
As outras cinco lojas da região montam a coleção de verão no sábado, e você não vai estar em nenhuma: tem o lançamento na capital. Hoje é o único dia para deixar o padrão com elas.
No estoque, a Jéssica, vendedora daqui, está separando as peças do verão. É ela quem monta a vitrine aos domingos desde que a loja abriu, e já perguntou duas vezes como se entra para o visual merchandising.
- Mandar um manual por foto para as cinco. Você fotografa cada passo da montagem, numera, escreve as medidas e manda no grupo das gerentes. As cinco respondem com um joinha. A Jéssica segura o celular para as fotos e volta para o salão.
- Mandar a Jéssica às cinco lojas no sábado. A Jéssica acompanha o resto da sua montagem anotando tudo, e no sábado roda as cinco lojas com o carro da regional. A Cláudia fica com uma vendedora a menos no sábado e lembra que a Jéssica é da loja, não do visual merchandising.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você foi ao estoque antes do meio-dia. As gerentes ainda tinham a quinta e a sexta para separar as peças e perguntar o que não entenderam.
- Entre 12h e 16h: Você foi ao estoque depois do meio-dia. Quando o padrão saiu daqui, as lojas já estavam no movimento da tarde. Duas gerentes só olharam à noite, e a primeira pergunta chegou na sexta.
- Depois das 16h: O estoque ficou para depois das 16h. As cinco lojas iam montar no sábado com o que tivessem até ali. O que quer que tenha saído desta loja, saiu no fim do expediente delas.
Provador: O provador, e o que se pede nele
A vendedora do provador está dobrando uma pilha de peças que ninguém levou.
“…metade de quem entra pergunta pela roupa da vitrine. A outra metade experimenta a do manequim e quer o tamanho que não tem.”
Ela não pediu nada a você. Quinze minutos depois, você sai sabendo o que a vitrine promete lá dentro.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a segurança do shopping já deixou o tapume na porta. Depois das dez, vitrine só se monta escondida.
- …a moça levou a camisa de viscose no três por cento e noventa e nove. O caixa nem piscou.
- …a Cláudia tirou foto da mesa da entrada e mandou pra regional.
- …a Jéssica disse que, se não for agora, vai procurar vaga em outra marca.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Montar a vitrine como a campanha” e “Mandar um manual por foto para as cinco”: Você montou a vitrine como a campanha e mandou a foto dela como manual. No sábado, as cinco lojas tinham a mesma vitrine e a mesma pergunta no provador: o vestido da frente só existia em P e M.
- Se você escolheu “Trocar por um vestido que tem grade” e “Mandar um manual por foto para as cinco”: Você trocou o vestido e mandou a foto da sua vitrine como manual. Três lojas copiaram a sua troca; duas montaram a da matriz. A região passou o sábado com duas vitrines diferentes para a mesma campanha.
- Se você escolheu “Ceder a mesa da entrada por duas semanas” e “Montar a vitrine como a campanha”: Na vitrine, o verão da campanha, igual ao ônibus lá fora. Logo atrás, na mesa da entrada, jaquetas de inverno com cartaz vermelho. Quem passava no corredor do shopping via duas estações na mesma porta.
- Se você escolheu “Manter a entrada com o verão” e “Mandar a Jéssica às cinco lojas no sábado”: Você segurou a entrada com o verão e tirou a Jéssica do salão no sábado. A Cláudia fechou o sábado com uma vendedora a menos e 400 jaquetas no fundo da loja, e escreveu para a regional sobre as duas coisas no mesmo e-mail.
Como o dia termina
Você foi para a vitrine primeiro.
Havia uma mesa com preço fora da regra, uma gerente com 400 jaquetas e cinco lojas esperando o padrão, e você começou pelos três manequins na frente da loja. Passou 1h10 decidindo o que a loja mostra para quem ainda não entrou.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para a primeira coisa que o cliente vê. Em visual merchandising, a vitrine é o anúncio que não se desliga.
Você foi para a mesa primeiro.
Havia uma vitrine por trocar, uma gerente esperando resposta e cinco lojas sem padrão, e você começou pela mesa da promoção. Passou 1h20 conferindo etiqueta por etiqueta contra a regra da campanha.
No varejo, o cartaz é promessa: o que está escrito nele vale no caixa. Quem trabalha com precificação vive de achar o furo da regra antes do cliente.
Você foi para a gerente primeiro.
Você começou pela conversa em que o padrão da rede e a meta de uma loja puxavam para lados diferentes. Passou 40 min decidindo quanto do desenho da matriz cabe numa loja com estoque parado.
Quem gerencia loja vive essa conta todo mês: a matriz desenha a loja ideal, e a loja de verdade tem jaqueta encalhada, meta e equipe.
Você foi para as outras lojas primeiro.
Com a vitrine desta loja ainda de inverno, você começou por cinco lojas onde não ia estar. Passou 45 min pensando em como o padrão chega sem você.
Visual merchandising de rede é isso: o seu trabalho acontece em lojas que você só vê por foto, montado pelas mãos de outras pessoas.
As três portas do varejo
O varejo de loja não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Visual merchandising. Desenhar como a loja se mostra e fazer o mesmo desenho chegar em dezenas de lojas, pelas mãos de outras pessoas.
- Precificação e operação comercial. Acertar a regra do preço e da promoção antes de ela chegar ao caixa, onde o cartaz vale como promessa.
- Gerência de loja. Fazer uma loja de verdade bater a meta com o estoque, a equipe e o padrão que vieram de fora.