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Um dia na pele de

A terapia ocupacional do hospital de reabilitação

Você é terapeuta ocupacional num hospital estadual de reabilitação. Seu trabalho é fazer as pessoas voltarem a fazer o que faziam, ou o que ainda dá para fazer: comer, tomar banho, trabalhar, brincar, ir à escola. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num lugar da ala: o posto da equipe, o quarto 8, a brinquedoteca, a sala de atividades da vida diária. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Devolver a vida de cada um do jeito que ela era, ou do jeito que ainda dá.

Profissões com um dia assim: Terapeuta Ocupacional · Terapeuta Ocupacional Pediátrico · TO em Saúde Mental

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A terapia ocupacional do hospital de reabilitação: o dia por escrito

Você é terapeuta ocupacional num hospital estadual de reabilitação. Seu trabalho é fazer as pessoas voltarem a fazer o que faziam, ou o que ainda dá para fazer: comer, tomar banho, trabalhar, brincar, ir à escola. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num lugar da ala: o posto da equipe, o quarto 8, a brinquedoteca, a sala de atividades da vida diária. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Posto da equipe: Onde a cadeira não passa

O Seu Jorge, 58 anos, teve uma lesão na coluna em março e volta para casa na segunda, de cadeira de rodas. A filha mediu a casa ontem à noite, com fita métrica, e mandou tudo por mensagem. O pedreiro vem amanhã; ela precisa saber até as 17h o que ele tem de quebrar.

Uma cadeira de rodas precisa de 80 cm livres numa porta, 90 cm num corredor e de um círculo de 1,50 m para girar inteira. Com menos, o Seu Jorge depende de alguém para entrar no cômodo.

Ache os pontos da casa que não cabem a cadeira. São quatro: o corredor do quarto, com 86 cm; a porta do quarto, com 78; a porta do banheiro, com 70; e o giro do banheiro, com 1,40 m. Tudo no caminho entre a cama e o chuveiro. A porta dos fundos, com 80, e a área de serviço, com 90, passam no limite. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você mandou a lista antes das 11h. A filha teve a tarde para comprar porta e azulejo. O pedreiro chegou no sábado com o material já em casa.
  • Entre 11h e 15h: Você mandou a lista depois das 11h. A loja de material da rua fechava ao meio-dia de sexta. O pedreiro chegou no sábado e passou a manhã esperando a entrega.
  • Depois das 15h: A casa ficou para depois das 15h. A filha ligou para o pedreiro às 15h e combinou o que ela achou que era. O que quer que tenha chegado depois, chegou com o serviço de sábado já combinado.

Quarto 8: Três dias sem sair da cama

O Rodrigo, 24 anos, perdeu a perna esquerda num acidente de moto. Há três dias recusa as sessões: vira para a parede, diz que está cansado. A psicóloga o avaliou ontem e não viu risco imediato; viu um rapaz que não acha que vale a pena treinar para uma vida que ele não quer.

O plano dele é de duas sessões por dia, uma delas no grupo de amputados da sala de AVD. A mãe está no quarto e olha para você como quem pede alguma coisa.

  • Reduzir o plano ao que ele aceita hoje. Você pergunta da moto, não da perna. Ele fala de motor por quinze minutos, depois pede para você ir embora. Na saída, a mãe diz que foi a primeira vez em três dias que ele falou tanto. O treino de transferência fica mais uma semana sem começar.
  • Manter o plano e levá-lo ao grupo. Ele vai de cadeira, sem olhar para ninguém. No grupo, o Seu Ademir, que anda de prótese há dois anos, conta como voltou a dirigir. O Rodrigo não diz nada a sessão inteira e volta para o quarto sem se despedir. À noite, pergunta à enfermeira o nome do Seu Ademir.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao quarto 8 antes das 9h30. O Rodrigo ainda estava acordando e a fisioterapia não tinha passado. Qualquer caminho começou sem ninguém ter insistido antes de você.
  • Entre 9h30 e 11h30: Você foi ao quarto 8 depois das 9h30. A fisioterapeuta tinha tentado às nove e ouviu um não. Você chegou como a segunda pessoa do dia a querer alguma coisa dele.
  • Depois das 11h30: O quarto 8 ficou para depois das 11h30. O almoço chegou, o Rodrigo comeu deitado e dormiu. O que quer que tenha sido feito depois, foi feito na metade do dia em que ele menos fala.

Brinquedoteca: Uma palavra no relatório

O Davi, 6 anos, é autista e faz terapia ocupacional com você há um ano. No ano que vem entra no primeiro ano, numa escola pública. A mãe precisa de um relatório seu para a escola pedir um mediador. Ela diz que, se não estiver escrito "tempo integral", a escola não contrata ninguém.

Você viu o Davi brincar, comer e trocar de atividade por um ano. Sozinho, ele faz quase tudo. O que o desorganiza são as transições: o sinal, a fila, a mudança de sala.

  • Escrever "mediação em tempo integral". Você escreve. A mãe lê duas vezes, agradece e guarda o papel na bolsa como quem guarda um documento. Seu nome está embaixo de uma frase que diz mais do que você viu.
  • Escrever o que você observou. Você descreve as transições, o sinal, a fila, e escreve "mediação nas transições e atividades novas". A mãe lê, fica quieta e pergunta se a escola vai entender isso como "não precisa". Você diz que não sabe.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à brinquedoteca antes das 10h. O Davi ainda estava na sessão de outra terapeuta, e a mãe teve tempo de ler o relatório sentada, sem ele puxando a mão dela.
  • Entre 10h e 12h: Você foi à brinquedoteca depois das 10h. O Davi já estava cansado e a mãe, com o ônibus das 12h20 na cabeça. A conversa sobre a palavra foi feita em pé.
  • Depois das 12h: A brinquedoteca ficou para depois do meio-dia. A mãe precisou pegar o ônibus e deixou o pedido na recepção. O que quer que tenha sido escrito depois, chegou a ela por foto, sem conversa.

Sala de AVD: Quarenta marmitas por dia

A Dona Neusa, 72 anos, teve um AVC há dois meses; o lado direito voltou quase todo, a mão ainda falha. Antes, vendia quarenta marmitas por dia da cozinha de casa. Na sala de AVD, ela mexe a panela com a esquerda e diz que na segunda volta ao fogão.

O filho veio conversar com você antes da sessão: quer que você recomende que ela não use mais o fogão. Tem medo de fogo, de queimadura, de ela cair com a panela.

  • Treinar o fogão com adaptações e regras. Vocês treinam o cabo da panela virado para dentro, a boca de trás, o banco alto para ela cozinhar sentada. Você escreve: fogão com alguém em casa, no máximo dez marmitas no começo. O filho assina a orientação de braços cruzados.
  • Recomendar uma cozinha sem fogo. Você mostra a panela elétrica com timer e o micro-ondas na altura do peito. O filho agradece. A Dona Neusa cozinha arroz na panela elétrica, prova, e diz que ninguém vai pagar por isso. Pergunta se pode ao menos fazer o feijão de domingo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 13h30: Você foi à sala de AVD antes das 13h30. A Dona Neusa e o filho ainda estavam juntos, e a conversa aconteceu com os dois na mesma mesa.
  • Entre 13h30 e 15h30: Você foi à sala de AVD depois das 13h30. O filho tinha ido trabalhar. A Dona Neusa ficou sabendo da conversa dele com você por você, e perguntou por que ele não falou com ela.
  • Depois das 15h30: A sala de AVD ficou para depois das 15h30. A sessão da Dona Neusa acabou sem você, com a técnica, só com exercícios de mão. O que quer que tenha sido decidido depois, foi escrito num papel que ela leu em casa, sozinha.

Copa da equipe: Café, e a ala vista da copa

A técnica de enfermagem da noite e a assistente social dividem um bolo de fubá.

“…o Rodrigo ficou acordado até as três com o celular. Vendo vídeo de moto. Só isso, a noite toda.”

Você não perguntou nada. Saiu sabendo do que o Rodrigo ainda gosta, e quinze minutos mais tarde.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a filha do Seu Jorge ligou de novo. Quer saber se o pedreiro quebra a parede do banheiro ou não.
  • …a mãe do Rodrigo tá no corredor desde cedo. Não quer entrar no quarto pra não incomodar.
  • …a mãe do Davi perguntou duas vezes que horas sai o relatório. Ela pega o ônibus das 12h20.
  • …o filho da Dona Neusa disse que se ela voltar pro fogão ele leva ela pra morar com ele.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manter o plano e levá-lo ao grupo” e “Treinar o fogão com adaptações e regras”: No grupo da sala de AVD, a Dona Neusa treinava o fogão ao lado. No fim, ofereceu ao Rodrigo o que tinha feito. Ele aceitou, comeu de cabeça baixa e perguntou quanto ela cobrava por marmita.
  • Se você escolheu “Reduzir o plano ao que ele aceita hoje” e “Recomendar uma cozinha sem fogo”: Num dia, você ajustou dois planos ao que a pessoa aceitava ouvir: o do Rodrigo ficou menor, a cozinha da Dona Neusa ficou sem fogo. Na segunda, os dois perguntaram, cada um no seu quarto, quando as coisas voltavam a ser como antes.
  • Se você escolheu “Escrever "mediação em tempo integral"”: A escola contratou uma mediadora em tempo integral para o Davi. Em março, ela manda à mãe uma mensagem: nas aulas de artes, ele não deixa ela chegar perto.
  • Se você escolheu “Escrever o que você observou”: A escola leu "transições" e colocou uma estagiária dividida entre três turmas. Na segunda semana, a mãe manda a você a foto do horário com os sinais marcados à caneta.

Como o dia termina

Você foi para a casa do Seu Jorge primeiro.

Havia um rapaz que não saía da cama, uma mãe esperando um relatório e uma senhora querendo voltar ao fogão, e você abriu as fotos de uma fita métrica. Passou 50 min medindo porta, corredor e banheiro de uma casa que você nunca viu.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que impede alguém de viver em casa antes de qualquer conversa. Acessibilidade é isso: às vezes, a reabilitação é uma porta de 80 centímetros.

Você foi para o Rodrigo primeiro.

Você começou pelo quarto 8, com um rapaz virado para a parede. Passou 40 min entre o plano que ele precisava e o pouco que ele aceitava.

Terapia ocupacional em saúde mental é isso: antes de treinar qualquer coisa, achar alguma coisa que a pessoa ainda queira fazer.

Você foi para o Davi primeiro.

Você começou pela brinquedoteca, com uma criança que você acompanha há um ano e uma palavra que a mãe precisava no papel. Passou 45 min entre o que você viu e o que a escola ia ler.

Quem trabalha com infância vive isso: a criança é o centro, mas quase tudo que muda a vida dela passa por um adulto, um papel e uma instituição.

Você foi para a Dona Neusa primeiro.

Você começou pela sala de AVD, com uma senhora, uma panela e um filho com medo. Passou 45 min entre o trabalho que ela queria de volta e o risco que ele não queria correr.

Reabilitação de adultos e idosos é isso: a decisão não é sobre o que a pessoa consegue, é sobre o que ela, e quem mora com ela, está disposta a arriscar.

As quatro portas da terapia ocupacional

Terapia ocupacional não é um trabalho só, são vários, e eles se separam pelo tipo de problema, não pela doença.

  • Acessibilidade e tecnologia assistiva. Mudar o ambiente e os objetos para a pessoa caber na própria vida.
  • Saúde mental. Achar uma atividade com sentido quando a pessoa não vê sentido em nada.
  • Infância e desenvolvimento. Ajudar a criança a brincar, aprender e conviver, e explicar isso aos adultos em volta.
  • Reabilitação de adultos e idosos. Devolver o comer, o vestir, o trabalhar, negociando o risco com a família.