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Um dia na pele de

A rede 5G da fábrica

Você é engenheira de redes 5G de uma integradora de São Paulo, e há um mês está instalando a rede 5G privativa de uma fábrica de biscoitos com 800 funcionários: três antenas, um servidor de núcleo no rack e 22 carrinhos autônomos que levam caixas da linha para a expedição. A rede entrou em produção na semana passada. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Rede sem fio não se entende pelo painel: o sinal está no chão da fábrica, o carrinho está na linha, a pressa está na diretoria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Pôr a fábrica para depender de uma rede que ainda está aprendendo a fábrica.

Profissões com um dia assim: Engenheiro de Redes 5G

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A rede 5G da fábrica: o dia por escrito

Você é engenheira de redes 5G de uma integradora de São Paulo, e há um mês está instalando a rede 5G privativa de uma fábrica de biscoitos com 800 funcionários: três antenas, um servidor de núcleo no rack e 22 carrinhos autônomos que levam caixas da linha para a expedição. A rede entrou em produção na semana passada. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Rede sem fio não se entende pelo painel: o sinal está no chão da fábrica, o carrinho está na linha, a pressa está na diretoria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da integradora: Menos cem

Ontem à noite, o técnico andou pela fábrica com o medidor e anotou o sinal em doze pontos da rota dos carrinhos. O fabricante dos carrinhos exige sinal de pelo menos −100 dBm em toda a rota. Abaixo disso, o carrinho perde a conexão e para.

O sinal é medido em número negativo. Quanto mais longe de zero, mais fraco.

Ache os pontos da rota com sinal mais fraco que −100 dBm. São esses três. A porta da câmara fria com −112, a paletizadora da linha 2 com −101 e a passagem pelo laboratório com −107. A câmara fria tem paredes de metal; o laboratório, uma porta de vidro blindado. A curva do mezanino, com −100, está no limite e ainda passa. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você conferiu antes das 10h. O pedido da antena da câmara fria entrou na compra da semana do fornecedor. Chega na sexta.
  • Entre 10h e 14h: Você conferiu depois das 10h. A compra da semana do fornecedor já tinha fechado. A antena da câmara fria só chega daqui a dez dias.
  • Depois das 14h: A cobertura ficou para depois das 14h. O mapa ficou na mesa o dia inteiro. Os carrinhos seguiram passando pelos três pontos fracos, e ninguém da integradora sabia quais eram.

Linha de embalagem: A troca de antena

Na linha de embalagem, os carrinhos autônomos param sozinhos uma vez por hora, sempre no mesmo lugar: onde saem da área da antena 1 e entram na da antena 2. Cada parada segura a linha por dois minutos até alguém empurrar o carrinho. O supervisor da linha já disse que, se continuar, amanhã volta para o wi-fi antigo.

A troca entre antenas tem um ajuste fino. Mexer nele com a fábrica rodando pode derrubar a rede inteira por alguns minutos.

  • Desligar a antena 2 e deixar a linha numa antena só. Você desliga a antena 2 e aumenta a potência da antena 1. Os carrinhos param de parar. A rede da linha fica mais lenta, e a antena 1 passa a atender o dobro de aparelhos, perto do limite dela.
  • Ajustar a troca de antena com a fábrica rodando. Você muda o ajuste da troca no intervalo de uma troca de turno. A rede cai por três minutos, os 22 carrinhos param ao mesmo tempo e o supervisor aparece na porta. Depois disso, eles passam pela troca de antena sem parar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à linha antes das 9h30. O supervisor ainda estava contando as paradas, não reclamando delas. Ele viu a engenharia chegar antes da terceira.
  • Entre 9h30 e 12h30: Você foi à linha depois das 9h30. O supervisor já tinha ligado para o diretor industrial. Você chegou com uma reclamação formal no caminho.
  • Depois das 12h30: A linha ficou para depois das 12h30. O supervisor pôs dois operadores para empurrar carrinho a manhã inteira e pediu o wi-fi de volta por e-mail. O que quer que tenha sido feito depois, foi para desfazer um pedido já escrito.

Sala da diretoria: O conselho de quinta

O diretor industrial quer mostrar ao conselho, na quinta, a inspeção por câmera funcionando: 140 câmeras na linha, procurando biscoito quebrado, todas na rede 5G. Ele leu que o 5G aguenta.

Aguenta muita coisa descendo. Subindo, como fazem as câmeras, a rede foi desenhada para os carrinhos, não para 140 vídeos ao mesmo tempo.

  • Ligar as câmeras com os carrinhos na frente da fila. Você separa a rede em duas faixas: os carrinhos com prioridade, as câmeras com o que sobrar. As 140 ligam. Nos horários de pico, metade das câmeras manda imagem em resolução menor, e o software de inspeção reclama.
  • Pedir três semanas e mais uma antena. Você explica a diferença entre subir e descer e propõe uma quarta antena só para a linha. O diretor fica calado, depois pede o orçamento até amanhã para pôr no slide do conselho.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à diretoria antes das 10h30. O diretor ainda não tinha falado com o fornecedor das câmeras. A conversa começou pelo que a rede aguenta.
  • Entre 10h30 e 14h30: Você foi à diretoria depois das 10h30. O fornecedor das câmeras já estava a caminho com as 140 na caçamba. Você entrou numa conversa sobre quando ligar, não sobre se.
  • Depois das 14h30: A diretoria ficou para depois das 14h30. O fornecedor ligou as primeiras 40 câmeras na rede sem falar com a integradora. O que quer que tenha sido decidido depois, já havia vídeo subindo junto com os carrinhos.

Sala do rack: A chave do núcleo

Na sala do rack, o coordenador de TI da fábrica está esperando você. Ele quer a senha de administrador do núcleo da rede: "A rede é nossa. Se der problema às três da manhã, não posso depender de vocês."

Ele tem razão sobre as três da manhã. E nunca mexeu num núcleo 5G, onde uma configuração errada derruba os 22 carrinhos de uma vez.

  • Dar acesso de administrador com conta própria. Você cria uma conta de administrador para ele, com registro de tudo o que for mudado, e marca um treinamento de dois dias. Ele agradece e diz que vai dar uma olhada nas configurações hoje à noite, "só para entender".
  • Dar só acesso de leitura até o treinamento. Você cria uma conta que vê tudo e não muda nada, e promete o acesso completo depois do treinamento. Ele aceita, sem sorrir, e pergunta qual é o celular da integradora às três da manhã.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à sala do rack antes das 9h. O coordenador tinha acabado de chegar e ainda estava pedindo. A resposta veio antes de ele precisar insistir.
  • Entre 9h e 13h: Você foi à sala do rack depois das 9h. O coordenador já tinha mandado um e-mail ao diretor dizendo que a integradora não entrega a senha. Você respondeu a uma pergunta que já tinha virado queixa.
  • Depois das 13h: A sala do rack ficou para depois das 13h. O coordenador pediu a senha direto ao fabricante do núcleo, que mandou um manual de redefinição. O que quer que tenha sido combinado depois, ele já sabia como entrar sem você.

Refeitório: Café, e a rede vista da linha

Dois operadores da linha estão na mesa longa, de touca.

“…antes era só o wi-fi caindo. Agora tem antena nova e o carrinho para do mesmo jeito.”

Para eles, não existe 5G nem troca de antena: existe o carrinho que para. Quinze minutos depois, você volta para a sua sala com isso na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …de novo o carrinho parado na linha 2. Alguém vai lá empurrar.
  • …o diretor quer as câmeras todas ligadas até quinta. Pro conselho.
  • …o pessoal do TI tá esperando a moça da integradora na sala do rack desde cedo.
  • …na porta da câmara fria o celular fica sem sinal nenhum. Os carrinhos também.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Desligar a antena 2 e deixar a linha numa antena só” e “Ligar as câmeras com os carrinhos na frente da fila”: Você pôs a linha inteira numa antena só e ligou as 140 câmeras na mesma rede. A antena 1 passou o fim da tarde perto do limite, carregando carrinhos e vídeo ao mesmo tempo.
  • Se você escolheu “Ajustar a troca de antena com a fábrica rodando” e “Dar acesso de administrador com conta própria”: Você derrubou a rede por três minutos para corrigir a troca de antena e deu ao TI da fábrica a senha do núcleo no mesmo dia. Se a rede cair de novo esta noite, vão ser duas as pessoas que podem ter mexido nela.
  • Se você escolheu “Pedir três semanas e mais uma antena” e “Dar só acesso de leitura até o treinamento”: Você pediu três semanas para as câmeras e segurou a senha até o treinamento. A rede ficou como você desenhou. A fábrica passou a terça ouvindo que ainda não era hora.
  • Se você escolheu “Dar acesso de administrador com conta própria” e “Ligar as câmeras com os carrinhos na frente da fila”: Você entregou a chave do núcleo para a fábrica e encheu a rede com 140 câmeras na mesma terça. A rede ficou mais da fábrica e mais cheia, as duas coisas no mesmo dia.

Como o dia termina

Você foi para o sinal primeiro.

Havia carrinhos parando, um diretor com 140 câmeras e um TI esperando a senha, e você abriu o mapa de cobertura. Passou 1h10 comparando números negativos com o limite do fabricante.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de onde a rede não chega antes de onde ela falha. Rádio é isso: parede de metal, vidro e distância decidem antes de qualquer configuração.

Você foi para os carrinhos primeiro.

Você começou pela linha, pelos carrinhos que param sempre no mesmo lugar. Passou 50 min decidindo entre contornar a troca de antena e consertá-la com a fábrica rodando.

Quem trabalha com rádio vive isso: o que se move é o que mais sofre, e o que mais se move é o que a fábrica mais precisa que não pare.

Você foi para o diretor primeiro.

Você começou pela diretoria, pelas 140 câmeras e pelo conselho de quinta. Passou 45 min explicando o que uma rede aguenta subindo e o que ela aguenta descendo.

Rede privativa é isso: a fábrica compra uma rede para uma coisa e, um mês depois, quer pendurar nela tudo o que tem.

Você foi para o rack primeiro.

Você começou pela sala do rack, pelo coordenador de TI e pela senha do núcleo. Passou 40 min decidindo de quem é a rede quando ela já está pronta.

Quem cuida do núcleo e da operação vive essa conversa: quem pode mudar a rede também pode derrubá-la, e alguém precisa responder às três da manhã.

As três portas de Telecomunicações

Telecomunicações não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tipo de problema, não pela geração da rede.

  • Rádio e cobertura. Fazer o sinal chegar onde precisa: antena, parede, distância e o que se move.
  • Núcleo e operação. Cuidar do cérebro da rede e responder por ela a qualquer hora.
  • Redes privativas. Desenhar a rede de uma empresa para o que ela faz hoje e para o que vai querer amanhã.