🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

O sábado da estreia

Você dirige uma companhia de teatro de oito atores que estreia hoje, às 21h, a peça que ensaiou por cinco meses. A crítica vem, o patrocinador vem, e a temporada tem seis semanas. Neste sábado, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Uma estreia não se resolve da plateia: a escala está na produção, a parede no palco, o ator no camarim, os ingressos na bilheteria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Chegar às 21h com a peça inteira, ou decidir o que ela pode perder.

Profissões com um dia assim: Diretor de Teatro · Diretor Teatral · Cenógrafo · Produtor Teatral

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O sábado da estreia: o dia por escrito

Você dirige uma companhia de teatro de oito atores que estreia hoje, às 21h, a peça que ensaiou por cinco meses. A crítica vem, o patrocinador vem, e a temporada tem seis semanas. Neste sábado, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Uma estreia não se resolve da plateia: a escala está na produção, a parede no palco, o ator no camarim, os ingressos na bilheteria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da produção: Doze técnicos, quatro em dois lugares

A temporada tem sessão de quinta a domingo, e a equipe técnica precisa estar no teatro das 20h às 22h40: uma hora antes para montar, e até o fim do aplauso. Quase todo mundo da equipe tem outro trabalho. A produtora anotou, ao lado de cada nome, o horário do outro compromisso nos dias de sessão.

Ninguém cruzou os horários. Técnico que sai no meio deixa uma deixa sem ninguém.

Ache quem tem outro compromisso que termina depois das 20h e começa antes das 22h40. São esses quatro. Tati sai da aula às 20h30, Nando do outro espetáculo às 21h10, Igor da gravação às 21h, e a Duda entra no bar às 22h30, dez minutos antes de a peça acabar. O Jonas e a Mel enganam: terminam às 19h50 e às 20h, em cima da hora, mas antes dela. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h30: Você achou antes das 11h30. Deu tempo de ligar para os substitutos com a manhã inteira pela frente. Os quatro novos chegaram para o ensaio técnico da tarde e viram a peça uma vez antes de operar.
  • Entre 11h30 e 15h: Você achou depois das 11h30. Só dois substitutos puderam vir hoje. Os outros dois só entram na semana que vem, e a estreia tem o Nando saindo correndo de outro teatro.
  • Depois das 15h: A escala ficou para depois das 15h. O ensaio técnico aconteceu com a escala antiga. O que quer que tenha sido trocado depois, a estreia vai ter alguém operando uma deixa que nunca viu.

Palco: A parede que travou

No ensaio geral de ontem, a parede giratória do cenário travou no meio da volta, com dois atores atrás dela. É ela que vira a sala da família em quarto de hospital, em cena aberta, na frente do público. O cenógrafo acha que consegue trocar o eixo até as 19h. Se não der, a parede para no meio de novo, na estreia.

A outra saída é tirar o giro: a troca vira um blecaute de 40 segundos com a equipe empurrando a parede no escuro.

  • Tirar o giro e fazer a troca no escuro. Você pede ao cenógrafo para travar o eixo e marca com fita onde a parede para. A equipe ensaia a troca no escuro seis vezes até caber em 40 segundos. O cenógrafo fica olhando a parede parada e diz que guarda o eixo para a segunda semana.
  • Deixar o cenógrafo trocar o eixo até as 19h. O cenógrafo e o maquinista desmontam a base da parede e trocam o eixo. Às 18h50, a parede dá três voltas inteiras no teste. Ninguém sabe se ela aguenta uma quarta com os dois atores atrás.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao palco antes do meio-dia. O cenógrafo ainda estava medindo a base. A decisão veio antes de alguém desmontar o que funcionava.
  • Entre 12h e 16h: Você foi ao palco depois do meio-dia. O cenógrafo já tinha começado a desmontar a base, por conta própria. Você decidiu sobre uma parede que estava no chão.
  • Depois das 16h: O palco ficou para depois das 16h. O ensaio técnico foi feito pulando a troca de cena. O que quer que tenha sido decidido depois, a estreia vai ser a primeira vez que o elenco faz aquela passagem do jeito escolhido.

Camarim: O protagonista sem voz

O Caio, que faz o pai e está em cena quase a peça inteira, acordou com a voz rouca. A fonoaudióloga da companhia diz que ele aguenta a estreia se não forçar, mas o último ato é todo gritado. Não há substituto: ninguém mais sabe o texto dele.

O Caio diz que faz. Ele está nessa peça desde o primeiro dia.

  • Estrear com um microfone de lapela no Caio. Você pede ao som um microfone de lapela e refaz com o Caio o último ato: os gritos viram falas baixas, perto do microfone. Ele não gosta e ensaia mesmo assim. O operador de som marca na mesa onde subir o volume.
  • Adiar a estreia para domingo. Você manda a mensagem para elenco, equipe e imprensa: a estreia passa para domingo. A crítica de um dos jornais responde que domingo não pode. O Caio passa o resto do dia em silêncio, com um caderno para conversar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao camarim antes das 11h. O Caio ainda não tinha forçado a voz no aquecimento. Qualquer decisão foi tomada com ele poupado desde cedo.
  • Entre 11h e 15h: Você foi ao camarim depois das 11h. O Caio já tinha feito o aquecimento inteiro com o elenco, para mostrar que estava bem. A voz piorou.
  • Depois das 15h: O camarim ficou para depois das 15h. O Caio passou a tarde testando a voz sozinho no camarim, cada vez mais alto. O que quer que tenha sido decidido depois, ele chegou ao fim do dia sem saber se estreava, e o elenco também.

Bilheteria: Sessenta convites para trinta lugares

A empresa que patrocina a peça pela lei de incentivo mandou a lista de convidados para a estreia: 60 pessoas. O contrato garante convites, sem dizer quantos. Dos 180 lugares, 150 já foram vendidos.

O gerente de patrocínio está na bilheteria, de crachá, esperando a resposta. A temporada do ano que vem depende do contrato do ano que vem.

  • Ceder os 60: cancelar 30 ingressos vendidos. A bilheteria liga para os 30 últimos compradores, devolve o dinheiro e oferece ingresso para outra sessão. Vinte e dois aceitam, oito reclamam nas redes. O gerente de patrocínio agradece e pede a lista dos lugares da frente.
  • Dar os 30 que sobram e oferecer outra sessão. Você mostra o mapa da sala ao gerente: 30 lugares hoje e uma sessão inteira só para a empresa na outra semana. Ele liga para a diretora dele, que aceita sem entusiasmo e pede para o nome da empresa aparecer maior no programa.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h30: Você foi à bilheteria antes das 12h30. A lista do patrocinador ainda não tinha sido mandada aos convidados. O que ficou combinado chegou a eles como convite, não como correção.
  • Entre 12h30 e 17h: Você foi à bilheteria depois das 12h30. O patrocinador já tinha mandado o convite para os 60. A conversa foi sobre quem ia ouvir que não tinha lugar.
  • Depois das 17h: A bilheteria ficou para depois das 17h. O gerente de patrocínio esperou a tarde inteira e ligou para a sua produtora três vezes. O que quer que tenha sido decidido depois, a fila da estreia começou a se formar antes de alguém saber quem entrava.

Café do teatro: Café, e a direção vista da coxia

Dois técnicos de preto tomam café na escada que dá para o palco.

“…o aplauso é do diretor. Quem segura a peça no escuro somos nós.”

Hoje à noite você vai estar na plateia, sem poder fazer nada. Tudo o que acontecer no palco vai passar pela mão deles. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a Tati disse que vai chegar meio corrida da aula. Alguém sabe que horas acaba?
  • …o cenógrafo tá deitado embaixo da parede desde as nove. Diz que dá.
  • …o Caio pediu chá com mel duas vezes. Tá falando baixinho.
  • …tem um homem de crachá na bilheteria com uma lista de sessenta nomes.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Tirar o giro e fazer a troca no escuro” e “Estrear com um microfone de lapela no Caio”: A estreia vai ter um blecaute de 40 segundos e um microfone que não estava em nenhum ensaio. Duas coisas novas, na noite em que a crítica está na plateia.
  • Se você escolheu “Adiar a estreia para domingo” e “Dar os 30 que sobram e oferecer outra sessão”: A estreia foi para domingo e o patrocinador ganhou uma sessão só dele. A primeira semana da temporada ficou com duas noites que não estavam no cartaz.
  • Se você escolheu “Adiar a estreia para domingo” e “Ceder os 60: cancelar 30 ingressos vendidos”: Você cancelou 30 ingressos para abrir lugar ao patrocinador numa estreia que, horas depois, foi adiada. Os trinta compradores receberam duas mensagens do teatro no mesmo sábado.
  • Se você escolheu “Deixar o cenógrafo trocar o eixo até as 19h” e “Estrear com um microfone de lapela no Caio”: A parede com o eixo novo e o Caio com o microfone vão ser testados juntos pela primeira vez às 21h, com o público olhando.

Como o dia termina

Você foi para a escala primeiro.

Havia uma parede travada, um ator sem voz e um patrocinador na bilheteria, e você começou pela planilha que ninguém tinha cruzado. Passou 1h00 comparando horário de saída com horário de chegada.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que ia falhar na quarta sessão, não só hoje. Produção teatral é essa conta, feita para a temporada inteira.

Você foi para o palco primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a peça de madeira no meio do palco. Passou 50 min decidindo entre a cena como foi pensada e a cena que não trava.

Cenografia é isso: o espaço conta a história, e ele precisa funcionar todas as noites, com gente atrás dele.

Você foi para o Caio primeiro.

Você começou pelo camarim, onde um ator estava com medo de perder a estreia. Passou 45 min decidindo o que a peça aguenta perder: o grito do último ato ou a noite marcada.

Dirigir teatro é cuidar da peça através das pessoas que a fazem, e as pessoas têm voz, corpo e dias ruins.

Você foi para a bilheteria primeiro.

Havia uma escala, uma parede e um ator, e você foi primeiro a quem paga a temporada. Passou 40 min entre quem comprou ingresso e quem paga o próximo ano.

Produzir é manter a peça de pé fora do palco: dinheiro, contrato, plateia, e as escolhas entre eles.

As três portas do teatro, por trás da cena

Fazer uma peça chegar ao palco não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho da peça.

  • Direção teatral. Levar o texto ao palco através das pessoas que o fazem, inclusive nos dias ruins delas.
  • Cenografia. Desenhar o espaço da cena e fazer ele funcionar toda noite.
  • Produção teatral. Manter a peça de pé fora do palco: equipe, dinheiro, contrato e plateia.