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Um dia na pele de

Uma quinta de atuária numa operadora de plano de saúde

Você é o atuário de uma operadora de plano de saúde de Campinas: 210 mil vidas, quase todas em planos de empresa. O seu trabalho é dizer quanto o risco custa: o preço de cada plano, o reajuste de cada contrato e quanto dinheiro guardar para as contas que ainda nem chegaram. Cada número sai com a sua assinatura. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua mesa: está na sala de reunião, na ilha do produto, na sala do financeiro. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Pôr preço no risco de gente que você nunca vai conhecer, e assinar embaixo.

Profissões com um dia assim: Atuário

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

Uma quinta de atuária numa operadora de plano de saúde: o dia por escrito

Você é o atuário de uma operadora de plano de saúde de Campinas: 210 mil vidas, quase todas em planos de empresa. O seu trabalho é dizer quanto o risco custa: o preço de cada plano, o reajuste de cada contrato e quanto dinheiro guardar para as contas que ainda nem chegaram. Cada número sai com a sua assinatura. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua mesa: está na sala de reunião, na ilha do produto, na sala do financeiro. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: As tabelas que a ANS devolveria

Doze planos novos vão hoje para registro na ANS. Cada um tem dez faixas de idade, e a lei põe duas travas na tabela: o preço da última faixa (59 anos ou mais) não pode passar de seis vezes o da primeira (até 18 anos); e o aumento da 7ª faixa (44 a 48 anos) até a última não pode ser maior que o aumento da primeira até a 7ª.

Tabela que fura uma das duas volta da ANS, e o plano perde a janela de venda do fim do ano.

Ache os planos que furam pelo menos uma das duas travas. São esses quatro. Clássico Rede fura as duas: 1.150 passa de 6 × 190 = 1.140, e sobe 540 do meio ao fim contra 420 do começo ao meio. Regional sobe 350 contra 320. Jovem, 380 contra 360. Sênior Ativo respeita a segunda trava com folga, mas 1.050 passa de 6 × 170 = 1.020. O Premium, o mais caro de todos, passa nas duas. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de refazer as quatro tabelas com calma, redistribuindo o preço entre as faixas sem mexer no total, e de mandar para a revisão da colega antes do envio.
  • Entre 11h e 16h: Você achou depois das 11h. As quatro tabelas foram corrigidas e enviadas no prazo, sem revisão de ninguém. Se tiver mais algum erro, quem acha é a ANS.
  • Depois das 16h: As tabelas ficaram para depois das 16h. O comercial mandou as doze como estavam às 17h, para não perder o prazo. O que quer que tenha sido achado depois, quatro planos voltam da ANS e ficam fora da venda de fim de ano.

Sala de reunião: Vinte e quatro por cento

A Metalúrgica Paiva, 800 vidas, recebeu o reajuste anual: 24%. A conta é sua e é simples: no último ano, o plano custou à operadora 92 centavos de cada real pago, e o contrato prevê reajuste quando passa de 75.

A gerente de RH veio pessoalmente. Diz que a empresa não paga mais que 14% e que tem uma proposta de outra operadora na bolsa. O comercial sugere um meio-termo: 14%, com coparticipação nova, o funcionário pagando 30% de cada consulta e exame.

  • Manter os 24% técnicos. Você mostra a conta, linha por linha: internações, oncologia, os três partos prematuros do ano. A gerente entende e diz que vai levar à diretoria dela, mas que a resposta já sabe qual é. A proposta da concorrente fica em cima da mesa.
  • Aceitar 14% com coparticipação. A gerente aceita na hora. O custo da operadora fecha, porque menos gente vai ao médico quando paga um pedaço. Os 800 funcionários vão saber disso na primeira consulta, e quem tem doença crônica vai saber todo mês.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você entrou antes das 10h30. A gerente ainda estava sozinha na sala, com o café. A conversa foi sobre números antes de virar negociação.
  • Entre 10h30 e 13h: Você entrou depois das 10h30. O comercial já tinha falado em coparticipação com ela. Você entrou numa conversa em que a sua conta já era um ponto de partida para desconto.
  • Depois das 13h: A sala de reunião ficou para depois das 13h. A gerente foi embora antes do almoço, depois de ouvir só o comercial. O que quer que tenha sido decidido depois, foi por e-mail, com o atuário em cópia.

Ilha do produto: Quem anda paga menos

O time de produto quer lançar um plano em que o preço muda pelo relógio inteligente: quem anda mais de 8 mil passos por dia paga 15% a menos. Para fechar a conta, quem não usa o relógio ou anda pouco paga 10% a mais.

Pelos dados do piloto, quem anda mais custa mesmo menos. Também é quem é mais jovem, mais saudável e tem menos deficiência. O produto precisa da sua nota técnica para ir ao jurídico hoje.

  • Assinar o modelo com desconto e acréscimo. Você assina a nota técnica com o desconto e o acréscimo. O produto comemora: o preço do plano fica o mais baixo da cidade para quem anda. O jurídico pede uma semana para avaliar a regra do acréscimo.
  • Assinar só o desconto, sem acréscimo. Você refaz a conta: sem o acréscimo, o preço de base sobe 6% para pagar o desconto. O produto reclama que o plano perdeu a vantagem na vitrine. O jurídico aprova no mesmo dia.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h30: Você foi à ilha do produto antes das 11h30. O time ainda estava desenhando a tela do aplicativo. A regra do preço ainda era uma pergunta, não uma tela pronta.
  • Entre 11h30 e 15h: Você foi à ilha do produto depois das 11h30. A tela do aplicativo já estava pronta, com o desconto em verde e o acréscimo em letra pequena. Mudar a regra agora era mudar o trabalho de uma semana.
  • Depois das 15h: A ilha do produto ficou para depois das 15h. O produto mandou ao jurídico uma nota técnica escrita por eles mesmos, com espaço para a sua assinatura. O que quer que tenha sido decidido depois, foi sobre um texto que não era seu.

Financeiro: As contas que ainda não chegaram

O financeiro fecha o trimestre hoje. Uma parte das internações de setembro só vai ser cobrada pelos hospitais em novembro, e a operadora tem de guardar dinheiro para elas agora. O seu método diz R$ 41 milhões.

O diretor financeiro mostra que as contas de setembro chegaram mais baixas que o normal e quer usar R$ 33 milhões, o que deixa o trimestre no azul pela primeira vez no ano. O conselho se reúne amanhã.

  • Manter os R$ 41 milhões do método. Você assina os R$ 41 milhões. O trimestre fecha com prejuízo de R$ 3 milhões, e o diretor financeiro vai ao conselho explicar. Ele pede, por escrito, a justificativa de não ter considerado setembro.
  • Aceitar os R$ 33 milhões, com nota explicando. Você assina os R$ 33 milhões com uma nota: as contas de setembro vieram abaixo da média e o método foi ajustado por isso. O trimestre fecha com lucro de R$ 5 milhões. Em novembro, as contas atrasadas de setembro vão dizer quem estava certo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao financeiro antes das 10h. O diretor financeiro ainda estava com a planilha aberta. Deu para olhar juntos as contas de setembro, hospital por hospital.
  • Entre 10h e 14h: Você foi ao financeiro depois das 10h. A apresentação do conselho já estava montada, com um número no slide. A conversa foi sobre trocar um slide, não sobre o método.
  • Depois das 14h: O financeiro ficou para depois das 14h. O diretor financeiro mandou a apresentação ao conselho com o número dele e uma linha dizendo "pendente de validação atuarial". O que quer que tenha sido assinado depois, chegou ao conselho como correção.

Copa: Café, e o atuário visto de fora

Duas pessoas do atendimento esquentam marmita e falam baixo.

“…ligou de novo aquela senhora do reajuste. Eu disse que é o sistema que calcula. Ela pediu o nome de quem calcula.”

O nome é o seu. Quinze minutos depois, você volta para a mesa pensando em quantas pessoas leem a sua conta todo ano sem saber que ela tem um autor.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a moça do RH da metalúrgica tá na sala de reunião. Disse que tem proposta de outra operadora.
  • …o produto quer lançar o plano do relógio ainda este mês. Só falta a assinatura do atuário.
  • …o financeiro quer fechar o trimestre no azul. O conselho é amanhã.
  • …as tabelas dos planos novos vão hoje para a ANS. Se voltar, perde o fim de ano.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manter os 24% técnicos” e “Aceitar os R$ 33 milhões, com nota explicando”: Na mesma quinta, você segurou um reajuste de 24% pela conta e aceitou baixar a reserva por um mês bom. A gerente de RH e o diretor financeiro nunca vão se encontrar, mas os dois números têm a mesma assinatura.
  • Se você escolheu “Aceitar 14% com coparticipação” e “Assinar o modelo com desconto e acréscimo”: No mesmo dia, você aprovou coparticipação para 800 funcionários e acréscimo para quem anda pouco. Nos dois casos, a conta fechou cobrando mais de quem mais usa o plano.
  • Se você escolheu “Manter os R$ 41 milhões do método”: No conselho, o diretor financeiro leu a sua justificativa em voz alta. Ninguém discordou do método. Dois conselheiros perguntaram por que o atuário não estava na sala.
  • Se você escolheu “Assinar só o desconto, sem acréscimo” e “Manter os 24% técnicos”: Você subiu o preço de base do plano do relógio e manteve os 24% da metalúrgica. O comercial fechou a semana com duas reclamações sobre preço, as duas com o seu nome.

Como o dia termina

Você foi para as tabelas primeiro.

Havia um cliente na sala, um produto esperando assinatura e um trimestre fechando, e você abriu as doze tabelas de preço. Passou 1h20 multiplicando a primeira faixa por seis e comparando degraus.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para a conta que a lei confere. Precificação é isso: transformar risco em preço dentro de regras que alguém escreveu para proteger quem envelhece.

Você foi para o cliente primeiro.

Você começou pela sala de reunião, onde a sua conta virou um número que uma empresa não quer pagar. Passou 50 min entre o reajuste técnico e o reajuste que fica.

Quem cuida de contratos empresariais vive essa mesa todo ano: o cálculo é o mesmo para todos, e cada cliente quer saber por que o dele é diferente.

Você foi para o produto primeiro.

Você começou pela ilha do produto, com um preço que muda pelos passos do relógio. Passou 40 min entre a conta que fecha e quem ela deixa de fora.

Precificar um produto novo é isso: os dados dizem quem custa menos, e o atuário decide até onde o preço pode separar as pessoas.

Você foi para a reserva primeiro.

Você começou pelo financeiro, onde o dinheiro guardado para contas futuras decidia a cor do trimestre. Passou 45 min entre o método e um mês que veio diferente.

Reserva técnica é isso: estimar hoje o que só vai ser cobrado amanhã, sabendo que um número baixo fica bonito no slide e um número alto fica certo depois.

As três portas da Atuária

Atuária não é uma conta só, são três, e elas se separam pelo tempo do risco: o que vai ser vendido, o que já foi vendido e o que já aconteceu.

  • Precificação e produto. Dar preço ao risco de um plano ou seguro novo, dentro das regras e dos dados.
  • Contratos e reajuste. Recalcular, todo ano, o preço de quem já é cliente, e explicar por quê.
  • Reservas e solvência. Estimar hoje o dinheiro das contas de amanhã, e defender o número no balanço.