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Um dia na pele de

O plantão de sábado numa delegacia

Você é delegado de polícia civil em Contagem, na Grande Belo Horizonte, no plantão de sábado. Na madrugada de sexta, um homem foi morto no bar da Rua 7, e o inquérito é seu. Neste sábado, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no seu gabinete: está na sala de oitiva, no balcão, no cartório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia. O plantão acaba às 18h.

Fazer a investigação andar sem atropelar a lei que ela tem que cumprir.

Profissões com um dia assim: Delegado de Polícia Civil · Perito Criminal · Agente de Inteligência

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O plantão de sábado numa delegacia: o dia por escrito

Você é delegado de polícia civil em Contagem, na Grande Belo Horizonte, no plantão de sábado. Na madrugada de sexta, um homem foi morto no bar da Rua 7, e o inquérito é seu. Neste sábado, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no seu gabinete: está na sala de oitiva, no balcão, no cartório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia. O plantão acaba às 18h.

Seu gabinete: O álibi e as antenas

O Wesley, suspeito do homicídio no bar da Rua 7, no bairro Eldorado, por volta de 1h40, diz que passou a noite inteira no trabalho: vigia de um galpão no bairro Industrial, das 22h às 6h. A operadora mandou o extrato do celular dele com a antena que captou cada evento.

Antes de chamá-lo de novo, você confere o álibi contra o extrato.

Ache os eventos dentro do turno (22h às 6h) captados fora do Industrial. São esses três: entre 0h52 e 2h10, o celular dele estava no Eldorado e no Riacho, não no galpão. Os eventos das 21h40 e das 6h20 também são no Eldorado, mas fora do turno que ele alegou: não contradizem nada. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O Wesley ainda estava na delegacia depois do depoimento da manhã. Deu para confrontá-lo com o extrato na mesma conversa.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O Wesley já tinha sido liberado depois do depoimento. Para ouvi-lo de novo, foi preciso intimar, e a intimação só sai na segunda.
  • Depois das 15h: O extrato ficou para depois das 15h. O plantão acabava às 18h, e o pedido ao juiz só seria lido na segunda. O que quer que o extrato mostrasse, esperou o fim de semana.

Sala de oitiva: "Antes que eu desista"

Na sala de oitiva está o Diego, 19 anos, preso em flagrante ontem por um roubo de celular. Ele pede para falar com o delegado: quer contar quem comanda os roubos no bairro, "agora, antes que eu desista".

O defensor público de plantão só chega às 15h. Sem advogado, o Diego pode falar se quiser, mas o que disser vai ser contestado no processo.

  • Ouvir agora, registrando que ele dispensou o advogado. O Diego fala por uma hora: nomes, endereços, o ponto onde os celulares são vendidos. Você registra que ele foi avisado do direito ao advogado. Duas semanas depois, o advogado que aparece para ele pede que o depoimento seja desconsiderado.
  • Esperar o defensor público. Você explica que vai ouvi-lo com o defensor. O Diego concorda, nervoso. Quando o defensor chega e conversa com ele a sós, o Diego decide falar só do roubo de ontem.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à sala de oitiva antes das 10h. O Diego ainda não tinha recebido visita. Ninguém de fora tinha falado com ele.
  • Entre 10h e 13h: Você foi à sala de oitiva depois das 10h. A mãe do Diego tinha passado para visitá-lo. Depois dela, ele pediu um copo d'água e ficou meia hora calado.
  • Depois das 13h: A sala de oitiva ficou para depois das 13h. O Diego passou a manhã esperando o delegado e almoçou na cela. O que quer que tenha dito depois, já não tinha a pressa da manhã.

Balcão de atendimento: A menina que não voltou da escola

No balcão, a Dona Cleusa registra o desaparecimento da filha, Kauane, 15 anos: saiu para a escola ontem às 6h30 e não voltou. O escrivão já comentou baixo o que se ouve em todo plantão: "deve estar com o namorado".

A equipe de investigação do plantão são dois investigadores, que hoje estão recolhendo as imagens de câmeras da Rua 7.

  • Tirar a equipe das câmeras e começar a busca agora. Os dois investigadores saem com a Dona Cleusa para a escola e a casa do namorado. As imagens da Rua 7 ficam para segunda. A de uma padaria se apaga no domingo: o gravador guarda só três dias.
  • Registrar, divulgar a foto e manter a equipe nas câmeras. A foto da Kauane vai para as redes da polícia e para os hospitais. Os investigadores recolhem as imagens da Rua 7 antes de se apagarem. A Dona Cleusa vai embora com o número do boletim e um telefone para ligar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao balcão antes das 11h. A Kauane estava sumida havia pouco mais de um dia. Qualquer busca começava com o rastro ainda recente.
  • Entre 11h e 15h: Você foi ao balcão depois das 11h. A Dona Cleusa tinha esperado duas horas no banco do balcão. Quando você chegou, ela já tinha postado sozinha a foto da filha no grupo do bairro.
  • Depois das 15h: O balcão ficou para depois das 15h. A Dona Cleusa passou a tarde no banco do balcão. O que quer que tenha sido decidido depois, já era quase noite de sábado.

Cartório: O bar interditado

No cartório, a perita criminal e o dono do bar da Rua 7 esperam por você, cada um com um pedido. A perita quer o bar interditado até a noite: com luz apagada, o reagente mostra o sangue que a limpeza da madrugada tirou da vista.

O dono quer abrir às 14h. Sábado é o dia em que ele mais vende, e ele não tem nada a ver com o crime.

  • Manter o bar interditado até a perícia da noite. A fita continua na porta. A perita volta às 20h com o reagente e acha um rastro do balcão até a porta dos fundos. O dono fecha o sábado sem vender nada e diz que vai procurar um advogado.
  • Liberar às 14h, com coleta até lá. A perita fotografa, mede e coleta o que a luz do dia mostra até as 14h. O bar abre cheio, com gente curiosa. À noite, o chão já foi pisado por duzentas pessoas.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao cartório antes do meio-dia. O dono do bar ainda não tinha ligado para o vereador do bairro. A decisão foi uma conversa entre três pessoas.
  • Entre 12h e 16h: Você foi ao cartório depois do meio-dia. O dono do bar já tinha ligado para o vereador, que ligou para a delegacia. A decisão passou a ter mais gente esperando por ela.
  • Depois das 16h: O cartório ficou para depois das 16h. A perita foi para outro local às 16h e o dono ficou na porta do bar, esperando. O que quer que tenha sido decidido, a tarde de sábado já tinha passado.

Copa: Café, e o que se fala nele

Um dos investigadores toma café de pé, com o celular cheio de vídeos.

“…a padaria da Rua 7 grava só três dias. Se ninguém buscar até domingo, apaga por cima.”

Ele não disse para você. Quinze minutos depois, você volta sabendo quanto tempo dura uma imagem.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o Wesley jura que passou a noite no galpão.
  • …o preso do roubo tá pedindo pra falar com o doutor desde cedo.
  • …a mãe da menina sumida tá no banco do balcão desde as nove.
  • …o vereador ligou por causa do bar da Rua 7.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Liberar às 14h, com coleta até lá” e “Tirar a equipe das câmeras e começar a busca agora”: Você liberou o bar às 14h e tirou a equipe das câmeras da Rua 7. Na segunda, o inquérito do homicídio tinha o extrato do celular, as fotos de dia da perita e pouca coisa mais.
  • Se você escolheu “Manter o bar interditado até a perícia da noite” e “Registrar, divulgar a foto e manter a equipe nas câmeras”: O bar ficou interditado e a equipe ficou nas câmeras. O sábado inteiro da delegacia foi para a Rua 7, e a busca da Kauane correu pelas redes e pelo telefone da Dona Cleusa.
  • Se você escolheu “Tirar a equipe das câmeras e começar a busca agora” e “Ouvir agora, registrando que ele dispensou o advogado”: Às 18h, o plantão tinha um depoimento de uma hora sem advogado e duas pessoas na rua atrás de uma adolescente. O delegado de domingo recebeu os dois casos pela metade.
  • Se você escolheu “Registrar, divulgar a foto e manter a equipe nas câmeras” e “Esperar o defensor público”: A equipe ficou nas câmeras e o Diego esperou o defensor. Os dois caminhos seguiram o procedimento e os dois levaram mais tempo. A Kauane foi encontrada no domingo, pela tia, na casa de uma amiga.

Como o dia termina

Você foi para o extrato primeiro.

Havia um preso querendo falar, uma mãe no balcão e uma perita esperando, e você começou pelo celular do suspeito. Passou 1h10 cruzando horário com antena.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do dado que não depende de ninguém contar. Inteligência policial é isso: o caso se monta no cruzamento, longe da sala de oitiva.

Você foi para o preso primeiro.

Você começou pela sala de oitiva, com alguém que queria falar e um defensor que ainda não tinha chegado. Passou 45 min decidindo entre a hora em que a pessoa quer falar e a forma que a lei exige.

O trabalho de delegado é isso: a investigação depende de gente, e cada palavra só vale se tiver sido dita do jeito certo.

Você foi para o balcão primeiro.

Com um homicídio em andamento, você começou por uma mãe e uma adolescente que não voltou da escola. Passou 40 min decidindo para onde vão os dois únicos investigadores do sábado.

Plantão é isso: tudo é urgente para alguém, e a equipe nunca dá para todos ao mesmo tempo.

Você foi para o local do crime primeiro.

Você começou pelo bar da Rua 7, entre uma perita e um comerciante. Passou 35 min pesando o que o chão ainda podia mostrar contra o sábado de quem não tinha nada a ver com o crime.

Perícia criminal é isso: a prova está no local, o local tem dono, e o tempo apaga uma e cansa o outro.

As três portas da segurança pública

Segurança pública não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.

  • Investigação e inquérito. Conduzir o caso do boletim ao relatório: ouvir gente, distribuir a equipe e decidir dentro do que a lei permite.
  • Inteligência. Montar o caso cruzando dados, ligações e registros, sem precisar que ninguém confesse.
  • Perícia criminal. Fazer o local e o objeto falarem, com método, antes que o tempo e as pessoas apaguem o que estava lá.