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Um dia na pele de

A sexta da fonoaudiologia no hospital

Você é a fonoaudióloga de um hospital geral de 200 leitos: avalia quem pode voltar a comer pela boca, atende no ambulatório quem perdeu a voz e acompanha pacientes em tratamento de câncer de cabeça e pescoço. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Fono se faz perto: o paciente engole na frente de você, a voz se ouve na sala, o exercício se faz junto. Andar entre o posto, o quarto, o ambulatório e a quimio leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Proteger quem engole e quem fala sem tirar o que eles mais querem.

Profissões com um dia assim: Fonoaudiólogo Hospitalar · Fonoaudiólogo de Voz · Fonoaudiólogo

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A sexta da fonoaudiologia no hospital: o dia por escrito

Você é a fonoaudióloga de um hospital geral de 200 leitos: avalia quem pode voltar a comer pela boca, atende no ambulatório quem perdeu a voz e acompanha pacientes em tratamento de câncer de cabeça e pescoço. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Fono se faz perto: o paciente engole na frente de você, a voz se ouve na sala, o exercício se faz junto. Andar entre o posto, o quarto, o ambulatório e a quimio leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Posto de enfermagem: Doze bandejas, uma regra

O protocolo do hospital diz: paciente com AVC só come pela boca depois de passar na triagem de deglutição. Quem engole errado pode levar comida para o pulmão, e pneumonia é a complicação que mais mata depois de um AVC.

A nutrição já está montando as bandejas do almoço pela prescrição. Prescrição e triagem moram em sistemas diferentes.

Ache os pacientes com dieta pela boca que não passaram na triagem (falhou ou não foi feita). São esses quatro. Seu Osvaldo e Seu Ruy falharam na triagem e estão com dieta pela boca; Dona Ester e Dona Mirtes nem foram triadas. O Seu Ruy é o mais delicado: líquido é o que mais escapa para o pulmão. A Dona Leda passou e continua na sonda: não é risco, é uma conversa para a semana que vem. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você conferiu antes das 10h30. As quatro bandejas foram suspensas antes de a nutrição montar o almoço. As duas pacientes sem triagem foram avaliadas por você ainda de manhã.
  • Entre 10h30 e 12h: Você conferiu depois das 10h30. A nutrição já tinha montado o almoço. A enfermagem segurou três bandejas no carrinho; a do Seu Ruy já tinha sido servida, e ele tomou metade do suco.
  • Depois das 12h: A lista ficou para depois do meio-dia. O almoço foi servido às 12h como estava prescrito. O que quer que tenha sido suspenso depois, quatro pacientes já tinham comido uma refeição pela boca sem triagem.

Quarto 12: A sopa da filha

O Seu Joaquim, 68 anos, foi extubado ontem depois de nove dias na UTI. Está com a voz fraca e tosse quando engole saliva. A filha trouxe uma garrafa térmica de sopa de casa: ele não come pela boca há dez dias e pede, com a voz que tem, só um pouco.

No teste à beira do leito, ele engole o líquido engrossado com algum esforço. O exame com imagem, que mostra se a comida vai para o pulmão, só tem vaga na segunda.

  • Liberar líquido engrossado com você ao lado. Você engrossa a sopa, senta o Seu Joaquim a 90 graus e oferece colheradas pequenas, com uma pausa e uma tosse entre cada uma. Ele toma seis colheres e chora. Você escreve no prontuário exatamente o que liberou, quanto, e quem pode oferecer.
  • Manter a sonda até o exame de segunda. Você explica à filha o que a tosse na saliva quer dizer e por que a imagem vem antes. Ela guarda a garrafa térmica na bolsa. O Seu Joaquim vira o rosto para a janela. Você deixa exercícios de deglutição sem comida para o fim de semana.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao quarto antes das 9h30. A sopa ainda estava fechada na garrafa. A decisão veio antes de alguém, com pena, oferecer uma colher escondido.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi ao quarto depois das 9h30. A filha já tinha dado duas colheradas de sopa rala, e o Seu Joaquim tossiu as duas. Você decidiu sobre alguém que tinha acabado de engasgar.
  • Depois das 12h: O quarto ficou para depois do meio-dia. O almoço passou e a filha foi embora com a garrafa térmica. O que quer que tenha sido decidido depois, o Seu Joaquim passou a manhã inteira pedindo sopa a quem entrava.

Ambulatório de fono: A voz que falha na semana da formatura

A professora Rita, 42 anos, dá 40 aulas por semana para crianças do fundamental. A laringoscopia mostrou nódulos nas pregas vocais. Na quinta que vem, ela faz o discurso da formatura do 5º ano, que acompanha desde o 1º.

Repouso vocal de sete dias, com atestado, dá chance de os nódulos diminuírem. A escola não tem quem a substitua. A outra saída é terapia, microfone em sala e seguir trabalhando.

  • Repouso vocal de sete dias, com atestado. Você escreve o atestado e explica o que é repouso de verdade: nem cochichar. A Rita pergunta se pode ao menos ler o discurso na quinta. Você diz que vai ver como a voz estiver na quarta, e ela sai com um bloquinho para conversar por escrito.
  • Terapia, microfone e seguir trabalhando. Você ensina três exercícios de aquecimento, indica o microfone de lapela e marca terapia duas vezes por semana. A Rita agradece aliviada. Você anota que, se a voz piorar até quarta, a conversa sobre o atestado volta.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao ambulatório antes das 11h. A Rita tinha vindo antes da aula da tarde, com tempo. A conversa foi sobre a voz dela, e não sobre o relógio.
  • Entre 11h e 14h30: Você foi ao ambulatório depois das 11h. A Rita esperou e já tinha avisado a escola que chegaria atrasada. Você atendeu alguém que olhava o celular a cada cinco minutos.
  • Depois das 14h30: O ambulatório ficou para depois das 14h30. A Rita foi dar a aula da tarde sem ser atendida e deixou o telefone. O que quer que tenha sido decidido depois, foi por ligação, com ela rouca do outro lado.

Sala de quimioterapia: Os exercícios que ninguém quer fazer

O Seu Edgar, 61 anos, está na quarta semana de quimio e radioterapia para um câncer na garganta. Os exercícios de deglutição que você passou servem para que ele ainda consiga engolir quando o tratamento acabar. Ele está exausto, com a boca ferida, e parou de fazer.

A esposa pede para você deixar ele descansar até terminar a radioterapia: faltam três semanas.

  • Insistir nos exercícios todos os dias. Você reduz a série a cinco minutos e combina com o Seu Edgar de fazer junto, na poltrona, durante a sessão de quimio. Ele faz, com careta. A esposa assiste em silêncio e, na saída, pergunta se é mesmo necessário todos os dias.
  • Suspender até o fim da radioterapia. Você suspende os exercícios e marca o retorno para a semana seguinte ao fim da radioterapia. A esposa agradece. Você escreve no prontuário o risco que foi conversado, e o Seu Edgar dorme na poltrona antes de você sair da sala.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à quimio antes das 9h. O Seu Edgar tinha acabado de sentar na poltrona e ainda não estava enjoado. Deu para conversar com ele, e não só com a esposa.
  • Entre 9h e 11h30: Você foi à quimio depois das 9h. A medicação já estava correndo e o Seu Edgar cochilava. Você conversou com a esposa enquanto ele dormia.
  • Depois das 11h30: A quimio ficou para depois das 11h30. O Seu Edgar terminou a sessão e foi para a radioterapia, no outro prédio. O que quer que tenha sido decidido depois, chegou a ele por um bilhete no prontuário.

Copa da equipe: Café, e a fono vista de fora

Um residente de clínica médica toma café com um técnico.

“…fono no hospital? Achei que era só para criança que troca letra.”

Hoje você suspendeu quatro bandejas que podiam virar pneumonia e decidiu se um homem de 68 anos tomava sopa. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a nutrição já tá montando as bandejas do almoço.
  • …a filha do Seu Joaquim trouxe sopa de casa. Ele só pede isso.
  • …a professora do ambulatório tá esperando. Tem aula à tarde.
  • …a esposa do Seu Edgar perguntou se a fono vem hoje.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Liberar líquido engrossado com você ao lado” e “Insistir nos exercícios todos os dias”: Sopa para o Seu Joaquim e exercícios para o Seu Edgar: duas vezes você apostou que engolir se mantém engolindo. Nos dois quartos, alguém da família vai te perguntar na segunda se valeu.
  • Se você escolheu “Manter a sonda até o exame de segunda” e “Suspender até o fim da radioterapia”: O Seu Joaquim na sonda até segunda e o Seu Edgar sem exercícios até o fim da radioterapia. Duas vezes você escolheu esperar, e as duas esperas estão escritas no prontuário com o risco ao lado.
  • Se você escolheu “Repouso vocal de sete dias, com atestado” e “Suspender até o fim da radioterapia”: Repouso para a voz da Rita e descanso para o Seu Edgar: na mesma sexta, você mandou dois pacientes parar. Os dois retornos caem na mesma semana, e os dois vão contar o que mudou.
  • Se você escolheu “Terapia, microfone e seguir trabalhando” e “Liberar líquido engrossado com você ao lado”: A Rita seguindo nas aulas e o Seu Joaquim tomando sopa: duas vezes você deixou a pessoa fazer o que mais queria, com um cuidado no meio. Os dois cuidados dependem de alguém seguir o que você escreveu.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia um senhor pedindo sopa, uma professora sem voz e um paciente cansado dos exercícios, e você começou pela lista que ninguém estava cobrando. Passou 1h00 cruzando prescrição com triagem.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do risco que ainda não tinha acontecido. Fono no hospital é muito disso: a bandeja que não chega a quem não deveria comer.

Você foi para o Seu Joaquim primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu o homem que pedia uma colher de sopa. Passou 45 min decidindo se o desejo dele cabia no risco do pulmão.

A deglutição à beira do leito é isso: avaliar com os olhos e as mãos, decidir sem o exame perfeito, e escrever exatamente o que foi liberado.

Você foi para a professora primeiro.

Você começou pelo ambulatório, onde a voz de alguém era o trabalho e o discurso da formatura. Passou 50 min entre o repouso que trata e a semana que ela não quer perder.

Quem cuida de voz cuida do instrumento de trabalho de alguém, e quase nunca pode simplesmente mandar parar.

Você foi para a quimio primeiro.

Havia uma lista, um quarto e um ambulatório, e você foi primeiro a um paciente exausto e à esposa dele. Passou 40 min pesando o engolir de daqui a meses contra o cansaço de hoje.

Reabilitar é pensar no depois de alguém que está ocupado sobrevivendo ao agora, e combinar com ele quanto do agora vale gastar.

As três portas da Fonoaudiologia

Fonoaudiologia não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela idade do paciente.

  • Fonoaudiologia hospitalar. Decidir à beira do leito quem pode comer pela boca, e proteger o pulmão de quem não pode.
  • Voz. Cuidar da voz de quem trabalha com ela, sem poder simplesmente mandar parar.
  • Reabilitação. Pensar no engolir e no falar de depois, com quem ainda está no meio do tratamento.