Um dia na pele de
O laboratório do hospital
Você é a biomédica responsável pelo plantão diurno do laboratório de um hospital de 200 leitos: 1.200 exames por dia, quatro bancadas, uma agência transfusional e uma coleta que abre às 7h. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Cada problema está numa bancada diferente, e o resultado só existe depois que alguém assina. Andar entre elas leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Liberar resultado rápido sem liberar resultado errado.
Profissões com um dia assim: Biomédico · Analista Clínico · Biomédico Hematologista · Especialista em Banco de Sangue
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O laboratório do hospital: o dia por escrito
Você é a biomédica responsável pelo plantão diurno do laboratório de um hospital de 200 leitos: 1.200 exames por dia, quatro bancadas, uma agência transfusional e uma coleta que abre às 7h. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Cada problema está numa bancada diferente, e o resultado só existe depois que alguém assina. Andar entre elas leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Bancada de hematologia: A hemoglobina que subiu sozinha
Os hemogramas dos internados saíram do equipamento. Antes de liberar, a regra do laboratório é comparar com o exame de ontem: hemoglobina não sobe mais de 2 g/dL num dia, a não ser que o paciente tenha recebido sangue.
Quando sobe sem transfusão, quase sempre não é o paciente que mudou. É o tubo que é de outra pessoa.
Ache o paciente cuja hemoglobina subiu mais de 2 g/dL sem transfusão. É esse. Leito 209: subiu 2,6 em um dia, sem transfusão. Não é o paciente melhorando: é provavelmente o sangue de outra pessoa num tubo com a etiqueta dele. E se o sangue dele foi parar em outro tubo, existe um segundo resultado errado em algum lugar do andar. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você achou antes das 9h. O resultado do 209 nunca saiu. A nova coleta mostrou 9,6, e o tubo trocado era do 211, que também foi recoletado. O médico do 209 nem soube que quase leu um número que não era do paciente dele.
- Entre 9h e 11h: Você achou depois das 9h. O resultado do 209 já tinha sido liberado automaticamente às 9h. Você ligou para o andar e cancelou. O médico tinha lido, e tinha suspendido o ferro que o paciente tomava.
- Depois das 11h: Os hemogramas ficaram para depois das 11h. Os hemogramas foram liberados pelo sistema, todos, às 9h. O que quer que tenha sido corrigido depois, foi corrigido com o prontuário de dois pacientes já mostrando o número do outro.
Bancada de bioquímica: O valor crítico que ninguém atende
Um paciente de ambulatório, Seu Antônio, 71 anos, colheu ontem e foi para casa. O potássio dele deu 6,8, valor crítico: pode parar o coração. A regra é avisar o médico que pediu o exame. O consultório dele não atende, o celular cai na caixa postal desde as 7h.
O telefone do Seu Antônio está no cadastro.
- Ligar direto para o paciente e mandar ao pronto-socorro. Você liga. A filha atende, assustada, e leva o Seu Antônio ao pronto-socorro. Lá, o potássio confirma alto, e ele fica em observação. O médico dele liga à tarde, irritado por ter sabido pelo hospital e não por você, e depois agradece.
- Insistir com o médico e registrar cada tentativa. Você liga para o médico de 20 em 20 minutos, deixa recado na secretária e registra cada tentativa no sistema. Ele retorna no fim da manhã, liga para o paciente e o manda ao pronto-socorro. Tudo está registrado. O Seu Antônio passou a manhã em casa, sem saber.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h30: Você foi à bioquímica antes das 8h30. O Seu Antônio ainda estava em casa, tomando café. Qualquer que fosse o caminho, o aviso chegou antes de ele sair para a rua.
- Entre 8h30 e 10h30: Você foi à bioquímica depois das 8h30. O resultado estava em vermelho na tela havia uma hora e meia. O técnico da bancada já tinha tentado o médico duas vezes e anotado num papel.
- Depois das 10h30: A bioquímica ficou para depois das 10h30. O valor crítico ficou em vermelho na tela a manhã inteira. O que quer que tenha sido feito depois, a primeira tentativa registrada no sistema tinha a hora de quase três horas depois do resultado.
Agência transfusional: O-negativo ou a prova cruzada
O centro cirúrgico pede duas bolsas de sangue para uma paciente sangrando na cirurgia. A tipagem dela já saiu: A positivo. A prova cruzada, que confere se o sangue da bolsa combina com o dela, leva 40 minutos.
O protocolo permite liberar O-negativo na hora, sem prova, com o termo assinado pelo médico. Você tem quatro bolsas de O-negativo, o sangue que serve para todo mundo e que o banco quase nunca tem.
- Liberar O-negativo agora, com o termo do médico. As duas bolsas de O-negativo sobem em cinco minutos. A cirurgia continua sem pausa. No estoque, sobram duas bolsas para o resto do dia. No fim do dia, chega uma vítima de acidente sem tipagem, e você usa as duas últimas.
- Fazer a prova cruzada rápida e liberar A positivo. Você corre a prova cruzada e libera duas bolsas de A positivo em 40 minutos. O anestesista liga duas vezes nesse tempo e segura a paciente com soro. O O-negativo fica inteiro no estoque para quem chegar sem tipagem.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à agência antes das 10h. O pedido tinha acabado de chegar. Qualquer que fosse a escolha, ela foi feita antes de o anestesista ligar uma segunda vez.
- Entre 10h e 12h: Você foi à agência depois das 10h. O técnico da agência já tinha separado o O-negativo, esperando a sua assinatura, e o centro cirúrgico já tinha ligado três vezes.
- Depois das 12h: A agência ficou para depois do meio-dia. O técnico da agência decidiu sozinho, com o médico do centro cirúrgico ao telefone. O que quer que tenha sido feito depois, a primeira decisão sobre o sangue saiu sem a responsável técnica na sala.
Coleta: Sessenta pessoas em jejum
Uma coletora faltou, e a fila da coleta dobra o corredor: 60 pessoas, quase todas em jejum desde a noite. Uma senhora diabética já pediu um copo d'água duas vezes. A supervisora da coleta pede: "Você pode colher um pouco? Você sabe."
Se você colher, a sua bancada para, e os resultados dos internados atrasam.
- Ir para a coleta e colher até a fila baixar. Você colhe por duas horas, ao lado da supervisora. A fila cai pela metade. Nas bancadas, os resultados dos internados esperam a sua assinatura. Os médicos da manhã passam visita sem metade dos exames, e o andar liga para o laboratório quatro vezes.
- Ficar nas bancadas e reorganizar a fila por prioridade. Você reorganiza a fila: diabéticos, idosos e crianças primeiro, e pede ao hospital uma coletora de outro setor por meio período. A senhora diabética colhe em dez minutos. O resto da fila espera uma hora a mais, e três pessoas vão embora sem colher.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h: Você foi à coleta antes das 8h. A fila ainda estava no corredor, não na calçada. Qualquer que fosse a decisão, ninguém tinha passado mal.
- Entre 8h e 9h30: Você foi à coleta depois das 8h. A senhora diabética já estava sentada, pálida, com o açúcar baixo. A recepção tinha dado um suco a ela, e agora o exame de glicose dela não valia mais.
- Depois das 9h30: A coleta ficou para depois das 9h30. A fila andou sozinha, devagar, a manhã inteira. O que quer que tenha sido feito depois, o hospital já tinha recebido duas reclamações formais da recepção.
Copa: Café, e o laboratório visto de fora
Duas enfermeiras estão na copa do laboratório, esperando um resultado.
“…o laboratório é uma máquina. Põe o tubo, sai o número.”
O número sai da máquina. Saber se ele é daquele paciente, se faz sentido com o de ontem, se alguém precisa ser avisado agora, isso não sai. Quinze minutos depois, você volta para a bancada sabendo que o seu trabalho é a parte que a máquina não faz.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a enfermagem do segundo andar colheu os doze de uma vez hoje, na correria.
- …o técnico da bioquímica tá ligando pra um médico que não atende desde as sete.
- …o centro cirúrgico ligou de novo pedindo o sangue da sala 3.
- …a fila da coleta tá chegando na calçada. Faltou uma coletora.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Ir para a coleta e colher até a fila baixar” e “Fazer a prova cruzada rápida e liberar A positivo”: Você passou a manhã colhendo e escolheu a prova cruzada para o centro cirúrgico. A prova cruzada esperou você voltar da coleta para ser assinada. O anestesista contou os minutos, e contou em voz alta.
- Se você escolheu “Ligar direto para o paciente e mandar ao pronto-socorro” e “Liberar O-negativo agora, com o termo do médico”: Você ligou direto para o paciente do potássio e liberou O-negativo sem prova cruzada. Duas vezes no mesmo dia, você fez o que o protocolo permite como exceção. As duas estão registradas com o seu nome.
- Se você escolheu “Insistir com o médico e registrar cada tentativa” e “Ficar nas bancadas e reorganizar a fila por prioridade”: Você seguiu o protocolo no potássio e reorganizou a fila em vez de colher. Ficou nas bancadas o dia todo, como responsável técnica. O Seu Antônio e as três pessoas que foram embora da fila não sabem disso.
- Se você escolheu “Liberar O-negativo agora, com o termo do médico” e “Ficar nas bancadas e reorganizar a fila por prioridade”: O O-negativo saiu em cinco minutos e a fila foi reorganizada por prioridade. Você passou o dia decidindo quem vem primeiro, com sangue e com gente. À tarde, o estoque raro tinha duas bolsas, e a fila tinha três pessoas a menos.
Como o dia termina
Você foi para os hemogramas primeiro.
Havia um potássio em vermelho, um centro cirúrgico pedindo sangue e uma fila na calçada, e você comparou hemogramas de ontem e de hoje. Passou 1h05 subtraindo hemoglobinas.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você desconfiou do número antes de liberar. Hematologia é isso: a máquina conta as células, e quem olha é que percebe que elas não são daquele paciente.
Você foi para o valor crítico primeiro.
Você começou pela bioquímica, onde um número em vermelho dizia que um senhor em casa estava em risco. Passou 40 min entre o protocolo, que manda avisar o médico, e o telefone do paciente, que estava no cadastro.
Análises clínicas é isso: o resultado é seu, a decisão é do médico, e às vezes o médico não atende.
Você foi para o sangue primeiro.
Você começou pela agência transfusional, onde uma paciente sangrava e o sangue mais raro estava na geladeira. Passou 45 min entre o que é mais rápido agora e o que vai faltar depois.
Banco de sangue é isso: cada bolsa é de alguém que doou, e cada decisão sobre ela tira de outra pessoa a mesma bolsa.
Você foi para a fila primeiro.
Você começou pela coleta, onde 60 pessoas em jejum esperavam e uma coletora tinha faltado. Passou 50 min entre colher com as próprias mãos e organizar quem colhe primeiro.
O laboratório começa na agulha. O exame mais preciso do mundo depende de alguém ter colhido certo, na hora certa, do paciente certo.
As três portas da Biomedicina
Biomedicina não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo equipamento.
- Análises clínicas. Da agulha ao laudo: o resultado certo, do paciente certo, a quem precisa saber.
- Hematologia. Olhar o sangue além do que a máquina conta.
- Banco de sangue. Decidir para quem vai cada bolsa, sabendo que ela faz falta a outra pessoa.