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Um dia na pele de

A boutique de headhunting

Você é headhunter numa boutique de doze pessoas: diretores financeiros para empresas médias, líderes de tecnologia para startups. A boutique recebe um quarto do salário anual de quem ela coloca, e quem paga é o cliente. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Headhunting não se faz só na planilha: tem candidato esperando na recepção, sócia no aquário, gente que já foi colocada pedindo para conversar. Andar até eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Servir ao cliente que paga sem trair o candidato que confiou em você.

Profissões com um dia assim: Headhunter Executivo · Especialista em Recrutamento Tech

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A boutique de headhunting: o dia por escrito

Você é headhunter numa boutique de doze pessoas: diretores financeiros para empresas médias, líderes de tecnologia para startups. A boutique recebe um quarto do salário anual de quem ela coloca, e quem paga é o cliente. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Headhunting não se faz só na planilha: tem candidato esperando na recepção, sócia no aquário, gente que já foi colocada pedindo para conversar. Andar até eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Bancada dos pesquisadores: Quem não se pode abordar

A pesquisadora montou a lista de candidatos para a busca do novo diretor financeiro do Mercados Aurora. As abordagens começam às 15h, por telefone.

A regra mais velha da boutique: não se tira executivo de quem é cliente. Os clientes ativos são a Rede Sol, a Laticínios Serra, o Banco Ipê e o Grupo Vértice, com as empresas desses grupos: a Ipê Seguros é do Banco Ipê, a Vértice Logística é do Grupo Vértice. Quem trabalha lá fica fora da lista.

Ache os candidatos que trabalham hoje num cliente da boutique. São esses quatro: Laticínios Serra, Ipê Seguros, Rede Sol e Vértice Logística. O Marcos saiu da Rede Sol e pode ser abordado. O Fábio trabalha num mercado com Ipê no nome, que não tem nada a ver com o banco. Os outros oito ficam. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. A pesquisadora trocou os quatro por nomes do mapeamento e ainda conferiu, por conta própria, as empresas de cada um. As ligações começaram às 15h com uma lista limpa.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. Os quatro saíram, mas não deu tempo de repor. As ligações começaram com oito nomes em vez de doze, e a primeira rodada vai demorar mais uma semana.
  • Depois das 15h: A lista ficou para depois das 15h. Às 15h a pesquisadora começou as ligações pela ordem da lista. O que quer que se faça agora, alguém de um cliente da boutique pode já ter atendido o telefone.

Sala da sócia: O que o ex-chefe disse fora do registro

A Vera, sócia da boutique, fecha a porta do aquário. O Otávio é o finalista de uma busca de quatro meses, e o cliente quer assinar a proposta às 15h. Na checagem de referências, o ex-chefe dele disse, pedindo para não ser citado, que ele saiu da empresa anterior depois de uma denúncia de assédio moral. Nada foi provado.

As outras duas referências foram ótimas. O Otávio não sabe dessa conversa.

  • Contar ao cliente, dizendo que não foi provado. Você liga para o cliente e conta exatamente o que ouviu, e que não há prova. Ele agradece e pede uma semana para pensar. O Otávio recebe, à tarde, um e-mail dizendo que o processo vai demorar "mais alguns dias". A Vera calcula quantos meses a busca pode voltar.
  • Não contar e pedir mais uma semana de referências. Você diz ao cliente que quer ouvir mais duas pessoas antes da proposta. Ele estranha, depois de quatro meses, e pergunta se tem algo errado. Você diz que é cuidado. As duas novas referências vão chegar na sexta, e até lá a única pessoa que sabe o motivo da espera é você.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. O cliente ainda não tinha mandado a proposta para o jurídico dele. Qualquer decisão chegava antes de existir um papel.
  • Entre 11h e 15h: Você entrou depois das 11h. O jurídico do cliente já estava revisando a proposta. Você entrou numa conversa em que a contratação já tinha andado.
  • Depois das 15h: O aquário ficou para depois das 15h. Às 15h o cliente esperava a sua confirmação para mandar a proposta, e a Vera atendeu no seu lugar. O que quer que tenha sido dito depois, foi dito por quem não ouviu o ex-chefe.

Recepção: O salário acima da faixa

O Diego, finalista para CTO de uma startup de logística, está no sofá da recepção. Ele é o melhor candidato da busca e diz, sem rodeio: quer R$ 45 mil por mês. A faixa do cliente vai até R$ 32 mil. Ele tem outra proposta, que vale até sexta.

A boutique recebe um quarto do salário anual de quem coloca. Quanto maior o salário, maior a comissão. O cliente sabe disso.

  • Levar ao cliente pedindo exceção. Você liga para o cliente e defende o Diego com o que ele fez nos últimos três empregos. O cliente escuta e pergunta, meio rindo, se você está defendendo o candidato ou a comissão. Ele promete responder na quinta, um dia antes da outra proposta vencer.
  • Conversar com o Diego para caber na faixa. Você explica a faixa e o que a startup oferece além do salário: ações, time, problema. O Diego ouve com educação e diz que vai pensar até sexta. Na saída, comenta que achava que você trabalhava para ele também.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à recepção antes das 10h30. O Diego tinha chegado cedo e ainda estava com o café na mão. A conversa foi sem pressa, antes da reunião dele das 11h.
  • Entre 10h30 e 13h: Você foi à recepção depois das 10h30. Ele já tinha esperado quarenta minutos e respondido a outra empresa pelo celular. Você entrou numa conversa em que ele já estava comparando.
  • Depois das 13h: A recepção ficou para depois das 13h. O Diego foi embora às 13h depois de esperar a manhã inteira, e mandou o número por e-mail. O que quer que tenha sido decidido depois, ele saiu daqui achando que a boutique não tinha tempo para ele.

Sala de entrevista: A garantia de 90 dias

O Lucas, desenvolvedor que você colocou numa fintech cliente há dois meses, pediu para conversar e está na sala de entrevista. O gestor dele muda as prioridades toda semana e já gritou com o time duas vezes. Ele quer sair, e quer que você o ajude a achar outra vaga.

O contrato com a fintech tem uma garantia: se o Lucas sair antes de 90 dias, a boutique repõe a vaga de graça. Faltam 28 dias. E a fintech é cliente: tirar alguém de lá é a regra que a boutique não quebra.

  • Levar o problema à fintech, com o cuidado de não expô-lo. Você explica ao Lucas a regra e pede para falar com o RH da fintech sem citar o nome dele. O RH agradece e diz que "já desconfiava" do gestor. O Lucas sai da sala dizendo que entendeu, num tom de quem entendeu que você trabalha para a fintech.
  • Pôr o Lucas na sua lista de candidatos. Você diz ao Lucas que vai ver o que aparece e põe o currículo dele numa pasta à parte. Ele agradece duas vezes. Se ele sair antes dos 90 dias, a boutique repõe a vaga de graça. Se sair depois por uma vaga sua, a fintech vai saber de onde veio a ligação.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi à sala de entrevista antes do meio-dia. O Lucas tinha pedido a manhã de folga para vir. Deu para ouvir a história inteira, sem ele olhar o relógio.
  • Entre 12h e 16h: Você foi à sala de entrevista depois do meio-dia. O Lucas já tinha recebido duas mensagens do gestor perguntando onde ele estava. Vocês conversaram com o celular dele vibrando na mesa.
  • Depois das 16h: O Lucas ficou para depois das 16h. Às 16h o Lucas precisou voltar para a fintech e saiu sem ter falado com você. O que quer que se converse depois, vai ser por mensagem, com ele no escritório do gestor de quem quer sair.

Copa: Café, e o headhunter visto de fora

Um candidato de outra busca espera a vez na copa e fala ao telefone, sem baixar a voz.

“…headhunter é corretor de gente. Fica com 25% e some depois que você assina.”

Ele não sabe da garantia, nem do Lucas na sala ao lado. Quinze minutos depois, você volta para o corredor sabendo que, para muita gente, é isso que você faz.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a pesquisadora começa a ligar pra lista do CFO às três.
  • …a Vera tá no aquário desde cedo. O cliente do Otávio quer assinar hoje.
  • …o moço da recepção perguntou de novo se você já vem. Disse que tem outra proposta.
  • …aquele dev que vocês colocaram na fintech tá na sala de entrevista. Pediu folga pra vir.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Não contar e pedir mais uma semana de referências” e “Levar ao cliente pedindo exceção”: Na mesma segunda, um cliente ouviu que precisava esperar mais uma semana e outro ouviu que precisava pagar mais. A Vera passou a tarde ao telefone com os dois e, na terça, pediu que qualquer pedido de exceção passasse por ela antes.
  • Se você escolheu “Levar o problema à fintech, com o cuidado de não expô-lo” e “Conversar com o Diego para caber na faixa”: No mesmo dia, você levou o problema do Lucas à fintech e pediu ao Diego que coubesse na faixa do cliente. Os dois candidatos saíram da boutique com a mesma impressão sobre para quem você trabalha.
  • Se você escolheu “Levar o problema à fintech, com o cuidado de não expô-lo” e “Contar ao cliente, dizendo que não foi provado”: Dois clientes receberam de você, no mesmo dia, uma notícia que não pediram: o gestor da fintech e o passado do Otávio. A fintech agradeceu. O Mercados Aurora também. Nenhum dos dois fechou nada novo com a boutique naquela semana.
  • Se você escolheu “Pôr o Lucas na sua lista de candidatos” e “Levar ao cliente pedindo exceção”: O Lucas foi para a pasta à parte, e o Diego, para um pedido de exceção. Na sexta, a Vera abriu o sistema e perguntou por que havia um contratado de cliente na sua lista de candidatos.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia uma sócia no aquário, um finalista na recepção e um contratado querendo sair, e você abriu a lista de candidatos. Passou 1h10 conferindo empresa por empresa.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que só aparece quando alguém atende o telefone. Pesquisa de mercado é isso: saber quem está onde antes de alguém ligar.

Você foi para a sócia primeiro.

Você começou pelo aquário, onde uma busca de quatro meses dependia de uma frase dita fora do registro. Passou 50 min entre o que o cliente precisa saber e o que o candidato merece.

Busca de executivos é isso: cada colocação é uma aposta na reputação de duas pessoas, e a sua vai junto.

Você foi para o candidato primeiro.

Você começou pela recepção, onde o melhor candidato da busca estava pedindo mais do que o cliente pagava. Passou 45 min entre o número dele, a faixa do cliente e a sua comissão no meio.

Recrutamento de tecnologia é isso: os bons têm outra proposta, quase sempre, e você negocia sabendo que ganha mais se ele ganhar mais.

Você foi para o Lucas primeiro.

Você começou pela sala de entrevista, onde estava alguém que você colocou e que agora queria sair. Passou 45 min entre a garantia do contrato e a pessoa do outro lado da mesa.

O trabalho não acaba na assinatura: quem coloca gente continua respondendo por ela, para o cliente e para ela mesma.

As três portas de Talent Acquisition

Talent acquisition não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.

  • Busca de executivos. Achar a pessoa certa para um cargo de cima, e responder pela aposta.
  • Recrutamento de tecnologia. Disputar quem todo mundo quer, com salário, proposta e prazo na mesa.
  • Pesquisa e mapeamento. Saber quem está onde no mercado antes de alguém pegar o telefone.