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Um dia na pele de

O laboratório da fábrica de protetor solar

Você é a química do controle de qualidade de uma fábrica de cosméticos com 300 funcionários: protetor solar, hidratante e xampu, 60 lotes por mês, e nenhum vai para o caminhão sem a sua assinatura no laudo. Nesta terça-feira de outubro, com o verão chegando, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Química de fábrica não fica só na bancada: o creme está na linha, o fornecedor está na diretoria, a reclamação está na garantia da qualidade. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Assinar que o lote está bom com a fábrica inteira esperando a assinatura.

Profissões com um dia assim: Analista Químico · Químico · Químico Analítico · Especialista em Cosmetologia · +1

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O laboratório da fábrica de protetor solar: o dia por escrito

Você é a química do controle de qualidade de uma fábrica de cosméticos com 300 funcionários: protetor solar, hidratante e xampu, 60 lotes por mês, e nenhum vai para o caminhão sem a sua assinatura no laudo. Nesta terça-feira de outubro, com o verão chegando, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Química de fábrica não fica só na bancada: o creme está na linha, o fornecedor está na diretoria, a reclamação está na garantia da qualidade. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Laboratório de controle de qualidade: O laudo que todo mundo quer assinado

O lote 0412 do protetor FPS 50 está paletizado na expedição: 18 mil frascos para uma rede de farmácias, com o caminhão marcado para as 15h. O técnico deixou na sua bancada os doze resultados do lote, com a especificação de cada ensaio ao lado.

O FPS passou, e é o número que a fábrica inteira pergunta. Mas o laudo só se assina com os doze dentro da faixa.

Ache os ensaios com resultado fora da especificação. São esses dois. A viscosidade passou do teto, e o octocrileno, um dos filtros do sol, ficou abaixo do mínimo. O FPS de hoje passou raspando com 51; com menos filtro, o frasco aberto na praia em janeiro pode não segurar o 50 do rótulo. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você fechou o laudo antes das 10h. Deu tempo de avisar a expedição e o comercial com a manhã inteira pela frente: a rede de farmácias soube do atraso por telefone, não pelo caminhão que não chegou.
  • Entre 10h e 14h: Você fechou o laudo depois das 10h. A expedição já tinha embalado os paletes no filme e mandado a nota fiscal. Desfazer custou uma nota cancelada e uma explicação para a rede antes do almoço dela.
  • Depois das 14h: O laudo ficou para depois das 14h. O caminhão encostou às 15h com o lote ainda sem laudo. A fábrica inteira passou a tarde esperando uma assinatura, e a decisão foi tomada com o motorista buzinando no pátio.

Sala da diretoria: O emoliente que sai mais barato

O diretor industrial tem na mesa a proposta de um fornecedor novo do emoliente que vai em todos os cremes da fábrica: 18 por cento mais barato. O certificado de análise do fornecedor está impecável.

O procedimento da fábrica pede três lotes analisados aqui dentro antes de trocar. Isso são seis semanas, e compras quer fechar o pedido do verão nesta semana.

  • Aprovar com o certificado do fornecedor. Você assina a troca com base no certificado e numa análise rápida de identificação. O pedido do verão sai com o emoliente novo. O diretor agradece, e o próximo hidratante da linha vai ser o primeiro feito com ele.
  • Exigir os três lotes de qualificação. Você pede as três amostras e explica o prazo. O diretor diz que compras vai ter de comprar o verão inteiro do fornecedor antigo, ao preço antigo. Ele assina, e anota na proposta a data em que vai voltar a perguntar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você entrou antes das 10h30. Compras ainda não tinha respondido ao fornecedor. A conversa aconteceu antes de o preço virar promessa.
  • Entre 10h30 e 13h30: Você entrou depois das 10h30. Compras já tinha dito ao fornecedor que estava quase fechado. Qualquer coisa que você dissesse ia desfazer, ou confirmar, uma palavra que já tinha sido dada sem você.
  • Depois das 13h30: A diretoria ficou para depois das 13h30. O diretor mandou um e-mail perguntando se a qualidade tinha objeção, com prazo até o fim do dia. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido por e-mail, e a explicação do procedimento coube em duas linhas.

Linha de envase: O creme que saiu mais fino

Na linha de envase do hidratante, o operador mostra uma bisnaga aberta: o creme está mais fino que o normal. O turno da noite subiu a temperatura do tanque de 40 para 55 °C, porque assim a envasadora corre mais rápido, e ninguém avisou o laboratório.

Já saíram 6 mil bisnagas assim. Dentro da faixa de viscosidade ainda estão. Ninguém sabe como o creme vai estar em março.

  • Parar a linha e voltar a 40 °C. A linha para, o tanque esfria e as 6 mil bisnagas vão para quarentena até a estufa dizer alguma coisa. O supervisor de produção avisa que o pedido do hidratante vai atrasar quatro dias e que vai pôr isso no relatório da semana.
  • Deixar rodar e pôr amostras na estufa. A linha segue a 55 °C e você separa amostras de cada hora para a estufa a 40 °C. O pedido sai no prazo. Se o creme separar na estufa em um mês, as bisnagas já vão estar nas prateleiras.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à linha antes das 9h30. O lote ainda estava no começo. O que fosse decidido valia para quase tudo o que ia sair hoje, não para o que já tinha saído.
  • Entre 9h30 e 12h30: Você foi à linha depois das 9h30. A envasadora correu a manhã inteira a 55 °C. Quando você chegou, as 6 mil bisnagas tinham virado 14 mil.
  • Depois das 12h30: A linha ficou para depois das 12h30. O lote inteiro saiu a 55 °C antes de alguém do laboratório pôr a mão numa bisnaga. O que quer que se decidisse depois, decidia sobre caixas já fechadas no depósito.

Garantia da qualidade: A terceira reclamação do mesmo lote

O SAC passou para a garantia da qualidade a terceira reclamação da semana sobre o lote 0388 do protetor infantil: "ardeu no rosto do meu filho". As três falam de ardência leve, nenhuma de ida ao médico. O lote tem 9 mil frascos, quase todos já nas farmácias.

A amostra de retenção está no arquivo. Analisar leva cinco dias.

  • Bloquear o lote e recolher das farmácias. Você bloqueia o 0388 e o comercial começa a ligar para as farmácias. O recolhimento custa o frete de 9 mil frascos e uma conversa difícil com a maior rede. Cinco dias depois, a análise vai dizer se era o lote ou se eram três peles sensíveis.
  • Abrir investigação e analisar a retenção. Você abre a investigação, pede a amostra de retenção e registra as três reclamações na cosmetovigilância. O lote continua nas farmácias. Se uma quarta reclamação chegar antes do resultado, a decisão volta para a sua mesa.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à garantia da qualidade antes das 9h. As três reclamações ainda eram só três. Deu para decidir antes de o SAC abrir o expediente e o telefone voltar a tocar.
  • Entre 9h e 12h: Você foi à garantia da qualidade depois das 9h. Às 10h chegou a quarta reclamação, de uma mãe que postou a foto do frasco com o número do lote. O que era investigação virou também resposta pública.
  • Depois das 12h: As reclamações ficaram para depois do meio-dia. A manhã inteira passou com três reclamações sem dono na garantia da qualidade. Quando alguém decidiu, a rede de farmácias já tinha ligado perguntando o que a fábrica ia fazer.

Refeitório: Café, e a qualidade vista da linha

Dois operadores do envase estão na fila do café.

“…o laboratório é onde o lote vai para esperar. A gente produz, eles seguram.”

O lote de ontem ficou parado seis horas porque faltava um padrão para a análise, e ninguém na linha soube por quê. Quinze minutos depois, você volta com isso: a sua assinatura, para quem envasa, é uma fila.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o caminhão da rede de farmácias vem às três. Só falta o laudo.
  • …o pessoal da noite subiu o tanque para 55. Diz que a envasadora voa.
  • …compras disse que o emoliente novo sai quase um quinto mais barato.
  • …a moça do SAC disse que é a terceira ligação do protetor infantil.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Aprovar com o certificado do fornecedor” e “Deixar rodar e pôr amostras na estufa”: Você aprovou o emoliente novo pelo certificado e deixou a linha rodar a 55 °C. O próximo hidratante vai sair com matéria-prima nova e processo novo, e a estufa vai responder pelas duas coisas ao mesmo tempo, sem dizer qual foi qual.
  • Se você escolheu “Exigir os três lotes de qualificação” e “Bloquear o lote e recolher das farmácias”: No mesmo dia, você segurou a economia do fornecedor por seis semanas e mandou recolher 9 mil frascos. Na reunião de quinta, o diretor vai somar as duas contas na mesma folha.
  • Se você escolheu “Deixar rodar e pôr amostras na estufa” e “Abrir investigação e analisar a retenção”: Você deixou a linha rodar com amostras na estufa e o lote infantil nas farmácias com a retenção em análise. Daqui a cinco dias e daqui a trinta, duas respostas chegam na sua bancada, e as duas decidem sobre produto que já saiu.
  • Se você escolheu “Parar a linha e voltar a 40 °C” e “Bloquear o lote e recolher das farmácias”: Você parou a linha do hidratante e bloqueou o protetor infantil na mesma manhã. O comercial passou a tarde ligando para clientes com duas notícias de atraso, e na linha o laboratório virou assunto do café.

Como o dia termina

Você foi para a bancada primeiro.

Havia um diretor com um fornecedor mais barato, um creme saindo fino na linha e três reclamações sem dono, e você abriu o laudo do lote. Passou 1h30 conferindo doze faixas, inclusive as que ninguém pergunta.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do resultado antes da conversa. No controle de qualidade, o trabalho é esse: o número da bancada decide se o lote sai, e às vezes decide contra o caminhão.

Você foi para a diretoria primeiro.

Você começou pela conversa em que o procedimento estava em jogo contra a economia. Passou 45 min decidindo quanto vale um certificado que vem de fora.

Quem trabalha com garantia da qualidade vive essa mesa: cada troca de matéria-prima é uma economia para alguém e um risco que fica com quem assina.

Você foi para a linha primeiro.

Você começou pelo envase, onde um creme estava saindo diferente da fórmula. Passou 50 min entre a bisnaga aberta e o tanque a 55 °C.

Formulação é isso: a receita que funciona na bancada tem de aguentar a pressa da fábrica, e quem formula descobre na linha o que o papel não disse.

Você foi para as reclamações primeiro.

Você começou pelas três mães que escreveram para o SAC. Passou 40 min decidindo entre parar um lote inteiro e esperar o dado da retenção.

Cosmetovigilância e regulatório vivem disso: o produto já está na pele de alguém, e a decisão tem que ser tomada antes de a análise terminar.

As três portas da química de fábrica

Química de fábrica não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo produto.

  • Controle de qualidade. Analisar a amostra e dizer, com número, se o lote está dentro da especificação.
  • Garantia da qualidade e regulatório. Cuidar do procedimento, do fornecedor e da reclamação: o que garante que o próximo lote também vai estar bom.
  • Desenvolvimento de formulação. Criar e ajustar a fórmula para que ela aguente a fábrica, a prateleira e a pele.