Um dia na pele de
Uma sexta de psiquiatria num CAPS
Você é a psiquiatra do CAPS de uma cidade de 200 mil habitantes, o Centro de Atenção Psicossocial do SUS: o lugar para onde vai quem tem sofrimento mental grave, de dia, sem precisar ficar internado. São duas psiquiatras para 900 pacientes em acompanhamento. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no consultório: está na recepção, na farmácia, na sala da equipe. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Cuidar de quem está em crise sem tirar a pessoa da vida dela.
Profissões com um dia assim: Psiquiatra
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Uma sexta de psiquiatria num CAPS: o dia por escrito
Você é a psiquiatra do CAPS de uma cidade de 200 mil habitantes, o Centro de Atenção Psicossocial do SUS: o lugar para onde vai quem tem sofrimento mental grave, de dia, sem precisar ficar internado. São duas psiquiatras para 900 pacientes em acompanhamento. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no consultório: está na recepção, na farmácia, na sala da equipe. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Farmácia: Quem não pode receber hoje
Doze pacientes tomam clozapina, o remédio que funciona quando nenhum outro funcionou na esquizofrenia. Ele tem um risco raro e grave: derrubar os neutrófilos, as células que defendem o corpo de infecção. Por isso, cada caixa só sai da farmácia com hemograma recente. A farmácia entrega a remessa do mês hoje, até as 15h.
O laboratório manda os leucócitos totais e a porcentagem de neutrófilos. Quem tem menos de 1.500 neutrófilos por mm³ não pode receber.
Ache os pacientes com menos de 1.500 neutrófilos por mm³. São esses quatro. Benedita: 42% de 3.200 são 1.344. Edson: 26% de 5.500 são 1.430, com leucócitos normais. Geraldo: 1.444. Joana: 1.426. A Dalva tem os leucócitos mais baixos de todos, mas 58% de 2.900 dão 1.682. A Helena fica em 1.500 exatos, e pode receber. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você achou antes das 10h. Deu tempo de a enfermeira ligar para os quatro e marcar coleta de sangue para segunda cedo, com a explicação de por que a caixa ficou.
- Entre 10h e 15h: Você achou depois das 10h. Os quatro foram segurados antes de a remessa sair, mas o Edson já estava na fila da farmácia e foi embora sem entender por que não levou.
- Depois das 15h: Os exames ficaram para depois das 15h. A farmácia entregou a remessa às 15h, como entrega todo mês. O que quer que tenha sido achado depois, quatro pessoas com a defesa baixa foram para casa com um mês de clozapina, e a enfermeira passou a tarde ligando para elas.
Recepção: Os vizinhos estão escutando
O Rogério, 34 anos, com esquizofrenia, chegou com a mãe. Parou o remédio há três semanas, não dorme, diz que os vizinhos instalaram microfones na parede e não quer sentar. Não está agressivo, mas está com medo de tudo, inclusive de você.
A mãe, Dona Lúcia, pede internação: "Eu não aguento mais sozinha." O CAPS pode acolher o Rogério durante o dia, com medicação e equipe, e ele volta para casa à noite. Há um leito psiquiátrico livre no hospital geral.
- Encaminhar para o leito do hospital geral. Você conversa com o Rogério, que aceita ir, desconfiado, com a mãe ao lado. A ambulância leva os dois. A Dona Lúcia agradece chorando. No hospital, ele vai dividir o quarto com mais três, longe de casa e dos vizinhos.
- Acolher no CAPS durante o dia. Você reinicia o remédio e o Rogério passa o dia no CAPS, entre a sala de convivência e a horta, com a equipe por perto. À tarde, já senta. Volta para casa à noite com a Dona Lúcia e com o telefone do plantão. Ela vai embora cansada, sem saber se dorme.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi à recepção antes das 9h. O Rogério tinha acabado de chegar, ainda na porta. Deu para conversar com ele lá fora, longe das outras pessoas da recepção.
- Entre 9h e 11h: Você foi à recepção depois das 9h. O Rogério andou de um lado para o outro na recepção por uma hora, e duas pessoas da fila mudaram de lugar. Você chegou com ele mais assustado do que tinha entrado.
- Depois das 11h: A recepção ficou para depois das 11h. A enfermeira acolheu o Rogério sozinha a manhã inteira e chamou a outra psiquiatra, que estava no meio de outra consulta. O que quer que tenha sido decidido depois, a Dona Lúcia já tinha esperado três horas.
Consultório: Doze anos de calmante
A Dona Sueli, 58 anos, toma clonazepam todas as noites há doze anos, desde que o marido morreu. O médico que receitou se aposentou. Ela veio só pela receita: "Sem ele eu não durmo, doutora."
Depois de tanto tempo, o remédio já não faz o efeito do começo, aumenta o risco de queda e de esquecimento. Tirar exige meses, devagar, com ela querendo.
- Renovar e marcar uma conversa sobre retirar. Você renova a receita por dois meses e marca o retorno, dizendo que quer conversar sobre o remédio. A Dona Sueli agradece e guarda a receita na bolsa com cuidado. Na porta, pergunta se da próxima vez vai ter receita também.
- Renovar com a dose já reduzida. Você explica os riscos e propõe começar hoje, com um quarto a menos da dose. A Dona Sueli fica em silêncio, depois aceita, com os olhos cheios. Pergunta o que faz se não dormir. Você combina com ela uma ligação na terça.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao consultório antes das 10h30. A Dona Sueli estava na hora marcada, e a consulta teve os 30 minutos inteiros.
- Entre 10h30 e 14h: Você foi ao consultório depois das 10h30. A Dona Sueli esperou uma hora e meia na cadeira do corredor, e a consulta foi encurtada para caber a próxima.
- Depois das 14h: O consultório ficou para depois das 14h. A Dona Sueli esperou até onde aguentou e foi à farmácia popular perguntar se dava para comprar sem receita. O que quer que tenha sido conversado depois, foi pelo telefone, com ela já em casa.
Sala da equipe: Cento e quarenta esperando
A coordenadora traz o pedido da Secretaria de Saúde: zerar em três meses a fila de 140 pessoas que esperam a primeira consulta psiquiátrica. A proposta é baixar a consulta de 30 para 15 minutos.
A psicóloga e a enfermeira têm outra ideia: boa parte da fila é ansiedade e insônia leves, que o médico de família da unidade básica poderia acompanhar, com o CAPS dando apoio uma vez por semana. Só que os médicos das unidades básicas dizem que já estão sobrecarregados.
- Aceitar as consultas de 15 minutos. Você aceita, e a coordenadora leva o novo horário à Secretaria. A fila vai cair pela metade em três meses. Você calcula quantos minutos sobram para ouvir alguém que chega pela primeira vez: quinze, com a receita incluída.
- Manter 30 minutos e levar os casos leves às unidades básicas. Você se oferece para ir às unidades básicas uma manhã por semana, discutir os casos com os médicos de família. A coordenadora topa, sem certeza. A fila vai andar mais devagar, e cada unidade básica vai receber uns vinte pacientes que achavam que iam ao psiquiatra.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à sala da equipe antes das 11h. A reunião ainda estava começando, e a coordenadora ainda não tinha respondido à Secretaria. A equipe decidiu junto.
- Entre 11h e 15h: Você foi à sala da equipe depois das 11h. A equipe já tinha votado sem você, e você entrou para dizer se concordava com o que já estava na ata.
- Depois das 15h: A sala da equipe ficou para depois das 15h. A coordenadora respondeu à Secretaria com o que a equipe decidiu de manhã. O que quer que tenha sido dito depois, a agenda nova já estava no sistema.
Copa: Café, e o CAPS visto de dentro
O Seu Nelson, paciente há oito anos, ajuda a lavar as xícaras, como faz toda sexta.
“…antes do CAPS eu ficava internado dois meses por ano. Agora venho aqui, tomo meu café, cuido da horta. Faz cinco anos que não durmo fora de casa.”
Ele seca a última xícara e volta para a horta. Quinze minutos depois, você volta ao consultório pensando que é para isso que o CAPS existe.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …tem um rapaz na recepção dizendo que os vizinhos põem microfone na parede. A mãe tá chorando.
- …a farmácia entrega a clozapina hoje às três. Falta alguém olhar os exames.
- …a Secretaria quer zerar a fila em três meses. Falaram em consulta de quinze minutos.
- …a Dona Sueli tá esperando desde cedo. Disse que é só a receita.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Encaminhar para o leito do hospital geral”: O Rogério ficou doze dias no hospital geral. Quando voltou ao CAPS, perguntou à enfermeira por que a médica o tinha mandado para longe. Depois, perguntou se podia ficar na horta.
- Se você escolheu “Acolher no CAPS durante o dia” e “Aceitar as consultas de 15 minutos”: Na mesma sexta, você passou a manhã ajudando o Rogério a ficar perto de casa e aceitou consultas de quinze minutos para quem chega pela primeira vez. A Dona Lúcia ligou para o plantão às duas da manhã, e o Rogério dormiu às quatro.
- Se você escolheu “Renovar e marcar uma conversa sobre retirar” e “Aceitar as consultas de 15 minutos”: A Dona Sueli voltou dois meses depois para a conversa sobre o remédio. A consulta tinha quinze minutos, e a conversa ficou para a próxima de novo.
- Se você escolheu “Renovar com a dose já reduzida” e “Manter 30 minutos e levar os casos leves às unidades básicas”: Você começou a tirar o calmante da Dona Sueli e prometeu ir às unidades básicas toda semana. Na terça, ligou para ela entre dois casos discutidos com o médico de família. Ela tinha dormido.
Como o dia termina
Você foi para os exames primeiro.
Havia um paciente em crise na recepção, uma senhora esperando a receita e uma reunião sobre a fila, e você abriu os hemogramas da clozapina. Passou 1h10 multiplicando leucócitos por porcentagem.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para o risco que não faz barulho. Psiquiatria também é isso: remédio forte, que muda vidas, e uma conta de sangue que decide se ele pode continuar.
Você foi para a crise primeiro.
Você começou pela recepção, com o Rogério com medo dos vizinhos e a mãe sem forças. Passou 1h00 entre a proteção do hospital e a vida perto de casa.
Atender crise é isso: decidir, com a pessoa assustada na sua frente, onde ela vai passar a noite.
Você foi para o consultório primeiro.
Você começou pela Dona Sueli, com doze anos de calmante e o pedido de uma receita. Passou 40 min entre o sono de hoje e o risco dos próximos anos.
O consultório psiquiátrico é isso: a maior parte do trabalho é conversa, e a receita é o fim dela, não o começo.
Você foi para a fila primeiro.
Você começou pela sala da equipe, onde 140 pessoas esperavam uma primeira consulta. Passou 50 min entre atender mais rápido e espalhar o cuidado pela rede.
Saúde mental pública é isso: duas psiquiatras não dão conta de uma cidade, e o trabalho também é decidir quem cuida de quem.
As três portas da Psiquiatria
Psiquiatria não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tempo do cuidado: os anos de acompanhamento, as horas da crise e a cidade inteira.
- Consultório e farmacologia. Acompanhar cada paciente por anos, na conversa e no remédio.
- Crise e internação. Atender quem chega em crise e decidir onde ele fica protegido.
- Rede de saúde mental. Organizar o cuidado de uma cidade: CAPS, unidades básicas, hospital e família.