Um dia na pele de
A psicomotricidade numa clínica infantil
Você é psicomotricista numa clínica multidisciplinar infantil em Belo Horizonte, ao lado de fono, psicóloga e terapeuta ocupacional: circuitos, bolas, tatame e brincadeira com crianças que tropeçam, se agitam, não conseguem segurar o lápis ou ficar paradas. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O trabalho não fica só na sala do tatame: a família está na sala de família, a escola está no telefone da recepção, a fila está na coordenação. Andar pela clínica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Ver no corpo da criança o que ninguém perguntou, e dizer só o que dá para afirmar.
Profissões com um dia assim: Psicomotricista
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A psicomotricidade numa clínica infantil: o dia por escrito
Você é psicomotricista numa clínica multidisciplinar infantil em Belo Horizonte, ao lado de fono, psicóloga e terapeuta ocupacional: circuitos, bolas, tatame e brincadeira com crianças que tropeçam, se agitam, não conseguem segurar o lápis ou ficar paradas. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O trabalho não fica só na sala do tatame: a família está na sala de família, a escola está no telefone da recepção, a fila está na coordenação. Andar pela clínica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sala de psicomotricidade: Não conseguir não é atraso
O Lucas tem 6 anos e 4 meses. Na sexta, você passou com ele as doze tarefas da avaliação, e a professora dele escreveu que ele é "muito atrasado no motor". Ele não conseguiu fazer metade.
Só que cada tarefa tem uma idade em que a maioria das crianças já consegue. Não conseguir o que se espera aos 7 anos, aos 6 é esperado. Não conseguir o que se espera até os 6, aí sim, diz alguma coisa.
Ache as tarefas que o Lucas não fez e que a maioria já faz até os 6 anos. São essas três: ficar num pé só, copiar o quadrado e saltitar. Equilíbrio e organização do movimento, que a maioria já tem antes dos 6. As outras quatro que ele não fez são de 7 anos: corda, cadarço, losango e bicicleta ainda não são dele. O Lucas não é "muito atrasado no motor". Tem três coisas para trabalhar. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você fechou a avaliação antes das 10h. O relatório chegou à escola antes da reunião das 14h sobre o Lucas. A professora leu "três coisas para trabalhar" antes de falar com a mãe.
- Entre 10h e 13h30: Você fechou a avaliação depois das 10h. O relatório chegou à escola na hora do almoço. A coordenadora leu; a professora entrou na reunião das 14h com o bilhete dela na mão, não com o seu.
- Depois das 13h30: A avaliação ficou para depois das 13h30. A reunião da escola sobre o Lucas aconteceu às 14h só com o bilhete da professora. O que quer que tenha sido escrito depois, a mãe já tinha ouvido "muito atrasado" sentada na frente dela.
Sala de família: De duas para uma
A Sofia, de 4 anos, vem duas vezes por semana há quatro meses, e começou a subir escada sem segurar no corrimão. O convênio negou a renovação. Os pais estão na sala de família e fizeram a conta: só cabe uma sessão por semana.
Você sabe que o ganho dela veio da repetição. A clínica tem tabela, e desconto passa pela coordenação.
- Manter duas sessões e pedir desconto à coordenação. Você diz aos pais que vai tentar, e a coordenação aprova 30 por cento na segunda sessão, descontado do seu repasse. A Sofia segue duas vezes por semana. Os pais agradecem, e a coordenadora avisa que vai ter de ser assim para todo mundo que pedir.
- Reduzir para uma e montar um plano para casa. Você reduz para uma sessão e grava com o celular dos pais três brincadeiras para fazer em casa, todo dia, dez minutos. O pai anota tudo. Daqui a um mês, você vai saber se a escada continuou subindo sem corrimão, e isso vai depender da sala da casa deles.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi à sala de família antes das 9h. Os pais tinham chegado havia pouco. A conversa coube com calma, antes de eles terem de voltar ao trabalho.
- Entre 9h e 11h: Você foi à sala de família depois das 9h. O pai já tinha ido trabalhar e deixou a mãe sozinha. A decisão foi tomada com metade da família, e a outra metade vai ouvir em casa.
- Depois das 11h: A sala de família ficou para depois das 11h. Os pais foram embora às 11h e deixaram recado na recepção: "a partir da semana que vem, só uma vez". O que quer que tenha sido combinado depois, foi por mensagem.
Recepção: O relatório para o apoio
A coordenadora da escola do Davi, de 8 anos, está no telefone da recepção. Ela precisa de um relatório seu para pedir à secretaria de educação um profissional de apoio na sala dele. O prazo do pedido fecha hoje às 15h.
Você atende o Davi há dois meses, na clínica. Nunca o viu na escola, onde ele, segundo ela, "não para quieto e derruba os colegas na fila".
- Escrever hoje com o que você viu na clínica. Você escreve o que observou: o Davi tem dificuldade de controlar a força e a distância do corpo, e melhora com pausas de movimento. O pedido entra no prazo. A coordenadora lê e pergunta se pode acrescentar "precisa de apoio integral". Você diz que não foi isso que você viu.
- Pedir para observar o Davi na escola antes. Você combina uma manhã na escola na semana que vem, sem cobrar. O prazo de hoje passa, e o próximo pedido só abre no semestre que vem. A coordenadora agradece, sem esconder que preferia o papel hoje.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à recepção antes das 10h30. A coordenadora ainda estava no telefone, com tempo para explicar o que a escola via. Você decidiu ouvindo a escola, não lendo um recado.
- Entre 10h30 e 15h: Você foi à recepção depois das 10h30. A coordenadora tinha desligado e deixado um recado com a recepcionista, em três linhas. Você decidiu com o recado e um retorno de ligação que caiu duas vezes.
- Depois das 15h: A recepção ficou para depois das 15h. O prazo da secretaria fechou às 15h. O que quer que tenha sido decidido depois, o pedido deste semestre já tinha ido sem o seu relatório.
Coordenação: Seis no tatame
A coordenadora da clínica tem uma lista de 40 crianças esperando vaga com você, algumas há cinco meses. A proposta dela: em vez de uma criança por hora, grupos de seis, três vezes por semana.
Grupo funciona bem para quem precisa aprender a esperar a vez, dividir espaço e brincar junto. Para quem precisa de atenção no detalhe do movimento, rende menos.
- Aceitar os grupos de seis. Você aceita, e a coordenadora chama 18 crianças da lista na mesma tarde. Em novembro, a sala do tatame vira barulho de seis ao mesmo tempo. Para algumas, era isso que faltava. Para outras, você vai ter de pedir, daqui a um mês, de volta o horário individual.
- Fazer grupo só para quem se beneficia dele. Você passa a tarde lendo a lista e separa onze crianças para quem o grupo faz sentido. As outras continuam esperando o individual. A coordenadora aceita, e avisa que vai ter de explicar a 29 famílias por que a fila não andou para elas.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à coordenação antes das 11h. A agenda de novembro ainda estava em branco. O que fosse decidido virava agenda, não remendo de agenda.
- Entre 11h e 16h: Você foi à coordenação depois das 11h. A coordenadora já tinha rascunhado novembro com os grupos e mandado para a recepção. A sua decisão chegou para mexer num rascunho que já circulava.
- Depois das 16h: A coordenação ficou para depois das 16h. A agenda de novembro fechou às 16h do jeito que a coordenadora tinha montado. O que quer que tenha sido decidido depois, foi exceção a uma agenda pronta.
Copa: Café, e a psicomotricidade vista pela clínica
A fonoaudióloga e a recepcionista conversam perto da garrafa térmica.
“…lá na sala do tatame é só brincadeira, né? A gente aqui é que trabalha sentado com eles.”
O Lucas aprendeu a ficar num pé só brincando de flamingo, e é por isso que ele aprendeu. Quinze minutos depois, você volta com isso: o seu trabalho parece brincadeira de fora, e precisa parecer brincadeira de dentro para funcionar.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a professora do Lucas mandou bilhete dizendo que ele é muito atrasado.
- …o convênio da Sofia não renovou. Os pais tão esperando na sala de família.
- …a escola do Davi ligou de novo. Disse que o prazo é hoje.
- …a lista de espera da psicomotricidade passou de quarenta.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Manter duas sessões e pedir desconto à coordenação” e “Pedir para observar o Davi na escola antes”: Você bancou desconto para a Sofia e uma manhã de graça na escola do Davi. Duas horas suas fora da tabela na mesma segunda, e a coordenadora fez as contas das duas antes de você.
- Se você escolheu “Reduzir para uma e montar um plano para casa” e “Aceitar os grupos de seis”: A Sofia vai trabalhar em casa com os pais e 18 crianças vão entrar em grupos de seis. Na mesma segunda, você passou a confiar mais no que acontece longe dos seus olhos, numa sala de casa e numa sala cheia.
- Se você escolheu “Escrever hoje com o que você viu na clínica” e “Aceitar os grupos de seis”: O relatório do Davi saiu no prazo e a fila andou com os grupos. Duas coisas resolvidas hoje, e duas que você vai rever: a escola do Davi que você não viu e as crianças do grupo que precisavam de individual.
- Se você escolheu “Pedir para observar o Davi na escola antes” e “Fazer grupo só para quem se beneficia dele”: Você segurou o relatório até ver a escola e segurou os grupos até ler a lista. Duas famílias esperaram por um cuidado seu: a do Davi, um semestre; e 29 da fila, mais uns meses.
Como o dia termina
Você foi para a avaliação primeiro.
Havia pais esperando na sala de família, uma escola no telefone e uma fila de 40, e você abriu as doze tarefas do Lucas. Passou 1h10 separando o que ele não fez do que ainda não se espera dele.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que dá para afirmar antes de qualquer conversa. Na avaliação psicomotora, o trabalho é esse: trocar "muito atrasado" por três coisas concretas para trabalhar.
Você foi para a família primeiro.
Você começou pelos pais da Sofia, que tinham feito a conta e não fechava. Passou 40 min decidindo entre o ritmo que funciona e o que cabe no bolso.
Na terapia com crianças, a família é metade do tratamento: o que acontece no tatame só continua se continuar em casa.
Você foi para a escola primeiro.
Você começou pelo telefone da recepção, com a escola do Davi e um prazo. Passou 35 min decidindo o quanto se pode escrever sobre uma criança num lugar onde você nunca a viu.
Psicomotricidade na escola é isso: traduzir o corpo da criança para quem passa a manhã com ela, e não escrever mais do que se viu.
Você foi para a fila primeiro.
Você começou pelas 40 crianças que ainda nem conhecem a sala do tatame. Passou 45 min decidindo se a sua hora vale mais com uma criança ou com seis.
Trabalhar com grupos e projetos é isso: o corpo também aprende com os outros corpos, e muita gente só chega à psicomotricidade se ela couber em grupo.
As três portas da psicomotricidade
Psicomotricidade não é uma profissão só, são três caminhos, e eles se separam pelo tipo de problema, não pela idade da criança.
- Avaliação e terapia individual. Uma criança por vez: avaliar o movimento e transformar o que se vê em brincadeira que trata.
- Escola e inclusão. Levar o olhar do corpo para a sala de aula e ajudar a escola a receber cada criança.
- Grupos e projetos. Movimento em grupo, em clínicas, projetos sociais e instituições, para quem aprende com os outros.