Um dia na pele de
A psicologia do hospital
Você é a psicóloga de um hospital geral de 120 leitos. Ninguém marca consulta com você: médicos, enfermeiros e famílias pedem, e você vai até onde a pessoa está, no leito, no corredor, na porta da UTI. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada do seu trabalho se resolve numa sala com porta fechada: está na UTI, no quarto, num canto onde alguém da equipe foi chorar. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Escutar com calma num lugar em que tudo tem pressa.
Profissões com um dia assim: Psicólogo Hospitalar
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A psicologia do hospital: o dia por escrito
Você é a psicóloga de um hospital geral de 120 leitos. Ninguém marca consulta com você: médicos, enfermeiros e famílias pedem, e você vai até onde a pessoa está, no leito, no corredor, na porta da UTI. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada do seu trabalho se resolve numa sala com porta fechada: está na UTI, no quarto, num canto onde alguém da equipe foi chorar. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Posto de enfermagem: Os pedidos do fim de semana
No fim de semana não tem psicologia no hospital, e os pedidos se acumulam no sistema. A regra do hospital é atender em até 48 horas depois do pedido. Agora é segunda, 8h.
O sistema mostra os pedidos por leito, não por hora. Quem passou do prazo, só fazendo a conta.
Ache os pedidos que já passaram de 48 horas (agora é segunda, 8h). São esses quatro. De segunda 8h para trás, 48 horas dão sábado 8h. O leito 11 (sexta 22h), o 2 (sexta 15h), o 13 (sábado 7h) e o 5 (sexta 10h) foram pedidos antes disso. O 16, de sábado 8h, faz 48 horas exatas agora; o 7, de sábado 9h30, ainda tem uma hora e meia. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você conferiu antes das 9h30. A lista do dia saiu na ordem certa antes da primeira visita. O leito 2 foi o primeiro a ver alguém da psicologia.
- Entre 9h30 e 13h: Você conferiu depois das 9h30. A manhã já tinha começado pelos pedidos mais recentes, que estavam no topo da tela. O leito 2 esperou mais uma manhã.
- Depois das 13h: Os pedidos ficaram para depois das 13h. O dia foi atendido na ordem em que o sistema mostrava. O leito 5 recebeu alta na hora do almoço sem ter visto ninguém da psicologia desde o diagnóstico.
UTI: Antes da reunião das 14h
O Seu Antônio está na UTI há três semanas, entubado. Às 14h, o médico vai dizer à família que o tratamento não está funcionando e propor cuidados paliativos. A filha, Renata, pede para falar com você antes.
Ela quer que a mãe, de 80 anos, não ouça a palavra "morrer". Diz que a mãe não aguenta e que ela mesma conta, depois, do jeito dela.
- Combinar uma conversa em duas etapas. Você combina com o médico: às 14h ele fala só com a Renata, e amanhã, com você na sala, com a mãe. A Renata respira aliviada. A mãe passa mais uma noite na sala de espera achando que o marido está melhorando.
- Preparar a Renata para a conversa com a mãe junto. Você explica à Renata que a mãe tem o direito de saber e que vai estar na sala com as duas. Ela chora e aceita. Você conversa com ela sobre o que a mãe pode perguntar e sobre o que dizer quando não houver resposta.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à UTI antes das 11h. A Renata ainda estava sozinha, sem a mãe. Deu para conversar sem pressa, antes de qualquer decisão ser tomada por ela.
- Entre 11h e 14h: Você foi à UTI depois das 11h. A mãe já tinha chegado. A conversa com a Renata aconteceu no corredor, em voz baixa, com a mãe olhando pelo vidro.
- Depois das 14h: A UTI ficou para depois das 14h. A reunião começou sem a psicologia. O médico falou com as duas como tinha planejado, e a Renata saiu da sala sem olhar para ninguém.
Quarto 8: O rapaz que não quer ninguém
O Lucas tem 23 anos e é motoboy. Há cinco dias, depois de um acidente, perdeu a perna esquerda abaixo do joelho. Desde ontem não deixa a namorada entrar e manda a fisioterapeuta embora.
A fisioterapeuta pediu você. Diz que, se ele não levantar esta semana, a recuperação fica muito mais difícil.
- Ficar com ele, sem falar de fisioterapia. Você senta e não pergunta da perna. Ele fica calado um bom tempo, depois fala da moto, do aluguel, da namorada que "não vai querer um cara assim". Você escuta. Ele não levanta hoje, e pede que você volte amanhã.
- Combinar com ele uma meta pequena para hoje. Você pergunta o que ele aceitaria fazer hoje, só hoje. Depois de um tempo, ele topa sentar na beira da cama com a fisioterapeuta, cinco minutos. Senta. Depois vira para a parede e não fala mais com ninguém.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao quarto antes das 10h. A fisioterapeuta ainda não tinha tentado de novo. Você chegou antes de mais uma recusa.
- Entre 10h e 15h: Você foi ao quarto depois das 10h. A fisioterapeuta já tinha tentado e saído. O Lucas recebeu você como mais uma pessoa que vinha convencê-lo de alguma coisa.
- Depois das 15h: O quarto 8 ficou para depois das 15h. O dia passou sem ninguém da psicologia no quarto. A namorada foi embora do corredor sem entrar, e a fisioterapeuta anotou mais uma recusa no prontuário.
Sala de procedimentos: Depois da madrugada
A Jaqueline é técnica de enfermagem. De madrugada morreu a Dona Lia, de quem ela cuidou por dois meses. A Jaqueline está na sala de procedimentos, chorando, desde a passagem de plantão.
A supervisora quer que ela volte: hoje falta uma técnica na ala, e são 28 leitos.
- Pedir que ela seja liberada pelo resto do plantão. Você conversa com a supervisora, que libera a Jaqueline a contragosto. A Jaqueline agradece e vai para casa. A ala passa o dia com duas técnicas a menos, e as outras vão dividir os pacientes dela.
- Atender agora e deixar que ela volte, com retorno marcado. Você fica com a Jaqueline vinte minutos. Ela fala da Dona Lia, do que poderia ter feito. Lava o rosto e volta para a ala. Você marca de vê-la na sexta. Ela promete ir, e você não sabe se vai.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi à sala de procedimentos antes das 9h. A Jaqueline ainda estava lá, e a supervisora ainda não tinha ido buscá-la. A decisão pôde ser tomada com ela.
- Entre 9h e 11h30: Você foi à sala de procedimentos depois das 9h. A supervisora já tinha passado duas vezes. A Jaqueline estava com o uniforme arrumado, pronta para voltar sem ter falado com ninguém.
- Depois das 11h30: A Jaqueline ficou para depois das 11h30. Ela voltou para a ala sozinha, no meio da manhã. Atendeu os leitos dela até o fim do plantão, e ninguém perguntou mais nada.
Copa da equipe: Café, e a psicologia vista de fora
Um residente e uma enfermeira tomam café em pé.
“…psicólogo é para quando o paciente chora.”
No mês passado, foi uma conversa da psicologia que fez um paciente aceitar a cirurgia que ele recusava havia uma semana. Eles não sabem disso. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …tem pedido de psicologia parado desde sexta.
- …a Jaqueline tá trancada na sala de procedimentos desde as sete.
- …a filha do Seu Antônio quer falar com alguém antes das duas.
- …a namorada do rapaz do 8 tá no corredor de novo. Ele não deixa entrar.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Combinar uma conversa em duas etapas” e “Ficar com ele, sem falar de fisioterapia”: Você adiou a conversa da mãe do Seu Antônio para amanhã e adiou a fisioterapia do Lucas para amanhã. A terça-feira começa com duas conversas difíceis marcadas, as duas com você.
- Se você escolheu “Pedir que ela seja liberada pelo resto do plantão” e “Combinar com ele uma meta pequena para hoje”: Você liberou a Jaqueline e combinou com o Lucas sentar na cama. A técnica que ajudou a fisioterapeuta a sentá-lo estava cobrindo os leitos da Jaqueline e saiu do quarto antes de ele virar para a parede.
- Se você escolheu “Atender agora e deixar que ela volte, com retorno marcado” e “Preparar a Renata para a conversa com a mãe junto”: Você ajudou a Jaqueline a voltar e preparou a Renata para a conversa com a mãe. Às 14h, a técnica que levou café para a mãe do Seu Antônio na sala de espera era a Jaqueline.
- Se você escolheu “Preparar a Renata para a conversa com a mãe junto” e “Combinar com ele uma meta pequena para hoje”: Você pediu verdade inteira à família do Seu Antônio e uma meta concreta ao Lucas. Nos dois casos, alguém fez hoje uma coisa que não queria fazer, com você do lado.
Como o dia termina
Você foi para a lista primeiro.
Havia uma família antes de uma conversa difícil, um rapaz fechado no quarto e uma técnica chorando, e você abriu os pedidos do fim de semana. Passou 50 min contando horas para trás desde sexta.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você quis saber quem estava esperando há mais tempo antes de decidir quem ver. No hospital, a psicologia também é isso, uma fila que ninguém vê.
Você foi para a família primeiro.
Você começou pela UTI, com a Renata e uma conversa marcada para as 14h. Passou 50 min decidindo quanto da verdade chega à mãe, e quando.
No hospital, boa parte do trabalho é com quem não está doente: a família que precisa ouvir, entender e decidir, no tempo dela e no do hospital.
Você foi para o Lucas primeiro.
Você começou pelo quarto 8, com um rapaz de 23 anos que não quer ninguém. Passou 45 min entre escutar e pedir alguma coisa dele.
Atender o paciente internado é isso: ele não escolheu você, nem a hora, nem o lugar, e mesmo assim a conversa precisa ser dele.
Você foi para a equipe primeiro.
Você começou pela Jaqueline, que perdeu de madrugada uma paciente de dois meses. Passou 40 min entre o luto dela e os 28 leitos da ala.
No hospital, quem cuida também precisa de cuidado, e a psicologia é muitas vezes a única pessoa que pergunta como a equipe está.
As três portas da Psicologia Hospitalar
Psicologia hospitalar não é um trabalho só, são três, e eles se separam por quem você atende, não pelo lugar.
- Psicologia hospitalar com pacientes. Atender quem está internado, no leito, no tempo da doença e do tratamento.
- Psicologia com famílias. Acompanhar quem espera do lado de fora: notícias difíceis, decisões e luto.
- Cuidado com a equipe. Cuidar de quem cuida: o luto, o cansaço e o que fica depois de um plantão.