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Um dia na pele de

A psicologia da fábrica de biscoitos

Você é a psicóloga do RH de uma fábrica de biscoitos com 800 funcionários em três turnos. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada do seu trabalho acontece na sua sala: está na sala da diretoria, na linha de embalagem, no auditório onde se ensaia um evento. Andar pela fábrica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Cuidar das pessoas sendo paga por quem também decide sobre elas.

Profissões com um dia assim: Psicólogo Organizacional · Especialista em Cultura Organizacional · Especialista em Bem-Estar Corporativo · Especialista em Desenvolvimento de Liderança · +1

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A psicologia da fábrica de biscoitos: o dia por escrito

Você é a psicóloga do RH de uma fábrica de biscoitos com 800 funcionários em três turnos. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada do seu trabalho acontece na sua sala: está na sala da diretoria, na linha de embalagem, no auditório onde se ensaia um evento. Andar pela fábrica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua sala: O recorte que tem nome

A pesquisa de clima é anônima, e a regra que você mesma escreveu é simples: nenhum resultado sai para grupo com menos de 5 pessoas. Abaixo disso, o supervisor sabe quem respondeu.

O diretor industrial quer, para a reunião das 14h, o resultado do turno da noite de cada setor. "É a noite que está reclamando." A tabela mostra o total e os turnos da manhã e da tarde. A noite é o que sobra.

Ache o setor em que o recorte do turno da noite teria menos de 5 pessoas. É esse. Manutenção: 23 menos 9 menos 10 dá 4 pessoas na noite. O supervisor da noite tem exatamente 4 mecânicos. Se esse resultado sair, ele sabe quem escreveu cada comentário, inclusive os que falam dele. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O relatório saiu para o diretor com a Manutenção da noite junto com a Ferramentaria, e uma linha explicando por quê. Ele não comentou. Os quatro mecânicos nunca souberam que estiveram a uma planilha de distância.
  • Entre 11h e 14h: Você achou depois das 11h. O diretor já tinha pedido a planilha "do jeito que está" à analista do RH. Você recolheu a versão antes da reunião, e teve que explicar ao diretor por que o arquivo que ele já tinha aberto não valia.
  • Depois das 14h: A pesquisa ficou para depois das 14h. A reunião das 14h começou com a planilha que a analista mandou, do jeito que estava. O que quer que tenha sido corrigido depois, o supervisor da noite da Manutenção já tinha lido quatro comentários e contado quatro mecânicos.

Sala da diretoria: O melhor operador ou a melhor líder

A supervisão da noite da Produção B está vaga. O diretor industrial quer o Marcos: quinze anos de casa, o melhor operador da fábrica, querido por todos. Nunca coordenou ninguém.

A Luana tem quatro anos de casa, fez o curso de liderança e tocou a equipe por um mês nas férias do supervisor. A equipe produziu mais nesse mês. O diretor diz que "ela ainda é verde".

  • Recomendar a Luana, com o mês dela nos números. Você mostra os números do mês em que a Luana coordenou. O diretor ouve, diz que vai pensar, e na saída comenta que "o RH agora escolhe supervisor". A Luana fica com a vaga na sexta. O Marcos fica sabendo pelo corredor.
  • Recomendar o Marcos, com um plano para aprender a liderar. Você aceita o Marcos e monta um acompanhamento de seis meses para ele aprender a coordenar gente. O diretor gosta. A Luana pergunta, no café, o que ainda falta para ela. Você não tem uma resposta que caiba no café.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. O diretor ainda não tinha falado com ninguém. Qualquer que fosse a recomendação, ela chegou antes de virar promessa.
  • Entre 10h e 13h: Você entrou depois das 10h. O diretor já tinha dito ao Marcos que "ia sair coisa boa". O que você recomendou, recomendou com essa frase já dita.
  • Depois das 13h: A sala da diretoria ficou para depois das 13h. O diretor anunciou o nome sem esperar o RH. O que quer que tenha sido dito depois, foi dito para mudar ou confirmar uma coisa que a fábrica inteira já sabia.

Linha de embalagem: A terceira vez na semana

A Dona Célia, 22 anos de embalagem, chorou na esteira de novo. O supervisor deu um copo d'água e quer que ela volte: a linha está atrasada e a meta do turno é às 14h. Ela diz baixinho que é a terceira vez esta semana, e que não sabe o que é.

Você é psicóloga, mas aqui não é consultório. O que você fizer, a linha inteira está vendo.

  • Tirar ela da linha agora e conversar na sua sala. Você leva a Dona Célia para a sua sala e escuta por uma hora. Ela fala do marido doente e da noite sem dormir. Você a encaminha ao ambulatório e ao programa de apoio. A linha fica com uma pessoa a menos, e o supervisor manda um e-mail ao gerente sobre "o RH que tira gente da linha".
  • Combinar uma conversa no fim do turno e deixar ela decidir se volta. Você pergunta o que ela quer. Ela diz que prefere voltar, "senão fica pior". Vocês combinam uma conversa no fim do turno. Ela volta para a esteira, e a meta sai. No fim do turno, ela aparece na sua sala, e a primeira coisa que diz é que segurou o choro o dia todo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à linha antes das 9h. A Dona Célia ainda estava encostada na esteira, com o copo d'água na mão. Ninguém tinha decidido nada por ela.
  • Entre 9h e 10h30: Você foi à linha depois das 9h. O supervisor já tinha mandado a Dona Célia de volta ao posto. Qualquer conversa começou com ela tirando as luvas na frente de todo mundo.
  • Depois das 10h30: A linha ficou para depois das 10h30. A Dona Célia passou a manhã na esteira. O que quer que tenha sido conversado depois, as colegas de linha já tinham comentado no refeitório que o RH não veio.

Auditório: "Cuidamos de gente"

No auditório, a comunicação ensaia o evento de terça: os valores novos da empresa, com faixa, vídeo e café da manhã para os três turnos. O primeiro valor é "Cuidamos de gente".

Você sabe, porque o RH sabe: na quarta, 30 pessoas da Embalagem vão ser desligadas. O convite vai para todos às 16h.

  • Pedir para adiar o evento para depois dos desligamentos. Você pede à comunicação que segure o convite e leva o assunto ao gerente de RH. O evento vai para daqui a um mês. O CEO, quando sabe, pergunta por que o RH acha que valor tem hora certa.
  • Manter a data e incluir no evento o cuidado com quem sai. Você convence a comunicação a incluir, no evento, o programa de recolocação para os desligados. O evento acontece na terça. Na quarta, 30 pessoas saem com o folheto do programa na mão e a faixa ainda pendurada no refeitório.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao auditório antes do meio-dia. O vídeo ainda estava sendo editado. Qualquer mudança cabia no ensaio, não numa correção do convite.
  • Entre 12h e 15h: Você foi ao auditório depois do meio-dia. O CEO já tinha aprovado o vídeo por mensagem. O que você levou à comunicação, levou para mexer numa coisa que ele já tinha visto.
  • Depois das 15h: O auditório ficou para depois das 15h. O convite estava pronto para sair às 16h, com a data e o primeiro valor em letras grandes. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido com o convite já no rascunho do e-mail de 800 pessoas.

Refeitório: Café, e o RH visto da linha

Duas operadoras da Produção A estão na mesa do canto.

“…psicóloga da firma é da firma, né. Fala com ela, ela conta pro chefe.”

Você nunca contou nada a chefe nenhum. E mesmo assim, quem paga o seu salário é a mesma empresa que decide sobre elas. Quinze minutos depois, você volta para a sala sabendo de onde vem essa desconfiança, e que ela não é boba.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o diretor quer saber quem da noite andou reclamando do supervisor.
  • …dizem que o Marcos vai virar supervisor da noite. Ele merece, né?
  • …a Célia da embalagem tá chorando na linha de novo.
  • …tão montando uma faixa enorme no auditório. Vai ter café da manhã pra todo mundo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Recomendar a Luana, com o mês dela nos números” e “Tirar ela da linha agora e conversar na sua sala”: Na mesma quinta, você recomendou a Luana contra o diretor e tirou a Dona Célia da linha contra o supervisor. A fábrica entendeu que o RH tem opinião. Uma parte gostou. A outra parte manda.
  • Se você escolheu “Combinar uma conversa no fim do turno e deixar ela decidir se volta” e “Manter a data e incluir no evento o cuidado com quem sai”: Você deixou a Dona Célia escolher voltar para a esteira e manteve o evento de terça. Ela vai estar no auditório, no café da manhã dos valores, aplaudindo "Cuidamos de gente" ao lado de colegas que saem na quarta.
  • Se você escolheu “Recomendar o Marcos, com um plano para aprender a liderar” e “Pedir para adiar o evento para depois dos desligamentos”: Você recomendou o Marcos com um plano e pediu para adiar os valores. Duas decisões que não mexeram em nada esta semana. O diretor e o CEO gostaram das duas, cada um por um motivo.
  • Se você escolheu “Recomendar a Luana, com o mês dela nos números” e “Manter a data e incluir no evento o cuidado com quem sai”: Você defendeu a promoção pelos números e manteve o evento com o programa para quem sai. Na terça, a Luana sobe ao palco como primeira supervisora da noite. Na quarta, a Embalagem esvazia. As duas fotos vão para o mesmo mural.

Como o dia termina

Você foi para a pesquisa primeiro.

Havia uma vaga de supervisor em disputa, uma operadora chorando na esteira e um evento sendo ensaiado, e você abriu a planilha da pesquisa de clima. Passou 1h10 subtraindo turnos.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pela promessa que a fábrica fez a 800 pessoas, a de que podiam falar sem ser identificadas. Pesquisa e diagnóstico é isso: o número só vale se quem respondeu confia em quem perguntou.

Você foi para a promoção primeiro.

Você começou pela sala da diretoria, onde o melhor operador e a pessoa que já tinha liderado disputavam a mesma vaga. Passou 45 min decidindo quanto a sua avaliação pesava contra a vontade do diretor.

Desenvolvimento de liderança é isso: quase toda fábrica promove o melhor técnico, e alguém precisa perguntar se ele quer, e consegue, cuidar de gente.

Você foi para a Dona Célia primeiro.

Você começou pela linha de embalagem, onde uma operadora de 22 anos de casa chorava pela terceira vez na semana. Passou 50 min entre a esteira, o supervisor e ela.

Bem-estar no trabalho é isso: a pessoa está sofrendo agora, a meta é às 14h, e você não é a terapeuta dela. Precisa achar o que cabe entre uma coisa e outra.

Você foi para os valores primeiro.

Você começou pelo auditório, onde "Cuidamos de gente" ia ser lançado na semana dos desligamentos. Passou 40 min entre a faixa e o que você sabia.

Cultura organizacional é isso: valor não é o que está escrito na faixa, é o que a empresa faz na semana em que escrever a faixa custa alguma coisa.

As quatro portas da Psicologia organizacional

Psicologia organizacional não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho da empresa.

  • Clima e diagnóstico. Perguntar à empresa como ela está, e proteger quem respondeu.
  • Liderança. Escolher, preparar e acompanhar quem vai cuidar de uma equipe.
  • Saúde e bem-estar. Cuidar de quem está sofrendo no trabalho, sem ser a terapeuta de ninguém.
  • Cultura. Fazer o que a empresa diz que é caber no que a empresa faz.