Um dia na pele de
A psicologia na escola estadual
Você é o psicólogo de uma escola estadual de ensino médio em Campinas, com 900 alunos. Não atende em consultório: o seu trabalho é a escola inteira, os professores, as turmas, as famílias e a rede de saúde lá fora. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sua sala: está na sala dos professores, no 2º A, no pátio. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Cuidar de um aluno sem transformar a escola num consultório.
Profissões com um dia assim: Psicólogo Escolar
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A psicologia na escola estadual: o dia por escrito
Você é o psicólogo de uma escola estadual de ensino médio em Campinas, com 900 alunos. Não atende em consultório: o seu trabalho é a escola inteira, os professores, as turmas, as famílias e a rede de saúde lá fora. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sua sala: está na sala dos professores, no 2º A, no pátio. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sala da psicologia: Os encaminhamentos que pararam no caminho
A escola não faz terapia: quando um aluno precisa de atendimento, você encaminha para a rede, o CAPS infantojuvenil, a UBS, o CRAS. Depois, a rede deveria dar retorno. Nem sempre dá.
O combinado com a Diretoria de Ensino é ligar para cobrar todo encaminhamento sem retorno há mais de 60 dias. Hoje é dia 15 de outubro.
Ache os encaminhamentos sem retorno há mais de 60 dias. São esses três: 71, 107 e 82 dias sem resposta. O de 16/08 faz exatamente 60 hoje e o de 17/08, 59: ficam para a semana que vem. O mais antigo é do 2º A, a turma da Larissa. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você achou antes das 10h. O CAPSi e a UBS ainda atendiam telefone. Os três casos voltaram para a lista de quem a rede precisa chamar.
- Entre 10h e 14h: Você achou depois das 10h. O CAPSi só atende telefone de manhã. Deu para falar com a UBS e o CRAS; o caso do CAPSi ficou para amanhã cedo, com mais um dia de espera.
- Depois das 14h: A planilha ficou para depois das 14h. Os serviços já não atendiam telefone. Os três encaminhamentos parados passaram mais um dia sem ninguém perguntar por eles.
Sala dos professores: "Esse menino precisa de laudo"
O professor Márcio, de matemática, está com o caderno do Davi, do 1º C, aberto na mesa: rabiscos, nenhuma conta. "Ele não para quieto, não faz nada, atrapalha a sala. Precisa de laudo, e de ir para uma sala que dê conta dele."
Você não faz diagnóstico na escola. Também sabe que, na turma do Márcio, outros quatro alunos andam rabiscando o caderno.
- Propor observar a aula antes de falar do Davi. Você combina de assistir a duas aulas do 1º C na semana que vem. O Márcio aceita, desconfiado: "eu não preciso de alguém olhando a minha aula, preciso de um laudo". O Davi segue na mesma carteira.
- Chamar a família e encaminhar para avaliação. Você liga para a mãe do Davi e encaminha para avaliação na UBS. O Márcio agradece. A fila da neuropediatria é de cinco meses, e até lá o Davi segue na mesma sala, agora com um pedido de avaliação no nome.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi à sala dos professores antes das 9h30. O Márcio ainda não tinha escrito para a família. A conversa foi sobre o que fazer, não sobre desfazer.
- Entre 9h30 e 13h: Você foi à sala dos professores depois das 9h30. O Márcio já tinha mandado bilhete na agenda do Davi: "procurar neurologista". A mãe leu antes de falar com qualquer pessoa da escola.
- Depois das 13h: A sala dos professores ficou para depois das 13h. O Márcio foi embora às 13h sem resposta e comentou o caso do Davi com outros dois professores na saída. O que quer que tenha sido combinado depois, o Davi já era "o aluno do laudo".
Sala do 2º A: A crise no meio da prova
Ontem, no meio da prova de química, a Larissa, do 2º A, começou a respirar rápido, chorou e saiu da sala sem conseguir falar. Foi uma crise de ansiedade; a mãe veio buscar. Hoje ela faltou.
A turma está agitada e pediu para conversar sobre o que aconteceu. A professora da aula das 10h deixou você entrar.
- Fazer a roda hoje, sem a Larissa. Você conversa com a turma sobre o que é uma crise de ansiedade e o que fazer quando ela acontece do lado. Eles perguntam muito. Três alunos ficam no fim para falar de si. A Larissa não sabe que a conversa aconteceu.
- Esperar a Larissa voltar e combinar com ela. Você diz à turma que a Larissa está bem e que vai haver uma conversa quando ela voltar. Liga para a família e marca com ela para segunda. A turma volta para a aula com as próprias versões.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao 2º A antes das 10h30. Era o primeiro dia depois da crise. O que se dissesse ali chegava antes da versão do grupo da turma.
- Entre 10h30 e 12h: Você foi ao 2º A depois das 10h30. No intervalo, a história já tinha virado outra: alguém disse que a Larissa desmaiou, alguém que saiu de ambulância. Nada disso aconteceu.
- Depois das 12h: O 2º A ficou para depois do meio-dia. A turma saiu às 12h20. A versão que foi para casa naquela quinta foi a do grupo do celular.
Pátio: A lista com nomes
A diretora está no pátio com um ofício da Secretaria de Educação: o novo programa de saúde mental da rede quer, até as 14h, a lista dos alunos "em sofrimento psíquico" de cada escola, com nome, turma e o que foi observado. Quem estiver na lista ganha prioridade no atendimento.
Os nomes estão no seu caderno. Nenhum desses alunos foi perguntado se queria estar numa planilha.
- Mandar a lista com nomes, como pedido. Você manda nove nomes, com turma e uma linha cada. A Secretaria confirma o recebimento. Dois são chamados pela rede em duas semanas, e um deles pergunta, no corredor, como a Secretaria sabia.
- Mandar só o número e falar com cada aluno antes. Você manda o número, nove alunos, sem nomes, e escreve que vai pedir autorização a cada um. A diretora repassa reclamando. A primeira chamada do programa sai na semana seguinte, com nomes de outras escolas.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi ao pátio antes das 11h. A diretora ainda não tinha começado a resposta. O que ia no papel foi decidido por quem conhece os alunos.
- Entre 11h e 14h: Você foi ao pátio depois das 11h. A diretora já tinha começado a lista com os nomes que conhecia de corredor. Você chegou para mexer numa lista que já existia.
- Depois das 14h: O pátio ficou para depois das 14h. O ofício pedia resposta até as 14h, e a diretora mandou alguma coisa. O que quer que tenha sido combinado depois, a Secretaria já tinha uma primeira versão.
Quadra: O intervalo, e o que se fala nele
Um grupo do 2º A está sentado na arquibancada, celulares na mão.
“…ela ficou roxa, eu juro. A professora nem sabia o que fazer.”
Ninguém ficou roxo. Mas é essa a história que vai para casa hoje. Quinze minutos depois, você sai sabendo qual versão corre na escola.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o Márcio disse que vai mandar bilhete pra mãe do Davi pedindo neurologista.
- …tão falando que a Larissa saiu de ambulância ontem.
- …a diretora tá atrás de você com um papel da Secretaria.
- …o CAPSi só atende telefone de manhã, viu.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Fazer a roda hoje, sem a Larissa” e “Mandar a lista com nomes, como pedido”: Você conversou com o 2º A sobre a crise da Larissa sem ela na sala, e o nome dela foi na lista da Secretaria. Ela voltou na segunda sabendo que tinha sido assunto em dois lugares onde não estava.
- Se você escolheu “Esperar a Larissa voltar e combinar com ela” e “Mandar só o número e falar com cada aluno antes”: Você esperou a Larissa para falar com a turma e não mandou nomes à Secretaria. A turma passou o fim de semana com o boato; a Secretaria, com um número sem nome. Os alunos ficaram sabendo de tudo por você.
- Se você escolheu “Chamar a família e encaminhar para avaliação” e “Mandar a lista com nomes, como pedido”: Você encaminhou o Davi para avaliação e mandou a lista com nomes. A diretora pôs o Davi na lista também, "já que tem encaminhamento". Ele entrou na fila da rede sem nunca ter conversado com você.
- Se você escolheu “Propor observar a aula antes de falar do Davi” e “Fazer a roda hoje, sem a Larissa”: Você combinou de observar a aula do Márcio e fez a roda no 2º A. Na sexta, três professores pediram o mesmo: "vem na minha turma também". A agenda da semana seguinte encheu numa manhã.
Como o dia termina
Você foi para a planilha primeiro.
Havia um professor pedindo laudo, uma turma assustada e uma diretora com um ofício, e você começou pelos encaminhamentos parados. Passou 1h15 contando dias.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem já tinha saído da escola para a rede e não tinha chegado. Na saúde pública, o trabalho é esse: fazer o encaminhamento virar atendimento.
Você foi para o professor primeiro.
Você começou pela sala dos professores, numa conversa em que o pedido era um laudo e a resposta não podia ser um. Passou 40 min com o Márcio e o caderno do Davi.
Psicologia escolar é mais com professor do que com aluno: o trabalho é mudar como a escola olha, e isso começa por quem está na sala todo dia.
Você foi para a turma primeiro.
Você começou pelo 2º A, com trinta adolescentes que viram uma colega passar mal no meio da prova. Passou 50 min decidindo o que se diz sobre alguém que não está na sala.
Na escola, a turma é quem não marca horário: o que acontece com um vira assunto de todos, e o trabalho é dar forma à conversa antes que o grupo do celular dê.
Você foi para a diretora primeiro.
Você começou pelo pátio, com um ofício que pedia nomes. Passou 35 min decidindo o que, do que se diz na sua sala, pode ir para um papel da Secretaria.
Quem trabalha com psicologia na política pública vive entre o sigilo de uma pessoa e o dado de que a rede precisa para chegar a muita gente.
As três portas da psicologia escolar
Psicologia na escola não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Psicologia escolar. Trabalhar com a escola inteira, professores e turmas, para que o cuidado aconteça na sala de aula, não só numa sala separada.
- Psicologia na saúde pública. Fazer a rede funcionar: CAPS, UBS e CRAS, encaminhamentos que viram atendimento e casos que não se perdem no caminho.
- Psicologia na política pública. Desenhar programas para muita gente ao mesmo tempo, equilibrando o dado de que a rede precisa e o sigilo de cada um.