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Um dia na pele de

A clínica de psicologia

Você atende numa clínica de psicologia com seis profissionais, num andar de prédio comercial. Seus pacientes são adultos, adolescentes e alguns casais, e metade vem pelo convênio. Nesta quinta-feira, entre uma sessão e outra, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O que acontece dentro da sala é sigiloso. O que acontece fora dela está na recepção, na sala de família, na coordenação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Proteger o que é dito na sala quando todo mundo do lado de fora quer saber.

Profissões com um dia assim: Psicólogo Clínico · Psicoterapeuta · Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental · Psicólogo Analista Junguiano · +7

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A clínica de psicologia: o dia por escrito

Você atende numa clínica de psicologia com seis profissionais, num andar de prédio comercial. Seus pacientes são adultos, adolescentes e alguns casais, e metade vem pelo convênio. Nesta quinta-feira, entre uma sessão e outra, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O que acontece dentro da sala é sigiloso. O que acontece fora dela está na recepção, na sala de família, na coordenação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Seu consultório: A sessão que o convênio não vai pagar

O convênio autoriza um número de sessões por período. Quando acaba, a sessão seguinte não é paga, e o paciente descobre isso na recepção, na hora de entrar.

A recepção lança o que foi feito; ninguém compara com o que está marcado. Você abre as guias dos seus doze pacientes do convênio.

Ache quem tem mais sessões marcadas do que restam autorizadas. São esses dois. D.S. e K.O. têm três sessões autorizadas e quatro marcadas. A quarta de cada um não seria paga, e os dois só iam saber na porta do consultório. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O pedido de renovação entrou no lote da manhã do convênio, que responde em dois dias, antes da quarta sessão de cada um. Os dois pacientes nem ficaram sabendo.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O pedido entrou no lote da tarde. D.S. tem sessão amanhã cedo, e você mesmo liga para avisar que talvez essa precise esperar a resposta do convênio.
  • Depois das 15h: As guias ficaram para depois das 15h. O convênio fecha o lote do dia às 15h. Amanhã cedo, D.S. chega para a sessão e a recepção avisa que ela não está autorizada. A conversa sobre dinheiro acontece na porta do consultório.

Recepção: A mãe que paga as sessões

A mãe da Júlia, 15 anos, paciente há quatro meses, está na recepção sem hora marcada. Viu mensagens no celular da filha e quer saber o que está acontecendo. "Sou eu que pago as sessões."

A Júlia não sabe que a mãe está aqui. O que a Júlia diz na sala é dela.

  • Receber a mãe agora, só para ouvir. Você ouve por vinte minutos e explica o que pode e o que não pode contar. Ela sai mais calma. Na sessão seguinte, a Júlia já sabe que a mãe esteve aqui e passa metade do tempo perguntando o que você disse.
  • Propor uma conversa com as duas, com a Júlia sabendo. Você explica o sigilo e propõe uma conversa a três na semana que vem, com a Júlia avisada antes. A mãe vai embora irritada, dizendo que vai pensar se continua pagando.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à recepção antes das 10h30. Ela ainda estava sentada, com o celular da filha na cabeça e sem ter falado com mais ninguém da clínica.
  • Entre 10h30 e 13h: Você foi à recepção depois das 10h30. Ela já tinha perguntado à recepcionista se a Júlia "fala muito" nas sessões. A recepcionista não respondeu, e ficou desconfortável o resto do dia.
  • Depois das 13h: A recepção ficou para depois das 13h. A mãe cansou de esperar e mandou mensagem para a filha: "fui no seu consultório". O que quer que tenha sido feito depois, a Júlia ficou sabendo por ela.

Sala de família: O segredo antes da sessão

Você atende Marcos e Cláudia, em terapia de casal, há dois meses. A sessão deles é às 19h. Hoje Marcos chegou de manhã, sozinho, e espera na sala de família.

Ele conta que teve um caso no ano passado e pede que isso fique entre vocês: "Ela não pode saber. Eu quero salvar o casamento."

  • Dizer que você não guarda segredo de um para o outro. Você lembra o combinado do início: o que um conta sozinho pode vir para a sessão. Marcos fica em silêncio, diz que precisa pensar e cancela a sessão das 19h. Cláudia manda mensagem perguntando o que houve.
  • Ouvir e combinar um prazo para ele contar. Vocês combinam que ele traz o assunto em até três sessões. A sessão das 19h acontece, com Cláudia falando de confiança e você sabendo o que ela não sabe.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à sala de família antes das 11h. Ele ainda estava decidido a falar, e sobrou o dia inteiro para você pensar antes de ver os dois juntos.
  • Entre 11h e 14h: Você foi à sala de família depois das 11h. Ele já tinha esperado duas horas. Falou rápido, olhando o relógio, e metade do que disse foi sobre ter esperado.
  • Depois das 14h: A sala de família ficou para depois das 14h. Marcos foi embora sem falar e mandou uma mensagem longa para o seu celular. O que quer que tenha sido combinado depois, o segredo já estava escrito, no seu telefone.

Coordenação: O relatório que o RH quer

Beatriz, a dona da clínica, fechou de palavra um contrato com uma rede de supermercados: 60 funcionários atendidos por mês, pago pela empresa. É a maior receita do ano. Ela quer que você monte o programa.

O RH pede, todo mês, um relatório com o nome de quem veio e o tema principal, "para acompanhar o clima". Beatriz responde ao RH às 15h.

  • Aceitar com relatório só de números. Você propõe quantas sessões, quantas pessoas e os temas somados, sem nome. O RH aceita, a contragosto. No segundo mês, um gerente liga perguntando se um funcionário dele está indo, e é você quem diz que não pode responder.
  • Recusar o contrato enquanto o RH pedir nomes. Beatriz liga para o RH e o contrato não sai. Ela não discute com você. Na reunião do mês, mostra a planilha da clínica, e a linha que ia crescer não cresceu.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à coordenação antes das 11h. Beatriz ainda estava montando a proposta. Deu para falar do relatório antes de ele virar promessa ao cliente.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à coordenação depois das 11h. Beatriz já tinha mandado ao RH um rascunho do programa, com o relatório em aberto. Você chegou para fechar uma coisa que ela já tinha começado a vender.
  • Depois das 15h: A coordenação ficou para depois das 15h. Às 15h, Beatriz respondeu ao RH com o que tinha: "vamos ver o formato do relatório". O que quer que tenha sido decidido depois, o RH já tinha entendido que os nomes estavam em negociação.

Copa: Café, e a conta da clínica

Duas colegas estão na copa entre um paciente e outro.

“…com o convênio pagando sessenta reais a sessão, não dá para atender menos de oito por dia. E aí não sobra cabeça para o oitavo.”

Ninguém fala disso na faculdade. Quinze minutos depois, você volta para o consultório com a conta da clínica na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …tem uma mãe na recepção desde as nove e meia. Disse que não sai sem falar com quem atende a filha.
  • …o marido do casal das sete tá na sala de família desde cedo. Sozinho.
  • …a Beatriz fechou um contrato grande. Diz que só falta o formato do relatório.
  • …a recepção vai ter que barrar alguém amanhã. O convênio não liberou a sessão.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Receber a mãe agora, só para ouvir” e “Ouvir e combinar um prazo para ele contar”: Na mesma quinta, você ouviu a mãe sem a Júlia e o marido sem a Cláudia. Dois atendimentos em que alguém não sabe de uma conversa que aconteceu. Nenhuma das duas é proibida. As duas pedem cuidado daqui para a frente.
  • Se você escolheu “Dizer que você não guarda segredo de um para o outro” e “Recusar o contrato enquanto o RH pedir nomes”: Você disse ao Marcos que não guarda segredo na terapia de casal e disse à Beatriz que não passa nome ao RH. Duas regras ditas em voz alta no mesmo dia. Uma custou a sessão das 19h; a outra, a maior receita do ano.
  • Se você escolheu “Aceitar com relatório só de números” e “Receber a mãe agora, só para ouvir”: Você aceitou mandar números ao RH e ouviu a mãe que paga as sessões da filha. Nas duas, quem paga queria saber mais do que você podia dizer. Nas duas, você disse o que podia, e a pergunta vai voltar.
  • Se você escolheu “Propor uma conversa com as duas, com a Júlia sabendo” e “Aceitar com relatório só de números”: A conversa a três com a Júlia e a mãe entrou na agenda da semana que vem, ao lado dos primeiros funcionários da rede de supermercados. A sua agenda, que tinha duas janelas livres, não tem mais nenhuma.

Como o dia termina

Você foi para as guias primeiro.

Havia uma mãe na recepção, um segredo na sala de família e um contrato na coordenação, e você abriu as guias do convênio. Passou 1h10 fazendo conta de sessão.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que interromperia um tratamento sem ninguém perceber. Em psicoterapia, o vínculo se constrói na sala e se perde, às vezes, na recepção.

Você foi para a recepção primeiro.

Você começou pela mãe que queria saber o que a filha diz na sala. Passou 40 min entre quem paga e quem é atendida.

Atender adolescente é isso: a paciente é ela, mas a família está sempre na porta, e cada conversa com os pais muda o que acontece na sessão seguinte.

Você foi para a sala de família primeiro.

Você começou pelo marido que chegou sozinho com um segredo. Passou 50 min decidindo o que pode existir entre você e só uma das pessoas de um casal.

Na terapia de casal, o paciente é a relação. Cada conversa com uma pessoa só é uma conversa sobre a outra.

Você foi para o contrato primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a que tinha uma empresa, um relatório e a receita da clínica na mesa. Passou 45 min decidindo o que quem paga pelo atendimento pode saber dele.

Quem cuida de saúde mental no trabalho vive nessa fronteira: a empresa contrata, o funcionário é atendido, e as duas coisas nem sempre querem o mesmo.

As quatro portas da clínica

Psicologia clínica não é uma profissão só, são quatro, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela abordagem.

  • Psicoterapia individual. Uma pessoa, sessão a sessão, por meses ou anos. A abordagem muda; o vínculo é o trabalho.
  • Infância e adolescência. O paciente é a criança ou o adolescente, e a família está sempre na porta.
  • Casal e família. O paciente é a relação. Ninguém na sala é atendido sozinho.
  • Saúde mental no trabalho. Quem paga é a empresa, quem é atendido é o funcionário, e o sigilo fica no meio.