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Um dia na pele de

A terça da engenharia de produção

Você é a engenheira de produção de uma fábrica de biscoitos de 800 pessoas: cinco linhas, três turnos e o pedido de Natal começando. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua sala: está na linha 3, na diretoria industrial, no auditório. Andar pela fábrica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer a fábrica produzir mais sem deixar sair o que não devia.

Profissões com um dia assim: Engenheiro de Produção · Engenheiro de PCP · Engenheiro de Qualidade · Especialista em Logística Reversa

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A terça da engenharia de produção: o dia por escrito

Você é a engenheira de produção de uma fábrica de biscoitos de 800 pessoas: cinco linhas, três turnos e o pedido de Natal começando. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua sala: está na linha 3, na diretoria industrial, no auditório. Andar pela fábrica leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua sala: O amendoim antes do que não tem amendoim

A sequência de amanhã da linha 1 tem doze ordens de produção, uma depois da outra. Entre produtos iguais em alérgeno, a troca é só de embalagem: 20 minutos. Mas passar de um produto com amendoim para um sem amendoim exige limpeza completa da linha: três horas, com a linha parada.

O contrário não exige: de sem para com, basta a troca de embalagem. A sequência desce para a linha às 14h.

Ache as ordens que pedem limpeza completa antes de começar. São essas três: o wafer de chocolate depois da paçoca, o cream cracker depois do cookie mini, a rosquinha de leite depois do wafer de amendoim. Nove horas de linha parada em limpeza. A paçoca e o wafer de amendoim entram depois de produto sem amendoim, e isso não pede limpeza. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. A sequência desceu às 14h com os quatro produtos de amendoim no fim: uma limpeza só, no fim do turno. Seis horas de linha de volta para o pedido de Natal.
  • Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. A sequência nova saiu, mas o almoxarifado já tinha separado as embalagens na ordem antiga. O primeiro turno de amanhã começa refazendo os paletes.
  • Depois das 16h: A sequência ficou para depois das 16h. A sequência desceu às 14h como estava. O que quer que tenha sido achado depois, a linha 1 amanhã para três vezes para limpeza, e o pedido de Natal perde nove horas.

Linha 3: Quarenta e seis paradas

Ontem, a embaladora da linha 3 parou 46 vezes: o sensor que confere a selagem do pacote acusava falha e travava tudo. Hoje cedo, os operadores puseram uma fita em cima do sensor, e a linha voltou ao ritmo.

O técnico do fabricante só vem na sexta. Sem o sensor, pacote mal selado pode sair, e biscoito murcho na prateleira é reclamação na certa.

  • Tirar a fita e aceitar as paradas. O sensor volta a travar a linha quando acha que deve. A linha 3 fecha o dia com 9% a menos, e o supervisor do turno pergunta, na frente dos operadores, quem vai explicar o pedido atrasado.
  • Manter a fita até sexta, com uma pessoa conferindo. Uma operadora passa o turno apertando pacotes na saída, um a cada dez. A linha bate a meta. Ela separa 140 mal selados; quantos passaram entre os outros nove, ninguém sabe.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à linha 3 antes das 9h. A fita estava lá havia duas horas. Deu para decidir com o supervisor do primeiro turno, que foi quem autorizou.
  • Entre 9h e 12h: Você foi à linha 3 depois das 9h. A fita já tinha virado o jeito normal de trabalhar, e o supervisor estava no meio da reunião de turno. A conversa foi no barulho da embaladora.
  • Depois das 12h: A linha 3 ficou para depois do meio-dia. A linha rodou a manhã inteira com a fita no sensor. O que quer que tenha sido decidido depois, 30 mil pacotes já tinham saído sem conferência de selagem.

Diretoria industrial: Dezoito mil pacotes na prateleira

Três consumidores mandaram ao SAC a mesma foto: um fio de plástico azul dentro de um biscoito de maisena. Os três pacotes são do lote 2207, de 18 mil pacotes, já nos mercados. Na linha, a causa provável é uma escova de limpeza que perdeu cerdas.

O diretor industrial quer a sua opinião antes de levar o caso ao presidente, às 14h.

  • Recolher o lote do mercado. A fábrica comunica à vigilância sanitária e aos mercados. O recolhimento leva duas semanas e custa R$ 90 mil. Um portal regional publica a nota com a foto do fio azul.
  • Bloquear o que está na fábrica e acompanhar o SAC. O que sobrou do lote na fábrica fica bloqueado, e todas as escovas são trocadas. O SAC passa a responder cada reclamação com troca e pedido de desculpas. Em dez dias, chegam mais duas fotos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à diretoria antes das 10h. O diretor ainda montava a apresentação para o presidente. A sua opinião entrou nela, com o laudo da escova anexado.
  • Entre 10h e 14h: Você foi à diretoria depois das 10h. O diretor já tinha conversado com o jurídico e com o comercial. Você entrou numa sala em que cada um já tinha um número para defender.
  • Depois das 14h: A diretoria ficou para depois das 14h. O diretor levou o caso ao presidente sem a engenharia. O que quer que tenha sido decidido depois, a reunião aconteceu sem ninguém que tivesse visto a escova.

Auditório: O pacote que volta

No auditório, a Dona Lurdes, presidente de uma cooperativa de catadores da cidade, apresenta uma proposta ao comitê de sustentabilidade: a fábrica paga R$ 0,02 por pacote vendido, e a cooperativa recolhe de verdade o equivalente em embalagens, com caminhão e balança.

O financeiro prefere comprar créditos de reciclagem certificados, pela metade do preço. A lei aceita os dois.

  • Fechar com a cooperativa. O contrato sai em um mês: R$ 22 mil por mês. A cooperativa contrata seis catadores e compra uma prensa. O financeiro pergunta, na reunião de orçamento, por que pagar o dobro pelo mesmo certificado.
  • Comprar os créditos de reciclagem. Os créditos saem por R$ 11 mil por mês, e a fábrica cumpre a meta da lei no papel. A Dona Lurdes agradece pela atenção, recolhe a apresentação e pergunta se pode voltar no ano que vem.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao auditório antes das 9h30. A Dona Lurdes ainda arrumava os slides. Deu para conversar com ela antes de o comitê sentar, e perguntar quanto a cooperativa recolhe hoje.
  • Entre 9h30 e 13h: Você foi ao auditório depois das 9h30. A apresentação já tinha começado, e o financeiro já tinha mostrado a planilha dos créditos. Você entrou pelo fundo, na metade.
  • Depois das 13h: O auditório ficou para depois das 13h. A Dona Lurdes apresentou sem ninguém da engenharia na sala. O que quer que tenha sido decidido depois, o comitê decidiu olhando só o número do financeiro.

Refeitório: Café, e a engenharia vista da linha

Duas operadoras da linha 3 tomam café antes da volta do intervalo.

“…engenheiro só desce na linha quando a meta não bate. Quando o sensor trava, quem fica na frente da máquina é a gente.”

Foi delas a ideia da fita. Quinze minutos depois, você volta para a sua sala pensando em quem resolve os problemas da fábrica antes de você saber que existem.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …amanhã a linha 1 vai parar três vezes para limpeza, de novo. Quem fez essa sequência?
  • …a linha 3 tá rodando lisa hoje. Puseram uma fita no sensor.
  • …o SAC recebeu foto de um fio azul no biscoito. O diretor tá com a cara fechada.
  • …tem uma senhora da cooperativa apresentando no auditório. O financeiro já tá com a planilha aberta.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manter a fita até sexta, com uma pessoa conferindo” e “Bloquear o que está na fábrica e acompanhar o SAC”: Fita no sensor de selagem e lote suspeito na prateleira: na mesma terça, a fábrica escolheu duas vezes seguir rodando e acompanhar de perto. O SAC vai receber as duas consequências, se vierem.
  • Se você escolheu “Recolher o lote do mercado” e “Fechar com a cooperativa”: Recall de R$ 90 mil e contrato da cooperativa pelo dobro do preço: o diretor industrial levou os dois números juntos para o presidente, na mesma folha.
  • Se você escolheu “Tirar a fita e aceitar as paradas”: Na sexta, o técnico do fabricante trocou uma peça de R$ 600 do sensor. As 46 paradas eram dela, e a linha 3 voltou ao ritmo sem fita.
  • Se você escolheu “Comprar os créditos de reciclagem”: No relatório anual, a fábrica apareceu com 100% das embalagens compensadas. A foto da capa era de uma cooperativa de outro estado.

Como o dia termina

Você foi para a sequência primeiro.

Havia uma fita num sensor, um fio azul num lote vendido e uma cooperativa no auditório, e você abriu a sequência de amanhã. Passou 1h00 olhando cada ordem contra a anterior.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás das horas que a fábrica ia perder sem ninguém notar. PCP é isso: a ordem das coisas decide quanto a linha produz.

Você foi para a linha primeiro.

Você começou pela linha 3, onde a solução dos operadores tinha desligado um controle. Passou 50 min entre a meta do turno e o sensor que travava tudo.

Engenharia de produção é isso: o processo no papel e o processo que a linha inventou para funcionar raramente são o mesmo.

Você foi para a diretoria primeiro.

Você começou pelo fio azul, o problema que já estava na casa de alguém. Passou 45 min entre recolher 18 mil pacotes e acompanhar de perto o que vier.

Engenharia de qualidade é isso: decidir com três fotos na mão o que fazer com milhares de pacotes que ninguém mais vê.

Você foi para o auditório primeiro.

Você começou pela cooperativa, a frente que menos apertava o dia. Passou 40 min entre a embalagem recolhida de verdade e o certificado mais barato.

Logística reversa é isso: o produto não acaba na prateleira, e alguém precisa decidir para onde vai o que sobra dele.

As quatro portas da Produção

Engenharia de produção não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo produto.

  • PCP. Planejar e sequenciar a produção: a ordem das coisas decide o que a linha entrega.
  • Engenharia de produção. Fazer o processo funcionar no chão da fábrica, com as pessoas e as máquinas que existem.
  • Engenharia de qualidade. Decidir o que sai e o que volta, com poucas evidências e muitos pacotes.
  • Logística reversa. Cuidar do caminho de volta: embalagem, devolução e o que sobra do produto.