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Um dia na pele de

Uma quinta de advocacia criminal no fórum

Você é advogada criminalista num escritório de duas pessoas, numa cidade do interior. Quase todo dia começa no fórum: réus presos, famílias sem dinheiro, audiências que atrasam e execuções penais que ninguém mais acompanha. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da OAB: está no balcão, na sala de audiências, no cartório. Andar pelo fórum leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Defender cada cliente inteiro sem saber, de nenhum deles, a história inteira.

Profissões com um dia assim: Advogado Criminalista · Advogado de Execução Penal

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

Uma quinta de advocacia criminal no fórum: o dia por escrito

Você é advogada criminalista num escritório de duas pessoas, numa cidade do interior. Quase todo dia começa no fórum: réus presos, famílias sem dinheiro, audiências que atrasam e execuções penais que ninguém mais acompanha. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da OAB: está no balcão, na sala de audiências, no cartório. Andar pelo fórum leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da OAB: Quem já podia ter saído do fechado

Você acompanha a execução da pena de doze clientes. A vara de execução faz mutirão amanhã: os pedidos de progressão protocolados até as 17h de hoje entram na pauta. Os outros, só no mês que vem.

A regra que vale para todos estes: progride quem cumpriu pelo menos 16% da pena, se o crime foi sem violência, ou 25%, se foi com violência. E cada 90 dias trabalhados na prisão descontam um mês.

Ache os clientes que já cumpriram a fração, contando os dias trabalhados. São esses quatro. Cícero: 16% de 72 meses são 11,5, e ele tem 12. Fábio: 25% de 84 são 21, e ele tem 19 mais 2 de trabalho, exatos 21. Jonas: precisa de 18, tem 15 mais 4. Luiz: precisa de 15,4, tem 14 mais 2. O Igor fica a três décimos de um mês. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. Os quatro pedidos foram protocolados de manhã, com os atestados de trabalho anexados. Entram no mutirão de amanhã.
  • Entre 12h e 17h: Você achou depois do meio-dia. Os pedidos entraram antes das 17h, mas sem os atestados de trabalho, que o presídio só manda de manhã. Os do Fábio, do Jonas e do Luiz dependem deles.
  • Depois das 17h: As execuções ficaram para depois das 17h. O protocolo do mutirão fechou às 17h. O que quer que tenha sido achado depois, entra na pauta do mês que vem, e quatro clientes passam mais um mês no fechado sem precisar.

Balcão do cartório: Dezoito mil numa sacola de mercado

A Dona Neide, mãe do Wellington, preso há 40 dias acusado de tráfico, está no balcão do cartório com uma sacola de supermercado no colo: R$ 18 mil em notas de 50 e de 100, os honorários combinados. Diz que juntou com "a família". Ela não tem conta em banco.

No processo, o Wellington é apontado como alguém que trabalha para a facção do bairro.

  • Aceitar, contar e dar recibo. Você conta as notas com ela, emite recibo e declara tudo na contabilidade do escritório. A Dona Neide chora de alívio. A sua sócia pergunta, à noite, se vocês vão aceitar o próximo caso do bairro do mesmo jeito.
  • Recusar o dinheiro vivo e pedir depósito. Você explica que só recebe por transferência, com nome. A Dona Neide sai sem entender, com a sacola no colo. Dois dias depois, um primo dela faz o depósito dos R$ 18 mil, de uma conta aberta na véspera.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao balcão antes das 10h. A Dona Neide tinha acabado de chegar, e o balcão estava vazio. Deu para conversar sem ninguém olhando a sacola.
  • Entre 10h e 13h: Você foi ao balcão depois das 10h. O balcão encheu, e a sacola no colo dela virou assunto de quem esperava na fila. A conversa foi baixa e rápida.
  • Depois das 13h: O balcão ficou para depois das 13h. A Dona Neide esperou a manhã inteira e foi embora com a sacola. O que quer que tenha sido combinado depois, foi por telefone, e ela passou a tarde achando que a advogada tinha desistido do filho.

Sala de audiências: A foto no celular do investigador

Audiência de instrução do Jefferson, acusado de roubar um celular. Na delegacia, a vítima o reconheceu por uma foto mostrada sozinha, no celular do investigador, sem outras pessoas para comparar. O Superior Tribunal de Justiça tem anulado reconhecimentos feitos assim.

A juíza quer ouvir a vítima e refazer o reconhecimento na sala. A vítima está no banco do corredor, nervosa.

  • Arguir a nulidade já, na audiência. Você levanta a nulidade em voz alta. A juíza registra e indefere por enquanto. A vítima chora e diz que "sabe que foi ele", e o promotor anota a frase. A nulidade está na ata, para o tribunal ler.
  • Deixar a vítima falar e guardar a tese para as alegações. A vítima depõe e, na sala, reconhece o Jefferson de novo, ao lado de dois servidores sem semelhança nenhuma com ele. Você pergunta sobre a foto do celular. A tese vai nas alegações finais, por escrito, depois do reconhecimento feito.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à sala de audiências antes das 11h. Deu para conversar dez minutos com o Jefferson, algemado, antes de a juíza entrar. Ele contou onde estava naquela noite.
  • Entre 11h e 13h: Você foi à sala de audiências depois das 11h. A audiência já tinha começado, e você entrou pedindo desculpas. O Jefferson olhou para a porta a manhã inteira.
  • Depois das 13h: A audiência ficou para depois das 13h. A juíza esperou a defesa até onde deu e remarcou a pauta da tarde inteira. O que quer que tenha sido feito depois, foi feito com a sala contrariada pelo atraso.

Cartório criminal: Confessar o que ele diz que não fez

No cartório, a promotora, Dra. Helena, oferece um acordo de não persecução penal para o Rodrigo, 23 anos, primário, acusado de receptação de uma bicicleta elétrica roubada: ele confessa, paga dois salários mínimos a uma entidade, e o processo acaba sem condenação.

O Rodrigo jura que comprou a bicicleta de um conhecido, sem saber. Trabalha com carteira assinada. A proposta vale até o fim do dia.

  • Recomendar o acordo. O Rodrigo assina, contrariado, e paga em quatro parcelas. Não haverá processo nem condenação. Na saída, ele diz que confessou uma coisa que não fez para não perder o emprego.
  • Recomendar recusar e ir a julgamento. O Rodrigo recusa. O processo segue, com audiência daqui a oito meses. Se for absolvido, sai sem nada; se for condenado, a pena é pequena, mas a condenação fica. Ele pede para você não contar à mãe.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao cartório antes do meio-dia. A Dra. Helena ainda estava sentada, com o processo aberto. Deu para perguntar o que mais havia contra o Rodrigo antes de levar a proposta a ele.
  • Entre 12h e 16h: Você foi ao cartório depois do meio-dia. A promotora já saía para outra audiência. A conversa foi de pé, na porta do cartório, com a escrivã ouvindo.
  • Depois das 16h: O cartório ficou para depois das 16h. A Dra. Helena deixou recado com a escrivã: a proposta vale até as 18h. O que quer que tenha sido decidido depois, foi pelo telefone, com o Rodrigo no ônibus voltando do trabalho.

Copa: Café, e a defesa vista do fórum

O oficial de justiça toma café de pé, com a pasta de mandados embaixo do braço.

“…a família do preso só conhece o advogado pelo nome. Juiz, eles não conhecem. Promotor, nem sabem que existe.”

É por isso que a Dona Neide veio ao fórum com a sacola, e não ao escritório. Quinze minutos depois, você volta para a sala da OAB pensando em quantas famílias só têm você como rosto da Justiça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a execução faz mutirão amanhã. Quem não protocolar hoje, só mês que vem.
  • …a vítima do roubo do celular tá no banco do corredor. Disse que reconheceu o rapaz pela foto.
  • …tem uma senhora no balcão com uma sacola no colo desde cedo. Perguntou pela advogada.
  • …a Dra. Helena tá oferecendo acordo para os casos de bicicleta. Tem prazo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Recomendar o acordo” e “Arguir a nulidade já, na audiência”: Na mesma quinta, um cliente seu confessou para fechar um acordo e outro teve a nulidade da prova levantada em voz alta. A escrivã, que viu as duas coisas, perguntou qual das duas era a sua estratégia.
  • Se você escolheu “Recomendar recusar e ir a julgamento” e “Deixar a vítima falar e guardar a tese para as alegações”: Você recomendou ao Rodrigo ir a julgamento e guardou a nulidade do Jefferson para as alegações. Os dois casos agora dependem do que vai estar escrito daqui a meses.
  • Se você escolheu “Aceitar, contar e dar recibo”: Um mês depois, a Dona Neide voltou ao escritório com um bolo, e com uma vizinha que também tem um filho preso e também não tem conta em banco.
  • Se você escolheu “Recusar o dinheiro vivo e pedir depósito”: O depósito do primo entrou na conta do escritório com o nome de alguém que você nunca viu. Você guardou o comprovante numa pasta separada, e a defesa do Wellington começou com dois dias de atraso.

Como o dia termina

Você foi para as execuções primeiro.

Havia uma mãe com uma sacola, uma audiência começando e uma promotora com prazo, e você abriu a planilha de quem está no fechado. Passou 1h15 somando meses cumpridos e dias trabalhados.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem ninguém estava cobrando, porque está preso. Execução penal é isso: a conta que decide quando uma pessoa sai.

Você foi para o balcão primeiro.

Você começou pela Dona Neide, com os honorários numa sacola e um filho preso. Passou 40 min entre o direito de defesa e o dinheiro que você não sabe de onde veio.

Advocacia criminal é isso também: a família é quem paga, quem espera e quem pergunta, e cada caso traz uma decisão sobre até onde vai o seu trabalho.

Você foi para a audiência primeiro.

Você começou pela sala de audiências, com uma prova que pode não valer. Passou 1h00 entre brigar agora, com a vítima na sala, e guardar a tese para o papel.

Defender em audiência é isso: cada pergunta e cada silêncio ficam na ata, e a ata é o que o tribunal vai ler.

Você foi para o acordo primeiro.

Você começou pelo cartório, onde a acusação oferecia um fim rápido em troca de uma confissão. Passou 40 min entre a ficha limpa do Rodrigo e o que ele diz que não fez.

Do outro lado da mesa, promotor e delegado vivem a mesma conta: investigar, acusar e propor acordo, sabendo que cada acordo também é uma história contada pela metade.

As três portas do Direito Penal

Direito penal não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo lado da mesa, não pelo crime.

  • Advocacia criminal. Defender quem é acusado, com a família no balcão e a prova na ata.
  • Execução penal. Acompanhar a pena de quem já foi condenado: a conta que decide quando a pessoa sai.
  • Ministério Público e polícia. Do outro lado da mesa: investigar, acusar e propor acordo.