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Um dia na pele de

A classe do hospital

Você é a pedagoga da classe hospitalar de um hospital público: a sala de aula da ala pediátrica, onde crianças e adolescentes internados continuam estudando. Cada um tem uma escola lá fora, um professor que manda atividade e uma família que pergunta se o ano está perdido. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

A sua mesa fica na classe, mas os alunos estão nos quartos, na quimio, e a rotina do andar é decidida no posto de enfermagem. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Manter a escola viva para quem está doente sem atrapalhar o tratamento.

Profissões com um dia assim: Pedagogo Hospitalar

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A classe do hospital: o dia por escrito

Você é a pedagoga da classe hospitalar de um hospital público: a sala de aula da ala pediátrica, onde crianças e adolescentes internados continuam estudando. Cada um tem uma escola lá fora, um professor que manda atividade e uma família que pergunta se o ano está perdido. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

A sua mesa fica na classe, mas os alunos estão nos quartos, na quimio, e a rotina do andar é decidida no posto de enfermagem. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Classe hospitalar: O atendimento depois da alta

Todo mês a classe hospitalar manda à Secretaria de Educação o relatório de atendimentos: cada aluno, o período em que esteve internado e o dia de cada aula. É ele que faz a escola de origem contar a presença. Hoje é dia 15. O relatório sai às 14h.

A estagiária lançou os atendimentos da quinzena. Um atendimento fora do período de internação põe o relatório inteiro em dúvida.

Ache o atendimento registrado num dia em que o aluno não estava internado. É esse. A Lara teve alta no dia 9, e há um atendimento dela no dia 11. A estagiária lançou no nome dela a aula do Gael, que chegou na mesma semana. A Lara não perde nada; o Gael ficaria sem a aula registrada. E uma linha assim, num relatório público, faz alguém perguntar das outras. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você achou antes das 10h30. Deu tempo de corrigir a linha, conferir com a estagiária os outros lançamentos da semana e mandar o relatório com uma nota sobre a correção.
  • Entre 10h30 e 14h: Você achou depois das 10h30. A linha foi corrigida, mas não deu tempo de conferir o resto com calma. O relatório saiu às 14h com a correção e sem a revisão das outras semanas.
  • Depois das 14h: O relatório ficou para depois das 14h. Às 14h a secretaria do hospital mandou o relatório como estava, porque o prazo era aquele. O que quer que tenha sido corrigido depois, foi num segundo envio, com uma explicação.

Quarto 12, isolamento: Pra que estudar

O Theo, 9 anos, está em isolamento depois do transplante de medula. Ninguém entra sem avental e máscara. A professora dele mandou da escola uma folha de frações para esta semana. Ele olha a folha e vira para a parede.

"Pra que estudar se eu nem sei se volto pra escola?"

  • Deixar a folha e ler com ele. Você guarda a folha e lê com ele o livro de dinossauros que a mãe trouxe. No fim, ele pergunta quantos anos tem um fóssil. Você não registra frações hoje. A professora dele vai perguntar na segunda o que foi feito.
  • Fazer as frações com a pizza do almoço. Você troca a folha pela foto da pizza que ele comeu ontem e faz as frações com ela. O Theo faz três contas, de má vontade, e pede para parar. Você registra a atividade para a escola. Ele não agradece, e pede que você volte amanhã.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao Theo antes das 9h30. Ele estava acordado, antes da medicação da manhã. Foi o melhor momento do dia dele, e foi seu.
  • Entre 9h30 e 11h: Você foi ao Theo depois das 9h30. A medicação das 10h já tinha deixado o Theo sonolento. A conversa foi curta, com ele de olhos meio fechados.
  • Depois das 11h: O quarto 12 ficou para depois das 11h. O Theo dormiu do almoço até o meio da tarde, como quase todo dia depois do remédio. O que quer que tenha sido feito depois, foi com ele cansado.

Posto de enfermagem: A classe e a rotina do andar

A Regina, enfermeira-chefe da pediatria, chamou você ao posto. Ontem, duas crianças estavam na classe na hora da medicação, e a técnica de enfermagem teve que buscar cada uma. Ela quer que a classe só funcione quando não houver nenhuma medicação marcada no andar.

Na prática, sobram 50 minutos por dia.

  • Seguir a rotina da enfermagem. Você aceita: a classe funciona nas janelas sem medicação, e o resto do atendimento passa a ser nos quartos, um aluno por vez. A Regina agradece. Você atende metade dos alunos que atendia, e cada um por menos tempo.
  • Propor um horário protegido, com aviso. Você propõe duas horas fixas por dia, com um quadro na porta da classe dizendo quem está lá, e a técnica avisando 10 minutos antes de cada medicação. A Regina aceita testar por um mês, sem sorrir. Você vai ter que mostrar que funciona.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao posto antes das 10h. A Regina estava entre uma passagem de plantão e outra, com tempo de ouvir. A conversa foi entre duas pessoas, não entre duas áreas.
  • Entre 10h e 13h: Você foi ao posto depois das 10h. A Regina já tinha comentado com a coordenação médica que "a classe atrapalha". Você entrou numa conversa que já tinha subido um andar.
  • Depois das 13h: O posto ficou para depois das 13h. A Regina pendurou um aviso na porta da classe, antes do almoço, com o horário que ela achava certo. O que quer que tenha sido combinado depois, começou com um papel já colado na porta.

Quimioterapia infantil: A prova que a escola não aceita

A Ana Clara, 15 anos, faz quimioterapia três vezes por semana e estuda nos outros dias. A escola dela respondeu ao e-mail: não aceita a prova feita no hospital, porque "não foi aplicada por um professor da escola". Sem as provas do bimestre, ela fica em recuperação.

A lei garante o atendimento educacional no hospital. Fazer a escola cumprir leva semanas.

  • Combinar com a professora uma prova por vídeo. Você liga para a professora de matemática, que topa aplicar a prova por chamada de vídeo, com você na sala. A Ana Clara faz a prova na terça, entre duas sessões. A escola aceita, como exceção. No próximo bimestre, a conversa começa do zero.
  • Acionar a Secretaria de Educação. Você manda à Secretaria de Educação o caso, com a lei e o relatório da classe. A escola vai ter que aceitar as avaliações do hospital, dela e de quem vier depois. A resposta leva cinco semanas. A Ana Clara faz a recuperação enquanto isso.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à quimio antes das 11h. A Ana Clara ainda estava no começo da sessão, bem disposta. Ela participou da decisão sobre a própria prova.
  • Entre 11h e 14h: Você foi à quimio depois das 11h. A Ana Clara já estava enjoada, no fim da sessão. Ela ouviu, concordou com a cabeça e pediu para conversar outro dia.
  • Depois das 14h: A quimio ficou para depois das 14h. A sessão acabou e a Ana Clara foi para casa sem saber o que ia acontecer com o bimestre. O que quer que tenha sido feito depois, ela soube pela mãe, por mensagem.

Copa da equipe: Café, e a classe vista pela equipe

Um residente de pediatria está na pia, com o café.

“…aula aqui? Essas crianças têm coisa mais importante para fazer do que dever de casa.”

Na semana passada, a mãe do Davi disse que o filho só aceitou o soro porque depois tinha classe. O residente não estava lá. Quinze minutos depois, você volta para a classe sem ter dito nada, e pensando no que diria.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a Regina tá brava com a classe de novo. Ontem sumiram duas crianças na hora do remédio.
  • …o Theo do isolamento não quis nem o café hoje. Tá virado pra parede.
  • …a menina da quimio chorou com o e-mail da escola. Disse que vai repetir.
  • …a estagiária disse que lançou tudo do mês ontem à noite, correndo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Seguir a rotina da enfermagem” e “Fazer as frações com a pizza do almoço”: Com a classe reduzida às janelas sem remédio, o atendimento passou a ser nos quartos. O Theo pediu que você voltasse amanhã. Amanhã, você tem 50 minutos para onze alunos.
  • Se você escolheu “Combinar com a professora uma prova por vídeo” e “Seguir a rotina da enfermagem”: Uma prova por vídeo, como exceção, e uma classe que cabe nas brechas da enfermagem. Nesta sexta, tudo funcionou porque você se ajustou. Nada mudou no jeito como o hospital e a escola veem a classe.
  • Se você escolheu “Acionar a Secretaria de Educação” e “Propor um horário protegido, com aviso”: Você acionou a Secretaria e pediu horário protegido. Duas regras novas pedidas no mesmo dia. Se as duas pegarem, a próxima pedagoga deste andar encontra a classe com hora e com prova que vale. A Ana Clara e o Theo talvez não vejam isso.
  • Se você escolheu “Deixar a folha e ler com ele” e “Combinar com a professora uma prova por vídeo”: Você deixou as frações do Theo para outro dia e arrumou uma prova por vídeo para a Ana Clara. Na mesma sexta, a escola de um deixou de ser cobrada e a de outra passou a ser chamada. Os dois relatórios de segunda vão contar coisas bem diferentes.

Como o dia termina

Você foi para o relatório primeiro.

Havia um menino virado para a parede, uma enfermeira-chefe esperando e uma adolescente com medo de repetir, e você abriu um relatório que ninguém ia ler hoje. Passou 1h00 conferindo datas de internação.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do papel que faz a aula contar lá fora. Na pedagogia hospitalar, o registro é o que transforma uma hora no quarto em presença na escola.

Você foi para o Theo primeiro.

Você começou pelo quarto do isolamento, por um menino que não via sentido em estudar. Passou 40 min decidindo se a aula de hoje era sobre frações ou sobre ele.

Quem trabalha com a dificuldade de aprender olha para isso todo dia: antes do conteúdo, a relação com o aprender, e o que está no caminho dela.

Você foi para o posto primeiro.

Você começou pela enfermeira-chefe, pela rotina de um andar inteiro. Passou 45 min negociando quanto da escola cabe dentro do tratamento.

Pedagogia hospitalar é isso: a sala de aula existe dentro de um lugar que tem outra prioridade, e cada hora de aula é combinada com quem cuida da saúde.

Você foi para a Ana Clara primeiro.

Você começou pela quimio, por uma escola que não aceitava a prova de uma aluna doente. Passou 50 min entre resolver o caso dela e mudar a regra para todos.

Educação inclusiva vive essa escolha: a adaptação que resolve um aluno hoje e o direito que precisa valer para todos, mesmo que demore.

As três portas das especialidades da educação

As especialidades da educação não são uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela idade do aluno.

  • Pedagogia hospitalar. Dar aula onde o tratamento vem primeiro, e fazer essa aula contar lá fora.
  • Educação inclusiva. Adaptar a escola para quem ela não previa, e fazer o direito valer para todos.
  • Psicopedagogia. Olhar para o que está no caminho de quem não consegue, ou não quer, aprender.