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Um dia na pele de

A coordenação da escola de educação infantil

Você é a coordenadora pedagógica de uma escola municipal de educação infantil: 240 crianças de 4 e 5 anos, 12 professoras, um parque e um refeitório. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua sala: está no portão, na sala do Infantil 4, no parque. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Cuidar do que a criança vive hoje com quem cobra o que ela vai ser amanhã.

Profissões com um dia assim: Pedagogo · Professor de Educação Infantil · Especialista em Educação Especial · Psicopedagogo Institucional

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A coordenação da escola de educação infantil: o dia por escrito

Você é a coordenadora pedagógica de uma escola municipal de educação infantil: 240 crianças de 4 e 5 anos, 12 professoras, um parque e um refeitório. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua sala: está no portão, na sala do Infantil 4, no parque. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Coordenação: As crianças que sumiram da lista

A secretaria de educação quer hoje, até as 16h, a lista das crianças com presença abaixo de 60% em setembro. Setembro teve 20 dias de aula. Falta com atestado médico não conta como falta.

Antes de mandar qualquer nome, a escola liga para a família: às vezes é doença, às vezes é mudança, às vezes é outra coisa. Você abre a planilha das turmas do Infantil 5.

Ache as crianças que ficaram abaixo de 60% de presença em setembro. São esses quatro: Bento, Emanuelly, Isaac e Theo, com 9 ou mais faltas sem atestado em 20 dias. A Helena, com 14 faltas, tem 10 atestados: esteve doente, não sumiu. O Enzo, com 8, fica em 60% exatos. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de ligar para as quatro famílias antes de mandar a lista. Duas atenderam: uma mudou de bairro, a outra tem a mãe internada.
  • Entre 11h e 14h30: Você achou depois das 11h. Deu tempo de ligar para duas famílias. As outras duas foram para a secretaria só como nome e número.
  • Depois das 14h30: A lista ficou para depois das 14h30. O que quer que tenha sido mandado, foi mandado sem ligação. A secretaria recebe a lista amanhã cedo e o conselho tutelar vê os mesmos nomes que a escola viu.

Portão de entrada: O abaixo-assinado da apostila

Seis mães do Infantil 5 esperam no portão com um papel assinado por 40 famílias. Querem apostila e lição de casa de letras, "como a escolinha particular da esquina". Dizem que os filhos vão chegar no primeiro ano atrasados.

O currículo da rede é por brincadeira, conversa e projeto. As crianças fazem muita coisa com letra; só não fazem folha de cobrir pontilhado.

  • Mandar uma folha de letras por semana. Você combina uma folha semanal de letras para casa. As mães agradecem e levam o papel de volta. As professoras do Infantil 5 perdem uma tarde por semana montando folha, e duas delas vêm perguntar se isso agora é o currículo.
  • Manter o currículo e chamar as famílias para ver. Você marca para quinta uma manhã aberta para mostrar o que as crianças fazem com letras brincando. Doze famílias aparecem. Duas das seis mães do portão pedem transferência para a escolinha da esquina.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao portão antes das 8h30. As mães ainda estavam lá, todas juntas, e a conversa foi cara a cara, com as crianças entrando em volta.
  • Entre 8h30 e 10h: Você foi ao portão depois das 8h30. Só duas mães tinham ficado. As outras quatro foram trabalhar e deixaram o papel com o porteiro, com um recado: "Esperamos resposta."
  • Depois das 10h: O portão ficou para depois das 10h. O abaixo-assinado foi parar no grupo de mensagens das famílias com a foto do papel. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com 40 famílias esperando a resposta pelo celular.

Sala do Infantil 4 B: O Arthur sem apoio

O Arthur tem 4 anos, é autista e entrou na escola há duas semanas. A secretaria ainda não mandou a profissional de apoio que ele tem direito de ter. Hoje a rotina muda: ensaio da festa da primavera, com música alta no pátio.

A professora Vânia está sozinha com 22 crianças. O Arthur está embaixo da mesa, tampando os ouvidos, e ela não pode sair de perto das outras.

  • Ficar você na sala como apoio. Você senta no chão perto do Arthur e espera. Ele sai de baixo da mesa depois de quarenta minutos e passa o ensaio desenhando ao seu lado. A Vânia conduz as outras 21. Na sua sala, o telefone toca quatro vezes sem ninguém atender.
  • Tirar a professora da sala de leitura. A professora da sala de leitura vai para o Infantil 4 B até a secretaria mandar alguém. O Arthur ganha um adulto do lado a semana toda. A sala de leitura fecha, e as 240 crianças ficam sem a hora da história de segunda a sexta.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao Infantil 4 B antes das 9h30. O ensaio ainda não tinha começado. Deu para avisar o Arthur, com calma, que a música ia ficar alta.
  • Entre 9h30 e 11h30: Você foi ao Infantil 4 B depois das 9h30. O ensaio já estava tocando. A Vânia tinha passado uma hora entre o Arthur e as outras crianças, e duas delas também estavam chorando.
  • Depois das 11h30: O Infantil 4 B ficou para depois das 11h30. A Vânia ligou para a mãe do Arthur vir buscá-lo mais cedo. O que quer que tenha sido decidido depois, ele passou a manhã sem ninguém só para ele.

Parque: O balanço com a corrente solta

O zelador achou uma corrente do balanço solta no gancho. Ninguém se machucou. A manutenção da prefeitura só vem em duas semanas, e o zelador sugere fechar o parque inteiro até lá.

O parque é a hora em que as crianças correm, sobem e caem. Para muitas delas, é o único lugar aberto do dia.

  • Fechar o parque até a manutenção. O zelador passa a fita no portão do parque. As turmas fazem a hora do parque na sala e no corredor. Na segunda semana, as professoras contam mais briga, mais choro e mais criança correndo dentro da sala.
  • Isolar só o balanço e pôr mais um adulto. O zelador amarra o balanço e isola com cone. O parque continua aberto, com a auxiliar da secretaria de olho. Uma mãe vê o cone na saída e pergunta, no grupo, por que a escola deixa as crianças brincarem num parque quebrado.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao parque antes das 10h. Nenhuma turma tinha descido ainda. A decisão foi tomada antes da primeira criança chegar no balanço.
  • Entre 10h e 13h30: Você foi ao parque depois das 10h. Duas turmas já tinham passado pelo parque, com o zelador parado ao lado do balanço o tempo todo, sem poder sair dali.
  • Depois das 13h30: O parque ficou para depois das 13h30. O zelador fechou o parque por conta própria no fim da manhã. O que quer que tenha sido decidido depois, a turma da tarde já tinha ficado sem.

Refeitório: Café, e a escola vista da cozinha

A merendeira está passando o café, conversando com a auxiliar.

“…aqui é só cuidar. Escola mesmo começa no primeiro ano.”

Muita gente da cidade pensa igual, inclusive mãe do portão. Quinze minutos depois, você volta para a sua sala com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a secretaria ligou. Quer a lista de frequência hoje, sem falta.
  • …tem umas mães no portão com um papel. Disseram que só saem depois de falar com a coordenação.
  • …a Vânia tá sozinha com o 4 B. O menino novo tá embaixo da mesa de novo.
  • …o seu Jorge quer fechar o parque por causa do balanço.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Tirar a professora da sala de leitura” e “Fechar o parque até a manutenção”: Na mesma semana, a escola ficou sem sala de leitura e sem parque. As crianças passaram cinco dias quase inteiros dentro da sala. Na sexta, a Vânia disse que nunca tinha visto o 4 B tão agitado.
  • Se você escolheu “Mandar uma folha de letras por semana” e “Tirar a professora da sala de leitura”: Você mandou folha de letras para casa e fechou a sala de leitura no mesmo dia. Uma professora do Infantil 5 fez a conta em voz alta na reunião: a escola trocou a hora da história por uma folha de pontilhado.
  • Se você escolheu “Manter o currículo e chamar as famílias para ver” e “Isolar só o balanço e pôr mais um adulto”: As mães do portão viram, no mesmo grupo de mensagens, o convite para a manhã aberta e a foto do cone no balanço. Na quinta, metade das perguntas foi sobre o parque.
  • Se você escolheu “Ficar você na sala como apoio” e “Manter o currículo e chamar as famílias para ver”: Você passou a manhã no chão do 4 B e marcou uma manhã aberta para as famílias. Uma das ligações que tocaram na sua sala era da mãe que liderava o abaixo-assinado. Ela não ligou de novo.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia mães no portão, uma criança embaixo da mesa e um balanço quebrado, e você abriu a planilha de frequência. Passou 1h20 separando falta de doença de falta de sumiço.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás das crianças que não estavam na escola para ver nada disso. Coordenação pedagógica também é isso: um número na planilha que precisa virar uma ligação.

Você foi para o portão primeiro.

Você começou pelas famílias que tinham uma pergunta em voz alta. Passou 40 min explicando o que a escola faz e por que, para quem tem medo pelo filho.

Coordenar uma escola é traduzir o currículo para quem não estudou pedagogia e ama a criança mais do que qualquer professora.

Você foi para o Arthur primeiro.

Você começou pela criança que não tinha ninguém só para ela. Passou 1h00 decidindo de onde tirar um adulto que a rede ainda não mandou.

Educação especial vive disso: o direito está escrito, a pessoa que garante o direito ainda não chegou, e a criança está na sala hoje.

Você foi para o parque primeiro.

Você começou pelo lugar onde as crianças correm. Passou 30 min pesando o risco de uma corrente solta contra o risco de duas semanas sem correr.

Na educação infantil, o brincar é o currículo. Quem trabalha com criança pequena decide todo dia quanto de risco cabe no aprender.

As três portas da pedagogia

Pedagogia não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela idade do aluno.

  • Coordenação pedagógica. Fazer a escola funcionar como projeto: as famílias, as professoras, as crianças que somem da lista.
  • Educação especial. Garantir que cada criança aprenda do seu jeito, inclusive quando a rede ainda não mandou o apoio.
  • Educação infantil. Ensinar brincando, na idade em que brincar é o jeito de aprender.