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Um dia na pele de

A praça que inaugura no sábado

Você é a paisagista que desenhou a reforma da Praça das Acácias, contratada pela prefeitura, e hoje acompanha o plantio feito pela construtora. A praça inaugura no sábado, com o prefeito. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Paisagismo não se resolve na prancheta: as mudas estão no abrigo, a árvore está no gramado, os moradores estão na entrada. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer o desenho virar praça de verdade, com o que a obra entrega até sábado.

Profissões com um dia assim: Arquiteto Paisagista · Paisagista

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A praça que inaugura no sábado: o dia por escrito

Você é a paisagista que desenhou a reforma da Praça das Acácias, contratada pela prefeitura, e hoje acompanha o plantio feito pela construtora. A praça inaugura no sábado, com o prefeito. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Paisagismo não se resolve na prancheta: as mudas estão no abrigo, a árvore está no gramado, os moradores estão na entrada. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Contêiner da obra: Doze canteiros, três que não fecham

O caminhão do viveiro chegou às 7h com as mudas da forração. A nota vem por canteiro: a espécie, quantas mudas entregou. O projeto diz a área de cada canteiro e quantas mudas vão por metro quadrado. A equipe de plantio começa às 9h, e canteiro com muda faltando fica com terra aparecendo no sábado.

O motorista quer a nota assinada antes de ir embora. O viveiro só faz outra entrega na quinta.

Ache os canteiros em que as mudas entregues não cobrem a área vezes as mudas por metro quadrado. São esses três. O C03 precisa de 135 mudas e veio com 120, o C05 precisa de 480 e veio com 470, o C08 precisa de 168 e veio com 160. O C05 engana: é o canteiro que mais recebeu muda, e mesmo assim falta. Três pedidos de complemento antes de o motorista sair. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você achou antes das 8h30. O motorista ainda estava no portão. A ressalva foi na nota que ele levou, e o viveiro mandou o complemento junto com a entrega de quinta, sem discussão.
  • Entre 8h30 e 11h: Você achou depois das 8h30. O encarregado tinha assinado a nota para liberar o caminhão. O viveiro pediu foto de cada canteiro para aceitar que faltou muda, e a equipe já tinha começado a plantar espaçado para cobrir.
  • Depois das 11h: A entrega ficou para depois das 11h. A equipe plantou o que tinha, esticando o espaçamento para não sobrar terra. O que quer que tenha sido pedido depois, três canteiros vão chegar ao sábado mais ralos do que o desenho.

Gramado da praça: O ipê no lugar do parquinho

O levantamento da prefeitura não marcava a árvore. Quando a equipe foi gabaritar o parquinho acessível, achou um ipê-amarelo de uns quarenta anos bem no meio dele. A construtora tem autorização de corte e o brinquedo já chegou. O encarregado espera a sua palavra com a motosserra no caminhão.

Uma senhora parada na cerca conta que plantou aquele ipê quando o filho nasceu.

  • Manter o ipê e redesenhar o parquinho ao lado. Você risca o parquinho no papel e o redesenha ao lado da árvore, mais estreito, com a sombra do ipê em cima do banco das mães. A construtora pede aditivo pela base refeita. A senhora da cerca pergunta seu nome.
  • Autorizar o corte e plantar dez mudas na praça. Você autoriza o corte e escreve no diário de obra onde vão as dez mudas de compensação. O parquinho fica como foi desenhado, com a sombra que as mudas vão dar daqui a quinze anos. A senhora da cerca vai embora antes da motosserra ligar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao gramado antes das 9h30. A equipe ainda estava marcando o chão com estaca e linha. Qualquer que fosse a decisão, ela chegou antes de alguém mexer na terra em volta da raiz.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi ao gramado depois das 9h30. A equipe já tinha aberto as valas da base do parquinho e cortado duas raízes grossas do ipê. Você decidiu sobre uma árvore que já não estava inteira.
  • Depois das 12h: O gramado ficou para depois do meio-dia. A equipe passou a manhã parada esperando alguém dizer o que fazer com a árvore. O que quer que tenha sido decidido depois, o parquinho perdeu meio dia de obra numa semana que não tinha folga.

Abrigo das mudas: As palmeiras que não são jerivá

O projeto pediu doze jerivás, a palmeira nativa da região. O fornecedor mandou doze palmeiras-australianas: mais baratas, mais bonitas no vaso, e conhecidas por se espalhar pela mata e tomar o lugar das nativas. Ele diz que não tinha jerivá e que ninguém vai notar a diferença no sábado.

Jerivá do tamanho certo só daqui a três semanas.

  • Aceitar as palmeiras e plantar hoje. Você aceita e anota no diário de obra a troca de espécie, com o motivo. As palmeiras vão para as covas à tarde. No sábado, ninguém nota a diferença. Daqui a alguns anos, as sementes vão aparecer no terreno baldio do lado.
  • Devolver e esperar os jerivás. Você devolve as palmeiras e pede os jerivás com prazo escrito. As doze covas ficam fechadas com tampa de madeira e uma placa. O fornecedor cobra o frete da volta, e a construtora pergunta quem vai explicar as tampas ao prefeito.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao abrigo antes das 10h. As palmeiras ainda estavam nos vasos e o caminhão do fornecedor estava no bairro. Qualquer das duas decisões custou só uma ligação.
  • Entre 10h e 13h: Você foi ao abrigo depois das 10h. O caminhão do fornecedor já tinha ido para outra obra. O que você decidiu passou a depender de quem buscava e quem pagava a viagem.
  • Depois das 13h: O abrigo ficou para depois das 13h. A equipe precisava das covas da tarde e perguntou duas vezes o que plantar nelas. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com as palmeiras já tiradas do vaso, ao lado dos buracos.

Entrada da praça: A grade que os moradores querem

A presidente da associação de moradores chegou com 340 assinaturas: querem grade em volta da praça, com portão fechado das 22h às 6h. Dizem que à noite a praça vira ponto de uso de droga e que as crianças encontram seringa de manhã. O desenho foi feito aberto, sem grade, com bancos virados para a rua.

A prefeitura diz que acata o que você recomendar.

  • Recomendar a grade com horário. Você desenha a grade baixa, de 1,20 m, com dois portões, e manda para a prefeitura. A associação agradece e posta a notícia no grupo do bairro. Quem dormia nos bancos vai para a calçada da rua de trás.
  • Manter aberta e trocar a iluminação. Você propõe trocar os postes altos por luz baixa nos caminhos e tirar os arbustos que fecham a visão da rua. A presidente diz que luz não resolve e que vai levar o abaixo-assinado ao vereador. A prefeitura aceita a sua proposta.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à entrada antes das 10h30. A presidente ainda estava sozinha, com a pasta na mão. A conversa foi entre duas pessoas, não com uma plateia.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi à entrada depois das 10h30. A presidente tinha chamado outros moradores e um repórter do jornal do bairro. Você explicou a sua posição com um celular gravando.
  • Depois das 14h: A entrada ficou para depois das 14h. A presidente cansou de esperar e deixou o abaixo-assinado na mão do encarregado da construtora. O que quer que tenha sido recomendado depois, os moradores contaram no grupo que ninguém do projeto quis ouvir.

Refeitório: Café, e o paisagismo visto da obra

Dois jardineiros da equipe de plantio dividem a garrafa de café.

“…paisagista desenha flor no computador. Quem faz pegar somos nós.”

Metade do que você decidiu hoje não tem nada de flor: conta de muda, árvore no caminho, espécie que invade, grade. E é verdade que, sem quem planta, nenhum desenho vira jardim. Quinze minutos depois, você volta para o caminho com essa frase no bolso.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o motorista do viveiro quer a nota assinada. Diz que tem outra entrega.
  • …o encarregado já tirou a motosserra do caminhão. Só falta alguém mandar.
  • …essas palmeiras são bonitas demais para ser as do desenho, não são?
  • …a mulher da associação tá na entrada com uma pasta cheia de assinatura.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manter o ipê e redesenhar o parquinho ao lado” e “Devolver e esperar os jerivás”: O ipê ficou e os jerivás vão esperar três semanas. No sábado, o prefeito corta a fita de uma praça com o parquinho ainda cercado de fita zebrada e doze tampas de madeira no chão. As duas escolhas vão estar visíveis na foto.
  • Se você escolheu “Autorizar o corte e plantar dez mudas na praça” e “Aceitar as palmeiras e plantar hoje”: Na mesma segunda, a praça perdeu uma árvore de quarenta anos e ganhou doze palmeiras de outro continente. O desenho ficou inteiro e a praça fica pronta no sábado.
  • Se você escolheu “Manter o ipê e redesenhar o parquinho ao lado” e “Recomendar a grade com horário”: O ipê que a senhora plantou ficou de pé, e agora fica atrás de uma grade que fecha às 22h. Ela vai poder ver a árvore da calçada a qualquer hora, e sentar embaixo dela só de dia.
  • Se você escolheu “Manter aberta e trocar a iluminação” e “Aceitar as palmeiras e plantar hoje”: A praça ficou aberta e iluminada, e as palmeiras-australianas foram plantadas nela. O lugar mais aberto do bairro vai ser também de onde as sementes delas vão sair.

Como o dia termina

Você foi para as mudas primeiro.

Havia uma árvore esperando a motosserra, palmeiras trocadas e moradores com um abaixo-assinado, e você começou pela entrega do viveiro. Passou 1h10 multiplicando metro quadrado por muda.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que dava para conferir antes de o caminhão ir embora. Boa parte do paisagismo é essa conta, feita antes de alguém notar o buraco.

Você foi para o ipê primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a que mudava o desenho da praça. Passou 50 min decidindo entre o que estava no papel e o que estava no chão há quarenta anos.

Na arquitetura paisagística, o terreno quase nunca é o do levantamento. O trabalho é redesenhar no meio da obra sem perder o que a praça precisava ser.

Você foi para as palmeiras primeiro.

Você começou pelo abrigo, onde a troca era invisível para quase todo mundo. Passou 40 min decidindo se uma espécie errada valia uma praça pronta no sábado.

Paisagismo é saber o que cada planta faz depois que você vai embora: quanto cresce, quanta água bebe, para onde espalha.

Você foi para os moradores primeiro.

Havia mudas, uma árvore e palmeiras, e você foi primeiro a quem vai usar a praça. Passou 45 min entre uma grade e uma praça aberta.

Quem projeta espaço público desenha para quem mora em volta e para quem não tem onde morar, e quase nunca os dois querem a mesma praça.

As duas portas do paisagismo

Fazer jardim não é uma profissão só, são duas, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho do terreno.

  • Arquitetura paisagística. Desenhar o espaço livre: por onde as pessoas passam, onde param, quem fica de fora.
  • Paisagismo. Escolher, contar e cuidar das plantas: o que cada espécie faz depois que a obra acaba.