🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

O plantão da ortopedia

Você é a ortopedista de plantão de um hospital geral da Zona Norte de São Paulo. Neste sábado, são doze horas de plantão: o pronto-socorro, a enfermaria da ortopedia e uma sala de cirurgia só, com seis casos no mapa. Quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Osso não se resolve pelo prontuário: a fratura está na enfermaria, o gesso está no pronto-socorro, a sala está no centro cirúrgico. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.

Operar o que não pode esperar com uma sala só e doze horas de plantão.

Profissões com um dia assim: Ortopedista

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O plantão da ortopedia: o dia por escrito

Você é a ortopedista de plantão de um hospital geral da Zona Norte de São Paulo. Neste sábado, são doze horas de plantão: o pronto-socorro, a enfermaria da ortopedia e uma sala de cirurgia só, com seis casos no mapa. Quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Osso não se resolve pelo prontuário: a fratura está na enfermaria, o gesso está no pronto-socorro, a sala está no centro cirúrgico. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.

Posto da ortopedia: Direito ou esquerdo

Antes de cada cirurgia, alguém precisa conferir se o mapa cirúrgico bate com o raio-X: qual osso, qual lado. Hoje é você. A residente montou o mapa de ontem para hoje, às duas da manhã, copiando de doze pedidos diferentes.

A cirurgia no lado errado é rara. Quase sempre começa num papel que ninguém comparou com o outro.

Ache as cirurgias em que o lado do mapa não bate com o laudo do raio-X. São esses dois. O tornozelo do C.R. está no mapa como direito, e a fratura é no esquerdo. O punho do G.T. está como esquerdo, e o escafoide quebrado é o direito. Os dois foram copiados de pedidos escritos à mão, um embaixo do outro. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você conferiu antes das 8h30. O C.R. era o terceiro do dia. O mapa corrigido chegou ao centro cirúrgico antes de qualquer marcação de lado na pele.
  • Entre 8h30 e 12h: Você conferiu depois das 8h30. O C.R. já estava na sala de preparo com o tornozelo direito marcado de caneta. A enfermeira apagou a marca e refez a conferência inteira com ele acordado.
  • Depois das 12h: O mapa ficou para depois do meio-dia. O mapa rodou a manhã do jeito que a residente montou. O que quer que tenha acontecido, só a pausa de segurança dentro da sala estava entre o papel e o lado errado.

Enfermaria: Quarenta e oito horas

Dona Lurdes, 84 anos, caiu no banheiro ontem à noite e quebrou o colo do fêmur. Idosa com fratura de quadril vai melhor quando opera em até 48 horas: depois disso, aumentam pneumonia, trombose e confusão mental.

Só que ela toma um anticoagulante, e a última dose foi ontem às 20h. Operar hoje sangra mais. Esperar o remédio sair do corpo leva até segunda.

  • Operar hoje, com reserva de sangue. Você pede duas bolsas de sangue reservadas e encaixa a Dona Lurdes no mapa para o fim da tarde. A filha assina o termo com a mão tremendo. A cirurgia vai ser mais demorada e mais delicada.
  • Esperar o anticoagulante sair, operar segunda. Você suspende o anticoagulante e marca a cirurgia para segunda cedo. A fisioterapia vai virar a Dona Lurdes na cama de duas em duas horas. A filha pergunta se a mãe vai ficar bem até lá.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à enfermaria antes das 9h. A filha ainda estava no quarto e a Dona Lurdes estava lúcida. A conversa foi com as duas, não com um recado da enfermagem.
  • Entre 9h e 13h: Você foi à enfermaria depois das 9h. A filha tinha ido em casa buscar roupa, e a Dona Lurdes começou a ficar confusa no fim da manhã. A decisão foi explicada para quem estava menos em condição de ouvir.
  • Depois das 13h: A enfermaria ficou para depois das 13h. A Dona Lurdes passou a manhã sem plano, em jejum à espera de uma cirurgia que ninguém tinha marcado. O que quer que tenha sido decidido depois, já não cabia no mapa de hoje.

Sala de gesso: A final de amanhã

Na sala de gesso, um zagueiro de 23 anos de um time da segunda divisão do estado torceu o joelho no treino de ontem. O joelho está inchado e o exame sugere lesão do menisco. O preparador físico do clube está junto: a final é amanhã, e eles querem uma infiltração para ele jogar.

A infiltração tira a dor. Não conserta o menisco.

  • Infiltrar e liberar com termo do clube. Você aplica a infiltração, escreve no prontuário o risco de piorar a lesão e pede ressonância para segunda. O preparador assina o termo do clube. O zagueiro sai andando sem mancar.
  • Não infiltrar e afastar até a ressonância. Você imobiliza o joelho e pede ressonância para segunda. O preparador liga para o presidente do clube na sua frente. O zagueiro pergunta se pode ao menos ficar no banco.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à sala de gesso antes das 10h. O zagueiro estava sozinho com o preparador, sem pressa. Deu para examinar o joelho com calma antes de qualquer conversa sobre a final.
  • Entre 10h e 14h: Você foi à sala de gesso depois das 10h. O presidente do clube já tinha ligado para o diretor do hospital. Você entrou numa sala em que a resposta esperada já estava no ar.
  • Depois das 14h: A sala de gesso ficou para depois das 14h. O clube levou o zagueiro para uma clínica particular no começo da tarde. O que quer que tenha sido decidido sobre o joelho, foi decidido por outro médico.

Centro cirúrgico: Seis horas

Chegou do pronto-socorro um motoboy com a tíbia quebrada e o osso exposto. Fratura exposta precisa ser lavada e estabilizada em até seis horas, ou o risco de infecção no osso sobe muito.

A ortopedia tem uma sala só hoje, e o mapa está cheio até as 19h. O próximo da fila é o E.F., que veio de outra cidade, em jejum desde a meia-noite, para uma artroscopia de joelho marcada há quatro meses.

  • Tirar a artroscopia do mapa. O motoboy entra na sala em uma hora. O E.F. recebe a notícia na sala de preparo, de avental, e a cirurgia dele vai para daqui a três semanas. Ele pede para falar com você antes de ir embora.
  • Encaixar a exposta e esticar o mapa até a noite. O motoboy entra entre duas cirurgias e o resto do mapa empurra quatro horas. A anestesista avisa que é a décima quarta hora dela. O E.F. opera, às 21h, depois de 21 horas em jejum.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao centro cirúrgico antes das 9h30. O motoboy tinha chegado havia uma hora. Qualquer decisão deixava folga dentro das seis horas.
  • Entre 9h30 e 12h30: Você foi ao centro cirúrgico depois das 9h30. A sala já tinha começado a próxima cirurgia do mapa. Mudar a ordem passou a ser esperar alguém terminar.
  • Depois das 12h30: O centro cirúrgico ficou para depois das 12h30. O motoboy esperou na maca do corredor do pronto-socorro a manhã inteira. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com as seis horas no fim.

Copa: Café, e a ortopedia vista da anestesia

A anestesista está de touca, tomando café em pé, com o técnico de gesso.

“…ortopedista acha que tudo é para hoje. Quem segura o paciente dormindo sou eu.”

Ela está certa sobre a sala, e você, sobre o osso. As duas coisas cabem no mesmo sábado. Quinze minutos depois, você volta para o posto com essa conta na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …chegou um motoboy com o osso pra fora. Tá esperando sala.
  • …a residente montou o mapa de madrugada. Tava caindo de sono.
  • …o pessoal do clube tá na sala de gesso. Querem o zagueiro na final.
  • …a senhora do fêmur tá em jejum desde ontem, esperando alguém decidir.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Operar hoje, com reserva de sangue” e “Encaixar a exposta e esticar o mapa até a noite”: Você pôs a Dona Lurdes no mapa de hoje e encaixou a exposta sem tirar ninguém. A cirurgia mais delicada do dia, a de quadril com anticoagulante, começou depois das 22h, com a mesma equipe desde as 7h.
  • Se você escolheu “Tirar a artroscopia do mapa” e “Esperar o anticoagulante sair, operar segunda”: Você tirou a artroscopia do E.F. e adiou a Dona Lurdes para segunda. A sala de hoje ficou para quem não podia esperar seis horas, e dois pacientes vão esperar mais do que tinham planejado.
  • Se você escolheu “Infiltrar e liberar com termo do clube” e “Operar hoje, com reserva de sangue”: Num mesmo sábado, você colheu dois termos assinados: o do clube, para o zagueiro jogar com o menisco machucado, e o da filha da Dona Lurdes, para operar com o anticoagulante no sangue. Os dois dizem que o risco foi explicado.
  • Se você escolheu “Não infiltrar e afastar até a ressonância” e “Tirar a artroscopia do mapa”: Você disse não ao clube e tirou o E.F. do mapa. Duas pessoas saíram do hospital hoje sem o que vieram buscar, e as duas pediram para falar com você antes de ir.

Como o dia termina

Você foi para o mapa primeiro.

Havia uma idosa com o fêmur quebrado, um clube na sala de gesso e uma fratura exposta sem sala, e você abriu o mapa cirúrgico. Passou 1h00 comparando lado com lado, papel com raio-X.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que ainda não tinha acontecido. Ortopedia eletiva é isso: o dia é planejado, e o perigo mora no que foi copiado errado no planejamento.

Você foi para a Dona Lurdes primeiro.

Você começou pela enfermaria, por uma fratura que tem prazo e um remédio que torna o prazo perigoso. Passou 50 min pesando sangue contra tempo de cama.

Quem cuida de trauma vive essas contas: o osso do idoso quebra fácil, e cada dia esperando a cirurgia cobra alguma coisa.

Você foi para o jogador primeiro.

Você começou pela sala de gesso, pelo zagueiro e pela final de amanhã. Passou 40 min decidindo entre o jogo e o joelho.

Medicina do esporte vive essa conversa: o atleta quer voltar, o clube precisa dele, e quem assina a liberação responde pelo corpo que entra em campo.

Você foi para a sala primeiro.

Você começou pelo centro cirúrgico, por uma fratura exposta e um mapa sem buraco. Passou 45 min decidindo quem cede a vez quando só existe uma sala.

Plantão de trauma é isso: o caso que chega não pergunta se a agenda está cheia, e alguém que estava marcado sempre sai perdendo.

As três portas da Ortopedia

Ortopedia não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo osso.

  • Trauma e plantão. Operar o que chegou agora: fratura que não espera, sala que não sobra.
  • Ortopedia eletiva. Planejar e operar joelho, quadril, ombro: o dia marcado com meses de antecedência.
  • Medicina do esporte. Cuidar de quem vive do corpo: lesão, volta ao jogo e a pressão do clube.