Um dia na pele de
A terça da clínica de olhos
Você é a oftalmologista de uma clínica de olhos de bairro, com três médicos, dois técnicos e uma agenda que nunca tem buraco. Hoje são 30 pacientes no seu nome, metade de glaucoma e catarata. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Olho não se resolve pela tela: a pressão está no prontuário, a dor está na sala de exames, a fila está na recepção, a glosa está na sala do diretor. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Cuidar de quem está na cadeira sem atrasar quem está na sala de espera.
Profissões com um dia assim: Oftalmologista
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A terça da clínica de olhos: o dia por escrito
Você é a oftalmologista de uma clínica de olhos de bairro, com três médicos, dois técnicos e uma agenda que nunca tem buraco. Hoje são 30 pacientes no seu nome, metade de glaucoma e catarata. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Olho não se resolve pela tela: a pressão está no prontuário, a dor está na sala de exames, a fila está na recepção, a glosa está na sala do diretor. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Seu consultório: O normal de cada olho
O técnico mediu de manhã a pressão do olho dos doze pacientes de glaucoma que voltam esta semana. A recepção marcou todos como "pressão normal", porque nenhum passou de 21, o número que a maioria das pessoas conhece.
Só que cada paciente de glaucoma tem a sua pressão-alvo, anotada por você na última consulta. É contra ela que se mede.
Ache os pacientes com a pressão de hoje acima do alvo deles. São esses três. O J.R.P., com 16 num alvo de 12, a E.M.S., com 15 num alvo de 13, e o H.S.L., com 19 num alvo de 16. Nenhum dos três passou de 21, e os três estavam marcados como normais. O L.C., com 23, é o número mais alto da lista e está dentro do alvo dele. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você conferiu antes das 10h30. Os três ainda estavam na clínica, esperando a consulta de rotina. Deu para mudar o colírio de cada um no mesmo dia.
- Entre 10h30 e 15h: Você conferiu depois das 10h30. Dois dos três já tinham ido embora com "pressão normal" na ficha. A recepção vai ter que ligar e chamar de volta.
- Depois das 15h: As pressões ficaram para depois das 15h. Os doze foram embora com a mesma frase na ficha. Os três de pressão acima do alvo voltam daqui a quatro meses, que é o prazo de quem está bem.
Recepção: O olho que entortou
Uma mãe está no balcão com um menino de quatro anos. Desde o fim de semana, um dos olhos dele começou a desviar para dentro. Ela não tem horário, e a recepção disse que a próxima vaga é em três semanas.
Na sala de espera, seis pacientes já pingaram o colírio que dilata a pupila e estão esperando você há quarenta minutos.
- Examinar o menino agora. Você examina o menino entre dois pacientes. O desvio é de grau alto, e você pede exames e uma volta em dois dias. Na sala de espera, os seis dilatados ficam mais vinte minutos sem enxergar direito, e um deles pede para remarcar.
- Encaixar o menino no fim da agenda. A recepção encaixa o menino como último paciente do dia. A mãe fica na sala de espera com ele no colo. A fila dos dilatados anda no ritmo combinado, e o exame do menino acontece com você no fim de dez horas de consultório.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi à recepção antes das 9h30. A mãe ainda estava no balcão, tentando explicar. Ela não precisou repetir a história para mais ninguém.
- Entre 9h30 e 12h: Você foi à recepção depois das 9h30. A mãe já tinha ligado para o pediatra, que mandou procurar um pronto-socorro. Ela estava com a bolsa no ombro quando você chegou.
- Depois das 12h: A recepção ficou para depois do meio-dia. A mãe foi embora com o horário de três semanas. O que quer que tenha sido feito depois, foi pelo telefone, com o menino em casa.
Sala de exames: O olho vermelho de anteontem
Dona Ivone operou catarata com você no domingo. Voltou hoje sem marcar: o olho está vermelho, dói e a visão piorou desde ontem. No exame, há inflamação dentro do olho. Pode ser a inflamação comum depois da cirurgia. Pode ser o começo de uma infecção, que é rara e é a coisa mais grave que pode acontecer depois de uma catarata.
O exame de hoje não separa as duas com certeza.
- Tratar como inflamação e rever amanhã cedo. Você aumenta o colírio de cortisona e marca a Dona Ivone para as 7h30 de amanhã, antes da agenda. Ela vai para casa com o seu celular anotado e a instrução de ligar se piorar à noite.
- Tratar como infecção agora. Você colhe o líquido do olho e aplica o antibiótico na sala de procedimento. Leva uma hora e meia. A recepção remarca quatro pacientes da tarde, e o resultado da cultura só sai em três dias.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à sala de exames antes das 10h. A Dona Ivone tinha chegado havia pouco. Qualquer decisão foi tomada com o olho como estava de manhã.
- Entre 10h e 13h30: Você foi à sala de exames depois das 10h. A Dona Ivone esperou sentada no escuro da sala de exames. Quando você chegou, a dor tinha aumentado, e o filho dela já estava no telefone com outra clínica.
- Depois das 13h30: A sala de exames ficou para depois das 13h30. O filho levou a Dona Ivone a um pronto-socorro de olhos no começo da tarde. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido por outro médico, com o seu nome na cirurgia.
Sala do diretor clínico: O remédio mais barato
O maior convênio da clínica recusou o pagamento de onze injeções de retina do mês. O diretor clínico tem uma proposta: para os pacientes desse convênio, trocar o remédio aprovado pela bula por um mais barato, que funciona para a mesma doença e é usado fora da bula no país inteiro.
"Ou isso, ou você justifica cada uma com laudo. Eu não tenho mais quem faça esse papel."
- Aceitar a troca para os pacientes novos. Os pacientes que começam o tratamento a partir de agora recebem o remédio mais barato, com um termo explicando o uso fora da bula. Os que já estavam em tratamento continuam com o de antes. O diretor fecha a planilha do mês.
- Manter o remédio e justificar caso a caso. Você leva para casa onze laudos para escrever, com exame e imagem de cada olho. O diretor reenvia as cobranças. O convênio tem trinta dias para responder, e a clínica fica sem o dinheiro até lá.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à sala do diretor antes das 11h. O diretor ainda não tinha respondido ao convênio. Você entrou numa conversa, não num aviso.
- Entre 11h e 16h: Você foi à sala do diretor depois das 11h. O diretor já tinha conversado com os outros dois médicos. Você foi o último voto, e os outros dois já tinham votado.
- Depois das 16h: O diretor ficou para depois das 16h. O diretor respondeu ao convênio no fim da tarde sem ouvir você. O que quer que tenha sido combinado depois, foi para mudar uma coisa que já tinha sido escrita.
Copa: Café, e a clínica vista da recepção
A secretária está no micro-ondas, falando com a técnica.
“…paciente de olho reclama de tudo, mas sabe o que mais reclama? Esperar dilatado sem conseguir ler o celular.”
Ela atende o telefone de quem desistiu da consulta. Você atende quem ficou. Quinze minutos depois, você volta para o consultório com essa diferença na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …tem seis dilatados lá fora, e uma mãe com criança que não sai do balcão.
- …a senhora da catarata de domingo voltou. O olho tá bem vermelho.
- …o diretor tá com a carta do convênio na mão desde cedo.
- …marquei todo mundo do glaucoma como normal. Ninguém passou de 21.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Examinar o menino agora” e “Tratar como infecção agora”: Você parou a fila para o menino e parou a tarde para a Dona Ivone. Os dois foram atendidos no dia em que chegaram. Nove pacientes da agenda foram remarcados, e a recepção passou o fim do dia ao telefone.
- Se você escolheu “Encaixar o menino no fim da agenda” e “Tratar como inflamação e rever amanhã cedo”: O menino esperou até o fim do dia, e a Dona Ivone foi para casa esperar até amanhã. A agenda fechou no horário. Duas pessoas dormiram com o seu celular anotado.
- Se você escolheu “Aceitar a troca para os pacientes novos” e “Tratar como infecção agora”: Na mesma terça, você aplicou um antibiótico dentro de um olho sem certeza de infecção e aceitou trocar o remédio de retina por um mais barato. Nas duas, alguém vai ler um termo assinado com o seu nome.
- Se você escolheu “Manter o remédio e justificar caso a caso” e “Examinar o menino agora”: Você encaixou o menino no meio da manhã e levou onze laudos para escrever em casa. O dia de consultório acabou às 18h. O de papel, não.
Como o dia termina
Você foi para os números primeiro.
Havia uma mãe no balcão, um olho vermelho na sala de exames e uma glosa na mesa do diretor, e você abriu a lista das pressões. Passou 1h10 comparando cada pressão com o alvo de cada paciente.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que piora sem doer. Glaucoma é isso: uma doença que não avisa, acompanhada por números que só fazem sentido para aquele olho.
Você foi para a criança primeiro.
Você começou pelo balcão, por um menino sem horário e um olho que desviou de repente. Passou 40 min decidindo onde ele cabia numa agenda que não tem buraco.
Olho de criança tem tempo para se desenvolver, e esse tempo acaba. Quem trabalha com oftalmologia pediátrica vive essa conta: o que não é tratado cedo pode não ter conserto depois.
Você foi para o pós-operatório primeiro.
Você começou pela Dona Ivone, por um olho que você mesma operou e que voltou vermelho. Passou 55 min decidindo entre uma inflamação comum e uma infecção rara, com um exame que não separava as duas.
Quem opera vive isso: a cirurgia termina no centro cirúrgico, mas a responsabilidade volta pela porta da clínica, sem horário marcado.
Você foi para o diretor primeiro.
Você começou pela glosa, por um remédio caro que o convênio não quis pagar. Passou 45 min decidindo entre o que diz a bula e o que diz a planilha.
Quem trata retina vive essa reunião: os remédios que salvam a visão são caros, e alguém sempre pergunta se dá para fazer o mesmo por menos.
As três portas da Oftalmologia
Oftalmologia não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela parte do olho.
- Clínica e acompanhamento. Acompanhar por anos doenças como o glaucoma, que pioram sem doer.
- Cirurgia e retina. Operar e tratar a retina: responder pelo olho depois que ele sai da sala.
- Oftalmologia pediátrica. Cuidar do olho que ainda está aprendendo a enxergar, contra o relógio da infância.