Um dia na pele de
O último dia de gravação de um EP
Você é o produtor musical do primeiro EP da Lívia, uma cantora independente: quatro músicas, um estúdio alugado por diária e o dinheiro de um edital que precisa virar disco lançado até o fim do mês. Hoje é a última diária. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na técnica: está na sala de gravação, na sala da banda, no escritório do estúdio. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fechar o disco que a artista quer com as horas de estúdio que sobraram.
Profissões com um dia assim: Produtor Musical · Engenheiro de Som · Músico de Sessão · Músico · +1
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O último dia de gravação de um EP: o dia por escrito
Você é o produtor musical do primeiro EP da Lívia, uma cantora independente: quatro músicas, um estúdio alugado por diária e o dinheiro de um edital que precisa virar disco lançado até o fim do mês. Hoje é a última diária. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na técnica: está na sala de gravação, na sala da banda, no escritório do estúdio. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Técnica: O click que mudou no meio da semana
Na segunda, a Lívia pediu para subir Maré de 92 para 96 BPM: no andamento antigo, a música arrastava. A grade da sessão foi trocada. Só que alguém gravou na terça com o click antigo ainda ligado, e no fone, sozinho, ninguém percebe.
Na mixagem, um take fora do andamento escorrega devagar para trás da bateria. A conta é simples: um compasso de quatro tempos a 96 BPM dura 2,5 segundos; a 120, dura 2; a 78, um pouco mais de 3.
Ache os takes cuja duração não fecha com o andamento da música. São esses dois: o baixo e o teclado de Maré. Setenta e dois compassos a 96 deviam dar 3:00, e o baixo deu 3:08; sessenta e quatro deviam dar 2:40, e o teclado deu 2:47. É exatamente o que dá a 92 BPM. Os dois foram gravados com o click antigo. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. Deu para regravar baixo e teclado de Maré numa brecha da manhã, com a sala ainda montada. A mixagem recebe a música inteira no mesmo andamento.
- Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. A regravação disputou a sala com a bateria e com a voz. Baixo e teclado de Maré entraram no fim da diária, tocados às pressas por quem já estava cansado.
- Depois das 16h: A sessão de terça ficou para depois das 16h. Maré foi para a mixagem com dois takes fora do andamento. O que quer que tenha sido achado depois, consertar agora custa uma diária de estúdio que o edital não tem.
Sala de gravação: O baterista com voo marcado
O Edson, baterista contratado por música, chegou às dez para gravar três faixas. Na porta, avisa: foi chamado ontem à noite para cobrir o baterista de uma turnê grande. O voo é às 17h, ele precisa sair às 15h.
Três baterias bem gravadas levam até umas 18h. Ele está afinando a caixa e espera a sua resposta para saber como tocar.
- Gravar as três hoje, em menos takes. O Edson grava cada música em dois takes, sem pausa entre elas. Maré e Casa de vó saem firmes. Em Avenida, ele pede para refazer uma virada que não gostou, e não há tempo. A virada fica no disco, e ele sabe onde está.
- Gravar duas com calma e programar a terceira. Maré e Avenida saem com os takes que o Edson queria. Casa de vó fica com uma bateria programada por você à noite. A Lívia ouve e diz que soa "de máquina". O Edson oferece gravar de onde estiver, daqui a três semanas.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à sala de gravação antes das 11h. O Edson ainda afinava a caixa. Deu para trocar a ordem das músicas antes do primeiro take, e começar pela mais difícil.
- Entre 11h e 13h: Você foi à sala de gravação depois das 11h. O Edson esperou uma hora com a bateria microfonada, tocando sozinho para aquecer. A tarde dele, que já era curta, ficou mais curta.
- Depois das 13h: A bateria ficou para depois das 13h. O Edson passou a manhã esperando e gravou o que deu com o assistente do estúdio. O que quer que tenha sido combinado depois, sobraram menos de duas horas de bateria para o disco.
Sala da banda: A letra que só tem metade dos autores
Maré é o próximo single, e a letra é da Lívia com o Téo, meio a meio, registrada assim na editora. Hoje cedo ela chegou com um refrão novo escrito no celular: diz que o antigo não é mais o que ela sente.
O Téo não está no estúdio. Por mensagem, respondeu só: "o refrão é a música". A voz de Maré precisa ser gravada hoje.
- Gravar o refrão novo. A Lívia grava em três takes, e é a melhor voz da semana. À noite, o Téo ouve a prévia e avisa que não assina a divisão de autoria da versão nova antes de uma conversa com os dois.
- Gravar o refrão registrado e guardar o novo. A Lívia grava o refrão antigo, correta e sem vontade. Você guarda o novo numa guia e manda para o Téo. Ele visualiza e não responde. A voz de Maré está no disco, e a Lívia fala pouco o resto do dia.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h30: Você foi à sala da banda antes das 12h30. A Lívia ainda não tinha aquecido a voz. Deu para conversar com calma antes de qualquer take, e ligar para o Téo com ela do lado.
- Entre 12h30 e 15h: Você foi à sala da banda depois das 12h30. Ela já tinha cantado o refrão novo duas vezes no aquecimento, e a banda inteira sabia de cor. A conversa começou com a música nova já no ar da sala.
- Depois das 15h: A sala da banda ficou para depois das 15h. A Lívia passou a tarde sem gravar voz. O que quer que tenha sido decidido depois, a voz do single foi gravada no fim da diária, com a garganta cansada.
Escritório do estúdio: A master que tem prazo
Avenida, o primeiro single, está mixada desde a semana passada. A distribuidora precisa do arquivo final até as 18h de hoje para manter o lançamento daqui a três semanas e mandar a faixa para as playlists editoriais.
O engenheiro de masterização de fora, que a Lívia queria, pediu três dias. O edital exige o EP lançado até o dia 30.
- Masterizar aqui hoje e mandar. Você masteriza no estúdio em uma hora e manda. Na semana seguinte, a Lívia ouve no carro e acha a voz um pouco enterrada. Depois de distribuída, trocar a master quer dizer tirar a faixa do ar e começar os números do zero.
- Esperar a master de fora e adiar o lançamento. A master chega na segunda, maior e mais clara. O lançamento anda duas semanas, e a prestação de contas do edital passa a depender de um pedido de prorrogação que pode ser negado.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 15h: Você foi ao escritório antes das 15h. Ainda dava para ligar para a distribuidora e para a masterização antes do fim do expediente dos dois, e decidir com as duas respostas na mão.
- Entre 15h e 18h: Você foi ao escritório depois das 15h. A distribuidora já tinha mandado o segundo e-mail. Você decidiu com o formulário aberto e o relógio do canto da tela andando.
- Depois das 18h: O escritório ficou para depois das 18h. O prazo das 18h passou sem resposta da produção. O que quer que tenha sido decidido depois, a distribuidora já tinha avisado a Lívia que a data estava em risco.
Copa: Café, e o disco visto da pista
O DJ que aluga a técnica à noite chegou cedo e esquenta um pão na copa.
“…disco de quatro músicas? Na pista ninguém ouve música inteira. Ouve os primeiros trinta segundos e o drop.”
Ele não ouviu nada do EP. Mas quem decide se uma música passa dos trinta segundos nas playlists também não. Quinze minutos depois, você volta para a técnica pensando no começo de Avenida.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o baixo de Maré tá meio atrasado, não tá? Ou é impressão minha?
- …o Edson falou que o voo é às cinco. Ele tá olhando o relógio a cada take.
- …a Lívia tá cantando um refrão diferente lá na sala da banda.
- …ligaram da distribuidora perguntando da master de Avenida.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Gravar as três hoje, em menos takes” e “Masterizar aqui hoje e mandar”: Três baterias em dois takes cada e uma master feita em uma hora: na mesma quinta, o EP ganhou tempo duas vezes. Quem ouvir de fone vai saber onde.
- Se você escolheu “Gravar o refrão novo”: Na semana seguinte, a distribuidora pediu a divisão de autoria de Maré para cadastrar o segundo single. O campo ficou em branco até a Lívia e o Téo sentarem para conversar.
- Se você escolheu “Gravar duas com calma e programar a terceira” e “Esperar a master de fora e adiar o lançamento”: Lançamento adiado duas semanas e uma bateria para regravar daqui a três: o EP que tinha de sair até o dia 30 passou a depender da agenda de turnê do Edson.
- Se você escolheu “Gravar o refrão registrado e guardar o novo” e “Esperar a master de fora e adiar o lançamento”: Você gravou o refrão registrado e esperou a master que a Lívia queria. Numa decisão, ela cedeu; na outra, você cedeu. Nenhum dos dois comentou a troca.
Como o dia termina
Você foi para a técnica primeiro.
Havia um baterista com voo marcado, uma cantora com um refrão novo e uma distribuidora esperando a master, e você abriu a sessão de terça. Passou 1h20 conferindo compasso contra segundo.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que o ouvido se acostuma a não ouvir. Engenharia de som é isso: o problema que a conta acha antes de a mixagem esconder.
Você foi para a bateria primeiro.
Você começou pela sala de gravação, onde um músico contratado tinha hora para ir embora. Passou 1h00 decidindo entre três baterias apressadas e duas bem tocadas.
Músico de sessão vive isso do outro lado: tocar o que a música pede, no tempo que o estúdio tem, e emendar com o próximo trabalho.
Você foi para a letra primeiro.
Você começou pela sala da banda, com uma cantora que queria mudar o refrão de uma música que não é só dela. Passou 50 min entre o que ela sente hoje e o que os dois autores registraram.
Composição é isso também: a canção tem dono, às vezes mais de um, e cada palavra trocada é uma conversa entre eles.
Você foi para a entrega primeiro.
Você começou pelo escritório, onde estava o único prazo do dia que não dependia de ninguém tocar nada. Passou 40 min entre a data do lançamento e o som que a artista queria.
Produção musical é segurar as duas pontas: o disco que soa como deve e o disco que sai no dia em que precisa sair.
As quatro portas da Música
Fazer um disco não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo gosto musical.
- Produção musical. Levar a música da ideia ao disco lançado, entre o som que a artista quer e o prazo que o disco tem.
- Engenharia de som. Gravar, conferir e mixar: achar no arquivo o que o ouvido deixou passar.
- Músico de sessão. Tocar a música dos outros, bem e rápido, no tempo que o estúdio pagou.
- Composição. Escrever a canção e responder por ela, inclusive quando outra voz quer mudá-la.