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Um dia na pele de

O plantão da enfermaria pediátrica

Você é a pediatra diarista da enfermaria infantil de um hospital público: 18 leitos, dois residentes e o alojamento conjunto, onde ficam as mães com os recém-nascidos. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Criança não se examina pelo prontuário: o bebê está no quarto, o menino com febre na sala de procedimentos, o recém-nascido no colo da mãe. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Decidir pela criança conversando com quem decide por ela.

Profissões com um dia assim: Pediatra · Neonatologista · Infectologista Pediátrico

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O plantão da enfermaria pediátrica: o dia por escrito

Você é a pediatra diarista da enfermaria infantil de um hospital público: 18 leitos, dois residentes e o alojamento conjunto, onde ficam as mães com os recém-nascidos. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Criança não se examina pelo prontuário: o bebê está no quarto, o menino com febre na sala de procedimentos, o recém-nascido no colo da mãe. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Posto de enfermagem: Doze doses, um peso cada

A Regina, enfermeira-chefe, separou as prescrições de paracetamol que os residentes fizeram à noite. Na pediatria não existe dose de adulto: cada uma é calculada pelo peso da criança, e o limite é de 15 mg por quilo a cada vez.

A farmácia libera às 10h. A dose maior da lista não é, por si só, a dose errada.

Ache as prescrições acima de 15 mg por quilo (dose dividida pelo peso). São essas três. Lara (20 mg/kg), Helena (20 mg/kg) e Heitor (20 mg/kg). O Heitor engana: 64 mg é a menor dose da lista, mas ele pesa 3,2 kg. O Gael, com a maior dose, está dentro do limite. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você conferiu antes das 10h. As três doses foram corrigidas antes de a farmácia liberar. Nenhuma saiu do posto, e os residentes souberam por você, não pela farmácia.
  • Entre 10h e 13h: Você conferiu depois das 10h. A farmácia liberou a dose das 10h como estava. A Regina segurou a da Lara no carrinho; as outras duas já tinham sido dadas, e entraram na notificação do dia.
  • Depois das 13h: As prescrições ficaram para depois das 13h. Duas rodadas de paracetamol saíram como estavam. O que quer que tenha sido corrigido depois, a notificação já estava no sistema com o nome dos dois residentes.

Quarto 12: O bebê que respira rápido

A Maria Eduarda, 4 meses, está no terceiro dia de bronquiolite. Respira 64 vezes por minuto, puxa a pele entre as costelas e mamou pouco à noite. A saturação oscila entre 91 e 93.

A UTI pediátrica tem uma vaga hoje, e o pronto-socorro tem outra criança grave na fila dela. O cateter de alto fluxo também cabe na enfermaria, se a equipe aguentar olhar de hora em hora.

  • Pedir a vaga da UTI para ela. Você liga para a UTI e defende a vaga com os números da noite. Ela sobe no começo da tarde. A mãe sobe junto, com uma sacola e sem saber o que é aquele monte de fios. O pronto-socorro registra que a outra criança continua esperando.
  • Começar o alto fluxo na enfermaria. O cateter de alto fluxo entra às pressas, e a Regina escala uma técnica só para o quarto 12. Você deixa escrito em que número a Maria Eduarda sobe para a UTI. A mãe fica no quarto, e pergunta a cada hora se aquilo é bom ou ruim.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao quarto antes das 9h30. A Maria Eduarda ainda não tinha piorado com o cansaço da manhã. Deu para decidir com ela acordada e a mãe ao lado, sem pressa no corredor.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi ao quarto depois das 9h30. A técnica já tinha chamado o residente duas vezes por causa da saturação. Você decidiu com a bebê mais cansada e o pronto-socorro ligando para saber da vaga.
  • Depois das 12h: O quarto 12 ficou para depois do meio-dia. O residente decidiu sozinho, com a bebê já na máscara de oxigênio. O que quer que tenha sido feito depois, a manhã dela passou sem a pediatra responsável ter entrado no quarto.

Sala de procedimentos: A febre que não cede

O Pedro, 7 anos, está internado com pneumonia e toma amoxicilina na veia há 48 horas. Continua com febre de 39. O residente quer trocar já pelos dois antibióticos mais fortes do hospital. A infectologia pediátrica pediu um ultrassom do tórax antes: se houver líquido em volta do pulmão, o problema não é o remédio.

O ultrassom portátil está livre agora na sala de procedimentos. O pai do Pedro pergunta por que trocar remédio que ainda nem teve tempo de agir.

  • Trocar os antibióticos agora. Você prescreve os dois antibióticos novos e pede o ultrassom para amanhã. O pai assina. A infectologia escreve no prontuário que discorda da troca antes da imagem, e a farmácia pede a justificativa por escrito.
  • Fazer o ultrassom e manter a amoxicilina. Você faz o ultrassom com a infectologista ao lado: há líquido em volta do pulmão esquerdo. A cirurgia pediátrica é chamada para avaliar drenagem. O antibiótico fica o mesmo, e o Pedro passa mais uma tarde com febre.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi aos procedimentos antes das 10h30. O ultrassom portátil ainda estava na sala e a infectologista, no andar. A decisão foi tomada com as duas opiniões ouvindo a mesma criança.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi aos procedimentos depois das 10h30. O ultrassom tinha descido para o pronto-socorro e a infectologista estava em outro andar. Você decidiu com o telefone dela no viva-voz.
  • Depois das 14h: O Pedro ficou para depois das 14h. Ele passou o pico de febre da tarde sem ninguém mudar nada. O que quer que tenha sido decidido depois, o pai já tinha pedido para falar com a ouvidoria.

Alojamento conjunto: A alta do Enzo

O Enzo nasceu há 50 horas, com 36 semanas. Está amarelo até a barriga, e a bilirrubina da manhã está perto da linha em que se começa a luz azul. A Jéssica, 19 anos, quer ir para casa hoje: tem outro filho de 2 anos com a vizinha.

Se ele for, volta para exame em 48 horas, numa cidade a uma hora de ônibus.

  • Segurar a alta e começar a fototerapia. Você explica a luz azul e o que o amarelo pode fazer se subir. A Jéssica chora, liga para a vizinha e fica. O Enzo vai para o berço com a luz, de olhos tapados, e a assistente social é chamada para ver o filho mais velho.
  • Dar alta com retorno marcado em 48 horas. Você dá alta, marca a coleta no posto de saúde da cidade dela e escreve em letra grande o que é amarelo demais. A Jéssica sai de táxi da prefeitura. Você deixa o seu nome na guia de retorno.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao alojamento antes das 11h. A Jéssica ainda não tinha arrumado a mala. Deu para conversar com ela sentada, com o Enzo no colo, e não na porta.
  • Entre 11h e 14h30: Você foi ao alojamento depois das 11h. A Jéssica estava pronta, com a bolsa no ombro, e já tinha avisado a vizinha. Você conversou com alguém que, na cabeça dela, já tinha ido embora.
  • Depois das 14h30: O alojamento ficou para depois das 14h30. O táxi da prefeitura sai às 15h e não volta. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido com o motorista esperando no pátio.

Copa da equipe: Café, e a pediatria vista de fora

Um residente de clínica médica, de passagem pelo andar, comenta com a técnica.

“…pediatria é fácil, é tudo virose.”

Hoje você tem uma bebê no limite da UTI, um menino com líquido no pulmão e três doses que ninguém tinha conferido. Quase tudo é virose, e o trabalho é achar o que não é. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com isso na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a farmácia vai liberar o paracetamol das 10h do jeito que veio.
  • …o PS tá perguntando de novo da vaga da UTI.
  • …o pai do Pedro quer falar com a médica. Tá nervoso.
  • …a menina do alojamento já pediu o táxi da prefeitura.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Começar o alto fluxo na enfermaria” e “Fazer o ultrassom e manter a amoxicilina”: Você escolheu esperar com a criança no andar duas vezes: a Maria Eduarda no alto fluxo e o Pedro com o mesmo antibiótico. A enfermagem da noite recebeu as duas para reavaliar de hora em hora, com a mesma equipe de sempre.
  • Se você escolheu “Pedir a vaga da UTI para ela” e “Trocar os antibióticos agora”: Vaga de UTI e os dois antibióticos mais fortes do hospital saíram no mesmo dia com a sua assinatura. Na reunião de sexta, a coordenação vai passar pelos dois pedidos, um ao lado do outro.
  • Se você escolheu “Pedir a vaga da UTI para ela” e “Dar alta com retorno marcado em 48 horas”: Uma transferência e uma alta abriram dois lugares no andar antes das 17h. O pronto-socorro, que tinha três crianças esperando internação, preencheu os dois antes do fim do seu plantão.
  • Se você escolheu “Começar o alto fluxo na enfermaria” e “Segurar a alta e começar a fototerapia”: A Maria Eduarda no alto fluxo e o Enzo sob a luz azul: duas mães dormem no hospital hoje, nas duas pontas do corredor, e as duas vão perguntar por você amanhã cedo.

Como o dia termina

Você foi para as prescrições primeiro.

Havia uma bebê cansada, um menino com febre e uma mãe de mala pronta, e você começou pela folha que nenhum deles estava cobrando. Passou 1h10 dividindo miligrama por quilo.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que ainda não tinha acontecido. Na pediatria, cada remédio tem uma conta, e quem confere a conta é a pediatra.

Você foi para o quarto 12 primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a criança que respirava mais rápido. Passou 45 min decidindo se ela subia para a UTI ou ficava com a enfermagem do andar.

Na enfermaria pediátrica, o dia é isso: olhar a criança, contar a respiração, e decidir onde ela vai estar mais bem cuidada, sabendo que o lugar melhor tem fila.

Você foi para a febre primeiro.

Você começou pelo Pedro, onde a pergunta era trocar o remédio ou procurar a causa. Passou 50 min entre um residente com pressa e uma infectologista que queria a imagem antes.

Infecção em criança é investigação: o antibiótico mais forte resolve a dúvida de hoje e cria a de amanhã, quando não sobrar outro.

Você foi para o alojamento primeiro.

Havia uma lista, uma bebê e um menino com febre, e você foi primeiro a um recém-nascido amarelo e a uma mãe de 19 anos. Passou 40 min pesando a bilirrubina contra o filho que ficou com a vizinha.

Os primeiros dias de vida são assim: o bebê não fala, e a decisão quase sempre passa pela vida inteira da família que está em volta dele.

As três portas da Pediatria

Cuidar de criança não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela idade.

  • Pediatria geral. Cuidar da criança inteira, da dose do remédio ao lugar onde ela vai passar a noite.
  • Neonatologia. Os primeiros dias de vida: o bebê que não fala e a família que decide por ele.
  • Infectologia pediátrica. Investigar a febre antes de trocar o remédio, e guardar o antibiótico forte para quando precisar.