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Um dia na pele de

O consultório da unidade básica de saúde

Você é a médica de uma equipe de Saúde da Família numa unidade básica de saúde: 3.500 pessoas de um bairro, uma enfermeira, cinco agentes comunitárias. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, além da agenda, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve só no consultório: está na recepção, na farmácia, na sala da equipe. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Cuidar de um bairro inteiro com o tempo de um consultório.

Profissões com um dia assim: Médico de Família · Clínico Geral

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O consultório da unidade básica de saúde: o dia por escrito

Você é a médica de uma equipe de Saúde da Família numa unidade básica de saúde: 3.500 pessoas de um bairro, uma enfermeira, cinco agentes comunitárias. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, além da agenda, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve só no consultório: está na recepção, na farmácia, na sala da equipe. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Seu consultório: Os que sumiram da agenda

As agentes comunitárias saem para as visitas às 13h. Antes disso, você quer dar a elas os nomes de quem precisa ser buscado em casa: diabéticos com a glicada acima de 9% no último exame e mais de 6 meses sem consulta.

Você abre a lista da equipe. Quem tem o exame pior não é, necessariamente, quem sumiu.

Ache os pacientes com glicada acima de 9% e mais de 6 meses sem consulta. São esses quatro: Seu Antônio, Dona Fátima, Dona Hilda e Dona Marlene. O Ivo e a Dona Dalva têm a glicada mais alta da lista, mas vieram no último mês: estão sendo cuidados. O Lourival está em 9,0%, no limite, não acima. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você achou antes das 10h. As agentes reorganizaram o roteiro da tarde com os quatro nomes. Três deles foram encontrados em casa no mesmo dia.
  • Entre 10h e 13h: Você achou depois das 10h. As agentes já tinham montado o roteiro. Os nomes entraram no fim da lista, e só um foi visitado na sexta.
  • Depois das 13h: A lista ficou para depois das 13h. As agentes saíram para as visitas com o roteiro de sempre. O que quer que tenha sido achado depois, ficou para a semana que vem.

Recepção: Catorze pessoas, seis vagas

A agenda do dia já está cheia. Para quem chega sem consulta marcada, sobraram seis vagas, e há catorze pessoas na recepção. Uma mãe com uma criança de três anos com febre desde ontem. Um senhor que chegou às 5h para renovar a receita da pressão. Uma moça com dor nas costas há um mês.

A recepcionista pergunta o que fazer com os outros oito.

  • Encaixar todo mundo hoje. Você atende os catorze, mais a agenda. As consultas ficam com sete minutos cada. Ninguém sai sem ser visto. A moça da dor nas costas sai com um remédio e sem que você tenha tido tempo de perguntar do trabalho dela.
  • Acolher por risco com a enfermeira. Você e a enfermeira ouvem cada um por dois minutos. A criança com febre e mais cinco entram hoje. As receitas são renovadas sem consulta. Três pessoas ganham horário para terça. Uma delas sai dizendo, alto, que no posto nunca tem médico.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 7h30: Você foi à recepção antes das 7h30. A fila ainda estava se formando. Deu para olhar cada pessoa antes de alguém desistir e ir embora.
  • Entre 7h30 e 9h: Você foi à recepção depois das 7h30. Duas pessoas tinham desistido e ido embora, uma delas a mãe da criança com febre. A recepcionista tinha anotado o telefone.
  • Depois das 9h: A recepção ficou para depois das 9h. A recepcionista decidiu sozinha, por ordem de chegada. O que quer que tenha sido feito depois, a manhã já tinha sido de quem chegou mais cedo, não de quem precisava mais.

Farmácia: O remédio que acabou

A losartana, remédio de pressão que 40 pacientes da equipe tomam todo dia, acabou na farmácia da unidade. O próximo lote chega em dez dias, segundo o almoxarifado. A farmacêutica fecha o pedido da semana às 11h.

Tem enalapril na prateleira, outro remédio de pressão. Trocar exige uma receita nova para cada um, e alguns não se dão bem com ele.

  • Trocar as receitas para o que tem. Você passa a manhã refazendo receitas, uma por uma, olhando o prontuário de cada paciente. Ninguém fica sem tomar. Na semana seguinte, três voltam com tosse seca, efeito conhecido do enalapril, e uma quarta pessoa liga dizendo que parou por conta própria.
  • Manter e orientar a Farmácia Popular. A farmacêutica avisa cada paciente que a mesma losartana sai de graça na Farmácia Popular, com a receita que já têm. A maioria consegue. Cinco moram longe da farmácia credenciada e ficam sem tomar por alguns dias.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à farmácia antes das 9h30. A farmacêutica ainda não tinha atendido nenhum paciente da losartana. Ninguém tinha voltado para casa sem resposta.
  • Entre 9h30 e 11h: Você foi à farmácia depois das 9h30. Seis pacientes já tinham passado no balcão e ouvido "volta outro dia". A farmacêutica estava com a lista dos telefones na mão.
  • Depois das 11h: A farmácia ficou para depois das 11h. O pedido da semana foi fechado sem você. O que quer que tenha sido decidido depois, os pacientes da manhã já tinham ido embora sem remédio.

Sala da equipe: O Seu Joaquim piorou

A Rosângela, agente comunitária, visitou cedo o Seu Joaquim, 84 anos, acamado depois de um AVC. Ele está comendo pouco, mais sonolento, e a filha pediu que a médica fosse vê-lo hoje.

A visita leva a tarde inteira, ida e volta a pé pelo morro. São oito consultas marcadas para depois do almoço.

  • Ir hoje à tarde. Você sobe o morro com a Rosângela. O Seu Joaquim está desidratado; vocês ajustam a água, os remédios e conversam com a filha sobre o que vem pela frente. Na unidade, as oito consultas da tarde são remarcadas, uma delas pela segunda vez.
  • Mandar a enfermeira hoje e ir na terça. A enfermeira vai à tarde, mede o que dá para medir e liga para você do quarto. Vocês combinam o que fazer por telefone. Você atende as oito consultas. A filha agradece a enfermeira e pergunta, duas vezes, se a doutora vem mesmo na terça.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi à sala da equipe antes das 9h. A Rosângela ainda estava com a visita fresca na cabeça e contou cada detalhe: o prato pela metade, o copo d'água cheio na cabeceira.
  • Entre 9h e 12h: Você foi à sala da equipe depois das 9h. A Rosângela já tinha saído para outra visita e deixou um bilhete. A filha do Seu Joaquim tinha ligado para a unidade duas vezes.
  • Depois das 12h: A sala da equipe ficou para depois do meio-dia. A filha do Seu Joaquim ligou de novo e quem atendeu foi a recepção. O que quer que tenha sido decidido depois, a família passou a manhã esperando uma resposta.

Copa: Café, e o posto visto de fora

Um residente de outra cidade, de passagem pela unidade, conversa com o técnico de enfermagem.

“…médico de posto é quem não conseguiu especialidade.”

Você conhece cada um dos 187 diabéticos da equipe pelo nome. Quinze minutos depois, você volta para o consultório com a frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …as agentes saem à uma. Disseram que estão esperando os nomes da doutora.
  • …a recepção tá lotada. Tem gente aqui desde as cinco.
  • …acabou a losartana de novo. A farmacêutica tá mandando todo mundo voltar.
  • …a Rosângela voltou da casa do Seu Joaquim com uma cara preocupada.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Encaixar todo mundo hoje” e “Ir hoje à tarde”: Você encaixou a fila inteira de manhã e subiu o morro à tarde. As oito consultas remarcadas foram parar na terça, em cima dos três horários que já não existiam. A recepcionista passou a segunda ligando para todos.
  • Se você escolheu “Trocar as receitas para o que tem” e “Encaixar todo mundo hoje”: Na mesma manhã você refez quarenta receitas e encaixou catorze pessoas. A última consulta do dia começou às 15h50. Você lembra do nome dela, mas não do que ela disse.
  • Se você escolheu “Mandar a enfermeira hoje e ir na terça” e “Manter e orientar a Farmácia Popular”: A enfermeira foi ao Seu Joaquim e a farmacêutica mandou os pacientes para a Farmácia Popular. Você passou a tarde no consultório, com duas colegas resolvendo por você fora dele, pelo telefone.
  • Se você escolheu “Acolher por risco com a enfermeira” e “Mandar a enfermeira hoje e ir na terça”: Três pessoas da fila e a visita do Seu Joaquim ficaram para terça. Na terça de manhã, a sua agenda já estava cheia antes de a unidade abrir.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia uma fila na recepção, um remédio em falta e um paciente acamado piorando, e você abriu a lista dos diabéticos. Passou 1h10 procurando quem não estava em lugar nenhum da unidade.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem não veio. Clínica de doença crônica é isso: o paciente que mais precisa costuma ser o que parou de aparecer.

Você foi para a fila primeiro.

Você começou por quem estava esperando na sua frente, sem horário marcado. Passou 45 min decidindo quem entrava e quem voltava outro dia.

Medicina de família vive dessa porta: a unidade é o primeiro lugar aonde o bairro vai, e cada sim e cada não da recepção são uma decisão sobre cuidado.

Você foi para a farmácia primeiro.

Você começou pela prateleira vazia. Passou 30 min pesando trocar o remédio de quarenta pessoas contra deixar algumas sem tomar por uns dias.

Na clínica, a receita não termina no papel: termina no que o paciente consegue pegar e tomar todo dia.

Você foi para o Seu Joaquim primeiro.

Você começou pelo paciente que não podia vir até a unidade. Passou 35 min decidindo se a tarde era dele ou das oito pessoas da agenda.

Cuidar de quem está no fim da vida, em casa, é escolher presença onde não há cura, e explicar isso para a família.

As três portas da clínica

A clínica não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo órgão.

  • Medicina de família e comunidade. Cuidar de um bairro inteiro, de todas as idades, ao longo dos anos. A porta de entrada do sistema.
  • Clínica médica. Acompanhar a doença que não cura: pressão, diabetes, coração. O trabalho é o paciente continuar vindo.
  • Cuidados paliativos. Cuidar de quem não vai melhorar: dor, conforto, família, o tempo que resta.