Um dia na pele de
A residência no casarão
Você é escritora. Ganhou seis meses de residência num casarão que virou centro cultural em Santos, com uma mesa na sala da produção e a chave do arquivo da cidade. O romance sai em março. As contas, quem paga é uma biografia por encomenda de um empresário da cidade. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Livro não se escreve só na mesa: a pesquisa está no arquivo, a editora está na sala de leitura, o biografado está no pátio. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Escrever o livro que é seu enquanto paga as contas com o livro dos outros.
Profissões com um dia assim: Escritor
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A residência no casarão: o dia por escrito
Você é escritora. Ganhou seis meses de residência num casarão que virou centro cultural em Santos, com uma mesa na sala da produção e a chave do arquivo da cidade. O romance sai em março. As contas, quem paga é uma biografia por encomenda de um empresário da cidade. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Livro não se escreve só na mesa: a pesquisa está no arquivo, a editora está na sala de leitura, o biografado está no pátio. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa na produção: A idade da Rosa
O romance conta cinquenta anos da vida de Rosa, que nasceu em janeiro de 1958 e chega a Santos ainda menina. A revisora da editora mandou uma pergunta só: "A Rosa tem a idade certa em todos os capítulos?"
Você reescreveu o livro quatro vezes. Em cada versão, um capítulo mudou de ano. A conta é simples. Lembrar de fazer a conta, não.
Ache os capítulos em que a idade da Rosa não bate com o ano da cena. São esses dois. No baile de 1975 a Rosa já tinha 17, não 16. Na enchente de 1987, 29, não 30. O capítulo do baile mudou de ano na terceira versão; o da enchente, na quarta. A idade ficou para trás nas duas. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você conferiu antes das 11h. A revisora ainda estava no capítulo 2. As duas correções entraram na prova sem que ninguém precisasse voltar páginas.
- Entre 11h e 15h30: Você conferiu depois das 11h. A revisora já tinha passado pelo capítulo 3 e marcado a idade como "conferir com a autora". A correção entrou, com uma rodada a mais de prova.
- Depois das 15h30: A linha do tempo ficou para depois das 15h30. A revisora fechou a prova do dia com a pergunta sem resposta. Os capítulos foram para a gráfica do jeito que estavam, marcados com um ponto de interrogação a lápis.
Sala de leitura: As 240 páginas
A editora veio de São Paulo só hoje. O livro está com 268 páginas, e o orçamento da gráfica é para 240. Ela trouxe a prova marcada com caneta vermelha: o capítulo 7, o da enchente, "é bonito, mas é lento, e a história anda sem ele".
Você escreveu o capítulo da enchente primeiro, antes de saber que haveria um livro.
- Cortar o capítulo da enchente. Você aceita o corte. A editora sugere levar três parágrafos da enchente para o capítulo 8, como lembrança da Rosa. O livro fecha em 241 páginas, e a editora sai satisfeita com o ritmo.
- Defender a enchente e oferecer outro corte. Você explica por que a enchente segura o livro e propõe cortar a parte da loja de linhas pela metade. A editora aceita olhar, mas pede a nova versão até sexta, com as 28 páginas a menos contadas uma por uma.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à sala de leitura antes das 10h30. A editora ainda estava tomando o primeiro café, com a prova fechada. A conversa começou pelo livro, não pelo número de páginas.
- Entre 10h30 e 14h: Você foi à sala de leitura depois das 10h30. A editora já tinha ligado para a gráfica para confirmar o orçamento de 240. Ela chegou na conversa com a data de impressão na mão.
- Depois das 14h: A editora ficou para depois das 14h. A editora voltou para São Paulo com a prova marcada e deixou um bilhete na mesa: "Cortei a 7, me liga se discordar." O que quer que tenha sido conversado depois, foi pelo telefone e para desfazer.
Arquivo da cidade: O arquivo que vai fechar
O capítulo da greve do porto se passa em 1980, e você o escreveu de memória e de ouvir falar. A arquivista avisa que os jornais daquele ano saem amanhã para digitalizar e só voltam em três meses, depois de o livro ir para a gráfica.
São dois volumes encadernados, quatrocentas páginas cada. Ler com cuidado leva o resto do dia.
- Ler os jornais com calma e reescrever a greve. Você passa horas com os volumes e descobre que a greve durou onze dias, não três, e que houve uma assembleia na igreja que ninguém da sua família lembrava. O capítulo vai mudar. O que você tinha para escrever hoje fica para outro dia.
- Fotografar as manchetes e manter o capítulo. Você fotografa as primeiras páginas da semana da greve e confere as datas principais. O capítulo continua como estava, com dois nomes de rua corrigidos. Os volumes vão para a digitalização com tudo o que você não leu.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao arquivo antes das 10h. A arquivista ainda não tinha começado a embalar os volumes. Deu para escolher o que ler, em vez de ler o que ainda estava fora da caixa.
- Entre 10h e 13h: Você foi ao arquivo depois das 10h. Um dos dois volumes já estava embalado e etiquetado. A arquivista abriu a caixa para você, mas só dava para mexer em um.
- Depois das 13h: O arquivo ficou para depois das 13h. Os volumes de 1980 foram para a caixa no começo da tarde. O que quer que tenha sido decidido sobre a greve, foi decidido sem os jornais.
Pátio: A falência de 1998
O Seu Álvaro, dono de uma rede de supermercados da cidade, encomendou a biografia dele para os 80 anos e paga você por capítulo. Ele leu o capítulo 6 e veio pessoalmente, está sentado no banco do pátio com as folhas na mão.
"A falência de 1998 não precisa estar no livro. Ninguém lembra mais." Foi você quem achou a falência, nos documentos que ele mesmo entregou.
- Tirar a falência do livro. Você tira o capítulo da falência e costura os anos 1990 com a abertura da segunda loja. O Seu Álvaro paga o capítulo 6 no mesmo dia e pede para você começar o 7 ainda esta semana.
- Manter e propor contar pela voz dele. Você propõe gravar uma entrevista em que ele mesmo conta como foi quebrar e começar de novo. Ele fica calado, dobra as folhas e diz que vai pensar. O capítulo 6 fica sem pagar até ele decidir.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h30: Você foi ao pátio antes das 11h30. O Seu Álvaro tinha acabado de chegar e ainda estava de bom humor. A conversa foi entre os dois, sem plateia.
- Entre 11h30 e 15h: Você foi ao pátio depois das 11h30. O Seu Álvaro esperou mais de uma hora no banco e já tinha ligado para o filho, que cuida do contrato. Você conversou com um e foi ouvida pelos dois.
- Depois das 15h: O pátio ficou para depois das 15h. O Seu Álvaro foi embora com as folhas e mandou um e-mail pelo filho no fim da tarde. O que quer que tenha sido combinado depois, foi por escrito e com o advogado em cópia.
Café: Café, e o livro visto do balcão
O rapaz do café conversa com a moça do educativo enquanto lava as xícaras.
“…ela fica o dia inteiro ali escrevendo. Deve ser bom ganhar para isso.”
A residência paga a mesa e a chave do arquivo. O aluguel, quem paga é o Seu Álvaro. Quinze minutos depois, você volta para a sua mesa com essa conta na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a editora chegou de São Paulo com a prova toda riscada de vermelho.
- …a arquivista tá separando caixa para a digitalização. Os jornais antigos saem amanhã.
- …aquele senhor do supermercado tá no banco do pátio desde cedo, com umas folhas na mão.
- …a revisora ligou de novo perguntando da idade de uma tal de Rosa.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Cortar o capítulo da enchente” e “Tirar a falência do livro”: Você cortou a enchente do seu livro e a falência do livro do Seu Álvaro. Na mesma quarta, duas histórias perderam o capítulo mais difícil, uma por página e outra por dinheiro.
- Se você escolheu “Ler os jornais com calma e reescrever a greve” e “Defender a enchente e oferecer outro corte”: Você passou o dia nos jornais de 1980 e prometeu à editora 28 páginas a menos até sexta. A greve vai crescer e o livro vai encolher, os dois na mesma semana.
- Se você escolheu “Manter e propor contar pela voz dele” e “Ler os jornais com calma e reescrever a greve”: Você deixou o capítulo do Seu Álvaro sem pagar e o dia inteiro no arquivo, por um livro que só paga em março. O romance ficou mais verdadeiro. O mês ficou mais curto.
- Se você escolheu “Fotografar as manchetes e manter o capítulo” e “Manter e propor contar pela voz dele”: No seu livro, você manteve a greve como lembrava. No do Seu Álvaro, insistiu em contar a falência como foi. A mesma escritora decidiu duas vezes o que a história deve ao que aconteceu, e decidiu diferente.
Como o dia termina
Você foi para o texto primeiro.
Havia uma editora com tesoura, um arquivo fechando e um biografado no pátio, e você abriu a linha do tempo do romance. Passou 1h15 fazendo conta de idade, capítulo por capítulo.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que o leitor ia achar antes de você. Ficção é isso, na maior parte do tempo: reler, reescrever e conferir o que você mesma inventou.
Você foi para a editora primeiro.
Você começou pela sala de leitura, pela prova riscada de vermelho e pelo capítulo que você escreveu antes de todos os outros. Passou 50 min decidindo o que o livro precisa ter e o que ele aguenta perder.
Quem publica vive essa conversa: o livro é seu, a página é da gráfica, e alguém de fora lê o que você não consegue mais ler.
Você foi para o arquivo primeiro.
Você começou pelos jornais de 1980, antes que eles fossem para a caixa. Passou 1h00 decidindo quanto da verdade cabe num romance que não é obrigado a ela.
Quem escreve não ficção vive dentro de arquivos assim: a história boa está nos documentos, e os documentos têm horário de fechar.
Você foi para a encomenda primeiro.
Você começou pelo pátio, pelo Seu Álvaro e pela falência que ele queria esquecer. Passou 45 min decidindo de quem é uma história quando quem paga é quem a viveu.
Quem escreve por encomenda vive isso: o texto tem o seu trabalho e o nome de outra pessoa na capa, e é ela quem decide o que fica.
As três portas da escrita
Viver de escrever não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo gênero do texto.
- Ficção e autoria. Escrever o próprio livro: reescrever, defender e cortar o que é seu.
- Não ficção e pesquisa. Contar o que aconteceu: arquivo, entrevista e o dever com o fato.
- Escrita sob encomenda. Escrever para outra pessoa assinar: biografia, discurso, conteúdo, livro de empresa.