Um dia na pele de
A gestora de investimentos
Você trabalha numa gestora de investimentos com R$ 2 bilhões de clientes em doze fundos. O mercado abre às 10h e fecha às 17h. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O dinheiro está nas telas, mas as decisões estão na sala do comitê, na sala de atendimento, na mesa de operações. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Cuidar do dinheiro dos outros como se o número fosse a pessoa.
Profissões com um dia assim: Analista de Investimentos · Gestor de Fundos · Trader · Analista de Risco · +2
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
A gestora de investimentos: o dia por escrito
Você trabalha numa gestora de investimentos com R$ 2 bilhões de clientes em doze fundos. O mercado abre às 10h e fecha às 17h. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O dinheiro está nas telas, mas as decisões estão na sala do comitê, na sala de atendimento, na mesa de operações. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa: O trimestre que não somava
O relatório trimestral sai para 4 mil clientes às 14h. Ele mostra quanto cada fundo rendeu em julho, agosto e setembro, e o acumulado do trimestre.
Acumulado não é soma: ganhar 10% e depois perder 10% não dá zero, porque a perda é sobre um valor maior. A conta certa é multiplicar: (1 + mês 1) × (1 + mês 2) × (1 + mês 3), menos 1.
Ache o fundo cujo acumulado foi calculado errado. É esse. Ações Brasil: 1,10 × 0,90 × 1,05 dá 1,0395, ou 4,0% no trimestre. O relatório diz 5,0%, que é a soma dos três meses. Para 4 mil clientes, o fundo de ações teria rendido um ponto a mais do que rendeu, por escrito, com o nome da gestora embaixo. Cada tentativa errada custa 6 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. O relatório saiu às 14h com o número certo. A estagiária que montou a planilha refez a fórmula de todos os fundos e mandou, por conta própria, um e-mail explicando o erro a você.
- Entre 11h e 14h: Você achou depois das 11h. A versão para assessores já tinha ido às 11h com o 5,0%. O relatório dos clientes saiu certo, e você passou a tarde avisando os assessores que o número que eles já tinham repassado estava errado.
- Depois das 14h: O relatório ficou para depois das 14h. O relatório saiu às 14h para 4 mil clientes do jeito que estava. O que quer que tenha sido corrigido depois, foi corrigido com uma errata, e a área de compliance da gestora quis saber por que o número foi conferido depois de enviado.
Sala do comitê: O que o CEO disse na sobremesa
O Ricardo, gestor do fundo de ações, está na sala do comitê. Ontem ele jantou com o CEO de uma varejista, e o CEO comentou, na sobremesa, que a empresa "anuncia uma aquisição grande semana que vem". O Ricardo quer comprar R$ 40 milhões das ações hoje.
"A tese de comprar já existia antes do jantar. Está no relatório de agosto." Está mesmo. O jantar também aconteceu.
- Comprar pela tese de agosto, ignorando o jantar. O comitê aprova a compra com base no relatório de agosto. O Ricardo compra R$ 40 milhões. Na quinta da semana seguinte, a varejista anuncia a aquisição, e a ação sobe 18%. Um mês depois, o regulador pede à gestora a lista de quem comprou a ação na semana anterior ao anúncio.
- Avisar o compliance e pôr o papel na lista restrita. Você leva a conversa ao compliance, que põe a varejista na lista de ações que a gestora não pode negociar até o fato ser público. O Ricardo fica furioso: "Agora eu sou suspeito por ter jantado?" A ação sobe 18% na semana seguinte, sem a gestora.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. O mercado ainda não tinha aberto. Qualquer que fosse a decisão, ela veio antes da primeira ordem.
- Entre 10h e 13h: Você entrou depois das 10h. O Ricardo já tinha comprado os primeiros R$ 5 milhões "para não perder o preço". O que foi decidido, foi decidido com uma parte já comprada.
- Depois das 13h: A sala do comitê ficou para depois das 13h. O Ricardo comprou a posição inteira pela manhã, com a aprovação de outro sócio por mensagem. O que quer que tenha sido decidido depois, as ordens já estavam registradas com hora e valor.
Sala de atendimento: Oitenta por cento em ações
A Dona Helena, 74 anos, viúva, tem R$ 900 mil na gestora, tudo em renda fixa. Ela quer pôr R$ 720 mil no fundo de ações. "O filho da vizinha ganhou 30% em um ano." O questionário de perfil que ela respondeu no ano passado diz: conservadora. Ela vive dos rendimentos.
É dinheiro dela. Ela sabe ler um extrato.
- Fazer o que ela pede, com um termo de ciência do risco. Você explica a oscilação com números do último ano e ela assina o termo que diz que o investimento não combina com o perfil dela. Ela aplica. No primeiro mês ruim, o fundo cai 7%, e ela liga três vezes. Na terceira, pergunta por que você deixou.
- Recusar os 80% e propor 20% em ações. Você propõe começar com 20% e rever em seis meses. Ela ouve, diz que vai pensar e sai sem assinar nada. Na semana seguinte, o assessor de outro banco liga para ela. Você não sabe o que ela decidiu.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao atendimento antes das 10h30. A Dona Helena ainda estava tomando o café que a recepção ofereceu. A conversa teve tempo para os números e para a vizinha.
- Entre 10h30 e 12h: Você foi ao atendimento depois das 10h30. A Dona Helena esperava havia uma hora e já tinha perguntado duas vezes se ia ser atendida. Ela ouviu você com o casaco no braço.
- Depois das 12h: O atendimento ficou para depois do meio-dia. A Dona Helena foi embora sem ser atendida e mandou um e-mail à gestora, à tarde, pedindo o resgate de tudo. O que quer que tenha sido conversado depois, foi conversado com o pedido de resgate aberto.
Mesa de operações: O stop que ele não quer cumprir
O Caio, trader da mesa, está R$ 1,2 milhão no vermelho numa posição de dólar. O limite de perda dele no dia é R$ 1 milhão: passou, a regra manda zerar. Ele jura que até o fechamento o dólar volta. "Se eu zerar agora, eu realizo o pior preço do dia."
O risco responde a você. O chefe da mesa está num voo para Nova York.
- Mandar zerar agora, como a regra manda. O Caio zera, com raiva, e a perda fica em R$ 1,2 milhão. No fechamento, o dólar volta metade do caminho. Ele diz para a mesa inteira ouvir que "o risco custou 600 mil pra gestora hoje". O limite dele continua valendo amanhã.
- Dar até as 16h, com um limite novo por escrito. Você autoriza por escrito: até as 16h, com perda máxima de R$ 1,5 milhão. O dólar volta metade do caminho, e o Caio zera com R$ 600 mil de perda. Na semana seguinte, outro trader pede a mesma exceção, citando o Caio.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à mesa antes das 11h. A posição tinha acabado de passar do limite. Qualquer que fosse a decisão, ela foi tomada perto do número da regra, não longe dele.
- Entre 11h e 14h: Você foi à mesa depois das 11h. A perda já tinha passado de R$ 1,4 milhão enquanto ninguém do risco aparecia. O Caio tinha começado a dizer à mesa que "o risco não ligou, então pode".
- Depois das 14h: A mesa ficou para depois das 14h. O Caio segurou a posição a manhã inteira sem ninguém do risco por perto. O que quer que tenha sido decidido depois, a regra já tinha passado horas sem ser aplicada, e a mesa toda viu.
Copa: Café, e o mercado visto de fora
Duas pessoas do administrativo estão na máquina de café.
“…lá na mesa eles ficam o dia todo apostando com o dinheiro dos outros.”
Não é aposta, e ao mesmo tempo não é tão diferente quanto quem trabalha aqui gostaria. A diferença é a regra, e quem faz a regra valer. Quinze minutos depois, você volta para a mesa com essa frase na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a estagiária montou a planilha do relatório trimestral sozinha esse mês.
- …o Ricardo chegou animado hoje. Disse que o jantar de ontem foi ótimo.
- …tem uma senhora na recepção esperando desde cedo. Quer falar de ações.
- …o Caio tá vermelho na tela e vermelho na cara. Ninguém do risco apareceu ainda.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Avisar o compliance e pôr o papel na lista restrita” e “Mandar zerar agora, como a regra manda”: Você pôs a varejista na lista restrita e mandou o Caio zerar. Na mesma terça, dois homens da mesa perderam dinheiro por uma regra que você fez valer. Os dois almoçaram juntos. A mesa inteira soube do que falaram.
- Se você escolheu “Comprar pela tese de agosto, ignorando o jantar” e “Dar até as 16h, com um limite novo por escrito”: Você aprovou a compra da varejista e deu mais tempo ao Caio. Na mesma terça, duas regras viraram conversa. As duas deram certo hoje. As duas vão ser lembradas da próxima vez que alguém pedir.
- Se você escolheu “Recusar os 80% e propor 20% em ações” e “Mandar zerar agora, como a regra manda”: Você não deixou a Dona Helena pôr 80% em ações e não deixou o Caio esperar o dólar voltar. Duas pessoas queriam mais risco do que a regra permitia, e você disse não às duas. Uma delas pode ir embora da gestora. A outra trabalha na mesa ao lado.
- Se você escolheu “Fazer o que ela pede, com um termo de ciência do risco” e “Avisar o compliance e pôr o papel na lista restrita”: Você deixou a Dona Helena arriscar o dinheiro dela e não deixou o Ricardo arriscar o da gestora. No mesmo dia, respeitou a vontade de uma cliente de 74 anos e contrariou a de um sócio. Os dois casos têm termo assinado.
Como o dia termina
Você foi para o relatório primeiro.
Havia um gestor com uma dica de jantar, uma cliente de 74 anos e um trader no vermelho, e você abriu o relatório trimestral. Passou 1h10 multiplicando retornos.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pelo número que 4 mil pessoas iam ler. Análise de investimentos é isso: quase todo erro grave nasce de uma conta simples feita do jeito errado.
Você foi para o comitê primeiro.
Você começou pela sala do comitê, onde uma tese de agosto e uma frase de jantar apontavam para a mesma compra. Passou 45 min separando o que o Ricardo sabia do que o Ricardo tinha ouvido.
Gestão de fundos é isso: decidir com informação, e saber qual informação a lei deixa usar.
Você foi para a Dona Helena primeiro.
Você começou pela sala de atendimento, onde uma senhora queria arriscar o dinheiro do qual vive. Passou 45 min entre a vontade dela e o questionário que ela mesma respondeu.
Assessoria de investimentos é isso: o dinheiro é do cliente, a responsabilidade de explicar é sua, e as duas coisas nem sempre combinam.
Você foi para a mesa primeiro.
Você começou pela mesa de operações, onde um trader tinha passado do limite e pedia mais tempo. Passou 40 min decidindo se a regra valia hoje.
Risco é isso: a regra parece exagerada no dia em que vai custar dinheiro, e é exatamente para esse dia que ela existe.
As quatro portas de Investimentos
Investimentos não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de decisão, não pelo produto.
- Análise e research. Fazer a conta certa sobre empresas e fundos, antes que alguém aposte nela.
- Gestão de fundos. Decidir o que comprar e vender com o dinheiro de milhares de pessoas.
- Assessoria e private. Explicar risco a quem é dono do dinheiro, e ouvir o que ele quer.
- Risco. Fazer o limite valer no dia em que ele custa caro.