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Um dia na pele de

A IA de uma seguradora de carros

Você é engenheira de IA numa seguradora digital de carros com 300 funcionários e 1,2 milhão de clientes. O seu time cuida do assistente que responde dúvidas e sinistros e do modelo que aponta suspeita de fraude. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua mesa: está na central de sinistros, na sala do comitê, na ilha de produto. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Pôr a IA para trabalhar sem perder de vista o que ela faz com as pessoas.

Profissões com um dia assim: Engenheiro de LLM · Especialista em RAG · Especialista em Modelos de Linguagem · Engenheiro de AI Generativa · +7

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A IA de uma seguradora de carros: o dia por escrito

Você é engenheira de IA numa seguradora digital de carros com 300 funcionários e 1,2 milhão de clientes. O seu time cuida do assistente que responde dúvidas e sinistros e do modelo que aponta suspeita de fraude. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sua mesa: está na central de sinistros, na sala do comitê, na ilha de produto. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: A cláusula que não existe

Às 15h a diretoria decide se o assistente vai para o WhatsApp de todos os clientes. Antes, você separa doze respostas reais de ontem. Ele responde consultando a apólice, e cada resposta cita a cláusula de onde tirou a informação.

A apólice tem nove cláusulas. As que importam aqui: 3, vidros, faróis e retrovisores, franquia de R$ 300; 5, carro reserva, 7 dias; 6, oficina, só a rede referenciada; 7, guincho, até 200 km; 8, franquia de colisão, R$ 2.500.

Ache as respostas que não batem com a apólice. São essas três. A #02 dobrou o carro reserva: a cláusula 5 diz 7 dias, e a #09 acertou a mesma pergunta. A #05 citou uma cláusula 12, que não existe. A #10 baixou a franquia de colisão para R$ 1.500. A #06 parece falha, mas é o comportamento certo: não achou, chamou uma pessoa. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de sortear mais duzentas conversas e voltar com um número: três em cada cem respostas citam errado. A diretoria decidiu o WhatsApp com esse número na mesa.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. Você chegou ao comitê com as três respostas, mas sem tempo de medir o tamanho do problema. A discussão foi sobre três exemplos, e exemplo sempre parece pouco.
  • Depois das 15h: As respostas ficaram para depois das 15h. O comitê das 15h decidiu sobre o WhatsApp sem nenhuma resposta conferida. O que quer que tenha sido achado depois, a primeira decisão foi tomada com o número que a diretoria tinha: nenhum.

Sala do comitê: O bairro que o modelo aprendeu

O modelo de fraude manda para análise manual três vezes mais sinistros de um bairro da Zona Leste do que da média da cidade. Ninguém programou isso: o modelo aprendeu que o CEP ajuda a acertar fraude, e o CEP carrega junto renda e cor de pele. Quem cai na análise manual espera o dobro do tempo pelo conserto.

Tirar o CEP derruba o acerto do modelo. A diretora de sinistros quer saber o que você recomenda.

  • Tirar o CEP do modelo hoje. O modelo sem CEP vai ao ar à tarde, e os sinistros do bairro voltam ao tempo normal. Em um mês, a fraude que passou sem ser vista soma R$ 180 mil, e o diretor financeiro pergunta de onde veio.
  • Manter o modelo e estudar por um mês. Em quatro semanas, o estudo mostra quanto o CEP pesava e propõe um modelo melhor do que o que sairia na pressa. Nesse mês, 400 clientes do bairro esperaram o dobro pelo conserto do carro.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. Deu para rodar a análise por bairro com calma e levar à diretora um número, não uma impressão.
  • Entre 11h e 14h: Você entrou depois das 11h. A diretora já tinha ouvido do jurídico que "isso pode virar processo". A conversa começou pelo risco da empresa, não pelo do bairro.
  • Depois das 14h: O comitê ficou para depois das 14h. O comitê de risco das 14h discutiu o modelo sem você na sala. O que quer que tenha sido defendido depois, a primeira decisão já estava na ata.

Ilha de produto: O assistente que vende

O Tiago, PM do assistente, tem uma ideia com número: quando o cliente descobre que algo não é coberto, o assistente oferece o plano completo. Pelas contas dele, são R$ 2 milhões por ano. "Ele já está na conversa. É só oferecer."

A conversa em que o cliente descobre que não está coberto é, quase sempre, a pior hora da vida dele com o carro.

  • Topar, com uma regra: só oferecer depois de resolver o atendimento. A oferta vai ao ar em duas semanas, e converte bem. No site de reclamações, aparece o primeiro texto: "tive o carro alagado e o robô me ofereceu um plano".
  • Recusar: assistente de sinistro não vende. O Tiago leva a proposta ao diretor comercial, com os R$ 2 milhões no primeiro slide. Na sexta, a ideia volta aprovada, com outra pessoa responsável, e você já não está na conversa.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à ilha antes das 10h30. O Tiago ainda estava escrevendo a proposta. Deu para mexer na ideia antes de ela virar slide.
  • Entre 10h30 e 15h: Você foi à ilha depois das 10h30. A proposta já estava no planejamento do trimestre, com um número de receita do lado. Discutir agora era discutir uma meta.
  • Depois das 15h: A ilha ficou para depois das 15h. O planejamento das 15h aprovou a ideia sem a sua opinião. O que quer que você tenha dito depois, já havia uma meta de receita com o seu assistente dentro.

Central de sinistros: Aprovado, recebido

Às 9h entrou no ar o modelo novo do assistente, que lê as fotos do carro batido: três meses de trabalho do time. A Ana, supervisora da central de sinistros, mostra o telão: desde então, o assistente diz "sinistro aprovado" para quem só teve o sinistro recebido. Já são 60 conversas.

O modelo de ontem não lê fotos, mas também não fazia isso.

  • Voltar para o modelo de ontem. Em vinte minutos o modelo antigo volta. A central liga para cada cliente que ouviu "aprovado". A leitura de fotos sai do ar até o conserto, e 800 sinistros por dia voltam para a fila de análise manual.
  • Corrigir a instrução do modelo novo e seguir no ar. Você ajusta a instrução e testa com 50 conversas: o "aprovado" some. A leitura de fotos continua no ar. Na quinta, aparece outro erro, menor, num caso que o teste de 50 não cobria.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à central antes das 10h. Eram 60 conversas. Qualquer caminho começava com um problema do tamanho de uma planilha.
  • Entre 10h e 12h: Você foi à central depois das 10h. Já eram 300 conversas, e o primeiro cliente tinha postado nas redes o print do "aprovado".
  • Depois das 12h: A central ficou para depois do meio-dia. A Ana mandou um aviso manual para a fila inteira, e a diretoria soube do erro pela operação. O que quer que tenha sido feito depois, o assistente já tinha dito "aprovado" a mais de mil clientes.

Copa: Café, e a IA vista da central

Duas atendentes da central de sinistros tomam café antes do turno.

“…a gente treina o robô corrigindo as respostas dele o dia inteiro. Quando ele aprender tudo, pra que vão precisar da gente?”

Ninguém te perguntou nada. Quinze minutos depois, você volta para a mesa sabendo que cada correção que elas fazem entra no próximo treino do modelo.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a diretoria quer o assistente no WhatsApp amanhã. A campanha já tá paga.
  • …o jurídico perguntou do modelo de fraude. Algo com um bairro da Zona Leste.
  • …o Tiago tá montando um slide com dois milhões no título.
  • …na central tão dizendo que o robô aprovou sinistro hoje. Aprovou mesmo?

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Corrigir a instrução do modelo novo e seguir no ar” e “Manter o modelo e estudar por um mês”: Você manteve no ar um modelo corrigido às pressas e outro sob suspeita. Na mesma segunda, dois sistemas seus seguiram rodando enquanto você estudava o que eles estavam fazendo.
  • Se você escolheu “Voltar para o modelo de ontem” e “Recusar: assistente de sinistro não vende”: Você tirou do ar a leitura de fotos e recusou a venda pelo assistente. Foi a segunda-feira em que a IA da empresa ficou menor. Ninguém da diretoria agradeceu, e nenhum cliente percebeu.
  • Se você escolheu “Tirar o CEP do modelo hoje” e “Topar, com uma regra: só oferecer depois de resolver o atendimento”: Você tirou o CEP do modelo de fraude e topou o assistente oferecendo plano. No mesmo dia, o sistema ficou mais justo com um bairro e mais insistente com todo mundo.
  • Se você escolheu “Tirar o CEP do modelo hoje” e “Voltar para o modelo de ontem”: Dois modelos mudaram de versão na mesma segunda por decisão sua. Na terça, o diretor financeiro pediu uma reunião para entender "o que aconteceu com a IA".

Como o dia termina

Você foi para as respostas primeiro.

Havia um deploy com erro na central, um modelo desconfiando de um bairro e um PM com uma ideia de receita, e você sentou para conferir doze respostas contra a apólice. Passou 1h00 lendo cláusula por cláusula.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de saber o quanto o sistema erra antes de decidir onde ele vai. Engenharia de IA é isso: o modelo responde com certeza, e alguém precisa medir quando a certeza não tem fonte.

Você foi para o comitê primeiro.

Você começou pelo modelo de fraude e pelo bairro que ele aprendeu a travar. Passou 45 min entre o acerto do modelo e o tempo de espera de quem mora lá.

Governança de IA é isso: nenhum modelo foi programado para ser injusto, e mesmo assim alguém precisa olhar o que ele aprendeu sozinho, e decidir o que fazer com isso.

Você foi para a ilha de produto primeiro.

Você começou pela ideia do Tiago, com R$ 2 milhões no título. Passou 40 min decidindo o que o assistente deve fazer, além do que ele consegue fazer.

Produto de IA é isso: o modelo pode fazer quase tudo, e a pergunta difícil é para que ele serve, e para quem.

Você foi para a central primeiro.

Você começou pelo erro que estava acontecendo agora, com clientes ouvindo "aprovado". Passou 45 min entre voltar atrás e consertar em frente.

Colocar modelo em produção é isso: o teste nunca cobre tudo, e quando o erro aparece, ele aparece falando com milhares de pessoas ao mesmo tempo.

As três portas da inteligência artificial

IA não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo modelo.

  • Engenharia de IA. Construir, medir e pôr no ar: modelos que respondem com certeza, e alguém que confere de onde ela vem.
  • Produto de IA. Decidir o que a IA deve fazer, para quem, e o que ela não deve fazer mesmo podendo.
  • Ética e governança de IA. Olhar o que o modelo aprendeu sozinho e responder pelo efeito dele nas pessoas.