Um dia na pele de
Um plantão de ginecologia e obstetrícia num domingo
Você está de plantão de ginecologia e obstetrícia numa maternidade regional no interior da Bahia, que atende onze cidades: 200 partos por mês, uma sala de parto, um centro cirúrgico e nenhuma UTI neonatal. Neste domingo, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Nada se resolve do posto: a parturiente está na sala de parto, a urgência está no consultório, a gestante internada está na enfermaria. Andar pela maternidade leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.
Cuidar de duas vidas de uma vez, sem tempo de esperar a certeza.
Profissões com um dia assim: Ginecologista · Obstetra
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Um plantão de ginecologia e obstetrícia num domingo: o dia por escrito
Você está de plantão de ginecologia e obstetrícia numa maternidade regional no interior da Bahia, que atende onze cidades: 200 partos por mês, uma sala de parto, um centro cirúrgico e nenhuma UTI neonatal. Neste domingo, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Nada se resolve do posto: a parturiente está na sala de parto, a urgência está no consultório, a gestante internada está na enfermaria. Andar pela maternidade leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.
Posto de enfermagem: 140 por 90, em qualquer dos dois
A sala de espera tem doze gestantes desde cedo. A técnica mediu a pressão de todas e a fila está na ordem de chegada, quase todas marcadas como "sem urgência".
Gestante com pressão de 140 por 90 ou mais pode estar começando uma pré-eclâmpsia, e essa não espera a vez. Basta um dos dois números passar do limite: o de cima ou o de baixo.
Ache as gestantes com pressão de 140 por 90 ou mais, em qualquer dos dois números. São essas quatro. A Bruna passa no de cima; a Daiane e a Karen, no de baixo, com o de cima normal; a Helena, nos dois. A Gisele, com 139 por 89, e a Carla, com 138 por 88, ficam no limite, mas abaixo: vale medir de novo daqui a pouco, não passar na frente. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você reviu a fila antes das 9h. As quatro foram examinadas antes do meio da manhã, com exame de urina e de sangue pedidos cedo. A Helena foi internada antes de ter o primeiro sintoma.
- Entre 9h e 11h30: Você reviu a fila depois das 9h. A Helena reclamou de dor de cabeça e vista embaçada na sala de espera antes de ser chamada. Foi atendida às pressas, com os exames correndo atrás.
- Depois das 11h30: A triagem ficou para depois das 11h30. A fila andou na ordem de chegada a manhã inteira. O que quer que tenha sido revisto depois, a Helena passou três horas sentada com 150 por 96 esperando a vez.
Sala de parto: Sete centímetros há três horas
A Marina, primeiro filho, 41 semanas, está em trabalho de parto desde a madrugada. A dilatação parou em 7 centímetros há três horas. O coração do bebê está bem no monitor. No plano de parto que ela trouxe, escrito à mão: "quero tentar o normal até o fim".
A enfermeira obstétrica acha que dá para esperar mais. O protocolo da casa diz que parada de três horas já permite indicar a cesárea.
- Indicar a cesárea agora. Você explica à Marina a parada e o que o protocolo diz. Ela chora, assina e vai para o centro cirúrgico. O bebê nasce bem. Na visita da tarde, ela pergunta se teria dado para esperar mais, e você responde com o que sabia naquela hora.
- Romper a bolsa, ajustar o soro e reavaliar em duas horas. Você rompe a bolsa e a enfermeira ajusta a ocitocina. A Marina caminha, agacha, troca de posição. O monitor fica ligado. Em duas horas, a dilatação vai ter andado ou não, e a decisão volta inteira para você, com duas horas a mais de trabalho de parto nela.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h30: Você foi à sala de parto antes das 8h30. A Marina ainda tinha energia para conversar e decidir junto. A conversa coube entre duas contrações, com calma.
- Entre 8h30 e 11h: Você foi à sala de parto depois das 8h30. A Marina já estava exausta e a família perguntava no corredor. A decisão foi tomada com ela mais cansada do que precisava estar.
- Depois das 11h: A sala de parto ficou para depois das 11h. A enfermeira obstétrica conduziu sozinha a manhã inteira e chamou duas vezes. O que quer que tenha sido decidido depois, a Marina passou mais três horas parada em 7 centímetros sem ninguém dizer o próximo passo.
Consultório de urgência: O útero vazio
A Tainá, 24 anos, chegou com dor do lado direito da barriga e um pouco de sangramento. O teste de gravidez deu positivo, e o ultrassom não mostra o bebê dentro do útero. Pode ser uma gravidez fora do lugar, na trompa. Ela está estável e com a pressão boa.
Dá para operar hoje por vídeo, ou tratar com remédio e repetir o exame de sangue em quatro e em sete dias. Ela mora a 80 quilômetros, numa cidade sem ônibus no fim de semana.
- Operar hoje. Você marca a cirurgia para hoje. Na laparoscopia, a gravidez está na trompa direita, e a trompa sai junto. A Tainá vai para casa amanhã, com a outra trompa e sem precisar voltar para exames.
- Tratar com remédio e acompanhar o exame. Você aplica o remédio e explica os sinais de alarme e as datas do exame de sangue. A Tainá anota no celular. A trompa pode ficar. Tudo depende de ela conseguir vir duas vezes nos próximos sete dias, de uma cidade sem ônibus no domingo, e de ninguém precisar correr antes.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao consultório antes das 10h. A Tainá estava com dor leve e o centro cirúrgico, livre. Qualquer caminho começava com folga.
- Entre 10h e 14h: Você foi ao consultório depois das 10h. A dor aumentou e a Tainá passou a manhã deitada, com soro. O centro cirúrgico já tinha uma cesárea marcada na frente.
- Depois das 14h: O consultório ficou para depois das 14h. A Tainá esperou do meio da manhã até a tarde com uma suspeita que não espera. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com ela mais pálida e o hospital mais cheio.
Enfermaria de gestantes: Trinta semanas e nenhuma UTI neonatal
A Rosa está internada desde ontem: a bolsa rompeu com 30 semanas, sem contração e sem febre. Ela já tomou a primeira dose do remédio que amadurece o pulmão do bebê. Se o bebê nascer aqui, não há UTI neonatal.
A central de regulação tem uma vaga numa maternidade de referência a duas horas de ambulância, e a única ambulância com incubadora da região está livre até as 15h. Depois, só amanhã.
- Transferir hoje para a referência. A Rosa vai na ambulância, com a segunda dose do remédio aplicada antes de sair e a enfermeira ao lado. Chega bem. A família fica para trás, a duas horas, sem carro, e ela vai passar as próximas semanas longe de casa.
- Manter aqui, completar o remédio e vigiar. A Rosa fica, com a segunda dose amanhã, antibiótico e o monitor do bebê duas vezes ao dia. A mãe dela traz comida de casa. Se vier contração ou febre de madrugada, a ambulância com incubadora pode estar em outra cidade.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à enfermaria antes das 10h30. A regulação ainda segurava a vaga e a ambulância estava na base. A decisão tinha as duas portas abertas.
- Entre 10h30 e 15h: Você foi à enfermaria depois das 10h30. A regulação ligou duas vezes perguntando se a vaga ia ser usada. Você decidiu com a vaga a ponto de ir para outra paciente.
- Depois das 15h: A enfermaria ficou para depois das 15h. Às 15h a ambulância com incubadora saiu para outra cidade. O que quer que tenha sido decidido depois, a Rosa passou a noite aqui.
Copa da equipe: Café, e o plantão visto pela equipe
A técnica de enfermagem e a enfermeira obstétrica dividem o pão de queijo.
“…domingo é sempre assim. A cidade inteira resolve parir no plantão de quem tá sozinho.”
Ninguém escolhe o dia. Mas a escala de domingo tem um obstetra para onze cidades, e isso alguém escolheu. Quinze minutos depois, você volta com isso: parte do seu plantão é decidir o que espera, porque não existe outra pessoa para dividir.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a sala de espera tá cheia. Tem uma moça reclamando de dor de cabeça.
- …a Marina continua em sete. A enfermeira quer saber o que fazer.
- …a menina do consultório tá com o teste positivo e o útero vazio no ultrassom.
- …a ambulância com incubadora tá livre só até as três.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Indicar a cesárea agora” e “Operar hoje”: A cesárea da Marina e a cirurgia da Tainá foram para o mesmo centro cirúrgico, com uma equipe só. Uma esperou a outra terminar, e a segunda começou com você já no quinto par de luvas do dia.
- Se você escolheu “Romper a bolsa, ajustar o soro e reavaliar em duas horas” e “Manter aqui, completar o remédio e vigiar”: Você deu mais duas horas à Marina e manteve a Rosa aqui. Na mesma tarde, duas esperas vigiadas, as duas pedindo que você esteja perto se algo mudar, num plantão em que só existe você.
- Se você escolheu “Tratar com remédio e acompanhar o exame” e “Transferir hoje para a referência”: A Tainá foi para casa, a 80 quilômetros, com remédio e duas datas de exame, e a Rosa foi para a referência, a duas horas. As duas decisões dependem agora de estradas, de ônibus e de famílias que você não vai ver.
- Se você escolheu “Operar hoje” e “Manter aqui, completar o remédio e vigiar”: A Tainá foi operada aqui e a Rosa ficou aqui. A maternidade termina o domingo com as duas sob o mesmo teto, e a noite com uma cirurgia recente e uma gestante de 30 semanas no mesmo corredor.
Como o dia termina
Você foi para a fila primeiro.
Havia uma parturiente parada, uma suspeita de gravidez fora do útero e uma gestante de 30 semanas, e você abriu a lista da triagem. Passou 1h00 lendo doze pressões, uma por uma, nos dois números.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem ainda não parecia urgente. Na obstetrícia de alto risco, o trabalho é esse: achar a gestante que está bem hoje e pode não estar amanhã.
Você foi para a sala de parto primeiro.
Você começou pela Marina, parada em 7 centímetros há três horas. Passou 50 min entre o protocolo da casa e o plano de parto escrito à mão.
Obstetrícia é isso: duas vidas na mesma decisão, e a vontade de quem está parindo pesando junto com o monitor.
Você foi para a urgência primeiro.
Você começou pela Tainá, com o teste positivo e o útero vazio. Passou 45 min decidindo entre resolver hoje e guardar a trompa.
Ginecologia é isso: muitas decisões sobre o corpo de uma mulher têm a ver com filhos que ainda não existem, e ela precisa estar no centro da conversa.
Você foi para a enfermaria primeiro.
Você começou pela Rosa, com 30 semanas e a bolsa rota numa maternidade sem UTI neonatal. Passou 40 min pesando duas horas de estrada contra uma noite sem incubadora.
Alto risco é isso: a decisão certa depende de onde a gestante está, não só de como ela está.
As três portas da ginecologia e obstetrícia
Ginecologia e obstetrícia não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela idade da paciente.
- Obstetrícia. O parto e o que vem com ele: decidir junto com quem está parindo, com duas vidas no monitor.
- Ginecologia. A saúde da mulher fora da gravidez e no começo dela: urgência, cirurgia e a conversa sobre o futuro.
- Alto risco e medicina fetal. A gestante que está bem hoje e pode não estar amanhã, e o bebê que ainda não nasceu.