Um dia na pele de
Um estúdio de foto de produto antes da Black Friday
Você tem um estúdio de foto de produto em São Paulo, com dois assistentes: tênis, bolsa, batom, vestido, tudo o que alguém compra pela tela passa antes pela sua mesa de still. Faltam cinco semanas para a Black Friday. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
A foto não se resolve só atrás da câmera: o arquivo está na ilha de tratamento, a modelo está no camarim, o orçamento está na produção. Andar pelo estúdio leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer a foto vender sem que ela prometa o que o produto não é.
Profissões com um dia assim: Fotógrafo de Produto
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Um estúdio de foto de produto antes da Black Friday: o dia por escrito
Você tem um estúdio de foto de produto em São Paulo, com dois assistentes: tênis, bolsa, batom, vestido, tudo o que alguém compra pela tela passa antes pela sua mesa de still. Faltam cinco semanas para a Black Friday. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
A foto não se resolve só atrás da câmera: o arquivo está na ilha de tratamento, a modelo está no camarim, o orçamento está na produção. Andar pelo estúdio leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Ilha de tratamento: O lado que o marketplace mede
A loja de moda que é a sua maior cliente precisa subir o lote da vitrine da Black Friday até as 15h. O marketplace recusa sozinho qualquer foto com o menor lado abaixo de 1.200 pixels, e a recusa só chega amanhã, quando a vitrine já fechou.
O assistente exportou ontem à noite, com alguns recortes novos. Na tela, os doze arquivos que ele mexeu, com largura e altura.
Ache as fotos com o menor lado abaixo de 1.200 pixels. São essas três. A bolsa e os óculos foram recortados em faixa: enormes de largura, 1.150 e 1.100 de altura. O fone ficou em 1.190, quase. O relógio, com 1.200 cravado, passa. Dá para refazer os três recortes a partir do arquivo original. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Os três recortes saíram do original antes do almoço, e o lote inteiro subiu com folga. A vitrine da Black Friday abriu com as 340 fotos.
- Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O lote subiu em cima da hora, com o assistente refazendo recorte enquanto o upload rodava. Entrou, mas a cliente viu a barra de progresso parada às 14h50 e ligou duas vezes.
- Depois das 15h: O lote ficou para depois das 15h. O lote subiu às 15h como estava. Amanhã, o marketplace recusa as fotos que não passam, e a vitrine abre com espaço vazio onde deviam estar uma bolsa, um óculos e um fone.
Set de still: Mais vermelho que o vermelho
Na mesa de still, a linha nova de batons de uma marca de maquiagem. A gerente de marketing está no set e olha a foto do vermelho no monitor: "Pode deixar mais vivo? Na foto do concorrente parece mais bonito."
Você tem a amostra física ao lado da câmera. A foto já está fiel a ela. O motivo número um de devolução de maquiagem na internet é "a cor não era a da foto".
- Deixar mais vivo, como ela pediu. Você sobe a saturação do vermelho até ela sorrir. A linha inteira sai assim, e a gerente aprova na hora. A foto fica linda na vitrine. A primeira cliente que passar o batom na boca vai ver um vermelho mais fechado.
- Manter fiel à amostra e mostrar a devolução. Você põe a amostra do lado do monitor e mostra que a foto bate com ela. Fala da devolução por cor. A gerente diz que vai levar para a diretora, e que se a diretora quiser mais vivo, vocês refazem. A sessão fecha sem aprovação.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao set antes das 10h. A sessão estava no primeiro batom de doze. O que fosse decidido valia para a linha inteira, desde o começo.
- Entre 10h e 13h: Você foi ao set depois das 10h. O assistente já tinha fotografado sete batons enquanto a gerente esperava. A decisão valia para o que faltava e obrigava a mexer no que já estava pronto.
- Depois das 13h: O set ficou para depois das 13h. A gerente foi embora às 13h e mandou o pedido por mensagem, em caixa alta. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com ela olhando a foto no celular, numa tela que muda a cor sozinha.
Camarim: O uso que não está no papel
A modelo da coleção de vestidos está pronta no camarim. A agência mandou o contrato: uso das fotos só no site da loja, por um ano. A cliente avisou agora por mensagem que quer usar as mesmas fotos num outdoor e num comercial de TV.
A modelo ouviu. A agência leva umas duas horas para mandar um aditivo, e cada hora do estúdio parado com modelo, maquiadora e assistente custa.
- Fotografar agora e deixar o uso com a cliente e a agência. A sessão começa no horário. Você avisa a cliente por escrito que o contrato cobre só o site. As fotos ficam ótimas. Se o outdoor sair sem aditivo, a agência vai cobrar, e o primeiro e-mail vai chegar no estúdio que fez a foto.
- Esperar o aditivo antes do primeiro clique. Você liga para a agência e para a cliente e segura a sessão. O aditivo chega em duas horas, com um valor que a cliente aceita resmungando. A sessão começa atrasada, e o último vestido é fotografado com a equipe olhando o relógio.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi ao camarim antes das 9h30. A modelo ainda estava na maquiagem. A conversa sobre o contrato aconteceu antes de qualquer foto existir.
- Entre 9h30 e 12h: Você foi ao camarim depois das 9h30. O assistente já tinha começado a fotografar os primeiros vestidos para não perder a diária. A conversa sobre o uso chegou com fotos já feitas.
- Depois das 12h: O camarim ficou para depois do meio-dia. A sessão rodou a manhã inteira com o assunto do outdoor no ar e ninguém resolvendo. O que quer que tenha sido decidido depois, foi sobre uma coleção já fotografada.
Produção: Muita foto, pouco por foto
Uma rede grande de lojas quer fotografar 2.000 produtos em dez dias, para a Black Friday, pagando R$ 15 por foto. O seu preço é R$ 25. É o maior pedido que o estúdio já recebeu, e a resposta vai até as 16h.
Para fazer em dez dias, só com dois freelas, um fundo padrão e quase nenhum ajuste por produto.
- Aceitar o preço e o prazo. Você fecha. A rede manda os produtos na segunda. Você contrata dois freelas e monta uma linha de produção: mesmo fundo, mesma luz, foto, próxima. O caixa de dezembro fica garantido, e a sua mesa de still passa dez dias sem ver um produto por mais de dois minutos.
- Contrapropor R$ 22 em vinte dias. Você manda a contraproposta com três fotos do portfólio. A rede responde que vai cotar com mais dois estúdios. Se aceitar, você faz as 2.000 com o cuidado de sempre. Se não, dezembro fica do tamanho que já era.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à produção antes das 10h30. A produtora ainda não tinha montado a planilha da proposta. A conta entrou com o seu número, não com um rascunho.
- Entre 10h30 e 16h: Você foi à produção depois das 10h30. A produtora já tinha respondido à rede que o estúdio "estava avaliando com carinho". O que você decidisse chegava depois de um quase sim.
- Depois das 16h: A produção ficou para depois das 16h. Deu 16h sem resposta, e a rede ligou para a produtora perguntando se o estúdio tinha desistido. O que quer que tenha sido respondido depois, chegou atrasado ao maior pedido do ano.
Copa: Café, e a foto vista pelo celular
A maquiadora e um freela tomam café olhando o celular.
“…hoje todo mundo tira foto bonita no celular. Daqui a pouco nem precisa de estúdio.”
O celular faz foto bonita. Não faz 340 fotos com a mesma luz, a mesma sombra e a cor que a amostra tem, até as 15h. Quinze minutos depois, você volta com isso: o seu trabalho é o que não aparece quando a foto está certa.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o lote da loja de moda tem que subir até as três, né? Eu recortei uns ontem.
- …a moça do batom quer o vermelho mais vivo. Mais vivo que o batom.
- …a cliente dos vestidos falou em outdoor. A modelo ouviu.
- …duas mil fotos em dez dias? Quem vai fazer isso?
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Deixar mais vivo, como ela pediu” e “Aceitar o preço e o prazo”: Você deixou o batom mais vivo que a amostra e aceitou 2.000 fotos a R$ 15. Em dezembro, a vitrine de duas clientes vai ter fotos suas feitas mais depressa e mais bonitas do que os produtos, e as devoluções vão chegar para elas, não para você.
- Se você escolheu “Esperar o aditivo antes do primeiro clique” e “Manter fiel à amostra e mostrar a devolução”: Você segurou a sessão pelo aditivo e segurou a cor pela amostra. Duas clientes saíram hoje sem exatamente o que pediram, e com tudo explicado por escrito.
- Se você escolheu “Fotografar agora e deixar o uso com a cliente e a agência” e “Aceitar o preço e o prazo”: Você fotografou sem o aditivo e aceitou o maior pedido do ano no preço da rede. O estúdio andou rápido numa quarta só, e duas conversas ficaram marcadas para depois: uma com a agência da modelo, outra com os freelas.
- Se você escolheu “Contrapropor R$ 22 em vinte dias” e “Manter fiel à amostra e mostrar a devolução”: Você pediu mais prazo e mais preço à rede e não mexeu na cor do batom. Na mesma quarta, duas vezes o padrão do estúdio pesou mais que o pedido do cliente, e as duas clientes vão comparar com quem diz sim.
Como o dia termina
Você foi para os arquivos primeiro.
Havia uma gerente no set, uma modelo no camarim e o maior orçamento do ano esperando, e você abriu os doze recortes do assistente. Passou 1h20 conferindo largura e altura, foto por foto.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que a máquina do marketplace ia medir antes de qualquer pessoa olhar. Em e-commerce, metade da fotografia é entregar no padrão, e o padrão não perdoa.
Você foi para o set primeiro.
Você começou pela mesa de still, onde a cor da foto e a cor do batom estavam em discussão. Passou 50 min entre a amostra física e o monitor.
Fotografia de produto vive isso: a foto precisa vender, e quem compra pela tela só tem a foto para saber o que vai chegar.
Você foi para o camarim primeiro.
Você começou pela modelo e pelo contrato que não cobria o outdoor. Passou 40 min decidindo se a diária andava ou se o papel vinha antes.
Fotografia de moda e campanha é isso: a imagem de uma pessoa tem dono, prazo e lugar, e o fotógrafo é quem está com ela na mão quando alguém quer mudar o combinado.
Você foi para o orçamento primeiro.
Você começou pela conta: 2.000 fotos, dez dias, R$ 15 cada. Passou 45 min decidindo quanto do estúdio cabe nesse preço.
Ter estúdio é isso: além de fotografar, decidir o preço do próprio trabalho, sabendo que sempre tem alguém disposto a fazer mais barato.
As três portas da fotografia comercial
Fotografia comercial não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo equipamento.
- Fotografia de produto. Fazer o objeto aparecer como ele é, no padrão de quem vende, centenas de vezes por semana.
- Moda e campanha. Fotografar gente e roupa para uma marca, cuidando da imagem e do combinado de quem posa.
- Estúdio próprio. Além da câmera, a agenda, o preço e a equipe: fotografia como negócio.