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Um dia na pele de

A vara única do fórum do interior

Você passou no concurso e é juíza da vara única de uma comarca do interior: tudo o que chega à Justiça na cidade passa por você, do divórcio ao júri. São 7.800 processos e cinco servidores. Nesta quarta-feira, 14 de outubro, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve só no gabinete: está no balcão, na sala de audiências, no cartório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Decidir rápido o que mexe com a vida de alguém, sem decidir às pressas.

Profissões com um dia assim: Juiz de Direito · Analista Judiciário

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A vara única do fórum do interior: o dia por escrito

Você passou no concurso e é juíza da vara única de uma comarca do interior: tudo o que chega à Justiça na cidade passa por você, do divórcio ao júri. São 7.800 processos e cinco servidores. Nesta quarta-feira, 14 de outubro, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve só no gabinete: está no balcão, na sala de audiências, no cartório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Seu gabinete: As prisões sem revisão

A lei manda o juiz revisar, a cada 90 dias, se a prisão preventiva ainda é necessária. Passou disso sem revisão, a defesa pode pedir a soltura, e a corregedoria vai perguntar por quê.

Hoje é 14 de outubro. Você abre a lista dos processos criminais com movimento pendente no gabinete: alguns com réu preso, outros com réu solto.

Ache os réus presos com a última revisão da prisão há mais de 90 dias. São esses quatro: o roubo da Vila Nova (104 dias), o homicídio tentado (108), a violência doméstica (96) e o tráfico do Jardim Alegre (118). A lesão corporal está em 90 dias exatos: vence hoje, ainda não passou. Os processos mais antigos da lista são de réus soltos. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. As quatro revisões saíram assinadas antes do almoço. Num dos casos, você manteve a prisão; em outro, trocou por tornozeleira. Cada uma com a sua fundamentação, escrita com tempo.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. Às 14h, a Defensoria já tinha protocolado pedido de soltura em um dos quatro processos, por excesso de prazo. Você revisou os quatro com esse pedido em cima da mesa.
  • Depois das 15h: A lista ficou para depois das 15h. O que quer que tenha sido revisado, foi revisado no fim da tarde, com duas petições de soltura já protocoladas e o expediente do cartório acabando.

Balcão do cartório: O remédio de quarenta mil

Um advogado espera no balcão com a mãe de um menino de 6 anos com uma doença rara. O médico receitou um remédio que custa R$ 40 mil por mês e não está na lista do SUS. Eles pedem uma liminar para o município pagar.

O procurador do município já mandou manifestação: o orçamento da saúde da cidade é pequeno, e o dinheiro sai de outro lugar. Existe um núcleo técnico do tribunal que dá parecer em 72 horas.

  • Conceder a liminar hoje. Você concede. O município é intimado e tem cinco dias para comprar. A mãe chora no balcão. Na semana seguinte, o secretário de saúde diz numa rádio local que vai faltar dinheiro para a farmácia básica do mês.
  • Pedir o parecer técnico em 72 horas. Você manda o caso ao núcleo técnico do tribunal. O advogado protesta. A mãe sai sem falar com ninguém. O parecer chega no sábado, confirmando que não há alternativa no SUS para o caso dele. A decisão sai na segunda.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao balcão antes das 10h. O advogado ainda não tinha procurado a imprensa local. A conversa ficou dentro do processo.
  • Entre 10h e 12h: Você foi ao balcão depois das 10h. A mãe já tinha dado uma entrevista na porta do fórum. Você decidiu com um repórter da rádio esperando no corredor.
  • Depois das 12h: O balcão ficou para depois do meio-dia. O advogado foi embora e protocolou um pedido ao tribunal reclamando da demora. O que quer que tenha sido decidido depois, já tinha virado notícia na cidade.

Sala de audiências: A testemunha que não veio

O réu está preso há oito meses, acusado de um roubo. Hoje é a audiência em que se ouvem as testemunhas. A principal testemunha da acusação, a vítima, não veio. A promotora pede adiamento. O defensor pede que se siga sem ela.

A próxima data livre na pauta é daqui a dois meses.

  • Adiar e mandar trazer a vítima. Você adia e manda o oficial de justiça buscar a vítima na próxima data. O réu volta para a cadeia na mesma viatura. O defensor registra em ata que ele vai completar dez meses preso sem sentença.
  • Seguir com as outras testemunhas. Você ouve as duas testemunhas que vieram e o réu. A promotora registra protesto em ata. O processo fica pronto para sentença com uma lacuna no meio, e a vítima, quando souber, vai perguntar por que ninguém esperou por ela.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você entrou na sala antes das 10h30. A audiência começou no horário. O réu, a escolta e as testemunhas estavam todos ali, ainda sem a irritação da espera.
  • Entre 10h30 e 13h: Você entrou na sala depois das 10h30. A escolta esperou mais de uma hora e avisou que precisava levar o preso de volta até as 14h. A audiência foi feita com o relógio da viatura correndo.
  • Depois das 13h: A sala de audiências ficou para depois das 13h. A escolta levou o réu de volta à cadeia ao meio-dia. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido sem ele na sala, e a audiência precisou de nova data de qualquer jeito.

Cartório: O cartório sem gente

Dos cinco servidores do cartório, um está de licença médica e outro foi transferido. A Dona Célia, escrivã há 22 anos, mostra as pilhas: 900 processos esperando um simples despacho de juntada. A corregedoria faz inspeção em duas semanas.

Ela pede para fechar o balcão de atendimento à tarde por um mês, para a equipe só trabalhar nos processos.

  • Fechar o balcão à tarde por um mês. Você assina a portaria. O balcão fecha às 13h. Em duas semanas, as pilhas caem pela metade. A subseção da OAB manda um ofício reclamando, e um senhor da zona rural que veio de ônibus perde a viagem.
  • Manter o balcão e fazer mutirão no sábado. Você marca dois sábados de mutirão e vai junto. As pilhas caem um terço. No segundo sábado, a Dona Célia aparece com os olhos fundos e diz que, depois da inspeção, vai pedir a aposentadoria.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h30: Você foi ao cartório antes das 11h30. A Dona Célia ainda estava com a lista que fez de madrugada, tudo em ordem de prioridade. Ela explicou cada pilha.
  • Entre 11h30 e 15h: Você foi ao cartório depois das 11h30. O balcão estava cheio, e a Dona Célia conversou com você atendendo um advogado com a outra metade da atenção.
  • Depois das 15h: O cartório ficou para depois das 15h. A Dona Célia foi embora no fim do expediente sem resposta, e deixou a lista em cima da sua mesa. O que quer que tenha sido decidido depois, a equipe só soube no dia seguinte.

Copa: Café, e o concurso visto de fora

O estagiário de Direito está na pia, falando com o oficial de justiça.

“…passou no concurso, a vida tá resolvida.”

O salário está resolvido, a estabilidade também. A quarta-feira, não. Quinze minutos depois, você volta para o gabinete pensando no que o concurso não prometeu.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a Defensoria tá olhando os prazos dos presos. Dizem que vem pedido de soltura.
  • …a mãe do menino do remédio tá no balcão desde as oito.
  • …a escolta do preso tá reclamando. Diz que não pode ficar o dia inteiro.
  • …a Dona Célia quer falar com a doutora. Diz que o cartório não aguenta mais.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Pedir o parecer técnico em 72 horas” e “Adiar e mandar trazer a vítima”: No mesmo dia, você pediu mais três dias para o menino do remédio e mais dois meses para o réu preso. As duas esperas têm fundamento escrito. As duas famílias saíram do fórum sem resposta.
  • Se você escolheu “Conceder a liminar hoje” e “Fechar o balcão à tarde por um mês”: A liminar do remédio saiu no dia em que o balcão passou a fechar à tarde. Quando a mãe voltou, às 14h, para saber se o município tinha sido intimado, encontrou a porta fechada e um aviso colado.
  • Se você escolheu “Seguir com as outras testemunhas” e “Manter o balcão e fazer mutirão no sábado”: O processo do réu preso ficou pronto para sentença, e você escreveu a sentença no primeiro sábado de mutirão, no cartório, com a Dona Célia juntando papel na mesa ao lado.
  • Se você escolheu “Conceder a liminar hoje” e “Seguir com as outras testemunhas”: Duas vezes na mesma quarta você decidiu com o que tinha na mão: a liminar sem o parecer, a audiência sem a vítima. As duas decisões andaram. As duas vão ser questionadas em recurso.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia uma mãe no balcão, um réu esperando na sala de audiências e um cartório pedindo socorro, e você abriu a lista dos presos. Passou 1h25 contando dias desde a última revisão.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem estava preso e não tinha ninguém olhando por ele naquela manhã. Muito do trabalho no Judiciário é isso: o prazo que, esquecido, vira injustiça sem que ninguém tenha decidido nada.

Você foi para o balcão primeiro.

Você começou pelo pedido em que uma criança e o orçamento de uma cidade estavam na mesma página. Passou 40 min entre decidir já e decidir sabendo mais.

Julgar é isso: a lei não diz quanto tempo esperar, e qualquer escolha tem alguém do outro lado.

Você foi para a audiência primeiro.

Você começou pela sala em que um homem preso esperava a vez dele de ser ouvido. Passou 1h00 decidindo se o processo andava sem a vítima.

Na audiência, a juíza está na frente das pessoas, não dos papéis, e cada adiamento tem um rosto.

Você foi para o cartório primeiro.

Você começou por quem faz o fórum funcionar sem aparecer. Passou 30 min decidindo entre o atendimento ao público e o fôlego de uma equipe pequena.

Uma vara também é uma repartição: gente, pilha, licença médica e inspeção. Quem gosta de gestão pública encontra o trabalho aqui.

As três portas do fórum

O concurso abre a porta do fórum, mas lá dentro são várias profissões, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo cargo.

  • Magistratura. Decidir a vida dos outros com a lei na mão, sem que a lei diga tudo.
  • Análise judiciária. Fazer o processo andar: prazos, minutas, despachos. O erro de um dia vira o problema de alguém.
  • Gestão judiciária. Cuidar da vara como repartição: equipe, pilhas, atendimento, inspeção.