Um dia na pele de
O plantão da fisioterapia hospitalar
Você é fisioterapeuta de um hospital geral em Recife. No plantão diurno, você cobre a UTI de doze leitos e os pacientes da enfermaria que têm fisioterapia prescrita, e ainda acompanha um residente no primeiro mês. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no posto: está na UTI, no quarto, na sala de procedimentos. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.
Devolver movimento e fôlego a quem está deitado, no ritmo que o corpo de cada um aguenta.
Profissões com um dia assim: Fisioterapeuta · Fisioterapeuta em UTI · Fisioterapeuta Intensivista · Fisioterapeuta Respiratório · +1
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O plantão da fisioterapia hospitalar: o dia por escrito
Você é fisioterapeuta de um hospital geral em Recife. No plantão diurno, você cobre a UTI de doze leitos e os pacientes da enfermaria que têm fisioterapia prescrita, e ainda acompanha um residente no primeiro mês. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no posto: está na UTI, no quarto, na sala de procedimentos. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.
Posto de enfermagem: Quem senta na poltrona hoje
O plano de ontem diz: às 10h, todos os doze pacientes da UTI saem da cama e sentam na poltrona. Tirar da cama cedo encurta a internação, mas não vale para todo mundo, todo dia. A regra da equipe: hoje não senta quem estiver com a frequência cardíaca acima de 120, a pressão média abaixo de 65 ou as plaquetas abaixo de 20 mil.
Os sinais da madrugada chegaram. O plano não foi refeito.
Ache os pacientes que não podem sentar na poltrona hoje. São esses quatro: o 2 pela frequência, o 3 pela pressão, o 4 pelas plaquetas e o 9 por duas coisas ao mesmo tempo. O leito 5 assusta, perto de todos os limites, mas não passa de nenhum: pode sentar, com alguém olhando o monitor. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você achou antes das 9h30. Os quatro saíram da lista antes da ronda das 10h. Os outros oito sentaram na poltrona; os quatro fizeram exercício no próprio leito.
- Entre 9h30 e 12h: Você achou depois das 9h30. A ronda das 10h já tinha começado: o leito 2 chegou a sentar, a frequência passou de 140 e ele voltou para a cama em cinco minutos. Os outros três saíram da lista a tempo.
- Depois das 12h: O plano ficou para depois do meio-dia. O outro fisioterapeuta do turno seguiu o plano de ontem. O que quer que tenha sido corrigido depois, pacientes sem condição já tinham sido tirados da cama, e a equipe médica pediu explicação.
UTI: A tosse fraca
A Dona Graça, 58 anos, está há seis dias no respirador por uma pneumonia. Às 9h ela passou no teste de respiração sozinha. O intensivista, Dr. Paulo, quer tirar o tubo às 11h: a UTI está cheia e tem paciente esperando vaga no pronto-socorro.
Você avaliou: ela respira bem, mas a tosse está fraca e a secreção é muita. Sem tosse, o pulmão enche de novo.
- Concordar com a extubação e ficar à beira do leito depois. A Dona Graça é extubada às 11h. Você passa a tarde com ela, fisioterapia respiratória a cada duas horas. Ela aguenta. Na quinta de manhã, cansada, continua fora do tubo, e você não sabe dizer se foi a técnica ou a sorte.
- Pedir mais 24 horas de respirador. O Dr. Paulo concorda, a contragosto, e escreve no prontuário que foi a pedido da fisioterapia. Na quinta, ela sai do tubo com a tosse mais forte e não volta. O paciente que esperava a vaga passou mais uma noite no pronto-socorro.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi à UTI antes das 9h30. O teste tinha acabado de terminar e o Dr. Paulo ainda não tinha decidido. Você entrou na conversa antes da decisão, não depois.
- Entre 9h30 e 11h: Você foi à UTI depois das 9h30. O Dr. Paulo já tinha avisado a família que ela sairia do tubo hoje. Discordar agora era discordar de um aviso já dado.
- Depois das 11h: A UTI ficou para depois das 11h. O Dr. Paulo decidiu sem a avaliação da fisioterapia. O que quer que você tenha dito depois, a decisão já estava escrita no prontuário.
Quarto 8: "Me deixa quieto"
O Seu Raimundo, 70 anos, teve um AVC há cinco dias e perdeu a força do lado direito. Ontem recusou a fisioterapia. Hoje, quando você entra, ele vira o rosto: "Não quero. Me deixa quieto."
A filha, Joana, está na porta: "Ele tem que levantar, doutora. Se depender dele, não levanta nunca." Cada dia na cama nessa fase pesa na recuperação.
- Respeitar a recusa hoje e voltar amanhã. Você senta, conversa sobre o time de futebol dele e sai sem fazer nenhum exercício. A Joana reclama no posto. No dia seguinte, é ele quem pergunta se você vem, e aceita sentar na poltrona.
- Insistir, com a filha junto, e levar ele até a poltrona. Com a Joana segurando a mão dele, você o leva até a poltrona. Ele fica sentado vinte minutos, de cara fechada, sem falar com ninguém. No dia seguinte, finge dormir quando você entra.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao quarto antes das 10h. A Joana ainda não tinha chegado. Deu para conversar com ele sozinho, sem ninguém falando por ele.
- Entre 10h e 14h: Você foi ao quarto depois das 10h. A Joana já estava no quarto, e os dois já tinham discutido. Você entrou no meio de uma briga de família.
- Depois das 14h: O quarto 8 ficou para depois das 14h. A Joana desistiu e foi embora, e ele dormiu a tarde inteira. O que quer que tenha sido feito depois, foi com o dia quase no fim e o paciente já cansado.
Sala de procedimentos: A primeira vez dele
A Dona Zélia, 64 anos, operou o abdômen ontem e precisa de fisioterapia respiratória: respirar fundo, tossir segurando um travesseiro na barriga, para o pulmão não fechar. Dói. O Lucas, residente no primeiro mês, pede para fazer sozinho, com você olhando.
Você faz em quinze minutos. Com ele, vão ser quarenta, e a UTI está esperando.
- Deixar o Lucas fazer, com você ao lado. O Lucas erra a posição do travesseiro duas vezes e acerta na terceira. A Dona Zélia tosse, dói, e agradece a ele, não a você. Os quarenta minutos saíram de outro paciente do dia.
- Fazer você mesma e deixar o Lucas olhar. Em quinze minutos a Dona Zélia respira mais fundo e tosse melhor. O Lucas anota tudo. No fim do plantão, ele pergunta, com educação, quando vai poder fazer sozinho.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi à sala de procedimentos antes das 10h30. O analgésico da manhã ainda fazia efeito. Qualquer exercício doía menos, para quem quer que fosse fazer.
- Entre 10h30 e 13h: Você foi à sala de procedimentos depois das 10h30. O analgésico da manhã já tinha passado. Cada tosse doía mais, e ela já tinha pedido uma vez para deixar para depois.
- Depois das 13h: A sala de procedimentos ficou para depois das 13h. O Lucas cansou de esperar e fez o exercício sem ninguém olhando. O que quer que tenha sido decidido depois, a primeira sessão dele já tinha acontecido sem supervisão.
Copa da equipe: Café, e a fisioterapia vista da copa
Duas técnicas de enfermagem tomam café entre um banho de leito e outro.
“…fisioterapeuta chega, faz o paciente sentar dez minutos e vai embora. Quem passa a noite virando ele de lado somos nós.”
Uma delas foi quem ajudou você a sentar o leito 6 ontem. Quinze minutos depois, você volta para o posto lembrando que cada paciente que você mobiliza vira trabalho de mais alguém quando você sai.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a ronda das dez vai sentar todo mundo da UTI. Tá no plano de ontem.
- …o Dr. Paulo quer tirar o tubo da Dona Graça antes do meio-dia. Tem vaga esperando.
- …a filha do Seu Raimundo perguntou se a fisio vem hoje. Ela tá brava.
- …o residente novo tá esperando na sala de procedimentos desde cedo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Pedir mais 24 horas de respirador” e “Respeitar a recusa hoje e voltar amanhã”: Você segurou a Dona Graça no tubo mais um dia e deixou o Seu Raimundo na cama. Duas vezes na mesma quarta, você esperou o corpo de alguém ficar pronto. A família de um e o médico do outro acharam que era tempo demais.
- Se você escolheu “Concordar com a extubação e ficar à beira do leito depois” e “Deixar o Lucas fazer, com você ao lado”: A Dona Graça pediu você à beira do leito a tarde inteira, e o Lucas ficou quarenta minutos com a Dona Zélia. O seu plantão ficou dividido entre o paciente mais grave e o aprendiz mais novo. Os outros pacientes da enfermaria tiveram metade do tempo.
- Se você escolheu “Insistir, com a filha junto, e levar ele até a poltrona” e “Fazer você mesma e deixar o Lucas olhar”: Você levou o Seu Raimundo até a poltrona e fez você mesma o exercício da Dona Zélia. No mesmo dia, o corpo dos pacientes andou mais rápido do que a vontade de quem estava em volta, e o Lucas viu as duas cenas.
- Se você escolheu “Deixar o Lucas fazer, com você ao lado” e “Respeitar a recusa hoje e voltar amanhã”: Você deu tempo ao Lucas para errar e ao Seu Raimundo para recusar. Foi um plantão de esperar os outros. Na avaliação do mês, o Lucas escreveu que foi o dia em que mais aprendeu.
Como o dia termina
Você foi para o plano primeiro.
Havia uma extubação para decidir, um paciente recusando e um residente esperando, e você sentou no posto para cruzar doze leitos com três limites. Passou 50 min lendo frequência, pressão e plaqueta.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do risco que ia acontecer às 10h, em doze camas ao mesmo tempo. Terapia intensiva é isso: decidir com número quem pode se mexer hoje.
Você foi para a UTI primeiro.
Você começou pela Dona Graça e por uma decisão em que você e o médico não pensavam igual. Passou 45 min entre a vaga que a UTI precisava e a tosse que ela ainda não tinha.
Na UTI, a fisioterapia participa do respirador, do desmame e da extubação. Discordar do médico com uma avaliação na mão faz parte do trabalho, e o resultado nem sempre diz quem tinha razão.
Você foi para o Seu Raimundo primeiro.
Você começou pelo quarto 8, com um homem que não queria levantar e uma filha que queria que ele levantasse. Passou 40 min entre o que o corpo dele precisava e o que ele queria.
Reabilitação neurológica é longa: meses, às vezes anos. Sem a vontade do paciente, nenhum exercício anda, e a vontade também precisa de tratamento.
Você foi para a sala de procedimentos primeiro.
Você começou pela Dona Zélia, pela tosse que dói e pelo residente que queria fazer sozinho. Passou 40 min entre fazer bem e ensinar a fazer.
Fisioterapia respiratória é técnica de detalhe: a posição do travesseiro, a hora do analgésico, o fôlego de cada um. E quem sabe fazer também precisa, um dia, deixar alguém errar na frente.
As três portas da fisioterapia
Fisioterapia não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela parte do corpo.
- Terapia intensiva. Respirador, desmame e mobilização de quem está grave: decidir com número o que o corpo aguenta hoje.
- Reabilitação neurológica. Devolver movimento depois de um AVC ou de uma lesão, num trabalho de meses que depende da vontade de quem treina.
- Fisioterapia respiratória. Fôlego e tosse: técnica de detalhe para que o pulmão de quem operou ou adoeceu volte a funcionar.