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Um dia na pele de

A farmácia de um hospital numa quarta

Você é a farmacêutica da ala de internação de um hospital geral de 200 leitos: confere as prescrições, cuida do estoque, dos controlados e da quimioterapia do andar. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na farmácia satélite: está no posto de enfermagem, no quarto, na central de quimioterapia. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer o remédio certo chegar na hora certa sem afrouxar o controle que existe por um motivo.

Profissões com um dia assim: Farmacêutico Hospitalar · Farmacêutico · Especialista em Farmacovigilância · Farmacêutico de Manipulação

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A farmácia de um hospital numa quarta: o dia por escrito

Você é a farmacêutica da ala de internação de um hospital geral de 200 leitos: confere as prescrições, cuida do estoque, dos controlados e da quimioterapia do andar. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na farmácia satélite: está no posto de enfermagem, no quarto, na central de quimioterapia. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Farmácia satélite: A dose que o rim não aguenta

Doze pacientes da ala estão com meropeném, um antibiótico que sai pelo rim. Quando o rim filtra menos, a dose do dia tem de cair, e o médico do plantão nem sempre olha o exame antes de prescrever.

A tabela do hospital: clearance acima de 50 ml/min, até 3 g por dia; de 26 a 50, até 2 g; de 10 a 25, até 1 g. A próxima dose da ala é às 14h.

Ache as prescrições cuja dose do dia passa do limite para o rim do paciente. São essas três. L202: 3 g por dia para um rim de 41, o limite é 2. L206: 2 g para um rim de 22, o limite é 1. L210: clearance de 50 ainda está na faixa de 26 a 50, e leva 3 g. O L204, com 55, pode os 3 g. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 13h: Você achou antes das 13h. O plantonista ajustou as três prescrições antes da dose das 14h. Nenhum dos três recebeu a mais naquele dia.
  • Entre 13h e 16h: Você achou depois das 13h. A dose das 14h já tinha saído como estava. O ajuste valeu a partir da das 22h, e o L206 passou a tarde mais sonolento do que de manhã.
  • Depois das 16h: As prescrições ficaram para depois das 16h. A dose das 14h saiu como estava, e o plantonista da tarde já tinha ido embora. O que quer que tenha sido ajustado depois, três pacientes de rim cansado receberam um dia de antibiótico acima do limite.

Posto de enfermagem: Cinquenta minutos de dor

A Sônia, coordenadora de enfermagem da ala, quer um estoque de morfina no posto para a noite. Hoje, cada dose de controlado sai da farmácia com a prescrição, e à noite há um técnico de farmácia só para o hospital inteiro. O paciente com dor espera até 50 minutos.

Com estoque no posto, a dor é tratada em minutos. Mas controlado guardado fora da farmácia exige cofre, livro, contagem a cada troca de turno, e é por onde costuma sumir.

  • Liberar um estoque mínimo no posto. Cinco ampolas passam a ficar num cofre do posto, com contagem a cada troca de turno. Na primeira noite, a espera cai para dez minutos. A Sônia assina o termo de responsabilidade e pede que a contagem seja feita junto com a farmácia.
  • Manter a dispensação por paciente e reforçar a noite. A morfina continua saindo da farmácia, dose por dose. Você remaneja um técnico do dia para a noite duas vezes por semana, e a espera cai para 30 minutos nesses dias. A Sônia agradece e diz que 30 minutos de dor também é muito.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao posto antes das 9h. A Sônia ainda estava na passagem de plantão, com o relato da noite na mão. Deu para ouvir os dois casos de espera antes de responder.
  • Entre 9h e 12h: Você foi ao posto depois das 9h. A Sônia já tinha levado o pedido à gerência de enfermagem. A conversa começou com outra pessoa achando que a farmácia estava travando o assunto.
  • Depois das 12h: O posto ficou para depois do meio-dia. A Sônia saiu às 13h sem resposta, e a enfermeira da noite assumiu o pedido. O que quer que tenha sido decidido depois, foi explicado a quem não tinha começado a conversa.

Quarto 214: O terceiro caso do mesmo lote

A Dona Celina, no 214, amanheceu com manchas vermelhas pelo corpo, dois dias depois de começar piperacilina com tazobactam. É o terceiro caso parecido no mês, e os três receberam ampolas do mesmo lote, de um fabricante novo.

O hospital tem 400 ampolas desse lote. O antibiótico de reserva custa quatro vezes mais e dá para poucos dias.

  • Notificar e bloquear o lote no hospital. Você notifica no sistema da Anvisa e põe as 400 ampolas em quarentena. Até chegar outro lote, a ala usa o antibiótico de reserva, e a infectologista pergunta, com razão, quanto tempo isso vai durar.
  • Notificar e manter o lote, com vigilância. Você notifica e avisa a enfermagem para olhar a pele de quem recebe o lote. Ele continua em uso. Na semana seguinte, uma quarta paciente tem manchas leves, e a notificação ganha mais um caso.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao quarto antes das 10h. A dose das 10h da ala ainda não tinha saído. A decisão sobre o lote chegou antes da próxima ampola.
  • Entre 10h e 14h: Você foi ao quarto depois das 10h. A dose das 10h já tinha saído para outros nove pacientes, do mesmo lote. Agora eram nove peles a mais para olhar.
  • Depois das 14h: O quarto ficou para depois das 14h. A Dona Celina passou o dia com as manchas e um anti-histamínico do plantonista. O que quer que tenha sido decidido depois, outras duas rodadas do mesmo lote já tinham saído.

Central de quimioterapia: O frasco de outra cor

A carboplatina do fabricante de sempre não chegou. Há estoque de um genérico registrado na Anvisa, de um fabricante que o hospital nunca usou. A Dona Rita, 61 anos, faz a quarta sessão hoje às 13h.

O hospital vizinho empresta quatro frascos da marca de sempre, mas alguém precisa ir buscar, e a sessão atrasaria umas três horas. Ela veio de ônibus de outra cidade.

  • Manipular com o genérico. Você manipula na capela com o genérico, conferido duas vezes. A sessão começa no horário. A Dona Rita pergunta à enfermeira por que o frasco é de outra cor, e a enfermeira chama você para explicar.
  • Buscar a marca de sempre no hospital vizinho. O motorista busca os frascos, e a sessão começa três horas depois do previsto. A Dona Rita perde o último ônibus para casa, e o serviço social arruma um pernoite. O hospital fica devendo quatro frascos ao vizinho.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à quimioterapia antes das 10h. A Dona Rita ainda nem tinha chegado. Deu para falar com a oncologista com calma e decidir antes de qualquer frasco sair do armário.
  • Entre 10h e 12h30: Você foi à quimioterapia depois das 10h. A Dona Rita já estava na poltrona, com o acesso puncionado, perguntando quanto faltava. A decisão foi tomada com ela ouvindo.
  • Depois das 12h30: A quimioterapia ficou para depois das 12h30. A oncologista ligou duas vezes para a farmácia e acabou decidindo sozinha o que dava. O que quer que tenha sido feito depois, a sessão da Dona Rita já estava atrasada antes de qualquer frasco ser aberto.

Copa: Café, e a farmácia vista do posto

Duas técnicas de enfermagem tomam café antes da medicação das 10h.

“…farmácia é aquele guichê que demora. A gente pede às oito, chega às nove, e quem leva a bronca do paciente é a gente.”

Nenhuma das duas sabe quantas prescrições você barrou esta semana. Quinze minutos depois, você volta para a farmácia pensando no que a demora protege e no que ela custa.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o plantonista prescreveu tudo de madrugada, de cabeça. Nem olhou os exames da manhã.
  • …a Sônia tá pedindo morfina no posto de novo. Diz que ontem um paciente esperou quase uma hora.
  • …a senhora do 214 amanheceu cheia de manchas. É a terceira desse antibiótico.
  • …a Dona Rita já chegou para a quimio. Perguntou se hoje vai atrasar.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manipular com o genérico” e “Notificar e manter o lote, com vigilância”: Na mesma quarta, um fabricante novo de quimioterápico entrou na veia de uma paciente e um lote suspeito de antibiótico continuou em uso. A comissão de farmácia do mês vai ter as duas coisas na pauta.
  • Se você escolheu “Buscar a marca de sempre no hospital vizinho” e “Notificar e bloquear o lote no hospital”: Quatro frascos emprestados ao vizinho e 400 ampolas em quarentena: na mesma quarta, a farmácia ficou devendo a outro hospital e comprou antibiótico de reserva às pressas. O mês fechou acima do orçamento.
  • Se você escolheu “Liberar um estoque mínimo no posto”: Três semanas depois, a contagem do cofre do posto não fechou por um dia, até acharem a ampola registrada no prontuário do leito errado. A conferência por turno passou a ter duas assinaturas.
  • Se você escolheu “Manter a dispensação por paciente e reforçar a noite” e “Notificar e bloquear o lote no hospital”: Morfina dose por dose e antibiótico de reserva para a ala inteira: os técnicos de farmácia da noite passaram a semana indo e voltando entre a ala e o almoxarifado.

Como o dia termina

Você foi para as prescrições primeiro.

Havia uma coordenadora pedindo morfina, uma paciente com manchas e uma quimioterapia sem o frasco de sempre, e você abriu as prescrições. Passou 1h10 multiplicando dose por horário e comparando com o rim de cada um.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que ninguém ia ver até a próxima dose. Farmácia clínica é isso: a conta que fica entre a prescrição e o paciente.

Você foi para o posto primeiro.

Você começou pelo pedido da enfermagem, entre a dor de quem espera e o controle de um remédio que precisa ser controlado. Passou 40 min decidindo onde a morfina mora à noite.

Farmácia hospitalar é isso também: desenhar o caminho do remédio pelo hospital, e responder por cada ampola no caminho.

Você foi para o quarto 214 primeiro.

Você começou pela paciente com manchas, o terceiro caso do mesmo lote. Passou 45 min entre bloquear um antibiótico que a ala usa e manter o tratamento olhando de perto.

Farmacovigilância é isso: juntar casos que, sozinhos, parecem acaso, e decidir quando um padrão é forte o bastante para parar tudo.

Você foi para a quimioterapia primeiro.

Você começou pela sessão da Dona Rita, com um frasco de outro fabricante na prateleira. Passou 50 min entre a sessão no horário e o remédio de sempre.

Farmácia oncológica é isso: manipular na capela, conferir duas vezes, e explicar a quem está na poltrona por que o frasco mudou de cor.

As quatro portas da Farmácia

Farmácia não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo remédio.

  • Farmácia clínica. Conferir dose, interação e exame entre a prescrição e o paciente.
  • Farmácia hospitalar. Desenhar o caminho do remédio pelo hospital e responder por ele, ampola por ampola.
  • Farmacovigilância. Juntar os casos de reação e decidir quando um padrão pede para parar um remédio.
  • Farmácia oncológica e manipulação. Preparar na capela o que vai para a veia, com conta conferida duas vezes.