Um dia na pele de
Uma terça de professor na universidade
Você é professor de Engenharia de Produção numa universidade comunitária em Caxias do Sul. Dá aula na graduação, orienta mestrandos e doutorandos, coordena o programa de pós e tem um grupo de pesquisa. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no seu gabinete: está na secretaria da pós, na sala dos tutores do EAD, na agência de inovação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Dar aula, pesquisar e administrar no mesmo dia, sem que um engula os outros.
Profissões com um dia assim: Professor Universitário · Coordenador de Pós-Graduação · Tutor EAD · Gestor de Pesquisa e Inovação · +1
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Uma terça de professor na universidade: o dia por escrito
Você é professor de Engenharia de Produção numa universidade comunitária em Caxias do Sul. Dá aula na graduação, orienta mestrandos e doutorandos, coordena o programa de pós e tem um grupo de pesquisa. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no seu gabinete: está na secretaria da pós, na sala dos tutores do EAD, na agência de inovação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Seu gabinete: As médias que não fecham
A secretaria lança hoje às 18h as médias de Estatística, a sua turma de 40 alunos. A regra está no plano de ensino: média = (P1 + P2) ÷ 2, e quem fica com 6,0 ou mais passa.
A planilha foi montada pelo monitor, com uma fórmula arrastada linha a linha. Antes de assinar, você confere.
Ache as médias que não são (P1 + P2) ÷ 2. São essas três. A do Diego pegou só a P1: era 4,5, e a planilha o aprovava com 6,0. A do Hugo e a do João pegaram só a P2. Nas outras, a fórmula fez a conta certa, mesmo onde a média parece estranha. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. Deu tempo de corrigir a fórmula e conferir as outras 28 linhas antes do lançamento.
- Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. Você corrigiu as três, mas a fórmula errada podia estar em outras linhas, e só deu tempo de conferir metade da turma antes das 18h.
- Depois das 16h: A planilha ficou para depois das 16h. Qualquer correção disputou o tempo com o lançamento das 18h. As médias entraram no sistema sem a turma inteira conferida, e a secretaria recebeu, na semana seguinte, três pedidos de revisão.
Secretaria da pós: A bolsa que acaba em dezembro
O Rafael, doutorando, está na secretaria com o cronograma impresso. A bolsa dele acaba em dezembro, e com ela a única renda. Ele quer marcar a defesa para 15 de dezembro, com a tese como está. Uma faculdade o espera como professor em fevereiro.
O capítulo 4, o principal, tem os dados de um experimento só. Na qualificação, o membro externo da banca escreveu que um experimento não sustenta a tese.
- Autorizar a defesa em dezembro. Você assina a marcação. O Rafael sai da secretaria aliviado. A banca vai receber a tese em novembro, e o membro externo vai ler o capítulo 4 de novo.
- Recomendar seis meses de prorrogação. Você explica, com o parecer da qualificação na mesa. O Rafael pede a prorrogação; o programa não tem bolsa para dar. Ele vai dar aulas à noite numa faculdade particular para pagar o aluguel, e o tempo médio de titulação do programa, que pesa na avaliação, sobe.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à secretaria antes das 10h. O Rafael ainda não tinha falado com o orientador sobre a data. A conversa foi a três, não a dois.
- Entre 10h e 14h: Você foi à secretaria depois das 10h. O Rafael já tinha mandado convite informal à banca com a data de dezembro. Qualquer decisão mexia num convite já feito.
- Depois das 14h: A secretaria ficou para depois das 14h. O Rafael esperou a manhã inteira e foi embora com o cronograma na mão. O que quer que tenha sido decidido depois, ele soube por e-mail.
Sala dos tutores do EAD: Os 80 trabalhos marcados
Na sala dos tutores, a Simone, tutora da sua disciplina EAD de Gestão da Qualidade, tem 400 trabalhos corrigidos e a planilha do detector de texto gerado por IA: 80 marcados como prováveis. O detector erra, e ninguém sabe quanto. Os resultados saem amanhã.
Entre os 80 está um aluno que, no fórum, escreve exatamente daquele jeito há dois semestres.
- Pedir refação aos 80 marcados. A Simone manda a mensagem aos 80. Setenta e dois refazem sem reclamar. Oito protestam, com o histórico do fórum anexado; um deles abre reclamação na ouvidoria.
- Manter os trabalhos e mudar a próxima avaliação. Os 400 trabalhos valem como foram entregues. Você e a Simone trocam a próxima avaliação por um estudo de caso da empresa de cada aluno, com cinco minutos de vídeo explicando. A Simone faz a conta: são 33 horas de vídeo para assistir.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à sala dos tutores antes das 11h. A Simone ainda não tinha publicado nada. A decisão saiu antes de qualquer aluno ver o próprio resultado.
- Entre 11h e 15h: Você foi à sala dos tutores depois das 11h. O fórum da disciplina já tinha um tópico chamado "detector de IA", com 60 respostas. Qualquer decisão ia ser lida por 400 pessoas atentas.
- Depois das 15h: A sala dos tutores ficou para depois das 15h. A Simone precisava fechar os resultados no fim do dia e fechou com o que tinha. O que quer que tenha sido decidido depois, chegou aos alunos como mudança.
Agência de inovação: A cláusula 9
Na agência de inovação, a gestora de convênios está com a minuta de uma fabricante de embalagens: R$ 400 mil em dois anos para o seu grupo de pesquisa estudar embalagem compostável. Dá para três bolsistas e para o equipamento que o laboratório espera há quatro anos.
A cláusula 9 diz que nenhum resultado pode ser publicado sem autorização escrita da empresa. Ela quer a assinatura até sexta.
- Assinar como está. A minuta vai para a pró-reitoria com o seu de acordo. Os três bolsistas começam em março. Daqui a dois anos, a dissertação de um deles vai depender de uma autorização que não é sua.
- Propor 12 meses de sigilo no lugar da cláusula. Você devolve a minuta propondo sigilo de 12 meses e, depois, publicação livre. A gestora manda à empresa. A resposta vem no fim do dia: "vamos avaliar", com a menção de que outra universidade aceitou o texto original.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você foi à agência antes do meio-dia. A gestora ainda não tinha respondido à empresa. Qualquer proposta saía com quatro dias de folga até sexta.
- Entre 12h e 16h: Você foi à agência depois do meio-dia. A empresa já tinha ligado para a pró-reitoria perguntando pela assinatura. A minuta passou a ter mais gente olhando para ela.
- Depois das 16h: A agência ficou para depois das 16h. A gestora saiu às 16h com a minuta parada na mesa. O que quer que tenha sido decidido, só andou no dia seguinte.
Cantina: Café, e o que se fala nele
Três alunos da graduação estão na mesa do canto, com as apostilas abertas.
“…ele lança as médias sem conferir. Semestre passado, a média de metade da turma saiu errada.”
Não estão falando de você. Quinze minutos depois, você volta sabendo o que os alunos esperam de quem lança uma média.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a secretaria disse que lança as médias às seis em ponto.
- …o Rafael tá na secretaria desde as oito, com um papel na mão.
- …tem um tópico no fórum do EAD chamado "detector de IA".
- …a empresa das embalagens ligou pra pró-reitoria de novo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Recomendar seis meses de prorrogação” e “Assinar como está”: Você recomendou ao Rafael seis meses sem bolsa e assinou o convênio que paga três bolsistas a partir de março. Na semana seguinte, ele perguntou se podia ser um deles. O tema não era o da tese dele.
- Se você escolheu “Autorizar a defesa em dezembro” e “Propor 12 meses de sigilo no lugar da cláusula”: Você autorizou a defesa do Rafael em dezembro e pediu à empresa que os resultados pudessem ser publicados. Se o convênio sair, o experimento que faltou na tese dele vai ser feito no laboratório, por outro bolsista.
- Se você escolheu “Propor 12 meses de sigilo no lugar da cláusula” e “Manter os trabalhos e mudar a próxima avaliação”: Você pediu à empresa sigilo de só 12 meses e trocou a avaliação do EAD por vídeos. As duas decisões custaram tempo: a empresa respondeu "vamos avaliar", e a Simone passou a semana seguinte com 33 horas de vídeo.
- Se você escolheu “Pedir refação aos 80 marcados” e “Recomendar seis meses de prorrogação”: Você mandou 80 alunos refazerem o trabalho e pediu ao Rafael mais seis meses. Naquela terça, quem passou pela sua decisão ouviu a mesma resposta: ainda não.
Como o dia termina
Você foi para a planilha primeiro.
Havia um doutorando esperando na secretaria, 80 trabalhos marcados e um convênio com prazo, e você começou pelas médias da sua turma. Passou 1h10 refazendo contas linha a linha.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que chega a 40 alunos às 18h. Na docência, o trabalho que ninguém vê é esse: a média certa no sistema.
Você foi para o Rafael primeiro.
Você começou pela secretaria, com um doutorando, uma bolsa acabando e um parecer de banca. Passou 40 min decidindo entre o tempo da tese e o tempo da vida dele.
Coordenar pós-graduação é isso: cada decisão sobre uma pessoa entra também na conta do programa, que é avaliado pelo tempo e pela qualidade de quem sai.
Você foi para o EAD primeiro.
Você começou pela sala dos tutores, com 400 alunos que você nunca viu e um detector que ninguém sabe o quanto erra. Passou 45 min decidindo o que vale como prova de autoria.
Educação a distância é isso: tudo acontece em escala, e cada regra que você cria vai ser lida por centenas de pessoas ao mesmo tempo.
Você foi para o convênio primeiro.
Você começou pela agência de inovação, com R$ 400 mil e uma cláusula sobre o que se pode publicar. Passou 35 min decidindo quanto do seu laboratório cabe na mão de uma empresa.
Pesquisa e inovação é isso: o dinheiro que faz a ciência andar quase sempre vem com uma condição, e alguém tem que ler a cláusula 9.
As quatro portas da universidade
Trabalhar na universidade não é uma profissão só, são quatro, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Docência no ensino superior. Dar aula para adultos e responder por cada média, plano de ensino e turma.
- Gestão acadêmica. Coordenar programas e cursos: decisões sobre pessoas que entram na avaliação da instituição.
- Educação a distância. Ensinar e avaliar centenas de alunos ao mesmo tempo, sem os ver.
- Pesquisa e inovação. Fazer ciência e conseguir quem a pague, sem perder o direito de publicar o que se descobre.