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Um dia na pele de

O domingo da estação de tratamento de água

Você é a engenheira química de plantão numa estação de tratamento de água: o rio entra barrento de um lado e sai água potável do outro, para 400 mil pessoas, 24 horas por dia. Chove forte desde ontem de manhã. Neste domingo, com metade da equipe de folga, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num ponto da estação: a sala de controle, o laboratório, a galeria dos filtros, a sala do plantão. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

A cidade abre a torneira sem pensar; você pensa por ela.

Profissões com um dia assim: Engenheiro Químico · Engenheiro de Processos · Especialista em Tratamento de Água

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O domingo da estação de tratamento de água: o dia por escrito

Você é a engenheira química de plantão numa estação de tratamento de água: o rio entra barrento de um lado e sai água potável do outro, para 400 mil pessoas, 24 horas por dia. Chove forte desde ontem de manhã. Neste domingo, com metade da equipe de folga, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num ponto da estação: a sala de controle, o laboratório, a galeria dos filtros, a sala do plantão. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Laboratório: Concentração vezes tempo

O cloro só mata o que precisa matar se ficar tempo suficiente em contato com a água. A regra da estação junta as duas coisas: cloro (mg/L) vezes tempo no tanque de contato (minutos) tem de dar pelo menos 30. Quanto mais água passa, menos tempo ela fica no tanque.

Com a chuva, que começou ontem cedo, os operadores mexeram na vazão e no cloro o sábado inteiro. As horas que ficaram abaixo precisam ser comunicadas à vigilância sanitária hoje.

Ache as horas em que cloro vezes tempo ficou abaixo de 30. São quatro: 2h (0,9 × 30 = 27), 6h (1,1 × 25 = 27,5), 10h (1,4 × 20 = 28) e 16h (0,8 × 36 = 28,8). Às 10h o cloro era o mais alto do dia até ali, e não bastou: a água passou rápido demais. Às 4h e às 22h, com o cloro baixo, a vazão menor segurou a água 40 minutos e fechou 32. Às 14h, 30 exato. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você comunicou antes das 11h. O plantonista da vigilância recebeu ainda de manhã e pediu coletas extras na rede para segunda. Ficou registrado que a estação avisou primeiro.
  • Entre 11h e 15h: Você comunicou depois das 11h. A vigilância recebeu, mas o plantonista dela já tinha saído para outra ocorrência. As coletas extras ficaram para terça.
  • Depois das 15h: O registro de cloro ficou para depois das 15h. O plantonista da vigilância encerra o domingo às 15h. O que quer que tenha sido comunicado depois, só foi lido na segunda de manhã.

Galeria dos filtros: Seis horas em vez de trinta

Com o rio barrento, os filtros estão segurando tanta sujeira que entopem em seis horas, quando o normal é trinta. Cada lavagem tira um filtro de operação por quarenta minutos e gasta água já tratada. A turbidez da água filtrada está em 0,4; o limite é 0,5.

O operador dos filtros, Seu Wilson, quer saber o que fazer até o rio baixar, o que pode levar dois dias.

  • Reduzir a vazão da estação em um terço. Com menos água passando, os filtros voltam a durar quinze horas e a turbidez cai para 0,25. À tarde, os reservatórios dos bairros altos baixam e quatro bairros ficam com a torneira fraca, ou seca, num domingo de calor.
  • Manter a vazão e lavar os filtros mais vezes. O Seu Wilson e o ajudante passam o dia lavando filtro. A estação gasta na lavagem um décimo da água que trata. A turbidez fica entre 0,4 e 0,48 o dia inteiro, e você olha o painel de meia em meia hora.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi aos filtros antes das 9h. Ainda havia dois filtros limpos de reserva. Qualquer caminho começava com folga.
  • Entre 9h e 11h: Você foi aos filtros depois das 9h. O Seu Wilson já tinha lavado os dois de reserva. A estação estava sem folga quando a decisão chegou.
  • Depois das 11h: Os filtros ficaram para depois das 11h. O Seu Wilson decidiu sozinho o que dava, filtro por filtro. O que quer que tenha sido decidido depois, foi em cima de uma manhã que ninguém tinha planejado.

Sala de controle: O tanque dura até as 22h

O coagulante é o produto que junta a sujeira em flocos para ela afundar antes dos filtros. Com o rio barrento, a dose triplicou, e o tanque de sulfato de alumínio dura até as 22h. O fornecedor só entrega na segunda.

No pátio há um estoque antigo de cloreto férrico, outro coagulante, que nunca foi usado nesta água. E há uma empresa de outra cidade que entrega sulfato hoje, a três vezes o preço, "lá pelas 18h".

  • Testar e passar para o cloreto férrico. Você faz o teste de jarros no laboratório: com a dose certa, o férrico forma floco bom. À tarde a troca é feita. A água sai dentro de todos os limites, com um leve tom amarelado que não aparece nos números.
  • Comprar o sulfato de emergência. Você liga, negocia e autoriza a compra: R$ 42 mil num domingo, que alguém vai perguntar na segunda. O caminhão sai às 14h de uma cidade a 300 km. Você passa a tarde olhando o nível do tanque e o mapa do motorista.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à sala de controle antes das 10h. O tanque ainda tinha doze horas de produto. Dava para testar, comprar ou as duas coisas, sem pressa.
  • Entre 10h e 13h: Você foi à sala de controle depois das 10h. O operador de controle já tinha baixado a dose para esticar o estoque, e os flocos estavam saindo mais leves para os filtros.
  • Depois das 13h: A sala de controle ficou para depois das 13h. O fornecedor de emergência fechava pedidos às 13h no domingo, e o técnico do laboratório saiu para almoçar sem fazer teste nenhum. O que quer que tenha sido decidido depois, foi com o tanque pela metade.

Sala do plantão: Ferver ou esperar

O gerente de plantão está na sala com o telefone na mão. No Jardim Esperança, trinta casas reclamam de água barrenta desde as 7h. Uma adutora rompeu ali ontem à noite e foi consertada de madrugada; a água que sai da estação está boa.

Ele quer saber se publica um aviso para o bairro ferver a água. A coleta no bairro leva quatro horas para dar resultado.

  • Publicar o aviso de ferver agora. O aviso sai às redes da companhia e à rádio local. Em uma hora o mercado do bairro vende toda a água mineral. A televisão liga pedindo entrevista. O gerente pede que você fale, porque é a engenheira.
  • Coletar no bairro e avisar com o resultado. O técnico vai ao bairro com os frascos. Você pede à companhia que diga só que há uma equipe verificando. Quatro horas depois o resultado sai: sem bactérias, turbidez de rede mexida. A essa altura, a reclamação já virou vídeo num grupo do bairro.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à sala do plantão antes das 10h30. As reclamações ainda estavam no telefone da companhia, não nas redes. A decisão saiu antes de virar notícia.
  • Entre 10h30 e 13h30: Você foi à sala do plantão depois das 10h30. Um vereador do bairro já tinha postado a foto de um copo de água turva. Qualquer caminho agora começava respondendo a ele.
  • Depois das 13h30: A sala do plantão ficou para depois das 13h30. O gerente de plantão respondeu à imprensa por conta própria, sem dados. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido em cima do que ele já tinha dito.

Copa: Café, e a estação vista da copa

O operador de ontem, que dobrou o turno e devia ter ido para casa às sete, ainda está na copa, de botina, com o café frio.

“…ontem eu aumentava a vazão pra não faltar água e esquecia de subir o cloro junto. Era uma coisa de cada vez, sozinho.”

Você não perguntou nada. Saiu sabendo por que o registro de ontem tem buracos, e quinze minutos mais tarde.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a vigilância ligou perguntando do relatório de ontem. O plantonista deles sai às três.
  • …o Seu Wilson já lavou três filtros desde as sete. Diz que nunca viu entupir assim.
  • …o nível do tanque de sulfato tá baixando rápido. Alguém já ligou pro fornecedor?
  • …a central passou mais vinte ligações do Jardim Esperança. Água marrom, dizem.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Reduzir a vazão da estação em um terço” e “Publicar o aviso de ferver agora”: O Jardim Esperança fica no alto. Com a vazão reduzida e o aviso de ferver publicado, à tarde o bairro tinha um aviso para ferver a água e torneiras quase secas para encher a panela.
  • Se você escolheu “Manter a vazão e lavar os filtros mais vezes” e “Testar e passar para o cloreto férrico”: Com o férrico novo e os filtros lavados a cada seis horas, à noite a água saiu levemente amarelada em dois bairros, dentro de todos os limites. A central da companhia atendeu 140 ligações antes da meia-noite.
  • Se você escolheu “Comprar o sulfato de emergência” e “Reduzir a vazão da estação em um terço”: O caminhão de sulfato chegou às 19h40, com uma hora e meia de atraso. Com a vazão reduzida, a dose caiu junto e o tanque velho aguentou até ele encostar, com sobra de quarenta minutos.
  • Se você escolheu “Coletar no bairro e avisar com o resultado”: O resultado do Jardim Esperança deu limpo. Na segunda, a vigilância perguntou por que ninguém avisou o bairro durante as quatro horas; a companhia respondeu com o seu laudo.

Como o dia termina

Você foi para o registro de cloro primeiro.

Havia filtros entupindo, coagulante acabando e um bairro com água turva, e você foi ao laboratório multiplicar cloro por minuto. Passou 55 min refazendo o sábado hora a hora.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que já tinha passado pela torneira de 400 mil pessoas. Controle de qualidade da água é isso: a conta que ninguém vê é a que garante o copo.

Você foi para os filtros primeiro.

Você começou pela galeria, com um rio barrento entupindo a estação em seis horas. Passou 45 min entre a capacidade dos filtros e a água que a cidade pedia.

Engenharia de processos é isso: a planta tem um limite, a demanda tem outro, e você decide de que lado a diferença vai doer.

Você foi para o coagulante primeiro.

Você começou pela sala de controle, com um tanque que acabava às 22h. Passou 40 min entre um produto que esta água não conhecia e um caminhão que custava três vezes.

Química de tratamento é isso: a reação no jarro precisa dar certo na escala de 3 mil metros cúbicos por hora, com o que existe no pátio num domingo.

Você foi para o Jardim Esperança primeiro.

Você começou pela sala do plantão, com um gerente perguntando se o bairro devia ferver a água. Passou 40 min entre avisar sem saber e saber antes de avisar.

Saneamento é isso também: a decisão técnica vira notícia, e o número que você mede vai parar num grupo de vizinhos.

As quatro portas da engenharia química

Engenharia química não é um trabalho só, são vários, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo produto.

  • Controle de qualidade da água. Garantir pela conta, hora a hora, que o que sai na torneira está seguro.
  • Engenharia de processos. Fazer a planta entregar o que a cidade pede, dentro do limite dela.
  • Química do tratamento. Fazer a reação certa acontecer em escala, com os produtos que existem.
  • Saneamento e saúde pública. Transformar dado técnico em decisão para um bairro inteiro, e falar sobre ela.