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Um dia na pele de

O reservatório que ninguém vê

Você é a engenheira de reservatório de uma petroleira média no Rio de Janeiro. A empresa opera um campo no mar, a 120 quilômetros da costa, com 12 poços produtores e 4 injetores de água. Ninguém nunca viu o reservatório: ele está a três mil metros de profundidade, e tudo o que se sabe dele chega por pressão, vazão e modelo. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O reservatório não cabe numa tela só: o modelo está na sala de visualização, a plataforma está no telão da produção, o sócio está na sala de reunião. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Decidir milhões com o que está a três mil metros e só se vê pelo número.

Profissões com um dia assim: Engenheiro de Reservatório

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O reservatório que ninguém vê: o dia por escrito

Você é a engenheira de reservatório de uma petroleira média no Rio de Janeiro. A empresa opera um campo no mar, a 120 quilômetros da costa, com 12 poços produtores e 4 injetores de água. Ninguém nunca viu o reservatório: ele está a três mil metros de profundidade, e tudo o que se sabe dele chega por pressão, vazão e modelo. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O reservatório não cabe numa tela só: o modelo está na sala de visualização, a plataforma está no telão da produção, o sócio está na sala de reunião. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: A queda que não aparece no número

Todo mês chegam as pressões medidas no fundo dos doze poços. O relatório automático só avisa quando a pressão fica abaixo de 230 bar, e nenhum poço ficou. Para o relatório, está tudo bem.

Mas o que conta para o reservatório não é a pressão de hoje, é quanto ela caiu. A regra do campo: queda de mais de 20 bar num mês é sinal de que a água injetada não está chegando.

Ache os poços em que a pressão caiu mais de 20 bar no mês. São esses três. O P-14 caiu 24 bar, o P-22 caiu 22 e o P-36 caiu 27. Os três estão no bloco Sul, e o P-33, também no Sul, caiu exatamente 20. O P-20, com a menor pressão da lista, mal se mexeu. O injetor do bloco Sul parou há cinco semanas para manutenção, e ninguém ligou uma coisa à outra. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você conferiu antes das 10h30. O pedido para religar o injetor do Sul entrou na reunião de manutenção da plataforma, que é às 11h. Deu tempo.
  • Entre 10h30 e 15h: Você conferiu depois das 10h30. A reunião de manutenção da plataforma já tinha acontecido. O injetor do Sul entrou na lista da semana que vem.
  • Depois das 15h: As pressões ficaram para depois das 15h. O relatório de setembro foi arquivado como estava, sem nenhum alerta. O bloco Sul seguiu mais um mês sem água chegando.

Sala de reunião: Oitenta milhões de dólares

A empresa tem uma sócia no campo, uma petroleira estrangeira com 40% de participação. O representante dela está na sala de reunião para votar o poço P-45, que custa 80 milhões de dólares, e quer ouvir da engenharia de reservatório quanto óleo o poço vai produzir.

O modelo diz que, no cenário do meio, o poço se paga em três anos. No cenário pessimista, não se paga nunca. Os dois saem do mesmo modelo.

  • Defender o poço com o cenário do meio. Você apresenta o cenário do meio, mostra o pessimista num slide de anexo e recomenda o poço. O sócio vota a favor. A sonda é contratada para março.
  • Pedir três meses e um teste nos poços vizinhos. Você propõe um teste de interferência: fechar e abrir os poços vizinhos para ver se a área do P-45 se comunica com eles. O sócio aceita esperar. A sonda que estava reservada para março vai para outro campo, e a próxima livre é em outubro.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à reunião antes das 10h. O sócio ainda não tinha falado com o diretor. A recomendação da engenharia foi a primeira coisa que ele ouviu.
  • Entre 10h e 14h: Você foi à reunião depois das 10h. O diretor já tinha mostrado ao sócio a curva de produção mais otimista que encontrou. Você entrou para comentar o número de outra pessoa.
  • Depois das 14h: A reunião ficou para depois das 14h. O sócio votou antes do almoço, com o que o diretor apresentou. O que quer que tenha sido dito depois, foi para uma decisão já registrada em ata.

Sala de visualização: O número que vai para o relatório

Na sala de visualização, o geólogo abre o modelo do campo na tela grande. O gerente precisa do número de reservas até o fim do dia: ele vai para o relatório anual, e o relatório vai para a agência e para os bancos.

O modelo não reproduz a produção dos últimos dois anos do bloco Sul: ele prevê mais óleo do que saiu. Ajustar leva semanas. Do jeito que está, a reserva fica 12 milhões de barris maior do que o ajuste sustentaria.

  • Reportar com o modelo como está, com nota. Você manda a reserva do modelo, com uma nota técnica dizendo que o bloco Sul não está ajustado. O gerente agradece o prazo. A nota vai como anexo, e quem lê o relatório lê primeiro o número.
  • Reduzir a reserva ao que o ajuste sustenta. Você corta os 12 milhões de barris do bloco Sul e manda o número menor. O gerente pede para você explicar a redução ao diretor financeiro, que vai ter que explicar aos bancos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à visualização antes das 11h. O geólogo ainda estava com o modelo aberto e sem pressa. Deu para olhar o bloco Sul juntos, camada por camada.
  • Entre 11h e 15h30: Você foi à visualização depois das 11h. O geólogo já tinha fechado o modelo para outra reunião. Você decidiu com as figuras impressas, não com o modelo na tela.
  • Depois das 15h30: As reservas ficaram para depois das 15h30. O gerente mandou para o relatório o número do ano passado, atualizado por planilha. O que quer que tenha sido decidido depois, foi para corrigir um número já enviado.

Acompanhamento da produção: A meta do mês

No telão da produção, a plataforma está 3 mil barris por dia abaixo da meta de outubro. O gerente da plataforma liga e pede para abrir mais a válvula do P-17, o melhor poço do campo: "Ele aguenta. Bate a meta com folga."

Abrir demais um poço puxa a água de baixo mais rápido. Se a água chegar ao P-17 antes da hora, ele produz menos óleo pelo resto da vida.

  • Abrir o P-17 para bater a meta. A válvula abre mais 20%. Em uma hora, o P-17 produz 3.200 barris a mais por dia. A plataforma bate a meta. A água que sai junto com o óleo sobe de 4 para 6 por cento no primeiro dia.
  • Manter o P-17 como está. Você explica ao gerente da plataforma por que o P-17 fica como está. Ele diz que vai registrar que a engenharia não liberou. Outubro fecha abaixo da meta, e o motivo vai para o relatório do mês com o seu nome.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao acompanhamento antes das 9h30. O gerente da plataforma ainda estava na linha, esperando a resposta. A decisão foi da engenharia, não de quem estava com a válvula na mão.
  • Entre 9h30 e 12h30: Você foi ao acompanhamento depois das 9h30. O gerente da plataforma tinha ligado duas vezes e já estava falando com o diretor. A conversa chegou até você pela metade.
  • Depois das 12h30: O acompanhamento ficou para depois das 12h30. O gerente da plataforma abriu o P-17 por conta própria antes do almoço. O que quer que tenha sido decidido depois, o poço já estava produzindo mais.

Copa: Café, e o reservatório visto da plataforma

Um operador que desembarcou ontem conversa com a analista de contratos.

“…o pessoal do escritório decide pelo modelo. Lá no mar, a gente sabe pelo barulho do poço.”

Ele sabe mesmo, sobre o poço. Sobre o que está entre um poço e outro, ninguém sabe, nem ele nem o modelo. Quinze minutos depois, você volta para a sua mesa com isso na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a plataforma tá ligando de novo por causa da meta. Querem abrir o P-17.
  • …o representante do sócio chegou cedo. Vieram votar o P-45.
  • …o gerente quer o número das reservas até as seis, sem falta.
  • …o injetor do Sul ainda tá parado? Faz mais de um mês.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Defender o poço com o cenário do meio” e “Reportar com o modelo como está, com nota”: Você recomendou o P-45 pelo cenário do meio e mandou a reserva do modelo sem ajuste. Na mesma sexta, os dois números maiores saíram da sua mesa, cada um com a dúvida num anexo.
  • Se você escolheu “Reduzir a reserva ao que o ajuste sustenta” e “Defender o poço com o cenário do meio”: Você cortou 12 milhões de barris da reserva do bloco Sul por falta de ajuste e recomendou 80 milhões de dólares num poço com o mesmo modelo. O sócio e o diretor financeiro vão ler os dois documentos na mesma semana.
  • Se você escolheu “Abrir o P-17 para bater a meta” e “Reportar com o modelo como está, com nota”: Você abriu o melhor poço do campo para bater a meta e reportou a reserva maior. O campo produziu mais hoje e prometeu mais para o futuro, no mesmo dia.
  • Se você escolheu “Manter o P-17 como está” e “Pedir três meses e um teste nos poços vizinhos”: Você segurou o P-17 e adiou o P-45. Outubro fecha abaixo da meta e a sonda vai para outro campo. As duas decisões compram informação, e as duas vão aparecer primeiro como número a menos.

Como o dia termina

Você foi para as pressões primeiro.

Havia um sócio na sala, uma plataforma ligando e um número de reservas para fechar, e você abriu as pressões do mês. Passou 1h15 fazendo conta de queda, poço por poço, num relatório que dizia que estava tudo bem.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que o reservatório estava dizendo baixinho. Engenharia de reservatório é isso: ouvir uma rocha que ninguém vê pelo único jeito que ela fala.

Você foi para o sócio primeiro.

Você começou pela sala de reunião, pelo poço de 80 milhões de dólares e pelo modelo que dá dois futuros diferentes. Passou 50 min decidindo quanta incerteza cabe numa recomendação.

Quem trabalha com reservas e economia vive essa reunião: o número que você apresenta vira contrato, sonda e dinheiro de outras pessoas.

Você foi para o modelo primeiro.

Você começou pela sala de visualização, por um bloco que o modelo não explica e um número que vai para os bancos. Passou 1h00 decidindo entre o prazo do relatório e o que o modelo de fato sustenta.

Reservas são isso: a empresa vale o que está embaixo da terra, e alguém precisa assinar quanto é.

Você foi para a plataforma primeiro.

Você começou pelo telão, pela meta do mês e pelo melhor poço do campo. Passou 40 min decidindo entre o óleo de hoje e o óleo dos próximos dez anos.

Engenharia de produção vive essa conversa com a plataforma todo mês: o poço que mais produz é o que mais tentação dá de abrir.

As três portas da Engenharia de Petróleo

Engenharia de petróleo não é um trabalho só, são três, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho do campo.

  • Reservatório e simulação. Entender pela pressão e pelo modelo uma rocha que ninguém nunca vai ver.
  • Reservas e economia. Transformar o modelo em número de barris e de dinheiro, e assinar embaixo.
  • Produção. Cuidar dos poços no dia a dia: quanto abrir, quando parar, como durar.