🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

A obra do prédio de doze andares

Você é o engenheiro residente de um prédio residencial de doze andares em construção: a estrutura chegou ao sétimo, 60 pessoas trabalham no canteiro e a construtora cobra o cronograma toda sexta. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no contêiner da engenharia: está no portão, no almoxarifado, na portaria. Andar pelo canteiro leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Manter o cronograma sem assinar o que você não conferiu.

Profissões com um dia assim: Engenheiro Civil · Gerente de Obras · Projetista Estrutural · Engenheiro de Fundações · +2

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A obra do prédio de doze andares: o dia por escrito

Você é o engenheiro residente de um prédio residencial de doze andares em construção: a estrutura chegou ao sétimo, 60 pessoas trabalham no canteiro e a construtora cobra o cronograma toda sexta. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no contêiner da engenharia: está no portão, no almoxarifado, na portaria. Andar pelo canteiro leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Contêiner da engenharia: O lote que não chegou lá

O laboratório mandou o laudo de 28 dias: a resistência do concreto de cada parte da estrutura, medida em dois corpos de prova por lote. O projeto pede 30 MPa.

A regra é a da norma: cada lote vale pelo maior dos dois corpos de prova. Um valor baixo sozinho não reprova ninguém. Os dois baixos, sim.

Ache o lote em que nem o maior dos dois corpos de prova chega a 30 MPa. É esse. Pilares do 5º: o maior dos dois deu 29,3 MPa, abaixo dos 30 do projeto. São os pilares que vão receber o peso da laje do 7º. Não quer dizer que estão errados: quer dizer que alguém precisa extrair amostras deles e o calculista precisa refazer a conta com o número real. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você achou antes das 10h. O calculista recebeu o laudo antes de qualquer caminhão sair da usina. Ele respondeu ao meio-dia: com 29,3 MPa os pilares aguentam, com folga menor. A resposta veio por escrito e foi para o diário de obra.
  • Entre 10h e 13h: Você achou depois das 10h. O laudo chegou ao calculista com a obra já decidida sobre a laje do 7º. Ele respondeu à tarde: os pilares aguentam, com folga menor. A laje, se foi concretada, foi concretada antes dessa resposta.
  • Depois das 13h: O laudo ficou para depois das 13h. O laudo passou o dia aberto no e-mail do contêiner. Quem leu primeiro foi o fiscal da construtora, na visita de terça, e a primeira pergunta dele foi quem tinha visto aquilo na segunda.

Portão das betoneiras: Chuva às três

A laje do 7º está armada e conferida. Oito caminhões de concreto estão marcados a partir das 13h, 48 metros cúbicos. A previsão diz chuva forte às 15h. A usina aceita cancelar sem custo até as 11h.

O mestre de obras, Seu Raimundo, está no portão: "A gente concreta em duas horas. Se chover, tem lona."

  • Manter a concretagem e deixar a lona pronta. Os caminhões chegam, a equipe lança o concreto e começa o acabamento. A chuva vem na hora da previsão, forte. A lona cobre quase tudo. Um canto da laje fica com a superfície lavada, e vai precisar de reparo antes do contrapiso.
  • Cancelar e remarcar para quarta. Você remarca com a usina para quarta. A equipe de armação passa a tarde arrumando o que não precisava de arrumação. Na sexta, o relatório para a construtora tem uma linha nova: dois dias de atraso, motivo: chuva prevista.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao portão antes das 10h. Havia uma hora inteira antes do prazo da usina. Deu para ligar para a meteorologia da prefeitura e decidir com dois palpites em vez de um.
  • Entre 10h e 11h: Você foi ao portão depois das 10h. O prazo da usina estava em cima. Você decidiu com o Seu Raimundo do lado e a usina na linha, sem tempo de perguntar a mais ninguém.
  • Depois das 11h: O portão ficou para depois das 11h. Depois das 11h, a usina já tinha dosado os primeiros caminhões. O que quer que tenha sido decidido sobre a laje, foi decidido com concreto já na estrada, e o Seu Raimundo decidiu a primeira parte sozinho.

Almoxarifado: A passagem que ninguém deixou

O encanador, Seu Valdomiro, precisa passar o tubo de esgoto de 100 mm pela viga do banheiro do 6º. A passagem devia ter sido deixada antes da concretagem, e não foi. Ele está no almoxarifado com a serra-copo na mão: "Furo em vinte minutos."

Furar uma viga pronta é decisão do calculista, não da obra. O desvio por baixo da viga também resolve, e custa outra coisa.

  • Ligar para o calculista e furar onde ele indicar. O calculista atende no carro e diz que pode, no meio da altura e longe do apoio. Você marca o ponto e o Seu Valdomiro fura. O tubo passa no mesmo dia. A autorização existe, mas só no seu telefone, até ele mandar por escrito.
  • Desviar o tubo por baixo da viga, com forro rebaixado. O tubo passa por baixo da viga e o banheiro ganha um forro rebaixado. A estrutura não é tocada. O arquiteto reclama dos vinte centímetros a menos, e a construtora pergunta quem vai pagar o forro de 24 banheiros iguais.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao almoxarifado antes das 9h. O Seu Valdomiro ainda estava separando o material. Qualquer que fosse a decisão, a serra-copo não tinha encostado no concreto.
  • Entre 9h e 11h30: Você foi ao almoxarifado depois das 9h. O Seu Valdomiro tinha subido ao 6º e marcado o furo a lápis na viga, por conta própria. Você decidiu com a marca já lá.
  • Depois das 11h30: O almoxarifado ficou para depois das 11h30. O Seu Valdomiro esperou a manhã inteira e foi almoçar dizendo que "a engenharia não decide nada". O que quer que tenha sido decidido depois, a equipe de hidráulica perdeu meio dia parada.

Portaria: A parede do lado

Dona Olga, da casa ao lado, está na portaria com o celular: uma trinca na parede da sala, "que apareceu depois que vocês começaram a cavar". Diz que vai à prefeitura às 14h.

A construtora fez uma vistoria na casa dela antes da obra. A foto da vistoria mostra uma trinca no mesmo lugar, menor.

  • Oferecer o reparo agora, sem discutir a causa. Você oferece o pedreiro da obra para fechar a trinca esta semana. Dona Olga aceita e desiste da prefeitura. Na quinta, dois vizinhos da mesma rua aparecem na portaria com fotos das suas paredes.
  • Mostrar a vistoria e chamar o geotécnico para medir. Você mostra a foto da vistoria e explica que vai mandar medir se a trinca está crescendo. Dona Olga ouve, fica vermelha e diz que não está mentindo. O geotécnico instala marcadores na parede na quarta. O resultado sai em um mês.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à portaria antes das 9h30. Dona Olga ainda estava com o celular na mão, não com um papel. Qualquer que fosse a conversa, ela ainda era entre vizinhos.
  • Entre 9h30 e 13h: Você foi à portaria depois das 9h30. Dona Olga já tinha esperado uma hora em pé e contado a história a três operários. Quando você chegou, ela estava mais brava com a espera do que com a trinca.
  • Depois das 13h: A portaria ficou para depois das 13h. Dona Olga cansou de esperar e foi à prefeitura mais cedo. O que quer que tenha sido conversado depois, foi conversado com um protocolo de reclamação já aberto contra a obra.

Refeitório: Café, e a engenharia vista do canteiro

Dois armadores estão no refeitório, com o copo de café na mão.

“…engenheiro é aquele que aparece na laje de capacete limpo, aponta e volta pro ar-condicionado.”

O seu nome está na responsabilidade técnica da obra. Se uma laje ceder daqui a dez anos, é você quem responde. Eles não sabem disso, ou sabem e não importa. Quinze minutos depois, você volta para o contêiner com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o laboratório mandou um e-mail grandão hoje cedo. Ninguém abriu ainda.
  • …o Raimundo disse que hoje concreta de qualquer jeito, chova ou não chova.
  • …o Valdomiro tá esperando a engenharia pra furar uma viga lá em cima.
  • …a vizinha do lado tá na portaria desde as oito. Disse que vai na prefeitura.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Manter a concretagem e deixar a lona pronta” e “Ligar para o calculista e furar onde ele indicar”: Na mesma segunda, a obra concretou a laje do 7º com chuva prevista e furou uma viga do 6º com uma autorização por telefone. As duas decisões estão no diário de obra com a sua assinatura. Nenhuma deu problema esta semana.
  • Se você escolheu “Cancelar e remarcar para quarta” e “Mostrar a vistoria e chamar o geotécnico para medir”: Você cancelou a concretagem e mandou medir a parede da vizinha. A obra perdeu dois dias e ganhou uma vistoria de um mês. Na sexta, a construtora perguntou se a engenharia estava com medo de alguma coisa.
  • Se você escolheu “Oferecer o reparo agora, sem discutir a causa” e “Desviar o tubo por baixo da viga, com forro rebaixado”: Você ofereceu o reparo à vizinha e desviou o tubo pelo forro. As duas decisões custaram dinheiro que não estava no orçamento, e as duas evitaram uma conversa difícil. A construtora vai ter essa conversa com você na sexta.
  • Se você escolheu “Mostrar a vistoria e chamar o geotécnico para medir” e “Ligar para o calculista e furar onde ele indicar”: Você exigiu medição antes de aceitar a trinca da vizinha e furou a viga com uma ligação. Se alguém pedir o diário de obra, vai ver as duas decisões na mesma página, com pesos diferentes para a palavra de cada um.

Como o dia termina

Você foi para o laudo primeiro.

Havia uma concretagem com chuva prevista, um encanador com a serra na mão e uma vizinha na portaria, e você abriu o laudo do laboratório. Passou 1h10 comparando corpo de prova com corpo de prova.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pelo número que sustenta tudo o resto. Controle de qualidade em obra é isso: a maior parte do concreto passa, e o trabalho é achar o lote que não passou antes de alguém construir em cima dele.

Você foi para a laje primeiro.

Você começou pelo portão, onde oito caminhões e uma previsão de chuva esperavam uma decisão. Passou 40 min com o mestre de obras, pesando cronograma contra o céu.

Gerenciar obra é isso: o projeto diz o que fazer, o clima, a usina e a equipe dizem quando dá.

Você foi para a viga primeiro.

Você começou pelo almoxarifado, onde um furo de vinte minutos dependia de uma conta que não é da obra. Passou 45 min entre a autorização por telefone e o desvio que custa altura.

Quem calcula estrutura recebe essa ligação toda semana: alguém no canteiro precisa passar alguma coisa por onde o projeto não previu.

Você foi para a vizinha primeiro.

Você começou pela portaria, onde uma trinca na parede de outra pessoa podia ser culpa da obra ou não. Passou 50 min entre a foto da vistoria e o rosto da Dona Olga.

Fundações, solo e perícia são isso: o que acontece debaixo da terra aparece na parede do vizinho, e alguém precisa dizer, com medição, de quem é a trinca.

As quatro portas da Engenharia civil

Engenharia civil não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho da obra.

  • Execução de obra. Fazer o projeto virar prédio no prazo, com a equipe, a usina e o clima que existem.
  • Controle e qualidade. Conferir se o que foi feito é o que o projeto pediu, antes de construir em cima.
  • Projeto estrutural. Calcular o que segura o prédio, e responder quando a obra quer mudar a conta.
  • Fundações, solo e perícia. O que está debaixo da terra e o que aparece na parede do vizinho por causa disso.