Um dia na pele de
Uma quarta de engenharia ambiental num laticínio
Você é a engenheira ambiental do Laticínio Serra Verde, no sul de Minas: 300 funcionários, 400 mil litros de leite por dia e uma estação de tratamento que devolve ao rio o que sobra do queijo. A licença de operação vence em dois meses, a rede de supermercados quer um relatório de sustentabilidade e o bairro de trás quer saber do cheiro. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sua sala: está na linha, na diretoria, no auditório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer queijo todo dia sem que o rio, o bairro e o relatório paguem a conta.
Profissões com um dia assim: Engenheiro Ambiental · Consultor Ambiental · Especialista em ESG
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Uma quarta de engenharia ambiental num laticínio: o dia por escrito
Você é a engenheira ambiental do Laticínio Serra Verde, no sul de Minas: 300 funcionários, 400 mil litros de leite por dia e uma estação de tratamento que devolve ao rio o que sobra do queijo. A licença de operação vence em dois meses, a rede de supermercados quer um relatório de sustentabilidade e o bairro de trás quer saber do cheiro. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sua sala: está na linha, na diretoria, no auditório. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua sala: As semanas fora do padrão
O relatório de automonitoramento vai hoje para o órgão ambiental, e é ele que pesa na renovação da licença. São doze semanas de laudo da estação de tratamento: quanta matéria orgânica (DBO) entrou e quanta saiu para o rio.
A condição da licença tem duas saídas: a semana está dentro se a DBO de saída ficou em até 60 mg/L, ou se a estação removeu pelo menos 80% do que entrou. Basta uma das duas. Cada semana fora precisa de uma justificativa no relatório.
Ache as semanas em que a saída passou de 60 mg/L e a remoção ficou abaixo de 80%. São essas três: S03 (de 280 para 70, removeu 75%), S06 (de 320 para 85, 73%) e S10 (de 300 para 64, 79%). Todas de entrada baixa: semanas de chuva, com o esgoto diluído e a estação trabalhando pouco. A S05, com 310 na saída, assusta, mas removeu 87% e está dentro. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você achou antes das 10h30. Deu tempo de pedir ao laboratório o registro de chuva das três semanas e anexar à justificativa. O relatório saiu com a causa, não só com o número.
- Entre 10h30 e 15h: Você achou depois das 10h30. O relatório saiu no prazo, mas a justificativa das três semanas foi escrita sem o registro de chuva, que o laboratório só manda amanhã.
- Depois das 15h: Os laudos ficaram para depois das 15h. O relatório saiu às 17h20, no limite, com as tabelas inteiras e nenhuma justificativa. O que quer que tenha sido achado depois, o órgão vai ler três semanas fora do padrão sem explicação, dois meses antes da renovação.
Linha de produção: Vinte mil litros de soro
Um lote de soro de queijo azedou no tanque durante a noite: 20 mil litros que iam para a fábrica de bebida láctea. O supervisor da linha quer bombear para a estação de tratamento e liberar o tanque, porque a produção da tarde precisa dele.
Soro é a coisa mais pesada que a estação recebe: 20 mil litros de uma vez fazem a DBO de saída disparar. Um suinocultor da região leva soro para ração, mas o caminhão só chega às 15h e a linha teria de parar duas horas para o bombeamento.
- Mandar para a estação, em doses, ao longo de três dias. O soro vai para o tanque pulmão da estação e entra aos poucos, até sexta. A produção da tarde sai no horário. O operador da estação passa a semana medindo a saída de duas em duas horas, com o tanque pulmão cheio até a borda.
- Parar a linha e esperar o caminhão do suinocultor. A linha para duas horas para bombear o soro para o caminhão. O pedido da rede de supermercados sai com um dia de atraso, e o supervisor anota, no relatório de produção, o motivo da parada com o seu nome.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à linha antes das 10h. O tanque ainda estava fechado e o supervisor ainda estava calculando. Deu para decidir antes de qualquer válvula ser aberta.
- Entre 10h e 13h: Você foi à linha depois das 10h. O supervisor já tinha começado a bombear, e uns 3 mil litros já estavam na estação. Você chegou para decidir sobre o resto.
- Depois das 13h: A linha ficou para depois das 13h. O supervisor esperou até onde deu e mandou tudo para a estação de uma vez, para liberar o tanque. O que quer que tenha sido decidido depois, a estação já tinha recebido 20 mil litros de soro numa tarde.
Diretoria: Neutro em carbono por R$ 18 a tonelada
A rede de supermercados que compra metade do queijo pediu um relatório de sustentabilidade, e dá um selo verde na gôndola para quem declarar emissão neutra. O diretor achou um caminho: comprar créditos de carbono de um projeto de floresta no Pará, a R$ 18 a tonelada, e escrever "neutro em carbono" na capa.
Você fez o inventário: 14 mil toneladas por ano, quase tudo do leite que chega das fazendas. O projeto do Pará já apareceu numa reportagem sobre créditos que contam floresta que não ia ser derrubada.
- Publicar o neutro, com a compra explicada no relatório. O relatório sai com "neutro em carbono" na capa e uma página explicando a compra de 14 mil créditos. A rede aprova o selo verde. O diretor agradece e pede o mesmo para o ano que vem.
- Publicar o inventário e uma meta de redução, sem o neutro. O relatório sai com as 14 mil toneladas e uma meta: 15% a menos em três anos, começando pela energia e pelo frete. A rede agradece e diz que o selo é só para quem declara neutro. O diretor fecha a pasta sem comentar.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à diretoria antes das 11h. O diretor ainda estava com o rascunho aberto e o contrato dos créditos sem assinar. A conversa foi sobre o texto, não sobre uma compra feita.
- Entre 11h e 16h: Você foi à diretoria depois das 11h. O diretor já tinha mandado o rascunho para a rede com a capa nova. Você entrou para discutir uma coisa que já estava na caixa de entrada de um cliente.
- Depois das 16h: A diretoria ficou para depois das 16h. O diretor fechou o relatório com o marketing, sem a engenharia na sala. O que quer que tenha sido dito depois, foi sobre uma versão já enviada.
Auditório: O cheiro da lagoa
Seis moradores do bairro de trás vieram com um abaixo-assinado de 200 nomes: nas noites de calor, a lagoa da estação de tratamento cheira a ovo podre até a escola. A presidente da associação avisa que, sem resposta, leva o caso ao Ministério Público.
O laudo de odor do ano passado diz que as emissões estão dentro do limite. Cobrir a lagoa custa R$ 600 mil e leva oito meses, e não está no orçamento.
- Admitir o cheiro e levar a cobertura da lagoa à diretoria. Você diz que o cheiro existe e que vai apresentar à diretoria a cobertura da lagoa, com prazo. A presidente da associação anota a data e diz que volta nela. Agora o bairro espera uma obra que ninguém aprovou.
- Mostrar o laudo e abrir um canal de reclamação com medição. Você mostra o laudo e propõe um telefone para avisar do cheiro na hora, com a medição feita na mesma noite. Os moradores aceitam o número, sem sorrir. A presidente diz que o laudo foi feito num dia de inverno.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi ao auditório antes das 9h30. Os moradores tinham acabado de sentar e ainda estavam com o café que a portaria ofereceu. A conversa começou como conversa.
- Entre 9h30 e 12h: Você foi ao auditório depois das 9h30. Eles esperaram uma hora no auditório vazio. Quando você entrou, a primeira frase foi sobre a espera, não sobre o cheiro.
- Depois das 12h: O auditório ficou para depois do meio-dia. Os moradores foram embora antes do almoço e deixaram o abaixo-assinado com a portaria. O que quer que tenha sido dito depois, foi por telefone, para quem já estava escrevendo ao Ministério Público.
Refeitório: Café, e o ambiental visto da linha
Dois operadores da linha comem pão de queijo de pé, perto da janela.
“…a moça do ambiental é quem manda parar a linha quando dá problema na lagoa. A gente leva a bronca do atraso, ela leva a bronca do rio.”
Eles riem. Quinze minutos depois, você volta para a sua sala pensando que o seu trabalho só aparece quando atrapalha a produção, ou quando falha.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o supervisor quer jogar o soro azedo na estação. Precisa do tanque para a tarde.
- …o diretor achou um jeito de ganhar o selo verde da rede. Diz que é só comprar crédito.
- …tem um pessoal do bairro no auditório com um abaixo-assinado. Falaram em Ministério Público.
- …o relatório da estação vai hoje para o órgão. A licença vence em dois meses.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Mandar para a estação, em doses, ao longo de três dias” e “Mostrar o laudo e abrir um canal de reclamação com medição”: Na semana do soro na estação, a lagoa trabalhou no limite, e o telefone novo tocou três noites seguidas. A medição saiu acima do laudo do inverno nas três, e cada uma ficou registrada.
- Se você escolheu “Parar a linha e esperar o caminhão do suinocultor” e “Admitir o cheiro e levar a cobertura da lagoa à diretoria”: Na mesma quarta, você parou a linha por duas horas e prometeu ao bairro levar uma obra de R$ 600 mil à diretoria. O diretor ouviu as duas coisas no mesmo dia, do mesmo nome.
- Se você escolheu “Publicar o neutro, com a compra explicada no relatório”: O queijo ganhou o selo verde na gôndola. Três meses depois, outra reportagem sobre o projeto do Pará saiu, e o diretor pediu que você preparasse uma resposta, caso alguém perguntasse.
- Se você escolheu “Publicar o inventário e uma meta de redução, sem o neutro” e “Admitir o cheiro e levar a cobertura da lagoa à diretoria”: Você tirou o neutro da capa e levou a cobertura da lagoa à diretoria no mesmo dia. As duas coisas viraram linha no orçamento do ano que vem, e as duas vão ter de mostrar número.
Como o dia termina
Você foi para os laudos primeiro.
Havia soro azedo na linha, um relatório na diretoria e moradores no auditório, e você abriu as doze semanas da estação. Passou 1h15 conferindo entrada e saída, uma de cada vez.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do número que a licença vai cobrar. Engenharia ambiental é muito isso: medir o que a fábrica devolve ao mundo antes que alguém de fora meça.
Você foi para a linha primeiro.
Você começou pelo tanque de soro, onde a produção e a estação de tratamento queriam a mesma coisa ao mesmo tempo. Passou 45 min entre parar a fábrica e sobrecarregar o rio.
Quem trabalha com tratamento vive essa conta: o efluente nasce na linha, e é lá, não na lagoa, que ele fica mais barato de resolver.
Você foi para o relatório primeiro.
Você começou pela diretoria, onde uma palavra na capa valia um selo na gôndola. Passou 40 min entre o que a empresa pode dizer e o que ela consegue provar.
ESG é isso: traduzir o que a empresa faz em número para quem compra e investe, e decidir até onde o número aguenta a frase.
Você foi para o bairro primeiro.
Você começou pelo auditório, com seis pessoas que sentem o cheiro que o laudo diz estar dentro do limite. Passou 55 min entre o que foi medido e o que é vivido.
Consultoria e licenciamento vivem essa conversa: a licença depende do órgão, mas também do bairro que mora atrás do muro.
As três portas da Engenharia Ambiental
Engenharia ambiental não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo para quem você mede: o rio, o órgão ou o investidor.
- Tratamento e monitoramento. Projetar, operar e medir o que a fábrica devolve ao rio e ao ar.
- Consultoria e licenciamento. Fazer a empresa caber na licença: estudos, condições e a conversa com quem mora perto.
- ESG e sustentabilidade. Transformar o impacto em número para quem compra e investe, e defender o número.