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Um dia na pele de

Uma empresa de satélites numa terça

Você é engenheiro numa empresa de microssatélites em São José dos Campos, com 35 pessoas: um satélite do tamanho de uma geladeira pequena já está em órbita, fotografando lavouras, e o segundo está sendo montado na sala limpa. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O satélite em órbita se comanda do centro de operações, o outro se monta na sala limpa e o lançamento se decide na diretoria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Andar no ritmo de quem paga sem esquecer que, lá em cima, não tem conserto.

Profissões com um dia assim: Engenheiro Aeroespacial

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

Uma empresa de satélites numa terça: o dia por escrito

Você é engenheiro numa empresa de microssatélites em São José dos Campos, com 35 pessoas: um satélite do tamanho de uma geladeira pequena já está em órbita, fotografando lavouras, e o segundo está sendo montado na sala limpa. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O satélite em órbita se comanda do centro de operações, o outro se monta na sala limpa e o lançamento se decide na diretoria. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Centro de operações: Seis minutos acima de 20 graus

A Defesa Civil de Mato Grosso pediu imagens das áreas alagadas, e o satélite em órbita vai fotografar amanhã cedo. Para baixar a imagem inteira, a antena da estação precisa do satélite acima de 20 graus no céu por pelo menos seis minutos seguidos. Abaixo disso, o morro e o ruído comem o sinal.

A programação de amanhã tem de subir hoje. Na tela, as doze passagens de amanhã, com a hora em que o satélite sobe acima de 20 graus e a hora em que desce.

Ache as passagens com pelo menos seis minutos acima de 20 graus. São essas quatro: 8, 6, 9 e 8 minutos. A P08, com 44 graus, parece boa e fica só 5 minutos; a P07 engana porque vira a hora. Com a primeira foto às 6h, a P02 baixa a imagem antes das 7h, e a Defesa Civil tem o mapa das cheias no começo da manhã. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você fechou as passagens antes das 11h. A programação subiu na passagem do meio-dia e o satélite confirmou. Amanhã, a imagem das cheias desce na primeira passagem boa.
  • Entre 11h e 14h: Você fechou as passagens depois das 11h. A programação perdeu a passagem do meio-dia e só subiu na das 15h. Deu, mas sem folga: se o satélite não confirmasse, não havia outra chance antes de amanhã.
  • Depois das 14h: As passagens ficaram para depois das 14h. A última passagem útil para subir a programação foi às 15h, e a lista não estava pronta. O que quer que tenha sido feito depois, a imagem das cheias vai descer um dia mais tarde.

Sala limpa: Uma arruela de três milímetros

Na sala limpa, a técnica de integração conta as peças da bandeja depois de fechar o painel lateral do segundo satélite: falta uma arruela de três milímetros. Pode ter caído no chão, pode ter ficado lá dentro.

Solta em órbita, sem gravidade, uma arruela flutua até encostar onde não devia, e um curto-circuito ali não tem conserto. Abrir o painel de novo leva três dias. O satélite viaja para o ensaio de vibração na segunda.

  • Abrir o painel e procurar. O painel é aberto de novo, com o protocolo inteiro. No segundo dia, a arruela aparece presa num chicote de cabos. O ensaio de vibração passa para a quarta, e o laboratório cobra a mudança de data.
  • Varrer a sala e olhar por dentro com o boroscópio. A equipe varre a sala limpa com lupa e passa o boroscópio por todas as frestas do painel. Não acham. O satélite segue para a vibração na segunda, com um registro de "objeto não localizado" na ficha, e o ensaio de vibração vai ser a primeira chance de a arruela fazer barulho.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à sala limpa antes das 9h30. A técnica ainda estava com a bandeja na mão e o painel recém-fechado. Ninguém tinha mexido em nada desde a falta.
  • Entre 9h30 e 13h: Você foi à sala limpa depois das 9h30. A equipe já tinha começado a montar o painel do outro lado. Qualquer busca, agora, era em mais lugares e com mais mãos passando.
  • Depois das 13h: A sala limpa ficou para depois das 13h. Às 13h o satélite foi ensacado para o transporte, como dizia o plano. O que quer que tenha sido decidido depois, foi sobre um saco lacrado.

Sua mesa: Dois graus mais frio

Saiu o relatório do ensaio em vácuo térmico, na câmara alugada do laboratório nacional. No caso mais frio, a bateria do segundo satélite chegou a 12 graus negativos. O limite do fabricante é 10 negativos. Todo o resto passou.

Refazer o ensaio com o aquecedor ajustado custa mais cinco dias de câmara, e o laboratório quer saber até as 15h se reserva.

  • Ajustar o aquecedor e refazer o ensaio. Você reserva a câmara e o time ajusta o aquecedor. Em duas semanas, o ensaio mostra a bateria a 6 negativos no pior caso. O cronograma perde cinco dias e a conta do laboratório chega ao diretor com o seu nome.
  • Ajustar o aquecedor e provar por análise. Você ajusta o aquecedor e roda o modelo térmico, calibrado com o próprio ensaio. O modelo diz 6 negativos. Você assina o desvio com a análise anexada. O satélite vai voar com uma bateria que nunca foi vista, no vácuo, abaixo do limite com o aquecedor novo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você abriu o relatório antes das 10h. O laboratório ainda tinha a câmara livre na semana que vem. O que fosse decidido cabia na agenda de alguém.
  • Entre 10h e 15h: Você abriu o relatório depois das 10h. O laboratório avisou que outra empresa pediu a mesma semana de câmara. O que você decidisse disputava a data com mais alguém.
  • Depois das 15h: O relatório ficou para depois das 15h. Às 15h o laboratório liberou a câmara para a outra empresa. O que quer que tenha sido decidido depois, refazer o ensaio passou a ser daqui a um mês.

Sala do diretor: Seis semanas em vez de quatro meses

O diretor está ao telefone com o provedor de lançamento. Um cliente desistiu de uma vaga num foguete compartilhado: em vez de quatro meses, o segundo satélite pode subir daqui a seis semanas, se for embarcado em três.

A cooperativa agrícola que comprou as imagens dele paga a segunda parcela no dia do lançamento. Para embarcar em três semanas, os ensaios que faltam ficam espremidos.

  • Pegar a vaga de seis semanas. O diretor confirma a vaga. O cronograma dos ensaios é refeito com turnos à noite e nenhuma folga. A cooperativa comemora, e a parcela entra antes do fim do ano. Qualquer surpresa daqui até o embarque vai ter de ser resolvida em dias, não em semanas.
  • Manter a vaga de quatro meses. Você mostra ao diretor o que ficaria espremido. Ele recusa a vaga, a contragosto. A cooperativa recebe a notícia de que a vaga antecipada existiu e não foi usada, e a segunda parcela fica para o ano que vem.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você entrou antes das 10h30. O diretor ainda estava ouvindo a proposta. A sua conta entrou na conversa antes de qualquer sim.
  • Entre 10h30 e 16h: Você entrou depois das 10h30. O diretor já tinha contado à cooperativa que talvez houvesse uma vaga antes. Você entrou numa conversa em que o cliente já estava animado.
  • Depois das 16h: A diretoria ficou para depois das 16h. O provedor pediu a resposta até as 16h e o diretor respondeu sozinho. O que quer que você tenha dito depois, foi sobre uma decisão já comunicada.

Refeitório: Café, e o espaço visto de fora

Dois técnicos da sala limpa almoçam cedo.

“…a gente monta a coisa mais cara da vida com luva e lupa, e depois ela vai embora num foguete que ninguém daqui vê subir.”

Nenhum de vocês vai tocar no satélite de novo depois do embarque. Quinze minutos depois, você volta com isso: em engenharia espacial, todo cuidado tem de acontecer antes, porque depois não existe.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a Defesa Civil ligou de novo perguntando das imagens das cheias.
  • …a técnica tá contando as peças da bandeja pela terceira vez.
  • …o laboratório disse que tem outra empresa querendo a câmara térmica.
  • …o diretor tá no telefone com o pessoal do foguete faz meia hora.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Pegar a vaga de seis semanas” e “Abrir o painel e procurar”: Você pegou a vaga de seis semanas e abriu o painel para achar a arruela. Os três dias da busca saíram da única folga que o cronograma novo tinha, e a equipe já sabe que o próximo imprevisto vai ser à noite.
  • Se você escolheu “Varrer a sala e olhar por dentro com o boroscópio” e “Ajustar o aquecedor e provar por análise”: O satélite segue com uma arruela não localizada e uma bateria provada por modelo. Duas coisas que ninguém viu com os próprios olhos, as duas assinadas por você, e as duas só vão dar notícia lá em cima.
  • Se você escolheu “Ajustar o aquecedor e refazer o ensaio” e “Manter a vaga de quatro meses”: Você refez o ensaio térmico e manteve a vaga de quatro meses. O segundo satélite vai subir com tudo visto e testado, e a cooperativa vai receber as imagens depois do plantio que queria acompanhar.
  • Se você escolheu “Ajustar o aquecedor e provar por análise” e “Pegar a vaga de seis semanas”: Você provou a bateria por análise e pegou a vaga antecipada. As duas decisões ganharam semanas na mesma tarde, e o satélite vai embarcar com a resposta de um modelo onde havia uma câmara de vácuo.

Como o dia termina

Você foi para as passagens primeiro.

Havia uma arruela sumida, um relatório térmico e uma vaga de lançamento na mesa do diretor, e você abriu as passagens de amanhã. Passou 1h10 subtraindo horários até achar as que davam tempo.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para o satélite que já está lá em cima. Operar satélite é isso: a física decide quando dá para falar com ele, e cada minuto acima do horizonte é contado.

Você foi para a sala limpa primeiro.

Você começou por uma arruela de três milímetros. Passou 1h00 decidindo quanto vale uma dúvida pequena num lugar onde ninguém vai poder abrir a tampa.

Integração é isso: montar com luva e protocolo uma máquina que, depois de pronta, ninguém mais toca.

Você foi para o relatório primeiro.

Você começou pelos dois graus abaixo do limite. Passou 45 min entre refazer na câmara e provar no modelo.

Ensaio é isso: simular o espaço aqui embaixo, sabendo que a câmara custa caro e que o modelo é tão bom quanto o ensaio que o calibrou.

Você foi para a diretoria primeiro.

Você começou pela vaga no foguete. Passou 40 min pondo na balança o caixa da empresa e as semanas de ensaio.

Gerir um programa espacial é isso: a data do lançamento não é sua, é do foguete, e todo o resto se ajeita em volta dela.

As três portas da engenharia aeroespacial

Engenharia aeroespacial não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo veículo.

  • Operação de satélites. Comandar o que já está em órbita, no tempo que a física dá a cada passagem.
  • Integração e testes. Montar e provar aqui embaixo uma máquina que ninguém vai poder consertar lá em cima.
  • Gestão de programas espaciais. Encaixar cliente, caixa e engenharia na data que o foguete escolhe.