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Um dia na pele de

O plantão da ala de internação

Você é a enfermeira do plantão diurno de uma ala de internação de um hospital geral: 28 leitos, seis técnicos de enfermagem e um médico plantonista que hoje está preso no pronto-socorro. A enfermeira da sala de quimioterapia faltou, e a sala também é sua. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no posto: está no quarto, na sala de curativos, na cadeira da quimioterapia. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.

Cuidar de quem está na sua frente sem perder de vista os outros 27.

Profissões com um dia assim: Enfermeiro · Enfermeiro de UTI · Especialista em Estomaterapia · Estomaterapeuta · +1

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O plantão da ala de internação: o dia por escrito

Você é a enfermeira do plantão diurno de uma ala de internação de um hospital geral: 28 leitos, seis técnicos de enfermagem e um médico plantonista que hoje está preso no pronto-socorro. A enfermeira da sala de quimioterapia faltou, e a sala também é sua. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no posto: está no quarto, na sala de curativos, na cadeira da quimioterapia. Andar pela ala leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu plantão.

Posto de enfermagem: O soro que corre rápido demais

A passagem de plantão foi às 7h, em vinte minutos, com o plantão da noite já de bolsa no ombro. Agora você tem o mapa das infusões: o que cada leito recebe na veia, em quantas horas, e o que está programado em cada bomba.

As bombas não erram a conta. Quem digita, às vezes, erra.

Ache a bomba programada num ritmo diferente do prescrito. É essa. Leito 12: 1.200 mL em 12 horas são 100 mL por hora, e a bomba está em 150. O soro do Seu Osvaldo, 74 anos, corre desde a meia-noite meio litro mais rápido do que devia. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você achou antes das 9h. A bomba do 12 voltou ao ritmo da prescrição antes de a primeira bolsa acabar. O médico ajustou a dose do diurético por telefone, e o erro virou uma linha no relatório de eventos.
  • Entre 9h e 12h: Você achou depois das 9h. A primeira bolsa do 12 já tinha acabado, e a segunda foi instalada no mesmo ritmo errado. O erro virou uma notificação formal, com o nome de quem programou a bomba e de quem conferiu.
  • Depois das 12h: O mapa das infusões ficou para depois do meio-dia. O soro do 12 correu metade do dia no ritmo errado. Quem fechou a conta foi a farmácia, ao estranhar o consumo de bolsas da ala, e ligou para o posto perguntando quem tinha conferido.

Quarto 12: Quatro na escala de alerta

O técnico do 12 chama você no corredor: o Seu Osvaldo, 74 anos, segundo dia depois da cirurgia do quadril, está mais confuso que ontem e respira mais rápido. A saturação caiu para 92%, a pressão está um pouco mais baixa.

Na escala de alerta do hospital, ele soma 4. O protocolo manda chamar o médico a partir de 5. O médico plantonista está no pronto-socorro com dois casos graves.

  • Acionar o time de resposta rápida agora. O time sobe em dez minutos. O médico examina, pede exames, ajusta o soro e desce dizendo, sem rodeio, que pelo protocolo ainda não era hora. O Seu Osvaldo fica no quarto, com exame pedido e sem diagnóstico fechado, e o seu nome fica no registro do acionamento.
  • Seguir o protocolo e medir de hora em hora. Você deixa o técnico medindo de hora em hora e anota tudo. Na segunda medida, ele soma 5, e o médico sobe com a escala na mão e o registro de cada hora. Ele pergunta o que mudou entre uma medida e outra, e está tudo escrito.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao 12 antes das 8h30. O Seu Osvaldo ainda respondia às perguntas. Qualquer que fosse a decisão, ela foi tomada com ele dizendo o próprio nome e onde estava.
  • Entre 8h30 e 10h30: Você foi ao 12 depois das 8h30. O técnico já tinha chamado você duas vezes, e a filha dele estava no corredor perguntando por que ninguém vinha. Você decidiu com ela olhando da porta.
  • Depois das 10h30: O quarto 12 ficou para depois das 10h30. O técnico mediu sozinho a manhã inteira e, às 10h, ligou direto para o pronto-socorro. O que quer que tenha sido decidido no 12, começou sem a enfermeira da ala na sala.

Sala de curativos: A bolsa que a filha não consegue olhar

A Dona Lurdes, 61 anos, operou o intestino há seis dias e saiu da cirurgia com uma colostomia: uma bolsa colada na barriga, que vai ser trocada em casa. A alta está marcada para as 11h. Quem vai trocar é a filha, Márcia, que no primeiro treino saiu da sala.

A gestão de leitos já ligou: o pronto-socorro tem três pacientes esperando vaga na ala.

  • Trocar você mesma e mandar o passo a passo por escrito. Você troca a bolsa, explica cada passo e entrega o folheto com o recorte da placa desenhado à mão. A Márcia agradece sem olhar para a barriga da mãe. O leito fica livre e sobe um paciente do pronto-socorro. A próxima troca, em casa, vai ser a primeira dela.
  • Segurar a alta até a filha trocar uma vez. Você chama a Márcia de volta e espera. Na segunda tentativa, ela recorta a placa, chora um pouco e cola certo. A alta sai horas depois do combinado. A gestão de leitos liga mais duas vezes, e um paciente do pronto-socorro passa esse tempo numa maca no corredor de lá.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi aos curativos antes das 10h. A Márcia ainda estava descansada, e o transporte que leva as duas para casa ainda não tinha chegado. Deu para ensinar sem ninguém olhando o relógio na porta.
  • Entre 10h e 13h: Você foi aos curativos depois das 10h. O motorista do transporte já esperava na porta da sala. Tudo o que você explicou, explicou com ele perguntando quanto faltava.
  • Depois das 13h: A sala de curativos ficou para depois das 13h. A Dona Lurdes esperou a manhã inteira de roupa trocada, com a bolsa cheia. A Márcia ligou para o irmão dizendo que ninguém tinha vindo explicar nada, e ele ligou para a ouvidoria.

Sala de quimioterapia: "Você viu o meu exame?"

A Dona Cida, 48 anos, está na terceira sessão de quimioterapia para um câncer de mama. A tomografia de ontem mostrou que o tumor não diminuiu. O oncologista vai explicar na consulta de segunda. O marido pediu, no corredor, que ninguém conte nada antes disso.

Com a bolsa correndo no braço, ela olha para você: "Você viu o meu exame? Está funcionando?"

  • Dizer que viu e chamar o oncologista hoje. Você diz que viu, que não cabe a você explicar o que o exame significa, e liga para o oncologista. Ele vem no fim da tarde, contrariado com o encaixe, e conversa com ela. O marido fica do lado de fora da sala o tempo todo. A Dona Cida termina a sessão sabendo.
  • Dizer que essa conversa é com o médico, na segunda. Você diz que o médico vai explicar o exame na segunda, e fica com ela até o fim da bolsa. Ela não pergunta de novo. Na saída, pergunta ao técnico se a enfermeira desvia assim de todo mundo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à quimioterapia antes das 11h. A bolsa ainda estava no começo. Havia tempo de sobra sentadas lado a lado, e isso pesou na conversa, para qualquer lado que ela fosse.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à quimioterapia depois das 11h. A Dona Cida já tinha perguntado ao técnico, que disse que não sabia. Quando você chegou, era a segunda vez que ela fazia a pergunta naquele dia.
  • Depois das 15h: A sala de quimioterapia ficou para depois das 15h. A sessão já estava no fim. A Dona Cida passou horas olhando para a porta, e o marido passou as mesmas horas no corredor, olhando para ela.

Copa da equipe: Café, e a enfermagem vista de dentro

Dois técnicos estão na pia, com o copo na mão e um olho no corredor.

“…enfermeiro hoje em dia só assina papel. Quem cuida do paciente é a gente.”

Você assina mesmo: cada medicação, cada evolução, cada escala. E responde por cada uma delas no conselho, com o seu número. Eles não sabem disso, ou sabem e não importa. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com esse peso a mais.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o Seu Osvaldo do 12 pediu pra ir ao banheiro três vezes desde as cinco.
  • …o técnico do 12 disse que o velhinho tá meio esquisito hoje.
  • …a gestão de leitos ligou de novo perguntando da alta da Dona Lurdes.
  • …a moça da quimio perguntou de novo do exame. O marido tá no corredor desde cedo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Acionar o time de resposta rápida agora” e “Dizer que viu e chamar o oncologista hoje”: Você acionou o time para o 12 antes do gatilho e chamou o oncologista para um encaixe. Dois médicos subiram na mesma quinta por pedido seu. No próximo plantão, quando você ligar, os dois vão lembrar disso, para um lado ou para o outro.
  • Se você escolheu “Acionar o time de resposta rápida agora” e “Segurar a alta até a filha trocar uma vez”: O time de resposta rápida saiu do pronto-socorro para o 12, e o leito da Dona Lurdes ficou preso até a filha aprender. No pronto-socorro, faltou um médico e faltou um leito na mesma manhã. Ninguém juntou as duas coisas, só você.
  • Se você escolheu “Seguir o protocolo e medir de hora em hora” e “Dizer que essa conversa é com o médico, na segunda”: No 12 você esperou o gatilho do protocolo, e na quimioterapia deixou a conversa para o médico. Duas vezes no mesmo plantão, a decisão ficou com quem a regra manda. Está tudo registrado. A Dona Cida e a filha do Seu Osvaldo vão lembrar de outra coisa.
  • Se você escolheu “Trocar você mesma e mandar o passo a passo por escrito”: Às 23h, a Márcia ligou para o posto: a bolsa da mãe tinha descolado e ela não sabia se recortava a placa maior ou menor. Quem atendeu foi a enfermeira da noite, que leu o seu folheto em voz alta pelo telefone.

Como o dia termina

Você foi para o mapa das infusões primeiro.

Havia um senhor piorando no 12, uma alta presa na sala de curativos e uma pergunta esperando na quimioterapia, e você ficou no posto conferindo o que a noite deixou correndo. Passou 1h10 dividindo mililitro por hora.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pelo que a ala inteira estava recebendo, não por quem estava chamando. Coordenar a assistência é isso: 28 leitos, seis técnicos e uma conta que ninguém confere se você não conferir.

Você foi para o paciente que piorava primeiro.

Você começou pelo 12, onde um senhor de 74 anos estava a um passo do gatilho do protocolo. Passou 40 min decidindo se chamava ajuda antes de a regra mandar.

Quem trabalha com paciente grave vive essa linha todo plantão: chamar cedo demais custa a confiança do time, chamar tarde demais custa outra coisa.

Você foi para a alta primeiro.

Você começou pela sala de curativos: uma bolsa de colostomia, uma filha que não conseguia olhar e uma fila de leitos esperando. Passou 1h00 entre ensinar direito e liberar o leito.

Cuidar de feridas e estomias é isso: o trabalho só termina quando outra pessoa, em casa, consegue fazer sozinha o que você faz.

Você foi para a pergunta primeiro.

Você começou pela quimioterapia, onde uma mulher de 48 anos queria saber uma coisa que você sabia e o marido não queria que ela soubesse. Passou 45 min ao lado dela, decidindo o que dizer.

Na oncologia, a enfermagem é quem fica mais tempo na sala. A técnica é a parte que se aprende no curso; as perguntas difíceis chegam todo dia, e quase sempre para você primeiro.

As quatro portas da Enfermagem

Enfermagem não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de paciente e de problema, não pelo procedimento.

  • Assistência e equipe. Coordenar o cuidado da ala inteira e a equipe que faz esse cuidado, e responder por ele.
  • Terapia intensiva. Reconhecer quem vai piorar antes de piorar, e decidir quando chamar ajuda.
  • Feridas e estomias. Cuidar do que não cicatriza sozinho e ensinar quem vai cuidar em casa.
  • Oncologia. Acompanhar quem trata um câncer, na técnica e nas perguntas que chegam junto.