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Um dia na pele de

A sexta de quem programa o sensor das vacinas

Você é o engenheiro de embarcados de uma startup de Campinas com 60 pessoas. Ela faz um aparelho do tamanho de uma caixa de fósforo que mede a temperatura de geladeiras de vacina e de remédio e avisa pelo celular quando sai da faixa. São 12 mil deles ligados agora, em farmácias, hospitais e postos de saúde. O programa que roda dentro de cada um foi você quem escreveu. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O código está na sua bancada, mas o problema está no laboratório, no suporte, na sala de reunião. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Mexer no aparelho que vigia vacina sem deixar nenhuma vacina sem vigia.

Profissões com um dia assim: Engenheiro de Embarcados

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A sexta de quem programa o sensor das vacinas: o dia por escrito

Você é o engenheiro de embarcados de uma startup de Campinas com 60 pessoas. Ela faz um aparelho do tamanho de uma caixa de fósforo que mede a temperatura de geladeiras de vacina e de remédio e avisa pelo celular quando sai da faixa. São 12 mil deles ligados agora, em farmácias, hospitais e postos de saúde. O programa que roda dentro de cada um foi você quem escreveu. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O código está na sua bancada, mas o problema está no laboratório, no suporte, na sala de reunião. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Laboratório de testes: Os sensores que erram demais

Às 16h sai o lote de 3 mil sensores para a rede de vacinas da secretaria estadual de saúde. A técnica do laboratório passou a noite com uma amostra na câmara térmica, comparando a leitura de cada sensor com o termômetro de referência em três temperaturas: 2 °C, 8 °C e 20 graus abaixo de zero.

O contrato aceita erro de até meio grau, para mais ou para menos. A planilha não traz o erro pronto. Traz a referência e a leitura, e o erro é a distância entre as duas.

Ache os sensores que erram mais de meio grau. São esses quatro: S02 e S11 erram 0,6, S06 erra 0,7 e S08 erra 0,8. E os quatro são do lote 42. O S05 engana: no frio, -19,6 parece longe, mas erra só 0,4. O S04 erra 0,5 exatos: está dentro do contrato. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. A técnica teve a tarde para recalibrar o lote 42 inteiro na câmara. O pedido saiu às 16h completo, com os 3 mil sensores dentro do contrato.
  • Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. Não deu tempo de recalibrar o lote 42 inteiro. O pedido saiu às 16h com 2 mil sensores, e os mil restantes vão na semana que vem, com um e-mail seu explicando por quê.
  • Depois das 16h: O lote ficou para depois das 16h. O pedido saiu às 16h com o lote 42 dentro. Mil sensores que erram mais do que o contrato aceita estão indo para geladeiras de vacina do estado.

Sua bancada: Reinicia a vinte graus abaixo de zero

Na sua bancada, um sensor ligado ao osciloscópio e o relatório do suporte: os aparelhos instalados em freezers de -20 °C reiniciam sozinhos de madrugada e perdem até duas horas de leitura. Você achou a causa ontem à noite: no frio, a bateria entrega menos tensão quando o rádio liga, e o chip se desliga para se proteger.

A correção está escrita. Dá para mandá-la hoje pela internet para os 12 mil sensores, ou testá-la no fim de semana na câmara fria e mandar na segunda.

  • Mandar a correção hoje para todos. A atualização sai às 18h para os 12 mil sensores, em ondas de mil. No sábado de manhã, os freezers não reiniciaram. Em 14 aparelhos, a atualização não terminou e eles ficaram mudos até alguém ir lá trocar. Os 14 estavam em lugares que ninguém visita no fim de semana.
  • Testar no fim de semana e mandar na segunda. Você deixa dez sensores na câmara fria, com a correção, até segunda. Funcionam. A atualização sai na segunda para todos. No fim de semana, 600 freezers perderam leituras de madrugada, e o suporte passa a segunda explicando os buracos nos gráficos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à bancada antes das 10h30. O suporte ainda não tinha avisado os clientes de nada. A decisão saiu da engenharia antes de virar promessa de alguém.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi à bancada depois das 10h30. O suporte já tinha dito a dois hospitais que a correção estava a caminho. Você decidiu sabendo que alguém tinha falado antes.
  • Depois das 14h: A bancada ficou para depois das 14h. O sensor ficou ligado no osciloscópio a tarde inteira, esperando. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com a tarde de sexta já perdida para qualquer teste.

Suporte: Nove graus às 6h12

No telão do suporte, o gráfico de uma geladeira de vacinas de um posto de saúde do interior: a temperatura estava em 5 °C a noite toda, pulou para 9 °C às 6h12 e voltou a 5 °C às 6h40. A faixa permitida vai de 2 a 8. A enfermeira está na linha: se a temperatura passou de 8, as vacinas daquela geladeira vão para quarentena, R$ 80 mil em doses.

O desenho do gráfico parece o de um sensor que leu errado: subiu e desceu reto demais. Mas parecer não é saber.

  • Dizer que o dado parece falha do sensor. Você explica à enfermeira por que o gráfico tem cara de leitura errada e pede que ela troque o sensor por um novo. As vacinas seguem na geladeira. O sensor volta ao laboratório na terça, e até lá ninguém sabe ao certo o que aconteceu às 6h12.
  • Dizer para tratar como real até provar o contrário. Você diz que o sensor pode ter errado, mas que a decisão segura é tratar como real. As doses vão para quarentena e o posto pede reposição ao estado. Se o sensor tiver errado, foram R$ 80 mil em vacina parada por um dado seu.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao suporte antes das 10h. O posto ainda não tinha aberto a sala de vacina. A resposta chegou antes de a primeira dose sair da geladeira.
  • Entre 10h e 12h: Você foi ao suporte depois das 10h. A sala de vacina já estava aberta e a enfermeira tinha aplicado algumas doses enquanto esperava. A resposta chegou com gente já vacinada daquela geladeira.
  • Depois das 12h: O suporte ficou para depois do meio-dia. A enfermeira cansou de esperar e ligou para a vigilância sanitária do município. O que quer que a engenharia tenha dito depois, a decisão já tinha passado para outras mãos.

Sala de reunião: O fim do chip

O CEO e a compradora estão na sala de reunião com o aviso do fabricante: o microcontrolador que está no coração do sensor sai de linha em seis meses. A empresa tem estoque para quatro. Há duas trocas possíveis, e a escolha precisa sair hoje para entrar no pedido do mês.

Um chip chinês, 40% mais barato, com entrega em três semanas e um manual que mal explica o modo de baixo consumo. Ou um chip europeu, bem documentado, com entrega em 26 semanas.

  • Escolher o chip chinês. O pedido sai hoje. O chip chega em três semanas e você passa as seis seguintes medindo, no osciloscópio, o que o manual não diz. O sensor novo fica mais barato, e cada comportamento estranho dele vai ser uma pergunta sem ninguém para responder.
  • Escolher o chip europeu. O pedido sai hoje, para chegar em abril. Entre o fim do estoque e a chegada do chip, são dois meses sem fabricar sensor. O CEO anota isso e pergunta à compradora se dá para achar o chip antigo em distribuidor, a qualquer preço.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. A compradora ainda não tinha pedido cotação a ninguém. A escolha técnica veio antes da escolha de preço.
  • Entre 11h e 15h: Você entrou depois das 11h. A compradora já tinha as duas cotações na mesa, e o CEO já tinha olhado para a mais barata. Você chegou para discutir uma conta que já tinha sido feita.
  • Depois das 15h: O chip ficou para depois das 15h. O pedido do mês fechou às 15h e a compradora mandou o que estava na mesa. O que quer que tenha sido decidido depois, foi para mudar um pedido já enviado.

Copa: Café, e o sensor visto pela venda

Dois vendedores estão na copa, um deles com um sensor na mão, girando como se fosse uma moeda.

“…o cliente não quer saber de chip. Quer saber se apita quando a geladeira esquenta.”

O outro conta que perdeu uma venda porque o concorrente prometeu bateria de cinco anos. Ninguém sabe se é verdade. Quinze minutos depois, você volta para a bancada lembrando que tudo o que você mede em microampère vira uma frase na boca de alguém.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a técnica do laboratório ficou a noite toda com a câmara. Disse que o lote 42 tá estranho.
  • …os freezers de menos vinte reiniciaram de novo esta madrugada.
  • …tem uma enfermeira na linha do suporte. Nove graus na geladeira de vacina.
  • …o fabricante do chip mandou aviso. O CEO tá com a compradora na sala.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Mandar a correção hoje para todos” e “Dizer que o dado parece falha do sensor”: Você disse ao posto que o pulo para 9 graus parecia falha do sensor e, à noite, mandou uma correção sem teste para todos os sensores. Na segunda, a enfermeira perguntou se o aparelho que tinha falhado era do mesmo modelo que foi atualizado. Era.
  • Se você escolheu “Testar no fim de semana e mandar na segunda” e “Dizer para tratar como real até provar o contrário”: Você pôs R$ 80 mil em vacina em quarentena por um dado em dúvida e deixou 600 freezers perdendo leitura até segunda para testar a correção. Na mesma sexta, a cautela custou vacina parada e gráfico com buraco.
  • Se você escolheu “Mandar a correção hoje para todos” e “Escolher o chip chinês”: Um firmware enviado sem o teste do frio e um chip escolhido sem manual: a próxima versão do sensor vai nascer de duas decisões rápidas, e quem vai investigar as duas é você.
  • Se você escolheu “Testar no fim de semana e mandar na segunda” e “Escolher o chip europeu”: Você escolheu esperar duas vezes: o teste do fim de semana e o chip de 26 semanas. Na saída, o CEO perguntou, sem ironia, se a empresa vai lançar alguma coisa este ano.

Como o dia termina

Você foi para o laboratório primeiro.

Havia freezers reiniciando, uma enfermeira na linha e um chip saindo de linha, e você abriu a planilha da câmara térmica. Passou 1h15 medindo a distância entre leitura e referência.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de saber se o aparelho mede o que diz que mede. Teste e validação é isso: o produto só existe de verdade depois que alguém tentou fazê-lo errar.

Você foi para a bancada primeiro.

Você começou pelo sensor no osciloscópio, com uma correção pronta e um teste por fazer. Passou 1h00 entre consertar hoje sem certeza e consertar segunda com certeza.

Firmware é isso: o código roda num chip que você não vê, num freezer que você não visita, e cada atualização vai para todos de uma vez.

Você foi para o suporte primeiro.

Você começou pelo telão, olhando um gráfico que podia ser uma geladeira quente ou um sensor errado. Passou 45 min entre confiar no desenho do dado e tratar o dado como verdade.

Isso também é firmware: quem escreveu o programa é quem sabe ler o que o aparelho diz, inclusive quando ele diz uma coisa estranha às 6h12.

Você foi para o chip primeiro.

Você começou pela sala de reunião, onde a peça mais importante do sensor ia deixar de existir. Passou 40 min entre o chip que chega logo e o chip que você entende.

Hardware é isso: a placa depende de peças que outros fabricam, e cada troca de peça é um projeto inteiro recomeçando.

As três portas da eletrônica embarcada

Engenharia de embarcados não é uma coisa só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo aparelho.

  • Firmware embarcado. Escrever o programa que roda dentro do chip, e responder pelo que o aparelho faz quando ninguém está olhando.
  • Hardware e eletrônica. Placa, peça e bateria: escolher e fazer funcionar o que o firmware vai comandar.
  • Testes e validação. Tentar fazer o aparelho errar antes que ele erre na mão de alguém.