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Um dia na pele de

A coordenação da escola particular

Você é a coordenadora pedagógica de uma escola particular de bairro, do 1º ao 9º ano: 600 alunos, 35 professores e uma dona que conhece cada família pelo nome. Nesta quinta-feira de outubro, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num canto da escola: a sala do 2º A, a sala dos professores, a sua sala, a quadra. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Defender o que é pedagógico numa escola que também precisa fechar as contas.

Profissões com um dia assim: Coordenador Pedagógico

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A coordenação da escola particular: o dia por escrito

Você é a coordenadora pedagógica de uma escola particular de bairro, do 1º ao 9º ano: 600 alunos, 35 professores e uma dona que conhece cada família pelo nome. Nesta quinta-feira de outubro, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está num canto da escola: a sala do 2º A, a sala dos professores, a sua sala, a quadra. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala do 2º A: Quem não saiu do lugar desde março

A professora do 2º A, Lúcia, faz sondagem de escrita duas vezes por ano: dita quatro palavras e uma frase e vê como a criança escreve. Cada uma está numa fase: pré-silábica, silábica, silábico-alfabética ou alfabética, nessa ordem.

O reforço de alfabetização abre seis vagas em novembro, e a professora do reforço precisa da lista até as 14h. A ideia é simples: entra quem não avançou desde março e ainda não escreve alfabeticamente.

Ache as crianças que não avançaram desde março e ainda não estão na fase alfabética. São quatro: Bento, Duda e Ícaro ficaram na mesma fase, e o Gael voltou uma. A Flor e a Júlia também não mudaram, mas já escrevem alfabeticamente: não há para onde ir. A Ana e a Lis avançaram uma fase só, e avançaram. Sobram duas vagas no reforço. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você mandou a lista antes das 10h. A professora do reforço montou os grupos à tarde e ligou para as quatro famílias ainda hoje. O reforço começa segunda.
  • Entre 10h e 14h: Você mandou a lista depois das 10h. A lista chegou antes das 14h, mas as ligações às famílias ficaram para amanhã. O reforço começa na outra semana.
  • Depois das 14h: As sondagens ficaram para depois das 14h. A professora do reforço montou as seis vagas às 14h com quem os professores indicaram de memória. O que quer que tenha sido mandado depois, chegou com as vagas já distribuídas.

Sala dos professores: Vinte e seis anos do mesmo jeito

Este ano a escola adotou um plano comum para o 4º ano: as três turmas trabalham as mesmas sequências, na mesma semana, e os professores planejam juntos às quintas. A Vera, 26 anos de escola, não segue. Dá aula do jeito dela, e a turma dela tem os melhores resultados das três.

Os outros dois professores do 4º ano reclamaram com você. Ela está na sala dos professores corrigindo cadernos e sabe por que você vai lá.

  • Pedir que ela siga o plano comum. Você explica que o plano é da escola, não de cada um. A Vera ouve, fecha o caderno e diz que vai seguir. Na semana seguinte, segue à risca, sem uma palavra a mais. Os outros dois professores agradecem. Ela para de almoçar na sala dos professores.
  • Deixar ela seguir e registrar o que ela faz. Você pede à Vera que mostre o planejamento dela, e ela mostra: cadernos de 26 anos. Combinam que ela segue o próprio jeito, com os mesmos conteúdos, e que você vai filmar duas aulas dela para a formação. Os outros dois professores ouvem pela porta e não dizem nada.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à sala dos professores antes das 9h30. A Vera ainda estava no horário de planejamento, sem aluno esperando. A conversa coube inteira, e com a porta fechada.
  • Entre 9h30 e 11h: Você foi à sala dos professores depois das 9h30. O recreio tinha acabado de começar e a sala estava cheia. A conversa com a Vera aconteceu com outros seis professores tomando café ao lado.
  • Depois das 11h: A sala dos professores ficou para depois das 11h. Os dois professores do 4º ano foram direto à diretora. O que quer que tenha sido combinado depois com a Vera, ela soube primeiro pela diretora.

Coordenação: Três mensalidades

A mãe do Theo, do 5º ano, está na sua sala desde as 7h20. Diz que o professor Tiago persegue o filho: tirou o celular dele em aula e deu 4 na prova de ciências. Se a escola não trocar o Theo de turma, ela tira os três filhos no fim do ano.

Você conhece o Tiago: rigoroso e justo. Conhece também o Theo, que passa a aula no celular. E sabe que três mensalidades são o salário de uma professora.

  • Defender o professor e mostrar as atividades. Você mostra a prova, as atividades em branco, o registro do celular. Propõe um plano de estudo com a família. A mãe ouve, diz que vai pensar e sai sem se despedir. O Tiago fica sabendo à tarde que você não cedeu.
  • Trocar o Theo de turma. Você aceita a troca a partir de segunda. A mãe agradece e diz que sabia que você ia entender. À tarde, o Tiago pergunta, na porta da coordenação, se agora é assim que funciona.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h: Você recebeu a mãe do Theo antes das 8h. Ela ainda estava sentada, com a bolsa no colo, e a conversa começou num tom em que ainda dava para ouvir.
  • Entre 8h e 9h30: Você recebeu a mãe do Theo depois das 8h. Ela já tinha esperado quase uma hora e mandado mensagem para outras duas mães da turma. Entrou na conversa em pé.
  • Depois das 9h30: A mãe do Theo ficou para depois das 9h30. Ela cansou de esperar, pediu para falar com a dona da escola e foi atendida na quadra. O que quer que tenha sido decidido depois, a dona já tinha ouvido a versão dela.

Quadra: Uma auxiliar a menos

A dona da escola, Dona Cecília, olha o recreio da beira da quadra. Ela fez as contas do ano que vem: matrícula caiu 8 alunos, o aluguel subiu. Quer tirar a auxiliar de uma das duas turmas de 1º ano, a partir de novembro.

O 1º ano é onde a criança aprende a ler, e onde 24 crianças de seis anos precisam ir ao banheiro, comer e se acalmar. A dona quer sua opinião antes de assinar.

  • Aceitar o corte e reorganizar. Você diz que dá para reorganizar: a auxiliar da outra turma reveza nos horários de lanche e banheiro. A Dona Cecília assina. A professora do 1º A recebe a notícia de você, no fim do dia, e pergunta quem vai ficar com a turma quando ela levar uma criança à enfermaria.
  • Defender a auxiliar com os números da alfabetização. Você mostra quantas crianças do 1º ano terminaram alfabéticas no ano passado, nas turmas com e sem auxiliar. A Dona Cecília ouve, diz que número de aprendizagem não paga aluguel, e adia a decisão para dezembro. Pede que você traga onde cortar no lugar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à quadra antes das 10h. O recreio ainda estava acontecendo e a Dona Cecília estava de bom humor, vendo as crianças. A conversa foi de pé, mas sem pressa.
  • Entre 10h e 12h: Você foi à quadra depois das 10h. O recreio tinha acabado e a Dona Cecília já tinha falado do corte com a secretária, que contou a duas professoras.
  • Depois das 12h: A quadra ficou para depois do meio-dia. A Dona Cecília foi almoçar com o contador. O que quer que tenha sido dito depois, foi dito a alguém que já tinha conversado sobre o assunto com outra pessoa.

Pátio: O banco do pátio

A inspetora e a professora do 1º A dividem o banco perto do bebedouro.

“…se tirarem a Rose da minha sala eu não sei o que faço. Ontem foram três no banheiro ao mesmo tempo e um chorando na porta.”

Você não perguntou nada. Saiu sabendo como é a sala do 1º A às 9h, e quinze minutos mais tarde.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a professora do reforço perguntou de novo da lista do 2º A. Ela fecha os grupos às duas.
  • …os dois do 4º ano estão dizendo que, se a Vera pode, eles também podem.
  • …a mãe do Theo mandou áudio no grupo das mães do 5º. Diz que está na escola desde cedo esperando.
  • …a Dona Cecília tá na quadra com uma planilha na mão. Nunca é bom sinal.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Deixar ela seguir e registrar o que ela faz” e “Defender o professor e mostrar as atividades”: Você deixou a Vera fora do plano comum e sustentou o Tiago diante de uma família. Na sala dos professores, um terceiro professor perguntou em voz alta qual era a regra de verdade, e ninguém respondeu.
  • Se você escolheu “Pedir que ela siga o plano comum” e “Trocar o Theo de turma”: Você exigiu o plano comum da Vera e tirou o Theo da turma do Tiago. Na mesma semana, os dois professores mais antigos da escola passaram a fechar a porta da sala quando você passava.
  • Se você escolheu “Defender a auxiliar com os números da alfabetização” e “Defender o professor e mostrar as atividades”: A família do Theo saiu em dezembro. Na reunião de orçamento, a Dona Cecília usou as três mensalidades como primeiro argumento para cortar a auxiliar no ano seguinte.
  • Se você escolheu “Aceitar o corte e reorganizar”: Sem a Rose, a professora do 1º A passou novembro sozinha com 24 crianças. Em março, a sondagem de escrita da turma dela vai chegar à sua mesa como a do 2º A chegou hoje.

Como o dia termina

Você foi para as sondagens primeiro.

Havia uma mãe esperando desde as 7h20, uma professora fora do plano e a dona com uma planilha, e você foi à sala do 2º A ler a escrita de doze crianças. Passou 45 min comparando março com setembro.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem não aprendeu antes de quem reclamava mais alto. Coordenação pedagógica é isso: a criança que não avançou não pede reunião.

Você foi para a professora Vera primeiro.

Você começou pela sala dos professores, com uma professora que ensina bem do jeito dela e um plano que é de todos. Passou 40 min entre a regra comum e o resultado de uma exceção.

Formar professores é isso: cuidar de quem já sabe muito e de quem ainda está aprendendo, na mesma sala e com as mesmas regras.

Você foi para a mãe do Theo primeiro.

Você começou pela sua sala, com uma família que ameaçava sair e um professor que não estava ali para se defender. Passou 35 min entre o que você sabia do Theo e o que a mãe precisava ouvir.

Relação com as famílias é isso: a escola é de quem estuda, mas a conversa é com quem paga e decide.

Você foi para a Dona Cecília primeiro.

Você começou pela quadra, com a dona da escola e um corte que ela ainda não tinha assinado. Passou 40 min entre a conta do aluguel e a sala do 1º ano.

Gestão escolar é isso: o pedagógico tem custo, e alguém precisa defender o que ele compra numa conversa sobre o que ele custa.

As quatro portas da gestão escolar

Coordenar uma escola não é um trabalho só, são vários, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo cargo.

  • Acompanhamento da aprendizagem. Achar a criança que não está aprendendo antes que o ano acabe.
  • Formação de professores. Fazer professores diferentes trabalharem juntos sem apagar o que cada um sabe.
  • Relação com as famílias. Sustentar a escola diante de quem paga e decide, sem perder a família.
  • Gestão escolar. Defender o que é pedagógico na conversa sobre dinheiro.