🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

Um dia de professor no ensino médio

Você é professor de matemática numa escola estadual de ensino médio: seis turmas, 210 alunos, e hoje à tarde tem conselho de classe do terceiro bimestre. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala dos professores: está na sala de aula, na coordenação, na quadra. Andar pela escola leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Ensinar a turma inteira sem perder de vista cada um.

Profissões com um dia assim: Professor de Matemática · Professor de Física · Professor de Química · Professor de Filosofia · +2

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

Um dia de professor no ensino médio: o dia por escrito

Você é professor de matemática numa escola estadual de ensino médio: seis turmas, 210 alunos, e hoje à tarde tem conselho de classe do terceiro bimestre. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala dos professores: está na sala de aula, na coordenação, na quadra. Andar pela escola leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala dos professores: O aluno que vai bem e está reprovando

O conselho de classe é às 15h. Antes dele, alguém precisa olhar as faltas de cada aluno, e o sistema da secretaria só soma no fim do ano.

Matemática tem 160 aulas no ano. A regra é a da lei: quem falta a mais de 25% delas, mais de 40 aulas, reprova por falta, seja qual for a média. Três bimestres já foram.

Ache o aluno do 1º B que já passou de 40 faltas no ano. É esse. Felipe: 10 mais 16 mais 15 dá 41 faltas, uma a mais que o limite do ano. Com média 8,2, ninguém olhou para ele. Ele vai bem em todas as provas a que vai. O que ninguém sabe ainda é por que falta. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de ligar para a família antes do conselho. O Felipe trabalha de madrugada numa padaria desde agosto. O conselho aprovou um plano de compensação de ausências, com atividades para fazer em casa.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O caso do Felipe entrou no conselho sem ninguém ter falado com a família. A escola decidiu ligar no dia seguinte. Até lá, ele continuou faltando sem saber que já tinha passado do limite.
  • Depois das 15h: Os diários ficaram para depois das 15h. O conselho de classe do 1º B passou pelo Felipe em dez segundos: média 8,2, nenhuma observação. O que quer que tenha sido feito depois, foi feito fora do conselho, com a ata já assinada.

Sala do 1º B: O gabarito no grupo da turma

A prova bimestral do 1º B é hoje. Uma aluna avisa, baixinho, que o gabarito está circulando no grupo da turma desde ontem à noite. Alguém fotografou a folha na sala dos professores.

A prova é na primeira aula: se você não estiver lá, a professora substituta aplica. A turma está sentada, esperando. Alguns olham para o celular, outros para você.

  • Trocar a prova por uma atividade em dupla, na hora. Você escreve três problemas no quadro e manda resolver em dupla, valendo o mesmo que a prova. A turma reclama, depois trabalha. As duplas misturam quem sabe com quem não sabe, e você não consegue saber quem aprendeu o quê.
  • Aplicar a prova e refazer na semana que vem para quem quiser. Você aplica a prova como estava e avisa que vai ter outra na semana que vem, opcional, que substitui a de hoje. Doze alunos tiram dez. Na semana seguinte, oito deles não aparecem para a prova nova.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h: Você entrou no 1º B antes das 8h. A turma ainda estava chegando. Qualquer que fosse a decisão, ela foi anunciada antes de alguém virar a folha.
  • Entre 8h e 10h: Você entrou no 1º B depois das 8h. A professora substituta já tinha distribuído as provas. Qualquer decisão começou com 35 folhas sendo recolhidas, algumas já respondidas.
  • Depois das 10h: O 1º B ficou para depois das 10h. A substituta aplicou a prova inteira. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido sobre 35 provas prontas e um gabarito que todo mundo tinha visto.

Coordenação: O laudo e a prova de sexta

A mãe do Pedro, do 1º B, está na coordenação com um laudo de TDAH. Ela pede, com razão, o que a lei garante: prova adaptada, com mais tempo e menos questões por página. A próxima prova é sexta.

A escola não tem professor de apoio desde junho. A coordenadora olha para você: "Dá para fazer?"

  • Adaptar a prova você mesmo, até sexta. Você leva o laudo para casa e refaz a prova à noite: menos questões por página, enunciados mais curtos, tempo a mais combinado com a inspetora. Na sexta, o Pedro termina a prova pela primeira vez no ano. Na segunda, mais duas mães procuram a coordenação.
  • Pedir à coordenação que acione o atendimento especializado. A coordenação abre o pedido de atendimento especializado na diretoria de ensino. O retorno vem em três semanas. Na sexta, o Pedro faz a prova igual à dos outros e entrega pela metade. A mãe volta na segunda, sem o laudo na mão desta vez.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à coordenação antes das 9h30. A mãe do Pedro ainda estava sentada, com o laudo no colo. A conversa foi entre três adultos, sem pressa de ninguém.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi à coordenação depois das 9h30. A mãe do Pedro já tinha faltado ao trabalho a manhã inteira esperando. O que você disse, ela ouviu de pé, com a bolsa no ombro.
  • Depois das 12h: A coordenação ficou para depois do meio-dia. A mãe do Pedro foi embora sem falar com nenhum professor. Deixou o laudo com a coordenadora e um recado: que ia procurar a diretoria de ensino.

Quadra: "Não conta pra ninguém"

O Gabriel, 16 anos, do 2º A, está sozinho na arquibancada durante a aula de educação física. Você senta perto. Ele conta que vai parar de estudar no fim do mês: o pai perdeu o emprego, e ele arrumou vaga de ajudante numa oficina, das 8h às 18h.

"Não conta pra ninguém. Minha mãe nem sabe."

  • Guardar o segredo e ajudar a pensar num jeito de continuar. Você não conta. Pergunta se a oficina aceitaria meio período e fala do ensino médio à noite, na escola do bairro. Ele diz que vai pensar. Na semana seguinte, ele aparece na sua sala com o horário do noturno impresso. Ninguém mais na escola sabe, e se alguma coisa der errado no caminho, só você sabia.
  • Contar à coordenação para acionar a rede de proteção. Você explica a ele que não pode guardar isso, e leva à coordenação. A escola chama a família e aciona a assistência social do bairro. A mãe dele chora na coordenação. O Gabriel passa por você no corredor na semana seguinte sem olhar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à quadra antes das 10h. A aula de educação física estava no começo. Havia tempo para ele falar sem o sinal tocar no meio.
  • Entre 10h e 11h30: Você foi à quadra depois das 10h. O sinal tocou no meio da conversa. O que ele contou, contou com a turma passando de volta para a sala.
  • Depois das 11h30: A quadra ficou para depois das 11h30. A aula de educação física acabou e o Gabriel voltou para a sala sem falar com ninguém. O professor de educação física comentou, no intervalo, que ele andava esquisito.

Pátio: Café, e a profissão vista por dentro

Duas professoras estão no banco do pátio, com o café da garrafa térmica.

“…professor que se importa demais adoece. Faz a sua parte e vai pra casa.”

Uma delas está há 25 anos na escola e já se importou demais. A outra está há dois e ainda não sabe quanto é demais. Quinze minutos depois, você volta para a sala dos professores sem saber de qual das duas está mais perto.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o conselho do 1º B é o primeiro hoje. Alguém já olhou as faltas?
  • …tá todo mundo do 1º B com o gabarito no celular. Até eu recebi.
  • …tem uma mãe na coordenação desde as sete. Disse que não sai sem falar com o professor de matemática.
  • …o Gabriel do 2º A não quis jogar hoje. Tá lá sentado sozinho.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Adaptar a prova você mesmo, até sexta” e “Aplicar a prova e refazer na semana que vem para quem quiser”: Você adaptou a prova do Pedro em casa e marcou uma prova nova para o 1º B. A sua quinta à noite e a sua próxima semana ficaram com a mesma turma. Ninguém na escola contou essas horas, e elas não aparecem em lugar nenhum.
  • Se você escolheu “Guardar o segredo e ajudar a pensar num jeito de continuar” e “Adaptar a prova você mesmo, até sexta”: Você resolveu sozinho a prova do Pedro e guardou sozinho o segredo do Gabriel. Duas vezes no mesmo dia, o que a escola não conseguia fazer ficou com você. Funcionou, por enquanto.
  • Se você escolheu “Contar à coordenação para acionar a rede de proteção” e “Pedir à coordenação que acione o atendimento especializado”: Você levou o Gabriel à coordenação e pediu atendimento especializado para o Pedro. Duas vezes no mesmo dia, você entregou à escola o que era da escola. A escola respondeu devagar nas duas, do jeito que costuma responder.
  • Se você escolheu “Trocar a prova por uma atividade em dupla, na hora” e “Adaptar a prova você mesmo, até sexta”: Você trocou a prova do 1º B por uma atividade em dupla e passou a noite adaptando a prova do Pedro. Na mesma turma, na mesma semana, uma prova sumiu e outra foi feita sob medida. A mãe do Pedro perguntou na saída se a prova dele ia valer igual à dos outros.

Como o dia termina

Você foi para os diários primeiro.

Havia uma turma esperando a prova, uma mãe na coordenação e um aluno sozinho na quadra, e você abriu os diários de classe. Passou 1h05 somando faltas de três bimestres.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás de quem não estava chamando atenção. Acompanhar a turma é isso: o aluno que vai bem e some é tão invisível quanto o que vai mal e fica.

Você foi para a turma primeiro.

Você começou pelo 1º B, onde 35 alunos esperavam uma prova que já não era segredo. Passou 50 min decidindo o que fazer com uma avaliação que ninguém mais podia levar a sério.

Dar aula é isso: o plano está pronto às 7h e às 7h05 já precisa ser outro.

Você foi para a mãe do Pedro primeiro.

Você começou pela coordenação, onde uma mãe pedia o que a lei garante e a escola não tinha como dar. Passou 45 min entre o laudo e a prova de sexta.

Inclusão na escola pública é isso: o direito está escrito, o professor de apoio não está, e quase sempre quem fecha a diferença é quem dá aula.

Você foi para o Gabriel primeiro.

Você começou pela quadra, onde um aluno de outra turma estava sozinho na arquibancada. Passou 40 min ouvindo o que ele não tinha contado nem à mãe.

Professor é, muitas vezes, o único adulto fora de casa com quem o aluno fala. O que ele conta chega sem manual, e decidir o que fazer com isso é parte do trabalho.

As quatro portas da Docência

Dar aula não é uma coisa só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela disciplina.

  • Sala de aula. Ensinar a turma inteira, com o plano que muda às 7h05.
  • Acompanhamento do aluno. Ver quem está sumindo antes de o boletim mostrar.
  • Família e inclusão. Fazer o direito de cada aluno caber na escola que existe.
  • Escuta e convivência. Ser o adulto com quem o aluno fala, e saber o que fazer com o que ele conta.